quinta-feira, 31 de outubro de 2019

Contos & Causos do Pinheirão

anjinhos do paraíso e da consolação






Bom dia. Peço dez centavos pra comprar feijão pros meus irmão. Deus lhe pague. Obrigado.

Gabriel rasgava o sulfite em quadradinhos, nas linhas das molduras impressas. Fazia vários maços pequenos com os papéis e se preparava para dividir com os menores. Explicava porque era melhor fazer à mão. O recorte não devia ficar exato.

− Quanto menos certinho, melhor. Eles têm que achar que a gente não sabe fazer as coisas direito. Eles têm que ter pena da gente.

Os demais irmãos pequenos, Uriel, Ezequiel, Sarapatel, Xanael, Alael, nenhum dos outros sabia ler. Ou lia daquele jeito robótico, palavra por palavra primeiro, tudo de uma vez depois, tentando acertar a entonação. Samuel, entretanto, sabia ler. Era um conhecimento secreto: Samuel sabia ler, mas não contava a ninguém.

(Naquela época era melhor ser igual aos demais. Quando a adolescência chegasse, afirmaria ter aprendido sozinho com livros jogados e perdidos pelo Pinheirão. Qualquer coisa escrita servia. Rabiscos pelas paredes, a Bíblia, gibis, playboy, relatórios financeiros e um manual de manutenção de empilhadeiras. Quando deixou de ser segredo, virou milagre.)

O caçula Zefiel estava inseguro, como todos os outros. Mas foi o único ingênuo o bastante para confessar seu medo:

− Eu nunca peguei metrô, e se me perder lá dentro?

Gabriel deu um tapa na orelha do pequeno (Larga mão de ser cuzão, moleque, é só olhar para cima e procurar o Pinheirão no horizonte; e era verdade, por toda a cidade se via a imensa silhueta da nova ruína). Ignorando o choro, continuou a distribuir os bilhetes para pedirem esmola dentre os passageiros do metrô. Enquanto fazia isso, relembrava os velhos tempos.

− A gente rabiscava histórias bem tristes, mãe com câncer, pai preso, eu tenho aids, eu vou morrer daqui a uma semana, daí xerocava, dava aos passageiros no vagão da Sé e recolhia antes de chegar na Luz. O povo se acostumara com os pedintes fazendo discurso, aquela cantilena triste não emocionava mais. Mas então eles viam o papelzinho amassado, a letra tudo errada, acho que pensavam nos filhos, eu lá magrelinho, sujo e de chinelo, daí se comoviam e davam dinheiro. Arrumei até uma foda naquele tempo. Depois ela me deu banho, pagou até pizza, eu devia levar para alimentar meus pais, hahahahahaha, comi tudo na calçada, dividi com o Miguel e o Serafim, hahahahahaha.

Os pequenos riram perante a palavra foda, até mesmo Samuel. Acompanhava aos demais, não queria ser diferente. Na época, até andava. Ele percebeu – de uma forma inconsciente, irrefletida - que o bilhete atual era bem mais objetivo, não contava história alguma. Talvez não fizesse mais diferença.

− E se os urubu tentarem te pegar, vocês corre, não deixa te pegar, senão vocês vão tudo pará na Fundação e os mais velho vão querer seu cu para comer se dó e vocês vão chupar pinto até a língua ficar lisa, então vocês correm o máximo que der, mas se mesmo assim pegarem, vocês tem que contar história triste, mente uma coisa qualquer, que o pai tá preso, que a mãe tá cega, quanto mais triste melhor, mais fácil deles crer, hahahahaha.

Gabriel prosseguiu com suas instruções e estratégias, não desejava o mal dos menores. Afinal, além de parentes, eram seu sustento. Gostava mesmo dos guris. Com exceção de Samuel. De todos, foi o que menos apanhou. Por mais que tentasse disfarçar, sempre ali, na escuta, ligeiro, pensando. Não foi ele que quis saber como eles poderiam ser irmãos, um ser preto café e outro preto chocolate e outro leite? Naquele dia, Samuel apanhou feio. Depois foram só umas leves.

