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sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

amigo visita





...Quem?

Aqui?

Não, acho que o senhor se enganou de endereço. Este número não existe.

Derrubaram uma casa logo ali adiante, foi para colocar o alicerce daquele viaduto. Mas faz anos, eu era menina.

Pra onde ele foi? Acho que voltou pro Nordeste. Ou ganhou na Mega-Sena ou foi preso.

Sei lá, tem diferença?

Não tenho endereço não. Agora, o senhor me dá licença que tô ocupada."

Fecha a porta. Lá em cima do viaduto passa sirene.


O homem coça a cabeça. Lê o endereço. Confirma os números. Olha pra lá, olha pra cá... e nada parece com as lembranças que tinha do lugar. O viaduto sustentado por alicerces delgados como girafas. Onde antes havia árvores estão postes de iluminação. Uma quadra de casas geminadas deu origem a uma fábrica abandonada. Os jardins viraram recantos de entulhos e cacos de azulejo. O campo de bater bola agora virou catedral dos crentes. Ele sabe que são lembranças reais e não de um sonho: o que diferencia uma da outra é uma certeza fina, tênue, resistente como uma teia de aranha. E é só por conta desta certeza que ele caminha até o alicerce do viaduto. Uma parede milagrosamente limpa de grafiteiros e pichadores. Até agora.

Escreve sua mensagem ao amigo. É breve. Descreve como está a vida, como andam os filhos, os dias tediosos do trampo, o último filme a que assistiu. Pensou em deixar email, número de celular. Mas não sabe se haveria conversa para tanto. Depois vai embora sabendo que logo o temporal de verão vai apagar o giz.




(Foto minha de um Grafite na Liberdade. Quem é? Não sei)

quinta-feira, 29 de abril de 2010

baixa pressão






A luz do dia do meio dia rebenta pelas frestas e portas, insinua-se por buracos no forro, esmaecida pelas cores frias dos vitrais. Dissemina-se pela porta da entrada. Por pouco, a igreja não está vazia. Sentados em bancos, ajoelhados. Parados diante dos altares, benzendo-se na pia batismal. Pombos sobre um parapeito. Abismo. Silêncio. Ecos. Arquitetura para reflexão e induzir os fiéis a olhar para o alto. Buzinas. O piso com um bordado de linhas retas entrecruzadas. Cristina entra, fecha as pernas dos óculos escuros. Faz o sinal para o Cristo adiante no altar. Senta-se em uma das últimas fileiras. Cabeça baixa. Mais adiante, uma senhora com terço. Os dedos correm as contas. Cristina abre a bolsa, passa um lenço sobre o suor da testa. Verifica o celular. Sem mensagens. Muda para o modo vibrador. Alguém tosse. Ecos. Um ônibus freia, um urro animalesco no asfalto. Mas todos continuam em suas preces silenciosas. As paredes isolam como uma gruta. As imagens dos Santos: faces tranquilas, olhares tristes, lábios cerrados, rostos raros hoje em dia. As mãos dedilham o ar, acariciam o vazio. Cristina não reza, continua olhando o próprio colo, ou a senhora, ou o teto. Disfarça o celular na mão. Um folheto dobrado em muitas vezes fora abandonado sobre o banco a seguir. Ela estica o braço para pegá-lo. Reaberto, o folheto lembra um mapa, cheio de vincos. Cristina lê a Segunda Leitura e o Evangelho. Parábolas. O Bom Samaritano. Músicas. Creio em Deus Pai, todo poderoso. Confere o horário. Sirenes. Uma moto passa a toda velocidade. Cristina conta as estrelas que atravessam o forro do teto. Verifica o celular. Sem mensagens. Outra tosse. Quase distraidamente, percebe um homem em um terno fino sentado do lado oposto do mesmo banco; permanece de óculos escuros, apesar de estar no interior da igreja. Contendo o medo, ela guarda o celular na bolsa, faz o sinal da cruz e se levanta. Procura manter a calma. Mas há outros dois homens engravatados na porta de saída. Eles estão em pé, fingem orar. Cristina ruma em direção ao altar. Surge um quarto homem detrás de uma das colunas. Passos mais rápidos às suas costas. Faz um desvio final e entra na cabine do confessionário. Sozinha, atrás da cortina de tecido espesso. No escuro. Cristina retira da bolsa a vinte e dois. Fica a espera. (...)1. Há um aviso com os dias e os horários nos quais o padre estará disponível para prestar o sacramento. Os homens sabem que neste horário o padre almoça. Talvez esteja comendo um coroinha. Um deles faz um sinal para que os demais cerquem o confessionário. Os três se aproximam. Chamam-na pelo nome, sussuram, não querem chamar a atenção. Dona Cristina, por favor, sai daí. O Doutor mandou a gente não machucar a senhora. No interior da bolsa, uma luz se acende. Chega uma mensagem, mas de outra pessoa. Está em caixa alta e ela não terá oportunidade de ler: FOGE. ELE DESCOBRIU. MA. Sem resposta, um deles abre o confessionário. Ouve-se um tiro. Não atinge ninguém. Os demais frequentadores da Igreja pressentem circunstâncias incomuns. Alguém corre. Pombos voam. Apesar da ordem do Doutor, o sangue ferve e eles entram à força. Cristina recebe alguns socos, a arma cai pesadamente. Bolsa aberta no chão. Celular corre que nem barata e desaparece em alguma fresta. Os homens carregam-na para fora. Um deles esconde a arma em um lenço. Aquela senhora que rezava pergunta o que aconteceu. O líder responde, pressão baixa, muito calor, ela desmaiou. Ela acompanha os quatro carregando-na em direção à luz da rua. Ela faz o sinal da cruz e pensa Graças a Deus estes anjos estavam aqui para socorrê-la. O sangue pinga do nariz de Cristina formando estrelas gordas sobre as linhas retas no piso.

