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quinta-feira, 12 de abril de 2018

Onirogrito

 Deus é foda

1
Deus é foda.


2
Se Ele existe precisa ser infinito, cobrir tudo que existe, existiu e existirá. Precisa ser o mesmo para os muçulmanos, para os judeus, para os cristãos, para os budistas, para os xintoístas. Um Deus único para as formigas, para os porcos, para as vacas, para os párias. Para as vítimas e para os assassinos.

Uns guardam a sexta-feira, alguns guardam o sábado, outros o domingo, a segunda fica desprotegida.

3
Deus não precisa ser único. Mas aí Ele não seria infinito. Haveria um vácuo delimitando Ele do resto dos demais deuses. Feito água e óleo. Deus não sendo único explicaria uma série de questões, porque às vezes ISTO, porque às vezes AQUILO. Mas criaria outros problemas. Provavelmente, seriam indiferentes a você. Estariam mais preocupados no relacionamento interdivino. Talvez discutissem uns com os outros, talvez imaginassem que acima deles houvesse um Outro único. Certamente ergueriam Igrejas e Templos buscando a atenção deste Outro maior, a última camada das cascas de cebola.

4
Deus é grande, onipotente, onisciente. Imagine-se Deus: alguém capaz de interferir em cada célula do seu corpo, cada cabelo, cada fio, no funcionamento dos neurônios, no crescimento das unhas, no bater do coração. Alguém assim estaria muito longe da experiência humana. Não haveria proximidade. O que poderíamos dizer sobre um Deus assim? Seria um Deus com o qual haveria diálogo?

Sem diálogo, a quem interessaria Deus?

4,5
Se Deus cabe no Universo, não cabe em nós. Se cabe em nós, é pequeno para o Universo.

5
O pássaro cuco invade ninhos de outras aves, bota seu ovo ali, que é criado e alimentado pelos pais adotivos. O crocodilo protege seus filhotes na boca. Entre os leões, quando há uma mudança na liderança do grupo, o novo alfa canibaliza os antigos filhotes o que fará as mães entrarem imediatamente no cio. A ostra vive na concha. O plâncton vive solto. O mosquito vive de sangue. O colibri vive da flor.

Santo Isidoro escreveu um bestiário e das observações da natureza depreendia lições, pois se acreditava que tudo que existia possuía um propósito. Já não vemos mais sentido.

A natureza revela que existem muitas possibilidades, muitas vezes antagônicas, contrárias e que todas podem funcionar, de acordo com um contexto.

Deus não é a Palavra. São muitas. É o sim, o não, o talvez e o silêncio. Simultâneo.

Sendo assim, a Fé é impossível e inviável. A Fé é o paradoxo.


6
Ou se tem Fé ou não se tem.



Um pensador árabe tentou alcançar Deus pela lógica. Quase enlouqueceu. Ao vê-lo em depressão, um amigo sugeriu que frequentasse as cerimônias e os rituais de música, dança e transe dos sufistas. A emoção o levou mais perto de Deus.

Quando os cruzados cristãos catapultavam as cabeças sarracenas sobre as muralhas, eles também estavam cheios de emoção. Pertos de Deus e longe do sentimento.

Paixão e razão são facas sem cabo e sem guarda, tanto ferem quanto cortam.


7
Outros também esperavam cirurgias. A maioria dedilhava algo nos celulares, checava Facebook, conferia e-mails. Monitores coloridos para preencher olhares vagos. Meu tio não é tecnológico. Estava com uma agenda de papel na mão, onde marcava compromissos e telefones. Numa página em branco, ele começou a rabiscar um desenho. Nunca soube que meu tio soubesse desenhar. Traços retos e losangos formaram uma planta. Esticou linhas para levantar paredes. A gente esperou seis horas no hospital. Revezávamos para tomar um café. Contávamos piadas. Do outro lado da rua, passou um sujeito com uma sonda. Perguntei a meu primo o que era aquele desenho. Ele explicou: uma casa. Eles tinham um terreno em Buri. Buri? Onde fica? Longe pra caralho. Um sitiozinho para passarem a velhice. Então eu entendi. Não era um desenho. Era uma prece.


8
Ela sobreviveu algumas semanas. Continuei indo lá, estava desempregado e esperando os resultados do vestibular. Em um destes dias, fiquei fumando em uma rua estreita, paralela ao hospital. Não era uma passagem movimentada. O sol se punha atrás de mim e refletia nas janelas do edifício, feria de luzes minha vista. Enquanto isto eu escutava um choro insistente, um grito, poderia ser alguém morrendo, poderia ser frescura, poderia ser minha tia. Era bonito e terrível.

Foi aí que percebi. Deus é foda. Como toda boa foda, não tem palavra que dê conta. Não tem razão ou explicação. Emoção pode estragar tudo. É um diálogo, mas não tem nenhum diálogo. É se abrir para a violência, se abrir para o arregaço.

Deus é foda, mas queremos chamar de amor.


(fotografia Balthazar Korab)

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Onirogrito e Achados






Tenho dado pouca atenção ao blog, um pouco porque o "mercado do blog" faliu... Ao menos, é o que parece acontecer aqui. Já li que em alguns países, especialmente uns do Oriente Médio, como o Irã, eles ainda conseguem chamar a atenção... Mas fiquei sabendo que a coisa anda braba por lá também.

Todo mundo correu para o Facebook, mas mesmo no Facebook ando sem muita paciência. Mas quem quiser, pode me procurar por lá.

