sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Onirogrito e Achados






Tenho dado pouca atenção ao blog, um pouco porque o "mercado do blog" faliu... Ao menos, é o que parece acontecer aqui. Já li que em alguns países, especialmente uns do Oriente Médio, como o Irã, eles ainda conseguem chamar a atenção... Mas fiquei sabendo que a coisa anda braba por lá também.

Todo mundo correu para o Facebook, mas mesmo no Facebook ando sem muita paciência. Mas quem quiser, pode me procurar por lá.

Eu não sei se lamento ou comemoro esse desenvolvimento dada a quantidade de bobões que sentem a necessidade de se pronunciar sobre qualquer coisa... ou de falsos especialistas, ou de reis dos clichês, ou das reis das piadinhas de 2 segundos e assim por diante.

Não me excluo desses bobões.

E, muitas vezes, eles nem são tão bobões assim. Mas é como jogar aviõezinhos de papel no vento e torcer para muita gente pegar e seguir adiante. Quem sabe assim chega na China? Ou na Finlândia?

* * *

A verdade é que a Internet tornou-se mais um meio de comunicação do que uma fonte de conteúdo. Teoricamente, os geradores de conteúdo - por sua raridade - se tornaram mais "valiosos". Não é bem verdade: a figura que desponta é a do "curador de conteúdo". Vejam o caso do sujeito que cobra entrada para acessar Grupos de Whatzap...

Faz sentido. Mesmo no mundo físico da economia, a regra diz que o intermediário - aquele que traz o produto para perto do consumidor - lucra muito mais que o produtor. Digo por mim mesmo: gosto de produzir minhas histórias, mas tenho pouco saco para lidar com o "resto".

Talvez a leitura mais indicada para entender o mundo internáutico seja o site do YouPix. Eles se reinventaram uns anos atrás e ficou bem mais maduro. Desconfio que a audiência reduziu, mas ficou bem melhor.

* * *

Existem uns poucos blogues que ainda consigo seguir mais ou menos bem. Um ou outro "tema livre" como o Mundo Fantasmo de Braúlio Tavares, mas a maioria gira ao redor de alguns temas, como o Belogue da Beluga... ou até o Mirante dos Infinitos do Caio Silveira Ramos.

Lembro de um livro da Indigo, O Colapso dos Bibelôs (Moderna), que imagina os efeitos de uma queda definitiva na rede. O design da edição é bem interessante, orientação paisagem, as páginas simulando um blog, etc. Em certo ponto da história, as pessoas desesperadas tentam substituir os blogues criaram uma espécie de painel de recados imenso no qual colavam qualquer coisa. A ideia é divertida, mas duvido que acontecesse algo assim.

A rede tem mais a ver com mundo externo do jeito que sempre foi... mas nunca ninguém percebeu ou escreveu a respeito porque não havia como "anotar".




Um outro motivo - na verdade, melhor  motivo- pelo qual tenho dado pouca atenção ao meu blog da Toca é que andei publicando uma série no finado (mas ainda disponível) blog coletivo Quotidianos, de Rober Pinheiro.

Lá criei várias pequenas histórias ao redor do personagem Zenon, o último ascensorista. Passe lá, nesse link. Depois de ler, desça até "posts mais antigos" para abrir as histórias anteriores.



Abs



PS1: Mas não cancelei o blog não. Só não esperem grande movimento. Vou continuar na minha, sem alardes. Até porque se "gritar mais alto não funciona", gritar sempre também não


PS2: Movimento tem no "Escritores de Segunda", onde copio e colo dicas e regras mensais sobre criação de histórias... É só uma pasta de recortes, então não espere muita organização


(A ilustração é de Fernando de Sousa Lima para um dos contos de Zenon).