Apesar das instruções de que deveriam ficar distantes uns dos outros, para dificultar o trabalho dos funcionários do metrô, Samuel não conseguiu largar o menor. Sabia do medo de Zefiel de lugares fechados. Uma vez ele quase morreu brincando de esconde-esconde e desde aquele dia se apavorava ao se ver preso. Daí os dois andavam sempre juntos, quase namorados, ele dando a mão para o menino.

Apesar disso, o garoto menor continuou muito inseguro. Samuel teve uma ideia:

− Vamos fazer o seguinte: a gente divide o chinelo. Eu fico com o direito e você com o esquerdo. Aí ninguém vai conseguir separar a gente.

Eles desapareciam em meio aos cardumes de engravatados e estudantes, evitando as câmeras de segurança. Os grandes nem os percebiam, concentrados em seu próprio mundo, ou até espiavam, meio distraídos, como quem acompanha mosca. Longe de Gabriel e dos outros irmãos, Samuel se tornara menos tímido e tomava a dianteira na distribuição dos bilhetes. Zefiel seguia de perto, mancando um pouco, devido à ausência de uma das sandálias. Evitava particularmente as janelas do vagão, com aquele troar monstruoso e as luzes velozes do túnel. Buscava se concentrar no piso ou nas costas do parceiro.

Depois de entregarem os papeizinhos, Samuel improvisava um breve discurso, uma peça viva e divertida, nada decorado. Alguns passageiros até riam da irreverência do pequeno. Samuel se esforçava para fazer o melhor, sabia que sua féria teria que ser o suficiente para os dois. Os meninos, entretanto, ignoravam a presença de um agente disfarçado do metrô dentro do vagão.

Quando a porta se abriu, vários seguranças entraram por um lado e Samuel, atento com o que ocorria do lado de fora, gritou sujou sujou. Os dois correram para a plataforma, largando os bilhetes que se espalharam alegres feito confete no carnaval. Samuel disparou para um lado, atravessou pernas, pastas e sacolas e vazou entre as catracas. Ofegante, olhou para trás, imaginando que o irmão estivesse logo atrás.

Ficou do lado de fora da Estação aguardando em meio aos curiosos que se ajuntavam ao redor das viaturas. De longe, reconheceu entre o horizonte de prédios, a sombra do Pinheirão. Cogitou em pedir ali, entre a aglomeração, garantir um pouco mais de dinheiro, porém teve medo de ser reconhecido.

Zefiel não conseguiu. Samuca imaginou que ele tivesse sido preso e que estivesse na Fundação Casa. Ninguém sabe bem o que aconteceu, talvez ele tenha se atrapalhado com o chinelo. Talvez tenha sido medo. Medo puro e simples. Na televisão deram a notícia de um menor sobre os trilhos, morto no subterrâneo.

Gabriel recebeu a notícia como um general sensível. Afinal, como já disse, gostava das crianças, como uma raposa gosta de galinhas. Não foi severo ou emotivo demais. Relembrou do destino dos irmãos maiores, Rafael executado pelos meganhas, Ariel caindo do telhado da fábrica. A vida louca das correrias não oferecia perdão nem justiça, ela era o que era.

Entretanto, em seguida, começou a fazer sua mochila. Com o noticiário da tv, a polícia ficaria doida ao redor deles. Era melhor ele sumir do Pinheirão por um tempo.

− E nós? − quiseram saber os menores.

− Vocês vão ter que se virar. Ensinei o que pude. Agora é com vocês. Talvez eu ligue.

E fechou a porta. Passos rápidos ecoaram pelo corredor.

As crianças ficaram em silêncio, muitos ainda choravam após a notícia da morte de Zefiel. Elas se aglomeraram ao redor da cama de Samuel. Desde que voltou ficou lá, deitado, abraçado àquele pé sujo de chinelo na mão, como quem se abraça a um santo. Estava calado, estático, olhar parado no teto. Uma mancha de urina demarcava território no lençol. O silêncio, a comoção, os gemidos… Parecia que ele, o mais esperto deles, também havia morrido: um velório de vivo. Até que um deles, não sei se o menor ou o maior, lhe implorou:

− Sai dessa cama, Samuca.