Eu não sei se lamento ou comemoro esse desenvolvimento dada a quantidade de bobões que sentem a necessidade de se pronunciar sobre qualquer coisa... ou de falsos especialistas, ou de reis dos clichês, ou das reis das piadinhas de 2 segundos e assim por diante.

Não me excluo desses bobões.

E, muitas vezes, eles nem são tão bobões assim. Mas é como jogar aviõezinhos de papel no vento e torcer para muita gente pegar e seguir adiante. Quem sabe assim chega na China? Ou na Finlândia?

* * *

A verdade é que a Internet tornou-se mais um meio de comunicação do que uma fonte de conteúdo. Teoricamente, os geradores de conteúdo - por sua raridade - se tornaram mais "valiosos". Não é bem verdade: a figura que desponta é a do "curador de conteúdo". Vejam o caso do sujeito que cobra entrada para acessar Grupos de Whatzap...

Faz sentido. Mesmo no mundo físico da economia, a regra diz que o intermediário - aquele que traz o produto para perto do consumidor - lucra muito mais que o produtor. Digo por mim mesmo: gosto de produzir minhas histórias, mas tenho pouco saco para lidar com o "resto".

Talvez a leitura mais indicada para entender o mundo internáutico seja o site do YouPix. Eles se reinventaram uns anos atrás e ficou bem mais maduro. Desconfio que a audiência reduziu, mas ficou bem melhor.

* * *

Existem uns poucos blogues que ainda consigo seguir mais ou menos bem. Um ou outro "tema livre" como o Mundo Fantasmo de Braúlio Tavares, mas a maioria gira ao redor de alguns temas, como o Belogue da Beluga... ou até o Mirante dos Infinitos do Caio Silveira Ramos.

Lembro de um livro da Indigo, O Colapso dos Bibelôs (Moderna), que imagina os efeitos de uma queda definitiva na rede. O design da edição é bem interessante, orientação paisagem, as páginas simulando um blog, etc. Em certo ponto da história, as pessoas desesperadas tentam substituir os blogues criaram uma espécie de painel de recados imenso no qual colavam qualquer coisa. A ideia é divertida, mas duvido que acontecesse algo assim.

A rede tem mais a ver com mundo externo do jeito que sempre foi... mas nunca ninguém percebeu ou escreveu a respeito porque não havia como "anotar".




Um outro motivo - na verdade, melhor  motivo- pelo qual tenho dado pouca atenção ao meu blog da Toca é que andei publicando uma série no finado (mas ainda disponível) blog coletivo Quotidianos, de Rober Pinheiro.

Lá criei várias pequenas histórias ao redor do personagem Zenon, o último ascensorista. Passe lá, nesse link. Depois de ler, desça até "posts mais antigos" para abrir as histórias anteriores.



Abs



PS1: Mas não cancelei o blog não. Só não esperem grande movimento. Vou continuar na minha, sem alardes. Até porque se "gritar mais alto não funciona", gritar sempre também não


PS2: Movimento tem no "Escritores de Segunda", onde copio e colo dicas e regras mensais sobre criação de histórias... É só uma pasta de recortes, então não espere muita organização


(A ilustração é de Fernando de Sousa Lima para um dos contos de Zenon).

domingo, 2 de agosto de 2015

Onirogrito


A gente não quer só comida




1.O trecho sobre alimentação em um antigo Guia Lonely Planet sobre o Brasil dizia – mais ou menos – o seguinte: Se o turista gostar de prato cheio (pense nos churrascos, no P.F., no comercial) não terá problema, mas ele não verá muita variação além do feijão-arroz-salada-mistura. Um pouco burro, como toda generalização. Mas não deixa de ter lá sua verdade.

2. De uns tempos para cá, parece que viramos franceses, dada a quantidade de programas culinários e gastronômicos. Porém, para o dia-a-dia, continuamos sem muito tempo de ficar na cozinha. Embora ir ao restaurante ainda seja um programa, fazer comida, ou melhor, fazer “gastronomia” não se tornou ainda um programa de lazer, ou para fazer entre amigos.

(ou - pelo menos - entre meus amigos, que ainda preferem ir ao bar)

3.Assisti a “A Fantástica Fábrica de Chocolate” com o Gene Wilder. Mas acho que incluíram a cena na refilmagem com Johnny Deep. O Sr. Wonka criou o “Wonkavisão”, no qual um chocolate gigante é “televisionado” para um aparelho e se consubstancia em um chocolate normal, que pode ser devorado pelos espectadores. Um comercial de TV que entrega o produto.  Pronto para ser devorado.

4.A tecnologia ainda está um pouco longe de fazer isso. Mas para todo o resto parece que já está assim. Desde sapatos até cocaína, desde perfumes até badulaques da 25 de março, tudo pode ser comercializado pela internet. Não sei como as coisas andam em sua cidade (ou em seu bairro, já que essas coisas variam bastante), mas nas minhas redondezas, poucos comércios conseguem sobreviver muito tempo.
Exceto os que se relacionam com atividades que não podem ser “virtualizadas”: por exemplo, comida.

5. Queimamos uma floresta de atividades econômicas e a substituímos por pasto.

6. Em um dos filmes surrealistas de Buñuel, há a cena famosa do jantar elegante. Pessoas chiques sentam-se ao redor de uma mesa. Todavia, ao invés de cadeiras, temos vasos sanitários. Quando um convidado sente fome, ele se dirige ao banheiro, onde em uma mesinha frugal, em um ambiente escuro e espartano, ele pode fazer sua refeição solitariamente.