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Telegrama



O cérebro do meu irmão



 
Worth passou aquela noite – e o segundo dia e a noite seguinte – em coma. Não havia nenhum sinal exterior de mudança, mas as máquinas começaram a detectar indícios de crescente atividade cerebral. O neurocirurgião, um irlandês, nos explicou – no que deve ter sido, para ele, como falar com crianças – que o cérebro é um dispositivo elétrico em si, e que os volts que haviam emanado de seu velho amplificador Gibson do meu irmão e traumatizado seu corpo estavam como que correndo ao redor de seu crânio. Havia uma chance razoável, disse o médico, de ele sair do como, mas era impossível saber quem sairia dali. Lembro do período de espera como uma gororoba, alento cauteloso de enfermeiras e a inquietante presença do meu irmão estirado na cama, feito um oráculo que poderia responder a todas nossas perguntas mas se recusava a falar. A gente se revezava no quarto como turistas circulando por um museu.

“No terceiro dia” (...), Worth acordou. As enfermeiras nos conduziram ao quarto, seus rostos quase orgulhosos, e nós o encontramos sentado – delicadamente apoiado sobre os cotovelos, com os olhos pesados, como se a qualquer momento pudesse decidir que preferia o coma e mergulhar de volta nele. Seu rosto se iluminava como o de um pateta a cada vez que um de nós entrava no quarto, e ele nos cumprimentava com uma voz áspera, quase inaudível. Ele nos reconhecia, mas não tinha a menor ideia do que fazíamos ali, ou de onde era “ali” – apesar de ter criado teorias a esse a esse respeito durante as duas semanas seguintes, entre as quais se destacavam uma festa de casamento, um jogo de pôquer de escola e algum tipo de cela de delegacia.

Ao longo dos anos, tentei várias vezes descrever para os outros quem era a pessoa que acordou daquela quase morte por eletrocussão, e que permaneceu entre nós por quase um mês antes de voltar a ser a pessoa que a gente conhecia e hoje conhece. Seria bem fácil dizer “era-como-se-ele-estivesse-louco-de-ácido”, mas isso não seria exatamente verdade. Ele parecia estar numa dessas viagens de ácido imaginárias, daquelas que fingimos ter no colegial, antes de ter experimentado a coisa e descoberto que ela era ligeiramente menos mágica do que parecia: “Nossa, cara, seu nariz parece tipo uma estrela...” Ele tinha estado lá. Meu pai e eu mantivemos anotações sobre ele, sem saber que o outro estava fazendo, tentando registrar todas as pequenas revelações de Worth antes de se perderem. Tenho aqui minha própria lista aqui na minha frente. Daria para começar de qualquer parte. Vou transcrever algumas coisas:


Espremeu minha mão na madrugada do dia 23. Sussurrou: “Essa é a experiência humana”.


Enquanto almoçava no dia 24, subitamente se convenceu de que eu estava me fazendo passar pelo seu irmão. Pediu para ver minha identidade. Perguntou: “Por que você tá fingindo que é o John?” Quando retruquei, “mas, Worth, eu não pareço com o John?”, ele respondeu “Você é igualzinho a ele. Não é à toa que consegue enganar todo mundo”.


No dia 25, levantou-se durante o almoço, apesar das minhas tentativas de contê-lo, derramando o conteúdo da bandeja. Deu uma olhada nas minhas mãos, que apertavam seus ombros e disse: “Eu não sinto... repulsa... pelo amor entre homens. Mas não é minha praia”.


Tarde do dia 25. Espiando os próprios pés na cama, observou: “Daria uma boa foto – Pés na Fumaça”.


(...)


Noite do dia 26. Tentou me acertar um soco com toda a força enquanto eu tentava, com o pai e o tio John, segurá-lo na cama. Errou por centímetros. Os tubos soltaram-se de seus braços. Seus olhos estavam aterrorizados e indefesos. Acho que pensou que fôssemos um bando de fascistas.