− Não posso… Não consigo… Não sei mais andar









sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Contos & Causos do Pinheirão


sete cegos nas estantes de ferro




1
Existe um momento no qual fica claro que podemos ter nossos segredos e não contar tudo a nossos pais. Para Luzia, foi naquela noite, quando terminou de escovar os dentes e pretendia passar na cozinha, desejar boa noite ao pai. Ao escutar o gemido engasgado, a menina reduziu o passo e se espreitou até a guarnição da porta. Dali, espiou o pai sentado, as contas para pagar sobre a mesa e ele no celular, dedos limpando lágrimas e ele no celular, sussurrando com alguém.

A menina deu meia-volta e foi para a sua cama. Bichos de Pelúcia da Vinte e Cinco de Março e uma Bíblia aberta no criado mudo pintado de rosa. Deitou-se, abajur ligado. Sentia-se entre curiosa e culpada por ir sem se despedir, sem saber o motivo, ou com quem era a discussão. Ficou contemplando o teto, as sombras invertidas, a mente absorta, relembrando o dia na escola e à tarde que passou com aqueles guris pichadores. Talvez ela devesse ter contado ao pai. Talvez. Estava com a perna doendo de tanto subir escada.

…ouviu um barulho que a fez se levantar. Cunha, seu pai não estava mais no apartamento, as contas não estavam mais sobre a mesa da cozinha. Testou a porta, estava aberta. Saiu e decidiu seguir o pai.
Quando saiu à rua, já era dia. Apesar disso, podia caminhar tranquilamente, tanto as pessoas quanto seu pai ignoravam sua presença ali no meio da cidade. Aliás, a cidade mesmo estava estranha, lógico que só poderia ser São Paulo, mas algo também sugeria que não. Por exemplo: no lugar da entrada do metrô havia uma esfinge; minaretes e cúpulas no lugar de antenas e prédios.

Por um instante, Luzia perdeu seu pai de vista, em meio à multidão. Quando o reencontrou, Cunha estava vestido de uma forma muito estranha, ela precisou segurar o riso para não chamar sua atenção. Devia ser uma túnica, feito uma daquelas novelas bíblicas da Record. Mas a menina achou que parecia mais um camisolão.

Sentiu pena do pai por um momento. Parecia perdido, talvez bêbado. Perguntava em todos os bares no caminho se ali era a Biblioteca. Luzia estranhou essa estupidez: era óbvio que aqueles botequins, cheios de homens e mulheres seminuas, não poderiam ser Bibliotecas. Bibliotecas têm estantes de ferro e livros fininhos para crianças. Ainda assim, ele insistia, suplicava que lhe dessem atenção até que uma delas- particularmente horrível, uma velha desdentada com coroa de rainha e maquiagem de palhaço – lhe esclareceu:

-Você não soube? A Biblioteca de Alexandria foi destruída quando inventaram a Internet.

Construíram o Templo de Salomão no lugar.

2

Existe um momento em que acreditamos que a vida é um trem no qual basta embarcar. A conversa entre as meninas no recreio era sobre quem beijava mais e melhor. Luzia ficou calada, só ouvindo, indecisa se deveria mentir, na dúvida se as outras estariam mentindo. Iara parecia ser a mais franca.

Durante muito tempo, treinou com toalhas, na fronha, na dobra entre braço e antebraço, até que convenceu seu irmão caçula a emprestar a boca. As outras fizeram cara de nojo, credo, beijar o irmão. Luzia não sabia o que pensar, não tinha irmão, mas franziu o rosto também para acompanhar a maioria. Iara era o oposto de uma sereia, cara de peixe acima da cintura e curvilínea abaixo, respondeu com um muxoxo, “Eu não tinha opção. Ou será que alguém aqui vai me explicar como se faz?” Janaína topou e depois Edileusa, Rosamaria e Claudete. Luzia também, para não ficar por fora.

Combinaram de se encontrar no banheiro no horário da saída. Apenas Luzia, responsável e obediente, apareceu para Iara. Beijaram-se, ela se atrapalhou com os óculos e ainda levou um apertão desajeitado em um dos pequenos seios. Ficou só nisso. Iara disse que era melhor saírem separadas, para não dar na cara com as tiazinhas do corredor.