(1) (Criar neste espaço best-seller de 300 páginas contando a história de Cristina o qual o deixará rico e insuportável, requisitos imprescindíveis para dar sentido à sua vida)






(Encaixe-se: crença. Imagem )

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

ultravioleta








A fada acorda e recusa-se a despertar. Devia se espreguiçar, abrir os braços, respirar fundo, esticar as pernas, sentir o mundo com os pés... Não dá. Sono pesado demais. Então se aninha mais sob a coberta e enterra a cabeça em si mesma, para impedir a luz de se infiltrar sob as pálpebras. Tenta continuar a dormir, sonhar talvez, mas o som do bosque não deixa. Cigarras. Zumbido de zangões transitando entre anteras e nectários. Sinal de manhã quase madura, o sol pinicando a pele de quem se submete a sair nu sobre o dia. Mas ela está ali, protegida, um nenê em meio ao enxoval. Murmúrio de riacho perto. Tapete de limo nas pedras. Um avião mudo passando lá em cima. A fada sente um pouco de sede, mas ainda não quer se levantar. Deveria ter ido dormir perto do rio, ou sobre as folhas, aproveitaria para beber o orvalho. Ela tenta recordar como viera parar ali, naquele aconchego. Conclusão: acabara de se fechar na crisálida e agora só faltava nascer. Seria sair, rebentar aquela seda e se pendurar no abismo. Então esperar secar as asas, abrí-las, deixá-las na brisa. Ela sairia pelo bosque, pousando entre as flores, procurando as irmãs. Cantoria de passaredo. Brilho metálico dos colibris. Entretanto o não-nascimento implicaria no não-conhecimento do mundo. Tudo seria instinto, inocência ou ignorância. Desconheceria o dia ou a noite, ou os chamados dos insetos, ou os rastros dos jatos no azul ou o odor doce da primavera. Entre as fadas, não se fala em ressuretos ou em reencarnações. Só se conjuga o tempo presente. A fada espera o momento de arrebentar a crisálida. Mas é só delírio: ela não conseguirá. Pois ali, entre os elos e nós das teias, a fada está presa no casulo no veneno no sono de viver.









(via bibliodissey: E.A. Séguy - 1. Delias neagra. Nouvelle Guinée; 2. Catagramma kolyma. Amazone; 3. Dichorragia nesimachus. Sikkim; 4. Elymnias malelas. Inde; 5. Eulepis eudamippus. Indo Malaisie)

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

Pequenas histórias sórdidas






“Ao passar pela guarita, os funcionários do prédio param de conversar, cumprimentam-no com o habitual boa noite e persistem calados até ele se distanciar rumo ao vestíbulo de seu bloco. No elevador, vigiado pela câmera, confronta-se no espelho. Ele sabe que há quem pense nele como homossexual por morar com a mãe e ouvir música clássica.”