7. Como se não bastassem as regras de etiqueta, temos as de saúde: evitar açúcar, carboidratos, gorduras, colesterol, lactose, glúten. Além delas, há as de consciência ambiental: comida orgânica, vegetal, veganismo. Se eu estivesse a fim de pesquisar, encontraria outras formas diferentes: comer no escuro, meditando, comer em pé, em divãs. Comer é básico. O resto é que não é.

sábado, 18 de maio de 2013

Onirogrito





Ando meio sem paciência.

Faz muito tempo que não coloco nada aqui.

A verdade é que a onda já não passa mais pelos blogues. Boa parte do conteúdo (links para outros links) migrou para o Facebook e, apesar do que andam dizendo, ele ainda se sustenta. Não por força própria, eu creio, mas simplesmente por não ter aparecido outro "lugar".

E não sei se este lugar irá "aparecer" tão cedo, pois agora todos já perceberam que ele também irá nascer, crescer, tornar-se imenso, desmoronar sob seu próprio peso e morrer. Além do mais, a rede parece ter se tornado um lugar mais para se comunicar (entre amigos, paqueras, arrumar trabalho) do que para gerar conteúdo.

E, cá entre nós, até mesmo o conteúdo anda chato. Tanta gente falando e fazendo barulho que é difícil encontrar um ponto de vista original, que faça você pensar... É muito mais uma questão de concordar... ou discordar...



Mas isto não é um adeus. Volto aqui qualquer dia desses. "O olho do dono engorda o boi" Já ouviu falar?

Nos comentários, deixarei um email para quem quiser se comunicar.

Obrigado

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Onirogrito

Jogo do Velho





Dentre as penalidades cabíveis ao pai moderno está a de frequentar aniversários em buffets infantis. Perguntar ao menino se não quer ir antes ao banheiro, tirar foto, entupir-se de coxinhas, passear de carrossel, almoçar massa sujeita a alternativas binárias (bolonhesa ou molho branco), conversar com os pais sobre as doenças dos filhos, sobre as amizades dos filhos, sobre os times que os filhos deverão torcer, tomar coca quente fugindo assim do chope quente, entupir-se de empadinhas, arrastá-lo para o banheiro (o guri escapa por entre os dedos, sem mijar), tirar foto, tentar alimentar o moleque enquanto corre, pegar trenzinho, verificar fralda, rastejar no brinquedão para resgatar criança empacada, levar canelada, gravar vídeo, enfiar-se na piscina de bolinhas atrás do celular perdido, estimular o medroso a escorregar por um intestino plástico de cinco metros de altura, separar brigas na fila do pula-pula, tirar foto, observar as calças do filho (Você fez xixi? Mas eu não perguntei pra você?).


Chega um momento que a gente aprende a relaxar, e passa a se divertir. As crianças envelhecem e você pode afrouxar a atenção. Deixe-as poraí. Existem outras coisas além de calor e barulho. Veja as monitoras adolescentes com o brilho da idade nova, o viço necessário para estimular seus vícios. Mães divorciadas com quem repartir um chope quente. Subornar (mediante uma nota de cinquenta ou por pura simpatia) o garçom para que ele sirva sua mesa antes.

Alguns buffets possuem brinquedos adultos. Nada tão pesado quanto o que passou pela sua cabeça. Uma televisão com a programação de esportes. Talvez, mesas de bilhar, pebolins. Dardos são perigosos. O normal é a diversão voltada aos adolescentes acabe sobrando aos adultos. Inclusive as máquinas de fliperama. Estes locais tornaram-se um dos últmos nichos para estes jogos. Os antigos paraísos de office-boys foram extintos das ruas. Nestas festas, entretanto, é normal ver adultos saudosos disputando lugar para comandar naves espaciais, bater uma bola ou tirar um racha.

* * *

Em um final de semana qualquer, fomos para uma destas festas. Não era um buffet luxuoso, nada de montanhas russas ou pistas de autorama. Contudo, a comida era boa, salgadinho seco no ponto certo. Além disso, houve a inteligência de separar adultos e pirralhos do convívio. Foi bom, possível até conversar sem gritar. O lugar era simples, depois ficamos sabendo que o imóvel fora vendido e daria lugar a outro destes megaultra-empreendimentos imobiliários residenciais. Isto explicava algum descuido com os brinquedos. Carrinhos de bate-bate já não batiam. Plástico remendado com fita adesiva. Máquinas de fliperama quebradas, apenas uma em funcionamento.

A Máquina tinha uma tela menu na qual seria possível escolher um entre mil jogos, quase todos muito antigos, telas de fundo preto. Asteroids, Frogger, Enduro, Shinobi, River Raid, Green Beret, Galaca, Pitfall, Double Dragon e demais artefatos arqueo-tecno-lógicos. Exemplares pixelados que, se não fosse a capacidade alephiana da Internet de agrupar reunir a eternidade, espaço e tempo, em um único ponto, certamente só existiriam nas nossas memórias. Mas ali estavam estas preciosidades históricas nas mãos inábeis de pimpolhos incapazes de usar até um giz de cera.

Bem que gostaria de ter experimentado um pouco destes jogos. Mas os meninos acostumados a ver filmes 3D, a coreografar em Kinect, crianças que deveriam se encantar com as figuras perfeitas de Final Fantasy e não com aqueles tangrans mal feitos. Digo isto com raiva, pois eu não queria ficar na fila junto com aqueles pirralhos e esperava uma oportunidade que não surgia. Os garotos (eram quase sempre meninos) tentavam um jogo, perdiam as três vidas de praxe e voltavam para a tela de menu, trocando de jogo. Ninguém insistia. Experimentavam, se não funcionava imediatamente, zapeavam para outro jogo. Havia uma rotatividade constante diante da máquina.