Luzia obedeceu. Porém, quando abriu a porta do reservado, não era mais no interior da escola, mas sim o Templo de Salomão. Como todos sabem, o Templo de Salomão era dourado e brilhante por fora, com um formato cúbico que lembrava muito a Caixa-Forte do Tio Patinhas. O interior, entretanto, parecia tanto uma ruína quanto uma obra em construção, cheia de andaimes, escadas, estátuas quebradas, gambiarras, cheiro de cimento e penumbra de lugar sem energia elétrica.

Lembrava ao Pinheirão.

No interior daquelas paredes havia um ossuário imenso, repleto de esqueletos de todas as raças, cores, credos. Sem os párias e os pecadores, São Paulo havia se tornado uma cidade pura, santa e guerreira, como sugere seu nome. Aproximou-se das paredes e reconheceu dentre aqueles crânios negros, brancos, vermelhos e amarelos, Pai Dedé, Bebel, Janaína, Uriel, Pilha, Renê e outros do edifício invadido. Do meio dos fêmures, retirou um único chinelo. Havia algo de muito triste naquele pé: começou a chorar, mas dona Judite bateu na porta, dizendo que precisava fazer a limpeza do banheiro. Já havia passado da hora de ir embora.

3

Existe um momento em sua vida, na qual deve se decidir entre o ninho e o céu. Depois de tomar o esporro do pai por causa de uma tatuagem, trancou-se no quarto e enfiou os fones de ouvido para abafar os berros.

Mas Luzia estava nervosa demais para continuar no quarto. Quis fugir. Abriu a janela do apartamento e pulou para o lado de fora. Quando caiu, reconheceu as colunas e pilastras e o cheiro de cimento. Era a área interna do Templo de Salomão, conforme se lembrava de anos atrás.

No meio da nave central, o sol iluminava um círculo de homens sentados no chão. Eram os patriarcas. De longe, pareciam ser a mesma pessoa, o mesmo traje. Contudo, discutiam raivosamente uns com os outros. Difícil entender o que diziam, não só pelos ecos. Agiam como homens das tavernas, porém – supostamente – eram homens de Deus. Usavam o mesmo livro para justificar atitudes contrárias e excludentes.

Quanto mais debatiam, mais a barba e o cabelo deles cresciam e avolumavam sobre suas cabeças.
Dentre esses Bin Ladens, estava o pai de Luzia. Ela se aproximou para tentar distingui-lo dos demais, quando um deles reparou nela e a acusou, dedo apontado.

-Ela é a responsável por nossos problemas, ela é uma pecadora.

Foi quase bonito ver como aqueles selvagens se uniram imediatamente contra o inimigo comum. Luzia passou a fugir sob os pilares e arcos daquela catedral. Os homens gritavam-lhe impropérios e lhe jogavam pedras e merda que eles mesmo cagavam.

Por mais que corresse, Luzia não encontrava escapatória, por todos os lados havia portas trancadas. Uma Kombi abandonada obstruía a última saída. Sem escolha, a garota se enfiou no carro. Dali, Luzia pôde observar que aquela turba havia se convertido em lobisomens, palhaços e serpentes e eles sacudiam violentamente o automóvel. Os para-brisas eram um aquário monstruoso. Luzia começou a gritar e a orar por ajuda.

Ela não havia percebido que Samuel estava dentro do carro, bem ali, ao seu lado. “O que você está fazendo aqui?”, quis saber. “Venho aqui para esticar as pernas e desenhar nas paredes.” Os monstros continuaram batendo e o vidro trincou com um golpe. Luz gritou. Samuel abraçou-a e tentou acalmá-la, contando a história de sete cegos que tentavam descrever um animal apenas pelo tato.

Como a historinha não a acalmou, sugeriu que deveria enfrentá-los e não fugir, caso contrário ela nunca seria capaz. A menina respondeu que era impossível, ela jamais conseguiria. Mas o menino insistiu, com uma voz que não era a de um adolescente, mas a de um homem muito velho:

– Você é muito leve, menina, precisa crescer, crescer, só quem cresce pode ter inimigos. Devore-me, coma-me, só assim poderei ajudar.

Indecisa, sem saber por onde começar, Luzia começou pela boca, e de dentro para fora, puxou a língua e depois cuspiu os dentes como se fossem caroços de romã, os lábios arrebentaram e deixaram correr um sumo fresco de uva, e ela continuou puxando pedaço por pedaço do menino. Às vezes sentindo a textura e o sabor de uma fronha, às vezes miolo de pão. Enquanto fazia isso, ficou indecisa, minha mão está entrando nele ou em mim?