Noite do dia 27. Inesperadamente pulou da cadeira, expressão perplexa no rosto, e correu até a parede. Tateou uma pequena área da parede, como se fosse um cego. Virou-se. Perguntou “Cadê a piñata?”Arrastou-se para o corredor. Viu uma enfermeira enorme que se afastava. Sussurrou “Vou ficar bem puto se ela tiver pegado nossa pinhata”


A experiência foi da tragédia para a tragicomédia e depois para a simples farsa num movimento contínuo, o que torna difícil apontar quando foi que uma coisa virou outra. Ele era o bêbado mais encantador do mundo – eu tinha que acompanhá-lo pelo hospital para evitar que caísse, já que não conseguia parar de se mexer, não se concentrava em nada por mais de um segundo. Ele se transformou num santo louco. Olhava para a palma da mão, onde a corda e o traste haviam desenhado uma cruz vermelha na pele, e dizia “Ei, se não fossem as formigas rastejando, isso aqui seria um estigma”. Apresentou minha mãe e meu pai como se não se conhecessem, dizendo “Mãe, este é meu pai; pai, esta é Dixie Jean”. (...)

Outra enfermeira, quando perguntei se Worth voltaria ao normal, disse “Talvez, mas não seria maravilhoso se ficasse desse jeito?”. Tinha razão; ela me colocou no lugar. Não havia nada mais estimulante ou engraçado que assistir ao espetáculo do cérebro do meu irmão reconstruindo a realidade. Como vários outros, eu sempre acreditei (numa espécie de hobbesianismo barato) que o centro do cérebro, se fosse possível acessá-lo, seria inevitavelmente um lugar bem sombrio – o que quer que exista de bom ou belo num ser humano seria resultado de sua luta contra tudo o que lhe é inato, contra sua natureza física. Meu irmão mudou minha opinião. Ali estava uma consciência reduzida à sua matéria básica, a um baile de sinapses crepitantes – palavras que ele sabia usar, mas não conseguia conectar às coisas certas; objetos novos e estranhos para os quais tinha que inventar nomes; pessoas desconhecidas que se aproximavam e se afastavam como campos de energia – e era um bom lugar para se estar, até mesmo... um lugar poético. Ele havia tocado a morte, ou a morte o havia tocado, mas ele não parecia achar a vida menos interessante por ter passado por isso.


Trecho de “Pés na Fumaça” - John Jeremiah Sullivan, em Pulphead (Cia das Letras)

domingo, 20 de dezembro de 2015

Telegrama



When I find myself in times of trouble
Mother Mary comes to me
Speaking words of wisdom
Let it be

And in my hour of darkness
She is standing right in front of me
Speaking words of wisdom
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be

When all the broken hearted people
Living in the world agree
There will be an answer
Let it be

For though they may be parted there is
Still a chance that they will see
There will be an answer
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be an answer
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be an answer
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be an answer
Let it be

And when the night is cloudy
There is still a light that shines on me
Shine on until tomorrow
Let it be

I wake up to the sound of music
Mother Mary comes to me
There will be no sorrow
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
There will be no sorrow
Let it be

Let it be, let it be
Let it be, let it be
Whisper words of wisdom
Let it be

sábado, 28 de novembro de 2015

Telegrama





Os gigantes de Frederico Guilherme



Em sua vida pessoal, Frederico Guilherme I era um homem curioso e infeliz. Excêntrico, caseiro, apoplético, tirano, detestava tudo o que seu pai adorava, especialmente tudo relacionado à França. Frederico Guilherme I desprezava o povo, a língua, a cultura e até mesmo a comida do país do Rei Sol. Quando criminosos eram enforcados, o rei os fazia colocar roupas francesas. Superficialmente, Frederico Guilherme era um simples monarca protestante, um marido fiel, um pai enfadonho e burguês. Fez sua corte deixar de lado as afetações, vendendo a maior parte dos móveis e das joias de seu pai e dispensando a maioria dos cortesões. Apaixonou-se por e casou com sua prima de primeiro grau de Hanover, Sofia Doroteia (...). Referia-se a ela como “minha esposa” em vez de “a rainha” e a seu filho como “Fritz” em vez de o “herdeiro do trono”. Todas as noites ceava com a família.