Dentre as penalidades sugeridas ao pai moderno, está a de procurar oferecer o máximo de oportunidades possível a seus filhos, como se apenas a liberdade permitisse a melhor alternativa. Mas não. Ao ver aqueles garotos trocando constantemente de jogos, sem se concentrar em nenhum, sofrendo derrota após derrota, pensei que mais que abrir horizontes devêssemos indicar direções para se guiar. Mesmo que você se encontre tão perdido quanto ele.



Quando finalmente consegui jogar, me vi fazendo exatamente o mesmo que as crianças.






* * *
(Original AQUI; desculpem este blog anda preguiçoso; Falando em games antigos, foi notícia recente: a Atari pediu falência.)

sábado, 5 de janeiro de 2013

Onirogrito



Uma afirmação negativa do método






Bom… foi mais difícil que esperava falar de meus métodos de criação. Conheço alguns e pesquiso constantemente a respeito do processo criatívo. É um vício. Muito do que vou dizer já foi dito, portanto. Mas, na realidade, eu não sei se posso afirmar positivamente (¿Existe “afirmar negativamente”?) “Tenho um método e ele é x”. Sou muito intuitivo. Me esforço para continuar sendo. Não sei se vale a pena repartir este esboço de metodologia. Pelo pouco que conheço das pessoas, elas são muito diferentes para existir uma receita geral.
Toda a regra (não apenas as fórmulas mágicas da criatividade) devem ser observadas com parcimônia. O contexto do próprio autor e da obra, aquilo que se deseja dizer e não-dizer, tudo isto não se ensina. Aprende-se, desaprende-se, apreende-se sozinho.

Bem que tentei me organizar, separar em tópicos, fazer alíneas e parágrafos, mas não conseguia botar tudo em uma hierarquia ou ajeitar didaticamente. A exemplo de Jodorowsky ou de um mendigo verborrágico, preferi emendar frase em frase, como provérbios, ordens, mandamentos, gritos de guerra, sem ordem. Seja crítico e criterioso e veja o que serve e o que não serve para você.


Divirta-se. Entre um cenário verossímil e um personagem verdadeiro, prefira sempre os personagens. Se possível, bole a conclusão antes; se não, aproveite a viagem e o leitor a aproveitará com você. Não tenha medo ou vergonha de errar. Divirta-se com o que está fazendo, mesmo que seja horrível. Abstrações emocionais funcionam melhor que as concretas. Apaixone-se por estranhos e escreva antes que aconteça. Se acontecer, não tente escrever. Surpreenda-se. Pesquise 300%, mas use 10%. Seja aberto: leia Dom Quixote e assista a A Hora da Aventura. Divirta-se. Leia (ou assista) de tudo, seja compreensivo com o mundo. Pergunte-se porque é assim. Cuidado com qualquer fórmula: Jornada do Herói, Morfologia de Propp, Manual de Syd Fields, Situações de Polti, Gramática de Rodari, inclusive aquelas que você mesmo inventar. Evite (ou recuse-se) a petrificar teorias. Surpreenda-se. Seja verdadeiro. Divirta-se. Anote as sincronicidades. Não faça charadas. Acredite no que está fazendo. Acredite até naquilo que duvida. Pesquise as brincadeiras das crianças. Escute as pessoas conversando. Observe, seja o fotógrafo secreto do mundo. Explore. Divirta-se.


Por último, creio que isto seja o mais importante (Hoje, pelo menos; amanhã posso acreditar em outra coisa), algo que li folheando um livro: Conhecer-se e escolher o “seu” próprio estilo de criação.
“Certa vez, perguntei ao artista gráfico Saul Steinberg “Por que será que não consigo conversar com alguns escritores? Não encontro assunto: por que parece que estou falando com pediatras ou corretores de imóveis e não escritores? Ele pensou e respondeu: “Isto é fácil: existem dois tipos de artistas, nenhum deles superior ao outro; um responde à própria vida e o outro responde à história da arte até aquele momento.” (Kurt Vonnegut, em leitura ao acaso na livraria)







(Publicado originalmente AQUI, no Universo Insônia. Imagem do livro Como a Mente Funciona, de Steven Pinker veio DAQUI)

sábado, 8 de dezembro de 2012

Zerografia

Alexandre





Anteontem meu vizinho morreu.

Era um senhor bastante idoso, patriarca de uma família de muitas mulheres, que se distribui em vários apartamentos de meu condomínio. São imigrantes, vieram do ******. São Paulo é uma cidade com gente de todo lugar, do Líbano ao Japão, da Nigéria a Bolívia, mas ****** não é um país típico. Temos curiosidade sobre como vieram para aqui. Por conta das guerras e de tudo mais, imaginamos alguma história triste de fuga. Mas também pode não ser. Como é típico entre vizinhos, não somos íntimos. Não temos coragem de perguntar sua história.

Era um senhor de nome jovem, helênico. Nos dias frios usava uma boina. Tinha olhos azuis, o que imagino ser incomum no oriente. É uma família de muitas mulheres, divididas entre solteiras, viuvas e solteironas. Com elas há um pouco mais de diálogo. O básico de elevador. Bom dia, boa tarde, boa noite, meteorologia amadora, o crescimento dos filhos, o síndico, a roubalheira do governo ou de quem quer que seja.

Com aquele senhor, entretanto, evitávamos uma conversa mais longa. Falava com dificuldade, e não somente pelo sotaque. Por culpa do trânsito e de nossa preguiça, estamos sempre atrasados e com pressa. E que diálogo poderia haver entre nós, sem nada em comum?