Sua barriga e seu corpo incharam rapidamente, um balão inflando, como daquela vez que soltaram um sobre o teto do Pinheirão. Transformou-se em uma fera, um paquiderme, um mastodonte, um mamute. A criatura rompeu a Kombi: o veículo branco quebrou como se fosse um ovo e ela, um pinto. Luzia estava livre. Suas orelhas abriram feito asas e ela girou sobre seus perseguidores em uma dança para pisotear baratas. Esmagou a todos que queriam apedrejá-la, inclusive o próprio pai, reconhecível apenas pelo choro, um gemido engasgado, e por umas contas vencidas que saíam de sua boca.

Samuel comentou que aquela massa de corpos lembrava um desenho do Recruta Zero esmigalhado pelo Sargento Tainha. Luzia não respondeu, nunca lera Recruta Zero. De uma coisa ela tinha certeza, entretanto: naquele cemitério nasceria em breve um campo de trevos irlandeses e ela gostaria de colher alguns.






(Luzia era a filha do Pastor Cunha. Imagem: Omaya, de Dragan Bibin)

sexta-feira, 6 de setembro de 2019

Contos & Causos do Pinheirão

elefantário



África

O ribeirão Manimba parecia um trem.

Suas águas barrentas e escuras não refletiam mais o matagal das margens; agora estavam engrossadas com o sangue de dezenas.  A superfície desaparecera encoberta pelos cadáveres, braços e pernas de homens, mulheres e crianças passeavam rígidos, troncos e galhos levados na corrente. Volta e meia um movimento submerso indicava crocodilos levando algum corpo para o fundo, como quem retira bananas de um cacho.

Mas nada disso ocorreu a Renê. Quem presencia o horror, só sente horror e urgência. Apesar de, na época, ser apenas uma criança, correu para a floresta, onde estavam escondidos os sobreviventes de sua família (Uma vó, dois primos, um irmão). Ele pretendia avisá-los que ali era inseguro, que precisavam continuar a maratona, não podiam mais descansar. Os homens estavam chegando e não havia limite em sua sede.

Não houve chance: enquanto ele corria, seus parentes eram dilacerados a golpe de facão, outros números a desaparecer em meio a estatísticas e relatórios da ONU.

Brasil

Às vezes, Samuel pensava que o Congo ficasse em Nárnia ou em Westeros. Um episódio secreto que só se acessa na Deep Web ou até em um livro não publicado, em uma nota de rodapé simultaneamente esquecida por seus bilhares de leitores. Tudo por causa das histórias que Renê lhe contou.

De início, Renê o perseguia. Samuel bem que tentou se livrar daquele negrão esquisito, de olhos vermelhos, mas bem vivos, sem sinal de maconha, sono ou conjuntivite. Alguém supôs que o sujeito fosse haitiano, daqueles que lidavam com vodu. Uriel, irmão mais velho, lhe alertou para ficar atento: vodu não era coisa de jacu, vodu mexia com uns exus brabos, os pretos tomam chuveirada com sangue de galinha, eu sei, já vi, foi em um filme antigo de horror, os caras gostam de pregar o saco na cadeira, fazem zumbis de verdade que nem o Walking Dead. Só coisa nervosa, sinistra.

Renê, indiferente a esse medo, continuou a cerca-lo, coisa que não era difícil, dado que o alvo estava preso em cadeira de rodas. Samuel acabava tendo que atende-lo, mas o português do homem era só sotaque misturado com uns bibibi-bububu (depois descobriu serem palavras em francês).

A despeito dos alertas, Samuel percebeu que o sujeito não era malvado. Havia nele uma espécie de inocência, uma falta de jeito para com as pessoas. Faltava-lhe aquela malandragem ligeira que todo mundo tem ou acha que tem. Não era falta de experiência, de maturidade – até pelo que Renê lhe contou sobre a África – mas uma atitude defensiva de quem começa a jogar sem saber as regras, qual seu time, quem é o árbitro e onde está o gol.