O texto não está bom e fico lendo e relendo o parágrafo antes de decidir o que fazer com ele. Escuto então o chiado dos chinelos atrás de mim e inspiro fundo, preparando-me para sua chegada. Ela me pergunta o que é esta televisão, não tento explicar que é o note. Ela quer saber por que o pai não chegou até agora, eu deveria ligar para o serviço dele. Não repetirei que está morto. Salvo o arquivo, levanto-me. Ela se assusta ao me encarar. Desta vez, me reconhece. Admira-se ou se entristece: Minha Nossa Senhora, como você está acabado. Recomenda que eu largue Madalena, uma namorada antiga. Não sei por onde anda, se anda. Distancio-me rumo à sala, as paredes repletas de retratos e lembranças de lugares que desconheço. Ela me segue, um vulto de camisola, quase uma mortalha, quase um fantasma, não fosse o arrastar da borracha nos tacos. Esta Madalena não é mulher para você. Ela descreve todos os defeitos. Soube só recentemente o quanto a desprezava. Abro o piano e peço para se sentar. Ela ainda toca perfeitamente, quando começa pode ficar entretida por horas, absorta, absoluta, a alma intacta, os dedos ágeis nas mãos carcomidas pelo tempo. Gostaria de ouvir sua música, mas se recusa a me escutar. Percebo que não me deixará em paz. Quer atenção. Incito a contar algo antigo. Antigas histórias com quem já morreu ou quase. Adultérios, trapaças, vícios, torpezas, falcatruas. Algumas ela muda de protagonista para não se comprometer. Mas eu sei: só poderia ser ela. Deixo falar à vontade, enquanto meu olhar passeia pelas molduras e o papel de parede e o intrincado desenho do tapete e a escadaria dentro de outras escadarias dos tacos. O tempo passa e ela não para. Inspiro fundo. Continua seu monólogo, mesmo quando me levanto para buscar um dos espelhos escondidos pela casa. Sem dizer nada, entrego-lhe. Revelo seu rosto de velha, as rugas, os cabelos brancos. Ela se interrompe. Experimenta o relevo de sua própria face e tateia aquela do reflexo. A textura lisa no espelho deveria repousar na pele. Chora e grita. Chama pelos santos de devoção. Ela se afasta em lágrimas sem entender ou talvez entendendo o que acontece. Eu a amparo, a levo para o quarto. Apago a luz e encosto a porta. Ela logo esquecerá. Ela sempre esquece. Volto para a biblioteca sem livros na estante, caixas pardas de papelão pelos cantos, apenas o notebook sobre a antiga escrivaninha. Está tarde, demoro a engrenar: modifico o texto, continua curto, mas hesito em me alongar. Deixo para terminar no dia seguinte. Se conseguir.



“Ao passar pela guarita, os funcionários do prédio cortaram a conversa, deram o habitual boa noite e persistiram calados até ele se distanciar rumo ao vestíbulo de seu bloco. No elevador, vigiado pela câmera, confrontou-se no espelho. Suspeitavam que era homossexual. Não os culpava: um velho solteiro e refinado,cabelos tingidos e gostava de ópera. Ele mesmo pensaria o mesmo. Mas ninguém sabia que os cabelos eram tingidos para a mãe, uma ajuda para reconhecer o filho, mais velho do que deveria ser pela sua memória.

Talvez ele devesse atender a esta suspeita dos vizinhos. Assim evitaria a tentação de se deitar com ela. Seria fácil. Depois de vinte minutos, ela esqueceria e perguntaria pelo pai. Responderia o de sempre, papai acabou de sair. Mamãe então concluiria em um tom cínico e duro: logo vi.”





(Imagem Decomposition of Memory, de Colin Harbut. Via Draw in Black.)

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

fábula dos Lobos







O fogo na lareira se acendeu em um fulgor alaranjado quando a pequena pilha vermelha de roupas infantis alimentou seu corpo impalpável. A menina nua subiu na cama rangente da parenta e deitou-se sob a coberta puída da velha para escutar a voz esganiçada narrar:

-Quando a primeira Chapeuzinho caiu naquele túnel estreito e carmim dentro da boca do Lobo ela tentou se agarrar nas reentrâncias dos tecidos que recobrem o poço vertical até o estômago, mas foi tudo em vão, ela caiu, caiu, e teria se dissolvido no ácido daquele lago se não fosse um outro menino devorado anteriormente. Ele fizera uma jangada com ossos não digeridos, pedaços roídos do couro de botas velhas, os pregos destas solas, dentes de ouro, a madeira das próteses, o conteúdo de bolsas amarradas junto ao corpo ou enfiadas no rabo dos viajantes covardes que temiam mais os ladrões que os Lobos. De tudo isto fez uma embarcação com a qual salvou Chapeuzinho. Ele a levou para um promontório onde outros sobreviventes se reuniam em uma favela miserável, iluminada pelos gases intestinais recolhidos por lanternas espetadas em varas pelo chão. Eram muitos e eram homens e mulheres e sobreviviam como parasitas daquilo engolido pelo Lobo que nunca alcançava satisfação, as costelas aparentes sob a pele e o pelo. O tempo passou e eles ali construíram uma cidade sobre palafitas de material indigesto, com enormes redes tecidas de fios de cabelo com os quais colhiam a chuva de gente e carne mastigada cadentes do olho negro daquele céu escuro. Assim recebemos as sementes e plantávamos árvores e pomares que aprenderam a crescer na treva, as raízes acostumaram-se a beber dos sucos gástricos e do sangue, os frutos fosforesciam para atrair os pirilampos polinizadores. Ali os primeiros habitantes envelheceram para antes de morrer, terem filhos, e seus filhos tiveram outros filhos, até chegarmos a nós duas, eu e você neste quarto no meio deste bosque. Saiba, minha neta querida e apetitosa, dizem que um dia virá um caçador, ele romperá com seu machado a derme e a carne deste monstro que nos rodeia e veremos um cometa rasgar o céu desta noite, trazendo uma luz tão forte que nos cegará e neste dia sairemos da barriga de nosso hospedeiro velho e quase morto e saberemos então o que é o frescor e o que é o frio. Neste dia finalmente seremos livres para procurar um novo Lobo para viver.










(editado em 31.10, para "limpeza"...)

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

alegria, alegria




Há quem receba médicos, pintores, pensadores famosos, generais, atores, ginastas, soldados, escritores, magistrados, diplomatas, comendadores e outros ilustríssimos. Outros psicografam somente os que precisam avisar, ensinar, lembrar e sentir saudades. Existem criancinhas afeitas ao diabo. Telêmaco não se classifica nestes casos. Não. O transe de Telêmaco tornava-o receptáculo do mais enfadonho dos espíritos, um certo dr.Ulysses Padilha.

A caneta dançava sob o apoio dos dedos de Telêmaco e o que saía em sua ponta era em fonte datilográfica e linguagem cartorial. No começo, o pessoal da Mesa frequentada por ele até se assustou: depois, durante a leitura do relatório contábil e de palavreado insosso do dr.Ulysses Padilha, deixaram escapar bocejos.

Os espíritos mais iluminados oravam para que aquela alma pobre encontrasse seu caminho. Mas tudo que dr.Ulysses Padilha compreendia era a legislação tributária de 1954 ou a manutenção de computadores a válvula. Telêmaco esforçou-se para abrir espaço a outras almas, mas concluiu que mesmo os outros mortos queriam distância daquele caroço.

Telêmaco lembrava-se da mãe: praticante e incentivadora da generosidade para evolução da alma. Orações, entretanto, não eram suficientes para trazer malemolência aquele sistemático. Pois as preces iluminam o caminho do bem. Ser legal ou ser chato está muito além do bem e do mal. A alma de dr. Ulysses Padilha não atormentava os viventes com maldade. Apenas carimbava uma couraça de rotina à vida. Tinha a serventia de um relógio de pulso, seu tique taque um parafuso cada vez mais fundo ancorado no cérebro.

Tamanho dissabor provocou leve desespero. Telêmaco queria ajudar aquele espírito. Mas ignorava como proceder, já empregara os métodos usuais de auxílio às Almas. Além disso, era perceptível que o dr.Ulysses Padilha se afeiçoara a Telêmaco. Talvez por solidão do além-túmulo, o espírito se fazia sempre presente. Não dava brecha. Abandonou a psicografia, começou a possuir o corpo do médium, que jorrava um fluxo monótono e incontrolável de palavras. Seu dom desperdiçado em discursos entediantes em momentos estapafúrdios, como shows de rock, viagens de metrô, sessões de cinema. Os viventes perdiam a paciência para lidar com o médium.

Telêmaco, normalmente abstêmio, deu para beber. Esperava - quem sabe? - espantar aquele encosto. Mas o álcool tornava o médium mais suscetível a influência do espírito e durante os porres discursava em voz empolada sobre as qualidades políticas da conduta internacional de Café Filho ou a fórmula química da baquelite. Os bêbados escutavam extasiados àquele que subia na mesa para declamar longos discursos sobre a grandiosidade das coisas mesquinhas e a relevância dos detalhes desimportantes. Gritavam vivas e outros incentivos, apesar de não terem compreendido a maior parte do real assunto do discurso, mas dito assim, de forma tão aborrecida, certamente mereceria ser levada a sério.