O que estragava essa bela cena doméstica eram os ataques violentos de raiva de Frederico Guilherme. De forma totalmente repentina, ele atacava brutalmente seus filhos ou qualquer pessoa que estivesse por perto. Furioso por comentários pequenos e inofensivos, ou até mesmo por olhares, ele começava a agitar sua bengala de madeira, atingindo os rostos das pessoas, quebrando-lhes o nariz ou os dentes. Quando ele agia dessa forma nas ruas de Berlim, a vítima não podia fazer nada; se resistisse ou contra-atacasse, seria punida com a morte. A explicação aparente para esses ataques era a porfíria (...). Um desarranjo do metabolismo cujos sintomas são gota, enxaquecas, abscessos, furúnculos, hemorroidas e dores terríveis no estômago, a doença fazia o rei mergulhar em agonia e passar por momentos de insanidade. Frederico Guilherme se tornou muito gordo, seus olhos ficaram arregalados e sua pele brilhava como marfim polido. Buscando distração desses tormentos, aprendeu a pintar e passou a assinar suas telas como FW in tormentis pinxit. Todas as noites após o jantar, convocava seus ministros e generais para beberem jarros de cerveja e fumarem longos cachimbos. Nessas grosseiras reuniões masculinas, os líderes da Prússia se divertiam provocando e atormentando um pedante historiador da corte, em quem certa vez atearam fogo.

A mais famosa obsessão do monarca era sua coleção de gigantes, pela qual ele era famoso em toda a Europa. Conhecidos como Prussianos Azuis ou Gigantes de Postdam, somavam mais de 1.200, organizados em dois batalhões de seiscentos homens cada. Nenhum tinha menos de 1,83 de altura, e alguns, na especial Unidade Vermelha do Primeiro Batalhão, mediam quase 2,10 metros de altura. O rei os vestia com jaquetas azuis com costuras douradas e lapelas escarlates, calças escarlates, meias brancas, sapatos pretos e chapéus vermelhos e altos. Entregava-lhes mosquetes, com bandeirolas e pequenas adagas, e brincava com eles como uma criança faria com enormes brinquedos vivos. Nenhuma despesa era alta (SIC) demais para esse hobby, e Frederico Guilherme gastava milhões para recrutar e equipar seus granadeiros gigantes, que eram contratados ou comprados por toda a Europa. Os exemplares especialmente desejados que recusavam a oferta de recrutamento dos agentes do rei eram simplesmente sequestrados. Por fim, o recrutamento dessa forma tornou-se caro demais – um irlandês de 2,15 metros custava mais de seis mil libras – e Frederico Guilherme passou a tentar criar gigantes. Todos os homens altos de seu reino foram forçados a se casar com mulheres altas. O problema era que o rei precisava esperar quinze ou vinte anos até os produtos dessas uniões crescerem, e frequentemente o resultado era um garoto ou garota de altura normal. O método mais simples para se obter gigantes era recebe-los como presentes. Embaixadores estrangeiros aconselharam seus mestres sobre a forma de conseguir favores do Rei da Prússia: presenteá-lo com gigantes. (O czar) Pedro apreciava especialmente o interesse de seu colega soberano nas raridades da natureza, e a Rússia oferecia ao rei cinquenta novos gigantes todos os anos. (...)

É desnecessário dizer que o rei nunca arriscou seus queridos colossos diante de inimigos em batalha. Em troca, os gigantes ofereciam grande deleite ao monarca. Quando ele estava doente ou deprimido, os dois batalhões inteiros, precedidos por mouros com turbante e címbalos e trombetas, e o mascote dos granadeiros, um enorme urso, marchavam em uma longa fila pelos aposentos do rei para animá-lo.


Trecho da maravilhosa biografia "Pedro, o Grande - sua vida e seu mundo" de Robert K. Massie

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Telegrama

O paraíso imperfeito





(Augusto Monterroso)




-É verdade - disse melancolicamente o homem, sem tirar os olhos das chamas que ardiam na lareira daquela noite de inverno - ; no Paraíso existem amigos, música, alguns livros; o único mal de ir para o Céu é que dali não se vê o Céu.