Os encontros com este senhor viúvo ocorriam quase sempre pela manhã, horário para uma caminhada lenta ao redor do condomínio ou do quarteirão, dependendo do clima. Depois do passeio, ele sentava ao lado do porteiro do prédio e observava o movimento de pedestres e de carros e de vizinhos indo para escola ou trabalhar.

Numa destas manhãs, nevoeiro prometendo sol depois, eu saía com as crianças. Meus filhos não são dados, escondem-se entre as pernas na presença de estranhos no elevador. “São tímidos”, explicamos, enquanto os incentivamos a cumprimentar. Passamos pelo senhor viúvo, ele de boina e o cumprimentei. Enquanto esperávamos a grade da prisão se abrir (a portaria do nosso edifício também têm dois portões que se abrem separadamente), aquele velho senhor sentado gesticulou com as mãos um rápido “vem cá-vem cá” para meus filhos. Sem dizer nada, as crianças foram até lá para serem abraçadas. Meus dois filhos nascidos após a queda das Torres e a dispersão do wireless responderam ao abraço daquele senhor viúvo das montanhas, que caminhou entre ovelhas e rios gelados, em vilarejos destruídos por bombas e terremotos. Século XX e século XXI. Depois se afastaram.

Enquanto o portão se fechava, houve tempo para um último tchauzinho. Não sei se eles se viram depois disso. Possivelmente minha mulher e as crianças tenham se cruzado mais uma vez. Naquele dia de neblina, caminhamos de mãos dadas rumo a escola, onde se espera que sejam preparados para a vida. Enquanto isto, deixamos vidas passarem.





(Publicado originalmente no blog da Terracota. Imagem: pedaço de um mosaico encontrado em uma casa (A Casa do Fauno) nas ruínas de Pompéia, representando Alexandre o Grande enfrentando Dario III. O mosaico representa a batalha de Isso e é parte do acervo do Museu Arqueológico de Nápoles)

quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Onirogrito

Vampiros x Zumbis





Vampiros e Zumbis são parentes. Ambos são mortos-vivos, são diferentes de fantasmas e demônios, uma vez que sua existência física não se discute.

Os vampiros são aristocráticos e elitistas. Os zumbis são a classe C. Os vampiros são criaturas especiais. O zumbi é gente como a gente. O vampiro vive em um castelo de onde sai para aterrorizar os indefesos. Os zumbis cercam shopping centers e casas isoladas, a última defesa possível contra suas hordas. Todos sabem os pontos fracos dos vampiros: alho, cruz, estacas, o sol. Zumbis são frágeis, morrem facilmente, sua força é o seu número. Mas não temem nada. São democráticos.

Os vampiros sobrevivem da exploração e do sangue de suas vítimas: são vistos como os senhores secretos do mundo. São elegantes, refinados, inteligentes, insidiosos, sedutores, provocadores. Os zumbis existem. Eles são o caos. Parecem bêbados, agem estupidamente. Vampiros e Zumbis são criaturas do desejo. Mas enquanto você deseja ser um vampiro, os Zumbis desejam você. O ataque do Vampiro o torna rico e eternamente jovem. A mordida do Zumbi o torna um idiota e um eterno mendigo.

O Vampiro da forma segundo a qual entendemos é relativamente recente, sua base se estruturando ao redor de Polidori, Le Fanu e Stoker[1] durante o século XIX. Nesta época, talvez, pudessem ser vistos como uma resposta do anseio burguês por um reconhecimento “nobre”. Depois dali se disseminou pela literatura, filmes, quadrinhos, discos, atravessando a maior parte do século XX. Eu estaria forçando muito se visse nos Vampiros e na sua relação com a humanidade uma metáfora política para exploração econômica e alienação? Não me ocorre nenhum caso, mas devem haver histórias nas quais Vampiros foram abordados sob o ponto de vista declaradamente político.

Já os Zumbis parecem ser moldados para este tipo de abordagem. Os Zumbis são criaturas ainda mais recentes no folclore do medo. Nos termos que nos interessam[2], os Zumbis se originaram no vudu haitiano. O Zumbi, inicialmente, seria um pobre coitado amaldiçoado que, após ser envenenado e “morrer”, tornava-se um escravo incapaz de desobedecer às ordens de um feiticeiro[3]. Mas este Zumbi inicial (que talvez remetesse à opressão da escravatura) foi ofuscado pelos criados por George Romero em “Night of the Living Dead”[4] e que, praticamente, redefiniu o mito a partir de então. Os Zumbis não são personagens, personagens são os outros que procuram escapar de seu ataque, e a história é montada basicamente na tensa relação entre os sadios contra os doentes.

Enquanto a tragédia do Vampiro é ser obrigado a ser “mau” e matar[5], o trágico no Zumbi é o fim da individualidade. Os zumbis são o olhar da sociedade “pressionando” a liberdade, nos restringindo, nos aprisionando. Adequado a nossos tempos neo-provincianos, onde o olhar do vizinho está na rede, querendo nossos miolos, querendo nos formatar sob um mesmo comportamento. Talvez seja revelador pensar que o sonho do último Vampiro de grande sucesso é ser igualzinho a todos os mortais.