Uma noite, já trançando as pernas, Telêmaco se perdeu. Caminhou pela madrugada sem encontrar o caminho de casa. Mas dr.Ulysses Padilha, que afinal, não era um mau espírito, procurou orientá-lo. A cidade mudara muito, com suas antenas luminosas cheias de parafusos e celulares cheios de botãozinhos. Andou pelas antigas ruas, saudoso da vida simples e dos vaga-lumes. Lá pelas tantas, a alma reconheceu a cadência e a batida de sambas antigos. Seguiu o batuque e encontrou uma porta aberta, cujo final da escadaria terminava em um Clube de Danças de Salão.

Hesitou antes de entrar, não era lugar que costumasse frequentar, mas eis que passava um grupo de senhoras sorridentes e gargalhantes, talvez um tanto esvoaçantes demais para a idade. Teve a impressão de reconhecer uma delas. Subiu a escadaria em sua perseguição. Lá em meio aos casais suados e rodopiantes redescobriu dona Leocádia, antiga paixão da adolescência. Ficou de longe a observá-la. Viu a transformação de Leocádia em uma senhora pingando de tanto dançar no salão, a sombra e o rímel escorrendo-lhe nas rugas. Mas ela era indiferente a estas máscaras: lambia os beiços até estalar após os copões de cerveja. A velha paixão reacendeu o peito incorpóreo de dr.Ulysses Padilha: fez Telêmaco abordar aquela viúva. Dona Leocádia admirou-se por um bebê como aquele parecer interessado nela. “És arqueólogo ou tão somente golpe do baú?”. Mas a vida para ela era curta demais para estas inconveniências. Conversaram muito e ela, sempre direta: “Como um menino como você pode ser tão chato?” e o puxou para o meio do Salão. Ele desculpou-se por não saber dançar, por estar tão bêbado e ela respondeu que era taxi-girl na juventude, tinha paciência com pés de chumbo e já vira bebuns em estado muito pior que o dele. E ela o conduziu para lá e para cá e o fez girar. Tanto que Telêmaco sentiu-se mal e vomitou. Mesmo assim, Leocádia não abandonou o garoto. Quando se cansava, pedia a uma de suas amigas que se encarregasse do rapaz: Cota, Leninha, Edwirges, Genoveva, Esmeraldina, Penélope. Cada uma delas explodindo de tesão do viver, apesar dos enterros, das artroses, das temporadas celibatárias, das varizes, da catarata, dos filhos que tomam dinheiro, das dentaduras, das noras vagabundas, dos remédios para evitar o que virá, dos netos invisíveis ou viciados, da solidão do rádio ou televisão no último volume pela madrugada.

A alma sentiu o desperdício de se atrelar.

Na noite seguinte, Telêmaco e dr.Ulysses Padilha estavam novamente no Clube. Dona Leocádia gostou de ver o rapazola. Eles chegaram, por conta própria, a mesma conclusão de Benjamin Franklin a respeito da mulher madura. Apesar disso, ela sempre ameaçava Telêmaco: “Se me passares para trás, te mato, filho da puta!” Depois de morta, a Alma submersa aprendeu a pirar e a respirar. Tirou o doutor e o Padilha do nome, conforme ela lhes ensinara: “Precisa de sobrenome quem não sabe conquistar respeito”. Telêmaco faleceria muitos anos depois de cirrose, mas até chegar lá, foi só alegria, alegria.













***(imagem do filme brasileiro "Chega de Saudade": clique na imagem para depoimento da Diretora Laís Bodansky. Conto criado para o tema do Encaixe-se de Setembro: Transe/Imersão)

terça-feira, 18 de agosto de 2009

"Love is these blues that I´m singing again"







Tasso pediu um tempo.

Homem não pede tempo, Renata sabia. Homem não precisa de tempo para refletir, ver o que quer de um relacionamento. Quem pede tempo são as mulheres. Mulheres: ansiedades e expectativas. Renata tinha certeza, ele arrumou outra. Mas ocultou suas suspeitas. Fixou-se nas ruas, nos faróis e lanternas dos automóveis, nas janelas apagadas dos edifícios, nas luzes coloridas no display do som. Ela perguntou se deveria esperar sua ligação, Tasso achava que sim, qualquer coisa ligaria no domingo ou segunda. Ele queria manter o vínculo. Renata concluiu que não era ainda uma coisa certa. Saiu do carro sem beijar e foi para seu apartamento. O veículo não esperou ela entrar para dar a partida.