Além disso, percebeu que o homem se aproximava dele com algum interesse claro e evidente.
Samuca era pichador e não grafiteiro, mas – apesar das diferenças – o universo dos dois se contamina e o garoto sabia que havia mais status no desenho do que na tipografia. Assim, em seu caderno, ele se arriscava a fazer umas figuras mais complexas, sabendo que um dia poderia tirar vantagem disso.
Certa manhã, o Aleijadinho tentava fazer um elefante-ciborgue, de forma relativamente realista, mas a estranha mistura de peso e leveza da criatura não facilitava. Páginas seguidas de versões de elefantes, um pequeno dicionário de tentativas.

Porém a figura era reconhecível, pois Renê estava atrás acompanhando o esforço e lhe contou quando um elefante furioso invadiu sua aldeia. Destruiu toda a horta e sua família ficou muito triste. Eles haviam pregado vários CDs velhos na cerca ao redor das mandiocas e do milho, diziam que ajudava a espantar o bicho, mas quando ele veio nada deu certo. Os velhos ficaram muito tristes e ele fez um gesto que Samuel conseguiu interpretar como choro.

Aquilo causou algum interesse no menino, jamais havia pensado em elefantes como bravos, mas fazia sentido um bicho tão grande provocar problemas grandes também. O pichador fechou o caderno de cartografia que usava feito moleskine e passaram a conversar sobre a África, sobre o Congo, sobre rios que lembravam trens e trens que lembravam rios, sobre os órfãos e os mortos, sobre os lugares imaginários que existem de verdade.

África

O trem para Kwanga parecia um rio.

Sobre o teto dos vagões, dezenas se ajeitavam, aguardando o movimento do comboio. Não havia mais espaço lá dentro, famílias haviam fechado corredores com seus pertences, e muitos passageiros só conseguiam entrar pelas janelas. Renê havia acabado de chegar, sua avó havia lhe falado em procurar uma missão religiosa, qualquer uma serviria, desde que lhes dessem abrigo. Mas ali, diante da movimentação de pessoas ao redor da estação, decidiu seguir com a multidão, como quem se deita e se deixa levar pelas águas. Assim que o trem começou a se movimentar, ele correu e subiu até o alto.

De lá pode ver claramente o aterro criado para que a linha não cedesse à floresta e às tempestades tropicais.  Do alto, pode ver os restos de um antigo acidente ferroviário, o esqueleto de aço sustentando trepadeiras e cipoais, a selva reclamando seu domínio. Ele fechou os olhos e tentou ver outra coisa, mas tudo que surgia no escuro sob a pálpebra eram os mortos, de carne e de aço, boiando, inertes.

Brasil

Samuel escutava atentamente, mas entendia muito pouco. De início, pensou que os soldados que atacaram e mataram a família de Renê eram árabes, aquele povo doido e terrorista do Al-Qaeda, mas que quando chegam aqui fazem esfirras e viram político. Ele até mostrou um vídeo que lhe passaram no Whatzap com um negrão sendo decapitado, o homem falava e falava e havia umas legendas em inglês e tchááá os caras alá alá alá, o sangue jorrando que nem mangueira do pescoço e a cabeça do defunto bem diante do celular e o povo alá alá alá. Mas Renê fez que não com a cabeça, esse Boko Haram é Nigéria, não Congo. E o menino pensando, mas não é tudo a mesma coisa?

Depois Renê tentou lhe esclarecer, mas não era fácil, porque mesmo para ele não era claro. Ele poderia falar de Ruanda, do povo massacrado que agora massacrava, dos países vizinhos aproveitando o caos para invadir e roubar o Congo, como se não fosse suficiente ser espoliado pelos seus próprios ditadores. Seria possível entender as chacinas, as mulheres sistematicamente violentadas, a irmã arrebentada, os vilarejos queimados e destruídos? O que havia para entender ali além da loucura? Para Samuel era uma sequência de histórias horríveis, como quem tenta acompanhar uma série de terror obsceno, mas sem saber o que aconteceu nos capítulos anteriores.