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[1] Histórias dos Vampiros – Autópsia de um Mito, Editora Unesp
[2] Há um livro francês de 1697 Le Zombi du grand Pérou, ou La comtesse de Cocagne e existem lendas de mortos-vivos similares aos zumbis na África Central 
[3] Posteriormente encontrou-se certa base “científica” para esta lenda, no caso de homem chamado Clairvius Narcisse. Veja AQUI. 
[4] Conforme o próprio Romero admitiu, sua principal influência foi “Eu sou a Lenda” de Richard Matheson.
[5] Uma tragédia um tanto relativa já que o cardápio da maior parte da humanidade contem animais mortos.





(publicado originalmente AQUI, no blog da Terracota. Imagem é a primeira das tiras de "Z" de Raphael Salimena, disponível no Quadrinhos IG)

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Onirogrito

Mata-borrão à tinta de pendrive





É curiosa a menção ao mata-borrão em textos antigos. Tanto Rubem Braga quanto Mário Prata (Rimou?) falaram e explicaram o objeto. Se você for daqueles que se recusam a clicar em hiperlinks, além de perder textos melhores que este, não saberá que o mata-borrão era uma espécie de carimbo para secar a tinta fresca no tempos pré-esferográficos. Mário Prata não encontrou analogia para o mata-borrão no computador e descartou o verificador ortográfico como substituto.

Perdoe a petulância de quem nunca usou tinteiro para escrever… discordo… Assinar a carta, carimbá-la com o mata-borrão, envelopá-la e enviar a missiva ao amante pelo portador supostamente confiável. Não importava o conteúdo: “O culpado é o mordomo”, “Vamos fugir, espero-te atrás da capela.”, “Fui deflorada pelo meu irmão”, era essencial que se concluísse a carta e que ela ficasse limpa, formalmente intelegível : o mata-borrão surgia como um gesto de conclusão. O corretor gramatical parece ser a última coisa a passar pelo texto. Muitas vezes, na verdade, ele analisa o texto “melhor” que a pessoa do outro lado que deixa a mensagem dormir na caixa de entrada.

Gostaria de ver mais recursos tecnológicos presentes na literatura: coisas como celulares, monitores, mouses, teclados, GPS e não-coisas como sites, blogues, emails, google, redes sociais. Pois o imaginário se alimenta da realidade. E, querendo ou não, estes brinquedos vieram para fingir preencher nossas vidas ocas e devem permanecer até darmos um basta. Então se quisermos que a literatura seja minimamente relevante, viva, precisaremos no mínimo resvalar neste mundo colorido e flutuante.

Ao mesmo tempo, escrever sugere permanência. Só sugere, porque na prática nada garante esta imortalidade, mitologia, historicidade, como quer que a chame. A partir do momento que se registra suas ideias no papel ou no monitor, presume-se que estas persistam de alguma forma. Mas sabemos que quanto maior a distância entre o emissor e o receptor maior a chance de que algo dê errado ou seja incompreendido.

Imagine que o Facebook pudesse ser psicografado: teríamos perfis de nossos bisavôs e bisavós. Será que seriam espertos e engraçadinhos como nós? Primeiro há que considerar que, dadas as estatísticas, deveriam ser paupérrimos e analfabetos, caboclos, caipiras, caiçaras, bugres, escravos ou carcamanos. Ignore a ausência física dos dedos, mas não sua brutalidade: como poderiam teclar algo? É por isto que, por sorte, deles sabemos histórias, mas não restaram cartas ou registros mais formais.

Mas vamos supor que seus bisavós eram letrados e registraram sua conta no Facebook ou Orkut, vamos lhes dar a possibilidade de estarem sintonizados com a Rede Social do momento. Será que haveria fotos de viagens, de farras, bagunças e cervejadas? Provavelmente você os acreditasse um tanto presunçosos, com retratos posados em roupa de gala, diplomas, medalhas, certificados, ordem do grau supremo da loja maçônica. Enquanto sua obrigação é ser feliz, a deles era ser honrado, digno, um cavalheiro respeitável.
(Não se anime, crendo que éramos melhores: tudo falso. As hipocrisias unem nossas gerações. Apenas o enfoque era diferente.)

Eu entendo a preocupação de quem não arrisca fotografar o mundo atual nas literatura: mouses, mp3, pendrive, kindle, tablet, URL, fotoblog, YouTube, quanto destas coisas estarão aí, na boca do povo (ou do monitor) daqui a dez anos? Quando se percebe que a Internet gera menos conteúdo do que comunicação, via redes sociais, fóruns, ou conversas pelo msn, skype ou equivalente, nota-se que estes brinquedos, estas pequenas maravilhas se apequenam e tornam-se borrões diante do maior mistério de todos: quem é a pessoa que está do outro lado, atrás de seu perfil, ou de sua cara? Quem é você e, afinal, por que não gosta de mim?





(Imagem: ?. Publicado originalmente AQUI)

terça-feira, 26 de junho de 2012

Onirogrito

Outros espelhos distantes


















Uns meses atrás, alguns artigos reclamavam do cenário habitualmente sombrio da ficção científica. Dentro do caderno Link do Estadão, o colunista Alexandre Matias dava espaço às ideias do neurocientista palmeirense Miguel Nicoelis. Conforme Nicoelis afirma, a ficção científica prefere os futuros apocalípticos: “Hoje em dia você pega um filme de Hollywood ou um livro best-seller, é tudo assim: ‘Vamos destruir a raça humana… Vai acabar o mundo… Vamos criar um híbrido de não sei o quê… Os computadores vão nos deixar obsoletos…’

Escritores gringos de ficção científica também se comunam nesta percepção. O artigo de Alexandre Matias cita o norte-americano Neal Stepherson e o crítico e escritor Antonio Luiz M.C.Costa analisa Shine, uma antologia do holandês Jetse de Vries que se propunha a ficção científica em um contexto otimista. Costa ainda discorre sobre os motivos históricos que levaram a uma preponderância das distopias e cenários pessimistas na Ficção Científica, que, para mim, soou mais interessante que os contos de Shine.