Era madrugada, mas o pai ainda não chegara da Superintendência. Devia estar em alguma Operação Satiagraha da vida. Apesar da hora, Renata ligou o micro e foi para a Internet conferir o perfil de Tasso. Foto: ele sem camisa, rindo, óculos escuros sob o sol. Repassou a lista de amigos e os últimos recados. Selecionou duas ou três garotas. Mas o perfil delas era fechado para desconhecidos. Escapou um palavrão, não daria mais para resolver sozinha. O MSN confirmou que o melhor amigo de Tasso estava online. Era Fernandinho. Que está fazendo em casa? Não sabia que ele torcera o pé jogando Wii. Ficaria de molho no quarto um tempo.

Vou ficar aqui só pensando em você.

Fernandinho sempre quis comê-la. Mais de uma vez o flagrou espiando seu decote, os seios magros espremidos pelo sutiã. Durante uma viagem de Tasso a trabalho, eles se encontraram por acaso em um aniversário. Chegaram a dar uns amassos que não foram além de amassos. Fernandinho, bêbado de uísque e baleado pela maconha não deu conta do recado. Vivia pedindo outra chance, mas ela recusava.

Fernandinho confirmou qual das três meninas recebeu recado de Tasso. Dilma. Conhecia de nome. Tatuagem nas costas e piercing no clitóris. O irmão dela, Dirceu, era popular: o rei das rodinhas. Abastecia de ácido a faculdade, tinha uma namorada rica responsável por trazer os selos da Holanda. Renata perguntou se sabia onde morava Dilma. Fernandinho conseguiria descobrir, mas esta troca de favores poderia ficar cara. Renata teclou:

um pau pequeno como o seu não fará estrago kkkkk :p

Dia seguinte, Tasso estranhou que Dilma estivesse offline após o almoço. Ligava para ela e só caixa postal. Decidiu dirigir para a casa de Dilma. Ao chegar na rua, espantou-se ao ver a quantidade de carros da polícia. Reduziu a velocidade, mas evitou demonstrar interesse. Ao virar a esquina, ligou para Renata. Ela não atendeu o celular. Não queria ser interrompida.








***

quinta-feira, 9 de julho de 2009

dez dedos


(Grafite por Nunca)



Luís pediu Marisa em namoro. Ela recusou: explicou que se apaixonara pelo menino que sentava à sua frente no banco da igreja, durante as missas de domingo. Luís quis saber quem era o adversário. Descobriu: Inácio, filho do carroceiro. O rapaz perdera um dos dedos devido à dentada do Ernandez, um pangaré de costelas aparentes e cheio de berne que ajudava no sustento da família. Luís pediu ao irmão, empregado no açougue, que lhe cortasse o dedo em um golpe de cutelo. O irmão assentiu, ele já fora vítima das mesmas paixões da idade. Luís voltou a falar com Marisa e ela recusou pela segunda vez. Explicou: Inácio fora salvar uma vira-lata e seus filhotes do ataque de um pit bull pertencente ao capitão Ernesto. Os dentes do cão arrebentaram sua perna de um jeito que os médicos a amputaram. Luís chorou, mas não desistiu. Saltou o muro cheio de cacos de vidro do capitão Ernesto pronto para o sacrifício. O cão veio e lhe estraçalhou um braço e uma perna. As pessoas na cidade o apelidaram de Pirata. Foi bater à casa de Marisa. Ela estava de luto, véu e mantilha preta. Parecia uma velha. Antes de pedí-la em namoro, Luís perguntou sobre Inácio. Ela apontou para a urna sobre a mesa da sala e então contou-lhe:
Inácio se prontificou a resgatar o gato da dona Brasilina. O bichano subira numa das árvores da praça do coreto e não conseguia mais descer. Um toró se achegava. Quando estava para salvar, um raio caiu e incinerou Inácio. Restaram cinzas. Luís resignou-se: pegou um vidro de álcool e se imolou ali mesmo na sala de Marisa, derretendo parte da mobília. Depois de queimar tudo e antes dos pais chegarem, ela varreu as cinzas, misturou bem com as de Inácio, espalhou na cama como se fossem pétalas e deitou nua sobre o lençol vermelho, ela e todos seus dez dedos das mãos.