(Extraído de "A Ovelha Negra e outras Fábulas", Cosac Naify. Imagem "Nuvem Perfurada" ou Fallstreak hole)

domingo, 18 de outubro de 2015

Telegrama




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(Max Aub)

A formiga odiava o leão. Demorou dez mil anos, mas ela o comeu todo, pouco a pouco, sem que ele percebesse.









(Extraído de "Crimes Exemplares" (Amauta Editorial))

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Telegrama



Histórias recontadas




a)Bolaño em "Detetives Selvagens"



Felipe Müller, sentado num banco da praça Martorell, Barcelona, outubro de 1991. Tenho quase certeza de que quem me contou essa história foi Arturo Belano, porque ele era o único entre nós que lia com prazer livros de ficção científica. É, pelo que me disse, um conto de Theodore Sturgeon, mas pode ser que seja de outro autor ou até do próprio Arturo, para mim o nome Theodore Sturgeon não significa nada.
A história, uma história de amor, fala de uma moça extremamente rica e muito inteligente que um belo dia se apaixona por seu jardineiro, ou pelo filho do jardineiro, ou por um jovem vagabundo que por acaso vai bater numa de suas propriedades e se torna seu jardineiro. A moça, que além de rica e inteligente é voluntariosa e caprichosa, na primeira oportunidade leva o rapaz para a cama e, sem saber muito bem como, se apaixona perdidamente por ele. O vagabundo, que não é nem de longe tão inteligente quanto ela e não tem estudo, mas que em compensação é de uma pureza angelical, também se apaixona por ela, não sem que surjam, como é natural, algumas complicações. Na primeira fase do romance eles vivem na luxuosa mansão dela, onde ambos se dedicam a ler livros de arte, a comer pratos requintados, a assistir a velhos filmes e, principalmente, a fazer amor o dia todo. Depois, residem por um tempo na casa do jardineiro da mansão, depois num barco (talvez numa das péniches que navegam pelos rios da França, como no filme de Jean Vigo), depois vagam ambos pela vasta geografia dos Estados Unidos montados em suas Harleys, o que era um dos sonhos do vagabundo.
Os negócios da moça, enquanto ela vive seu amor, continuam se multiplicando e, como dinheiro chama dinheiro, a cada dia que passa maior é sua fortuna. Evidentemente, o vagabundo, que não está a par de grande coisa, tem decência suficiente para convencê-la a dedicar parte de sua fortuna em obras sociais ou beneficentes (coisa que, por sinal, a moça sempre fizera, por meio de advogados e uma rede de variadas fundações, mas não diz nada, para que ele acredite que ela o faz por sugestão dele) e depois se esquece totalmente, porque no fundo o vagabundo só tem uma ideia aproximada do volume de dinheiro que se move como uma sombra atrás de sua amada. Enfim, por um tempo, meses, talvez um ano ou dois, a moça milionária e seu amante são indescritivelmente felizes. Mas um dia (ou entardecer), o vagabundo fica doente, e, embora os melhores médicos do mundo venham examiná-lo, nada se pode fazer, seu organismo está se ressentindo de uma infância miserável, de uma adolescência cheia de privações, de uma vida agitada que o pouco tempo passado em companhia da moça mal conseguiu paliar ou mitigar. Apesar dos esforços da ciência, um câncer terminal acaba com sua vida.
Por um tempo, a moça parece enlouquecer. Viaja por todo o planeta, tem amantes e se mete em histórias sinistras. Mas acaba voltando para casa e, pouco depois, quando parece mais consumida do que nunca, decide empreender um projeto que de alguma maneira havia começado a germinar em sua mente pouco antes da morte do vagabundo. Uma equipe de cientistas se instala em sua mansão. Num tempo recorde, a mansão se transforma duplamente, na parte interna, num laboratório avançado e, na externa — jardins e casa do jardineiro — numa réplica do Éden. Para proteger o local do olhar de estranhos, um muro altíssimo é levantado em torno da propriedade. Começam os trabalhos. Em pouco tempo, os cientistas implantam no óvulo de uma puta, que será generosamente recompensada, um clone do vagabundo. Nove meses depois, a puta tem um filho, ela o entrega à moça e desaparece.