Então Renê teve uma ideia para se tornar mais didático. Sabe o seu celular? Você sabe como funciona seu celular? Você acha que é magia? Feitiço? Vodu? Não. Ninguém sabe como ou porque, mas celular usa uns minérios e o Congo está cheio desses minérios… Tântalo, tungstênio, nióbio, ouro…  Então os países ricos se aproveitam da confusão e da guerra para roubar-nos. É isso. Seu celular está cheio de sangue de meus parentes.

Renê supôs que aquilo bastava e se calou. Samuel ficou espantado, olhando para seu celular. Será verdade? Havia uma pedra mágica dentro do aparelho? Será que era assim com toda máquina e computador? Aqueles montes de fios e desenhos de circuitos, aqueles pequenos labirintos como pontos de umbanda, pentagramas misteriosos que trazem o sinal da TV, fazem a gente se ligar na Internet, como as dragon balls ou os pokémons, pedras mágicas fazendo mágica e nós chamando a tudo isso de ciência, como se assim fizesse mais sentido?

Concluiu o Elefante-ciborgue coberto de tatuagens, uma mistura desarmônica de paquiderme, mariposa, polvo, chips, capacitores, válvulas, flechas, cruzes, tridentes e espirais: quimera, exú, cangaceiro e transformer.







(Samuel e Renê são personagens bolados no Coletivo Armário do Mário e vivem numa ocupação)

terça-feira, 26 de março de 2019

Telegrama








Aquele que chega ao final do caminho não precisa mais do caminho, e o caminho não se apresenta mais para ele.

Milorad Pavitch, O Dicionário Kazar (edição masculina)








Foto: cheia do Rio Toropi, RS (1984) VIA

quinta-feira, 31 de maio de 2018

Contos & Causos do Pinheirão



O incêndio e desabamento do Edifício Wilton Paes de Almeida no começo de maio de 2018 me fizeram lembrar do livro Contos e Causos do Pinheirão.



Entre 2015 e 2016, participei do coletivo Armário do Mário: Ocupação Literária, capitaneado por Luiz Bras. A ideia era criar diversos contos e histórias em um mesmo ambiente, em um mesmo universo.

O ambiente escolhido foi o Pinheirão. Também conhecido pelo nome chique: Golden Tower Pinheiro Plaza. Arranha-céu fictício próximo à Marginal Pinheiros, cuja construção foi interrompida e, posteriormente, ocupado/invadido por pessoas sem teto e sem moradia (A torre inacabada foi livremente inspirada num edifício real, a Torre de David, um edifício de 45 andares em Caracas que foi invadido por 3 mil pessoas).


Foram sugeridos e desenvolvidos diversos personagens. Havia Solange, a professora de dança. O grafiteiro cadeirante Samuca. Pai Dedé de Oxumaré. O emigrante congolense René. Pirata, o vira lata. Cunha, um fascista abandonado pela mulher e sua problemática filha, Luzia. Babel, vegetariana e canibal. O advogado Doutor D’Alembert. A moradora de rua Berenice. Pilha. E toda uma renca de figuras bizarras (Uns já nem lembro mais... Havia uma capivara?).
 
Foi bem divertido criar e brincar com essa galera. Vários contos foram criados, mas apenas um de cada autor foi eleito para embarcar na coletânea produzido ao final da Oficina. Os contos que não couberam no livro foram para o blog do Projeto.


Como já se passou algum tempo e minha produção anda magérrima e sem sinal de reação (acho que morri) vou postar aqueles meus contos desse projeto aqui no meu blog com a tag Pinheirao .





(A imagem é uma obra do @carcarah realizada em 2016 ; fotografia retirada do instagram)


quinta-feira, 12 de abril de 2018

Onirogrito

 Deus é foda

1
Deus é foda.


2
Se Ele existe precisa ser infinito, cobrir tudo que existe, existiu e existirá. Precisa ser o mesmo para os muçulmanos, para os judeus, para os cristãos, para os budistas, para os xintoístas. Um Deus único para as formigas, para os porcos, para as vacas, para os párias. Para as vítimas e para os assassinos.

Uns guardam a sexta-feira, alguns guardam o sábado, outros o domingo, a segunda fica desprotegida.