*
(Desenvolvido originalmente para o Encaixe-se - tema corpo)

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Achados


(Juan Gimenez)

a)As imagens dos "Telegramas":

Foram desenhadas por Tsutomu Nihei em ABARA, mangá que acabou de ser lançado pela Panini. A história não me agradou muito, pelo menos em sua primeira edição. Mas dos desenhos gostei. Tem bastante de H.R.Giger (o artista do Alien), um tempero acentuado de Phillip Druillet (quadrinista francês dos bons tempos da Heavy Metal), numa apresentação à la Katsushiro Otomo (Akira) com uma essência de Mignola (Mignola? Onde vi Mignola? Em uma conversa entre um crânio ciborgue e um esqueleto de pássaro. Me lembrou os diálogos com cara de "conversa-de-comadres" entre entes sobrenaturais de alguns trechos de Hellboy). Sua megalópole-favela impressiona.

Abara significa Costela em japonês e Abará é feito com a mesma massa que o acarajé, só que o primeiro é cozido, enquanto o tradicional acarajé é frito. Tsutomu é arquiteto e este foi meu primeiro contato com seu trabalho de traços nervosos e expressivos.

b)Juan Gimenez no Farrazine 11

-A infância molda o homem. No início dos anos 50, Juan Gimenez era um garoto que morava em Mar del Plata, ao sul de Buenos Aires. Entre seus amigos estava Cacho Fangio, filho daquele Fangio, campeão mundial de automobilismo. Não era incomum o pai visitar o filho em carrões suntuosos. Entre os garotos que frequentavam aquela turma, havia um que construía seus próprios carros de brinquedo ao invés de comprá-los numa loja. Este mesmo menino lhe mostrou pela primeira vez uma revista em quadrinhos: um número de Misterix. Máquinas e quadrinhos. Quem conheceu Juan Gimenez pela sua arte na Casta dos Metabarões, o grande épico-familiar-guerreiro-espacial escrito por Alejandro Jodorowsky sabe: um dos destaques de sua bela arte são as espaçonaves, as máquinas, os motores, os robôs, pesados, metálicos, consistentes. Para uma entrevista com Juan Gimenez, leia Farrazine 11 (no Issuu: aqui )

-Fora isto, dê uma olhada também neste post de Mainardi no Farrazine sobre o herói italiano do sobrenatural, Dylan Dog e os dois filmes a seu respeito.

-Tem também um texto meu sobre o Godzilla.

c)Encaixe-se

- O conto “pequeno infinito” foi criado graças ou por culpa do blog do Labirintos no Sotão que deu a deixa: a artista plástica Gina Dinucci criou um blog-jogo-projeto-coletivo (“encaixe” como lhe aprouver).
Funciona assim: Temas serão jogados no ar e quem pegar contribuirá com sua peça. Todas as linguagens serão bem vindas e irão formar um grande JOGO de ENCAIXE, sem perdedores, sem ganhadores. O próximo tema deverá encaixar-se ao tema anterior, formando assim um JOGO INFINITO.
O tema do primeiro encaixe-se é: INFINITO. Tem mais gente participando.
Conheça melhor a proposta acessando:
http://encaixe-se.blogspot.com/ ou envie a sua proposta para: ginad0711@yahoo.com.br

quinta-feira, 4 de junho de 2009

pequeno infinito




Sei que é uma forma bastante subjetiva de enxergar, mas qualquer coisa acima do que se possa contar já é um infinito. Portanto, para mim, que nunca consegui contar até 1000, 1000 é um infinito. Quando criança, me pediam para ir até cem, antes de começar a procurar os outros no esconde-esconde. Eu acelerava cada vez mais a contagem, enquanto escutava as risadinhas e os gemidos nas minhas costas, alguém reclamava e mandava que eu gritasse os números mais alto e eu gritava a sequência numérica, os olhos abertos fitando os braços, na esperança de pegar alguma sombra que revelasse os movimentos. Adrenalina no sangue, gritava Lá vou eu! Um dia, minha mãe me chamou antes de terminar a contagem. Já era noite, cheiro da janta no ar. Fui embora, não os avisei que a brincadeira terminara. Durante a madrugada, os pais bateram à porta de casa. Eram as mães preocupadas com os filhos que não voltaram para casa. Os dias passaram e eles nunca reapareceram. Acharam que era culpa minha e fico pensando se não foi. Tenho medo de um dia olhar debaixo da cama e encontrar um deles, preservado, ainda criança. Talvez isto ainda aconteça. Acho que eles estão lá escondidos, no infinito.

















terça-feira, 17 de março de 2009

contabilidade






pela lei natural dos encontros,

eu perco/recebo tanto.

Mistério do Planeta, Os Novos Baianos


Zilma não saiu de casa naquele dia.