Durante cinco anos, a moça e um exército de especialistas cuidam do menino. Passado esse tempo, os cientistas implantam num óvulo da moça um clone dela mesma. Nove meses depois a moça tem uma menina. O laboratório da mansão é desmontado, os cientistas desaparecem e são substituídos por educadores, artistas-tutores que observarão a certa distância o crescimento das duas crianças, conforme um plano previamente traçado pela moça. Quando tudo está em funcionamento, ela recomeça a viajar, volta às festas da alta sociedade, mergulha de cabeça em aventuras arriscadas, tem amantes, seu nome brilha como o de uma estrela. Mas de tempo em tempo, e cercada pelo maior segredo, regressa à sua mansão e observa, sem que vejam, o crescimento das crianças. O clone do vagabundo é uma réplica exata dele, a mesma pureza, a mesma inocência pela qual ela se apaixonara. Só que agora ele tem todas as suas necessidades satisfeitas, e sua infância é uma plácida sucessão de brincadeiras e de mestres que o instruem em tudo que é necessário. O clone da menina é uma réplica exata dela mesma, e os educadores repetem os mesmos acertos e erros, os mesmos gestos do passado.
A moça, evidentemente, raras vezes se deixa ver pelas crianças, embora ocasionalmente o clone do vagabundo, que nunca se cansa de brincar e é medroso, a enxerga através das cortinas dos andares de cima da mansão e vai correndo procurá-la, sempre em vão.
Os anos se passam, as crianças crescem e se tornam cada dia mais inseparáveis. Um dia a milionária adoece, sei lá por quê, um vírus mortal, um câncer, e, após uma resistência puramente formal, começa a definhar e a se preparar para morrer. Ainda é jovem, tem quarenta e dois anos. Seus únicos herdeiros são os dois clones, e ela deixa tudo preparado para que eles recebam parte de sua imensa fortuna no momento em que contraírem casamento. Por fim ela morre, seus advogados e cientistas a choram amargamente.
O conto termina com uma reunião de seus empregados, após a leitura do testamento. Alguns, os mais inocentes, os mais distantes do círculo interno da milionária, levantam perguntas que Sturgeon supõe que seus leitores possam levantar. E se os clones não quiserem se casar? E se o rapaz ou a moça se amam, como parece incontestável, e esse amor nunca atravessar a fronteira do estritamente fraternal? A vida deles não irá se arruinar? Vão ser obrigados a conviver como dois condenados à prisão perpétua?
Surgem discussões e debates. São levantados aspectos morais, éticos. O advogado e o cientista mais velho, não obstante, logo se encarregam de desfazer as dúvidas. Se os jovens não vierem a se casar, se não se apaixonarem, será dado a eles o dinheiro que lhes cabe e serão livres para fazer o que desejarem. Independentemente de como se desenvolva a relação dos dois, os cientistas implantarão no corpo de uma doadora, no prazo de um ano, um novo clone do vagabundo e, cinco anos depois, repetirão a operação com um novo clone da milionária. E, quando esses novos clones tiverem vinte e três e dezoito anos, qualquer que seja a relação estabelecida entre eles, isto é, quer se amem como irmãos ou como amantes, os cientistas ou os sucessores dos cientistas tornarão a implantar outros dois clones, e assim por diante até o fim dos tempos ou até a imensa fortuna da milionária se esgotar.
Nesse ponto o conto acaba. No crepúsculo se desenham o rosto da milionária e o do vagabundo, depois as estrelas, depois o infinito. Um pouquinho sinistro, não? Um pouquinho sublime e um pouquinho sinistro. Como em todo amor louco, não? Se ao infinito se acrescentar mais infinito, o resultado será o infinito. Se você juntar o sublime ao sinistro, o resultado será sinistro. Não?



(Segundo apurações via google, o conto de Sturgeon é "When you care, when you love" (1962))


b)Pais e Filhas, Érico Assis (no blog da Cia)


c)Retold Stories in Literature