O fato é que esta conversa toda inverte a questão.

A ficção não molda a realidade. A realidade é quem molda a ficção.

A ficção fornece “lentes” que permitem diferentes interpretações da realidade. Mas quem escolhe as interpretações são os indivíduos. Qualquer pessoa que viveu os últimos trinta anos de transformações abraçou – principalmente via consumismo – todas as grandes mudanças que a ciência e tecnologia disponibilizou à humanidade. O impacto destas mudanças acelerou a economia e a vida e trouxe muitos benefícios. E, também malefícios. É inegável o sentimento de descontrole, de se estar perdido em meio ao turbilhão.

E isto se espelha na ficção de, pelo menos, duas formas: ou na fantasia de indivíduos absurdamente poderosos… ou na distopia apocalíptica ou totalizadora na qual as pessoas são meros joguetes.
Não existe bem ou mal. Existem gestos, ações e reações. Para cada passo a frente, um mundo fica para trás, e tudo que é belo e horrível também desaparece. Hoje não conseguimos imaginar o que seria o mundo sem celulares, televisão , internet. E também não conseguimos imaginar o que é silêncio, que estar sozinho é diferente de estar solitário. “Acreditar” ne evolução do homem, “acreditar” nos benefícios da tecnologia, “acreditar” que o futuro sempre será melhor, é ignorar a realidade.


(Publicado originalmente aqui, na Terracota. Fonte da imagem: o tumbrl Metropolis of Tomorrow) 


terça-feira, 12 de junho de 2012

Onirogrito




eu canto com muita coerência,
sobretudo inteligência
mas não deixo de ser um gangsta besta.


(après Buraka Som Sistema Imagem: Arnold Böcklin, Luta de centauros (1873) )

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Onirogrito

Ritual de lo habitual





( Não sou artista. Odeio quem se diz artista. Ou melhor, odeio quem se diz Artista. Eu não tenho, não desenvolvi, não sei se vou ter um ritual para escrever. Trabalho, tenho filhos, etc. Escrever não é meu "viver". Escrever não é viver. Assim, procuro me adaptar às circunstâncias.

Escrever no metrô funciona, desde que haja lugar para sentar (e não há mais). Computador, às vezes funciona, desde que a ideia me absorva, desde que esteja calmo. Caderno e esferográfica funcionam muito bem, quando precisa ser "jorrado". O papel propõe um ritmo.

Quando a coisa complica nos becos sem saída ou na falta de inspiração, posso ficar meses, (anos?), com a ideia na cabeça, esperando algo que a faça funcionar ou lendo coisas para alimentar, sustentar aquilo que julgo fraco.

Poesia areja, ajudou a me tirar de atoleiros. Assuntos completamente diferentes também já me ajudaram. Desenhar também funciona. Andar. Tomar banho. Dormir. Assistir TV.

Mas meu maior problema - atualmente - é ser interrompido. Se não conseguir ir até o ponto que preciso, depois é muito difícil retomar. Isto me faz escolher alguns horários complicados para escrever (o que nem sempre funciona).

Recentemente li sobre a técnica do Antonio Lobo Antunes, de deixar uma "frase em suspenso" pra continuar depois. Me pareceu uma boa. Dia destes, se der tempo, se eu puder, se eu houver algo relevante pra dizer, vou tentar.


Apaixonar-se costuma atrapalhar. Então evito.)





(Escrevi inicialmente aqui, no fórum Meia Palavra. Depois, mudei de ideia e trouxe pra cá. No blog de Michel Laub, pode-se encontrar uma compilação com as manias - ou a falta de manias - de 100 escritores brasileiros. Imagem ??? - via Popholic)

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Onirogrito




Zerar

A crônica "Racismo Camuflado" foi escrita para a revista Trip 195 pelo cineasta Henrique Goldman, vivendo em Londres. Segue o trecho inicial (para o caso do link estar indisponível)

"
Sábado passado foi um dia de cão. Eu estava com meu filhinho de 3 anos numa enorme fila do caixa num supermercado aqui em Londres. Com aquela inocência típica de uma criança que descobre o mundo e se maravilha com cada detalhe, meu filho começou a encarar uma senhora negra que estava logo atrás de nós na fila. Secando a senhora com os olhos maravilhados, ele me perguntou, bem alto, em português: “Papai, por que esta mulher é marrom?”. A senhora percebeu que o menino tinha dito algo a seu respeito e, sorrindo, perguntou em inglês: “O que foi que você disse?”. Meu filho continuou calado, ainda mais abismado ao ver que a senhora, além de ser marrom, estava falando com ele. Eu hesitei um pouco, mas resolvi dizer a verdade e respondi com um sorriso apologético: “Ele perguntou por que a senhora é marrom”. Profundamente ofendida, a senhora me disse: “Você deveria educar o seu filho a não ser racista!”. E foi, com a cara amarrada, para outra fila. Ao meu redor, notei no olhar de muitas pessoas o desconforto, que ficou ainda maior quando meu filho começou a perguntar, agora falando ainda mais alto e em inglês: “Why did the brown lady leave, daddy?” (Papai, por que a senhora marrom foi embora?).