Deixou de encontrar o assaltante Alexandre que aproveitaria um descuido para levar-lhe a carteira. Uma quadrilha usaria seus documento em golpes por anos em um outro Estado. Zilma ficaria com o nome sujo. Aguardaria mais que os demais clientes na mesa de análise de crédito até finalmente ser recusada, a despeito de seus protestos. E então numa destas vezes, acabaria se apaixonando pelo funcionário da loja de eletrodomésticos, um sergipano chamado Serapião. Casariam-se e, depois de serem felizes, ele acabaria trocando-a por Giane, uma antiga namorada que conhecera no hospital, enquanto acompanhava sua mãe, vítima de um derrame. Mas talvez não encontrasse o assaltante Alexandre, porque no caminho pararia no supermercado apenas para comprar o que precisava. Diante da abundância de marcas e produtos coloridos, ficaria absorvida mais tempo que o necessário e o encontro com o assaltante não aconteceria. O Alexandre roubaria então um comerciante: na hora de fugir, atravessaria a rua em disparada, e um buraco no asfalto o faria cair sob as rodas de um ônibus. Dentre os passageiros, estaria o desempregado Antônio Coelho que, por conta do acidente, chegaria atrasado ao encontro com sua futura namorada e posterior mãe de seu primeiro filho. O atraso complicaria tudo, Alice receberia um torpedo do seu ex e acabaria desistindo do encontro. Mas a presença de Zilma no supermercado pouparia o ladrão, pois na fila engataria conversa com uma senhora aposentada, dona Tércia. Durante o diálogo que não houve sobre os preços que nunca são satisfatórios, dona Tércia relembraria a falta de material de limpeza. Ela sairia da fila do caixa, ficaria mais tempo no supermercado, e então encontraria Alexandre. Como não houve conversa, dona Tércia só perceberia a falta de material de limpeza no dia seguinte, dia da empregada. Que se chamava Giane e estava apaixonada por um sergipano chamado Serapião. E trabalhava para um português, pai de Antônio Coelho. Que chegou em tempo para o encontro, mas flagrou Alice respondendo ao torpedo. Aquilo gerou uma dúvida, que impediria o namoro de ir mais longe: transaram uma única vez, usando camisinha. E a criança que não nasceu, não se tornaria policial e não salvaria um garoto de afogamento que por sua vez, se tornaria um psicopata, assassino de sete mulheres chamadas Maria, os corpos abandonados à beira de um rio: os jornais chamariam o menino de Cabeça-de-Cuia, uma referência a um monstro folclórico que jamais existiu, por mais que as pessoas insistissem.



Mas Zilma não saiu de casa naquele dia; o homem que a amara na noite anterior a convencera disso. O mesmo homem que revelara o significado de seu nome: escuridão.












quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Zerografia



19 de janeiro

Em 19 de janeiro de 1981, Estados Unidos e Irã assinaram acordo para a libertação de 52 norte-americanos mantidos como reféns por mais de 14 meses. Em 19 de janeiro de 1910, um incêndio destruiu o palácio de Cheregan, em Constantinopla, sede do Parlamento turco. Em 19 de janeiro de 1982, morreu Elis Regina, em São Paulo, por intoxicação exógena aguda. Em 19 de janeiro de 379, Teodósio I tornou-se o imperador do Império Bizantino. Em 19 de janeiro de 1961, inaugurou-se a Rodovia Presidente Dutra. Em 19 de janeiro de 2004, foi lançado o Orkut. Em 19 de janeiro de 1794, os ingleses desembaracaram na Córsega, cuja bandeira é a de um negro com uma bandana na cabeça. Em 19 de janeiro de 1809, nascia em Boston, Estados Unidos, pesando 2.670 gramas e medindo 40 cm, Edgar Allan Poe. Coincidência ou não, 40 anos depois, em 03 de outubro de 1849, foi encontrado nas ruas de Baltimore, com roupas que não eram as suas, cego de um olho e em estado de delirium tremens. Faleceu quatro dias depois, sem jamais explicar de forma coerente o que lhe acontecera. Suas últimas palavras, segundo o Wikipedia, foram: "Está tudo acabado: escrevam Eddy já não existe». Após seu falecimento, de acordo com o relatório médico do Washington College Hospital, transformou-se em Corvo e saiu voando pela janela pra combater a injustiça e provocar a morte de Brandon Lee mais de um século depois, em um acidente misterioso e estúpido.










(Desenho surrupiado do Corvo é do Rafael Grampá: visite seu blogue http://furrywater.wordpress.com/ e compre Mesmo Delivery, da editora Desiderata. Aquilo que é "verídico" extraído da Wikipedia: foi meio por acaso, pois assim surgiram estas linhas)