3
Deus não precisa ser único. Mas aí Ele não seria infinito. Haveria um vácuo delimitando Ele do resto dos demais deuses. Feito água e óleo. Deus não sendo único explicaria uma série de questões, porque às vezes ISTO, porque às vezes AQUILO. Mas criaria outros problemas. Provavelmente, seriam indiferentes a você. Estariam mais preocupados no relacionamento interdivino. Talvez discutissem uns com os outros, talvez imaginassem que acima deles houvesse um Outro único. Certamente ergueriam Igrejas e Templos buscando a atenção deste Outro maior, a última camada das cascas de cebola.

4
Deus é grande, onipotente, onisciente. Imagine-se Deus: alguém capaz de interferir em cada célula do seu corpo, cada cabelo, cada fio, no funcionamento dos neurônios, no crescimento das unhas, no bater do coração. Alguém assim estaria muito longe da experiência humana. Não haveria proximidade. O que poderíamos dizer sobre um Deus assim? Seria um Deus com o qual haveria diálogo?

Sem diálogo, a quem interessaria Deus?

4,5
Se Deus cabe no Universo, não cabe em nós. Se cabe em nós, é pequeno para o Universo.

5
O pássaro cuco invade ninhos de outras aves, bota seu ovo ali, que é criado e alimentado pelos pais adotivos. O crocodilo protege seus filhotes na boca. Entre os leões, quando há uma mudança na liderança do grupo, o novo alfa canibaliza os antigos filhotes o que fará as mães entrarem imediatamente no cio. A ostra vive na concha. O plâncton vive solto. O mosquito vive de sangue. O colibri vive da flor.

Santo Isidoro escreveu um bestiário e das observações da natureza depreendia lições, pois se acreditava que tudo que existia possuía um propósito. Já não vemos mais sentido.

A natureza revela que existem muitas possibilidades, muitas vezes antagônicas, contrárias e que todas podem funcionar, de acordo com um contexto.

Deus não é a Palavra. São muitas. É o sim, o não, o talvez e o silêncio. Simultâneo.

Sendo assim, a Fé é impossível e inviável. A Fé é o paradoxo.


6
Ou se tem Fé ou não se tem.



Um pensador árabe tentou alcançar Deus pela lógica. Quase enlouqueceu. Ao vê-lo em depressão, um amigo sugeriu que frequentasse as cerimônias e os rituais de música, dança e transe dos sufistas. A emoção o levou mais perto de Deus.

Quando os cruzados cristãos catapultavam as cabeças sarracenas sobre as muralhas, eles também estavam cheios de emoção. Pertos de Deus e longe do sentimento.

Paixão e razão são facas sem cabo e sem guarda, tanto ferem quanto cortam.


7
Outros também esperavam cirurgias. A maioria dedilhava algo nos celulares, checava Facebook, conferia e-mails. Monitores coloridos para preencher olhares vagos. Meu tio não é tecnológico. Estava com uma agenda de papel na mão, onde marcava compromissos e telefones. Numa página em branco, ele começou a rabiscar um desenho. Nunca soube que meu tio soubesse desenhar. Traços retos e losangos formaram uma planta. Esticou linhas para levantar paredes. A gente esperou seis horas no hospital. Revezávamos para tomar um café. Contamos piadas. Do outro lado da rua, passou um sujeito com uma sonda. Perguntei a meu primo o que era aquele desenho. Ele explicou: uma casa. Eles tinham um terreno em Buri. Buri? Onde fica? Longe pra caralho. Um sitiozinho para passarem a velhice. Então eu entendi. Não era um desenho. Era uma prece.


8
Ela sobreviveu algumas semanas. Continuei indo lá, estava desempregado e esperando os resultados do vestibular. Em um destes dias, fiquei fumando em uma rua estreita, paralela ao hospital. Não era uma passagem movimentada. O sol se punha atrás de mim e refletia nas janelas do edifício, feria de luzes minha vista. Enquanto isto eu escutava um choro insistente, um grito, poderia ser alguém morrendo, poderia ser frescura, poderia ser minha tia. Era bonito e terrível.

Foi aí que percebi. Deus é foda. Como toda boa foda, não tem palavra que dê conta. Não tem razão ou explicação. Emoção pode estragar tudo. É um diálogo, mas não tem nenhum diálogo. É se abrir para a violência, se abrir para o arregaço.

Deus é foda, mas queremos chamar de amor.


(fotografia Balthazar Korab)