O que eu podia responder? “Filho, eles inventaram e implantaram no século 17 o modelo da escravidão colonial, cujos lucros astronômicos financiaram a Revolução Industrial, criando as bases do império britânico. Para gerar essa riqueza, por séculos milhões de vidas foram destruídas e um continente inteiro, a África, foi devastado. O legado de racismo e pobreza continua ativo, espalhado pelo mundo. Mas também, filho, neste país esquizofrênico, tem muita gente legal, e eles, praticamente ao mesmo tempo, inventaram o abolicionismo, movimento de massa em defesa dos direitos humanos. A filha-da-putice e a enorme culpa gerada por tamanha filha-da-putice sobrevivem ainda hoje. Por isso, não seria um problema perguntar para uma senhora loira por que ela é amarela, mas pode ser um problema perguntar para uma senhora negra por que ela é marrom. E olha, filho, aqui na Europa, onde a cor das pessoas é uma questão tão fundamental, nós dois, que somos brasileiros, somos considerados já meio marronzinhos. Mas não é um problema. É bom ser meio marronzinho.” Aproveitei que chegou minha vez no caixa para distraí-lo, sentindo-me aliviado por não ter que responder algo tão complicado.
"

..Acho que ao invés disto tudo que se propôs, ele poderia ter dito: Filho, as pessoas são diferentes; Tem quem tem o cabelo enrolado, a pele preta, o olho rasgado, a barriga grande, a bunda enorme, o que não anda, o de barbona, o careca, a pele amarela, a pele canela, a pele azul, o cabeludo, o que fala espanhol, o árabe, o alto, o anão. Ela é marrom porque ela é diferente e isto não é ruim, nem bom. É só diferente.

Cair numa justificativa histórica é mais uma forma de preservar preconceitos. Acaba alimentando e justificando o ódio. O esquecimento pode nos fazer errar de novo. Existe este risco. Por outro lado, pode nos libertar, deixar-nos livres pra fazer as coisas do jeito certo. Recomecemos.





(imagem: ? - via Haw-Lin)

domingo, 8 de agosto de 2010

Telegrama


Alguém me avisou
(Composição Dona Ivone Lara)



Foram me chamar
Eu estou aqui, o que é que há?
Eu estou aqui, o que é que há?
Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho
Mas eu vim de lá pequenininho
Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho
Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho

Sempre fui obediente
Mas não pude resistir
Foi numa roda de samba
Que juntei-me aos bambas
Pra me distrair
Quando eu voltar na Bahia
Terei muito que contar
Ó padrinho não se zangue
Que eu nasci no samba
E não posso parar
Foram me chamar
Eu estou aqui, o que é que há?







(Gil, Caetano e Bethânia. A gente chamava "PAAAAI" e lá vinha ele cantarolando esta música.)

sábado, 12 de junho de 2010

terça-feira, 18 de maio de 2010

Onirogrito





Arquipélago


Há aqueles que se isolam por não gostarem das pessoas.

Eu escolhi ficar sozinho. Quero continuar gostando delas.

















(.Imagem de Wayne Levin)

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Onirogrito






Serventia



Para que servem os quadros?



Para as visitas não se apaixonarem pelos anfitriões.
Para não se atentar aos petiscos, aos guardanapos, aos farelos sobre a mesa de centro, aos círculos líquidos nos locais de repouso dos copos.
Para não se ver a combinação de meias e sapatos.
Para baratas, unhas, chupetas e outras coisas perdidas manterem-se em seu esconderijo sob o sofá.

Os quadros servem para dar uma cor.
Os quadros querem todas as cores para si.
Os quadros não deixam as visitas nos olharem nos olhos.



(Imagem: Christina´s World, de Andrew Wyeth (1948))

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Onirogrito






Sem título



(Não se apressem nas conclusões, mas meu pai adorava a revista Seleções. Eu acabava lendo, sem muita empolgação. Mas, numa destas vezes, encontrei este fragmento:

Um provérbio persa afirma que tudo o que dizemos deveria passar por três portas: Sobre a primeira, há uma placa escrita “É verdade?”; Na segunda, uma placa “É necessário?”; E na última: “Não vai machucar ninguém?”

Quando criança, acreditava que o respeito a estas regras implicaria em um silêncio absoluto. Acabei sendo uma criança quieta. Mas eu já era meio calado. Vai ver, o provérbio foi a desculpa.

A própria ordem das perguntas sugere uma hierarquia. Enquanto a primeira e última pergunta são de propósitos mais claros, a segunda sempre me pareceu um tanto obscura. Como dizer o que é necessário? Talvez a idade tenha me feito entender melhor seu sentido. Ou a distorcê-la a ponto de desrespeitar as outras duas, conforme o caso. Conforme a necessidade.

Escrever é outro ato de ódio. Entretanto, são precisos bons motivos para machucar alguém. No mínimo, seja verdadeiro e necessário.

Depois de escrever, faço as perguntas. Dependendo da resposta, apago tudo.
)




(*imagem via Neatorama: mas esqueci o assunto)

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Onirogrito





"
Mais ensino


Meu pai tem a frase seca, que mal e mal vou ao fundo

-A idade faz velhos não faz sábios.

"
Trecho de Dedo-duro, livro de João Antônio (Cosac & Naify)







Faz um ano que comecei a postar no blogue. Foi por muita insistência. Eu ainda tenho vontade de parar. Obrigado a quem acompanha. Segue um vídeo que me fez sentir 10 anos mais novo... Não é o clipe oficial da música Flagpole Sitta... É um pessoal que trabalha numa empresa norte-americana chamada Connected Ventures. Também quero mandar meu CV pra lá.


Lip Dub - Flagpole Sitta by Harvey Danger from amandalynferri on Vimeo.



Abraços.