segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Telegramas

Liberdade







Liberdade é aquilo que impede todos os limites de serem livres.



(Afonso Cruz, em "Enciclopédia da Estória Universal" - Quetzal)

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Telegrama



Quem é o rei?





Lembro-me de uma de minhas ideias mais antigas.O tsar é o chefe e o pai espiritual de cento e cinquenta milhões de homens. Uma responsabilidade atroz, que é apenas aparente. Talvez não seja responsável, perante Deus, senão por uns poucos seres humanos. Se os pobres de seu império são oprimidos durante seu reinado, se desse reinado surgem catástrofes imensas, quem sabe se o criado encarregado de lustrar suas botas não é o verdadeiro e único culpado? Nas disposições misteriosas da Profundidade, quem é realmente o tsar, quem é rei, quem pode se gabar de ser um mero criado?








Léon Bloy, extraído da Antologia da Literatura Fantástica (Bioy Casares/Borges/Ocampo), conforme a edição da Cosac; Um texto interessante sobre Bloy en español aqui. Capa de Crhris Ware para New Yorker.


sábado, 28 de junho de 2014

vitórias





“Depois que Vitória encontrou seu próprio corpo boiando sem vida na banheira de casa, suas noites nunca mais foram as mesmas.” Os mortos são sempre pesados, por mais leves que sejam; sendo assim ela teve um trabalhão para se tirar de lá.

Antes de mais nada, esvaziou a banheira. Com repugnância, Vitória enfiou a mão naquela água gelada e puxou a tampa do ralo. A corrente formou uma espiral, a gravidez do redemoinho. Enquanto a água escoava, sentou-se no vaso, concentrando-se numa solução. Me cortar em pedaços ou levar tudo do jeito que está e enterrar no quintal? Concluiu que não teria força para se desmembrar. Força para separar carne, músculos, ossos: trabalho de homem. Considerou ligar para Vítor, mas certamente ele já tinha o seu problema por lá, melhor não arriscar, contar apenas consigo.

Foi para a edícula, lembrando do antigo tapete da sala, podia usá-lo para colocar-se dentro. Estava bem no fundo, atrás de um televisor de tubo e bicicletas de pneu murcho, encostado a uma parede com sinais de infiltração. Ao desenrolá-lo, descobriu ali outra Vitória, esta pequena, meio criança, um corpinho seco, a pele despedaçava-se, fina como papel velho. Ainda abraçada ao Vucovuco, seu bicho de pelúcia perdido.

Seria errado livrar-se das duas juntas.  Era a vez daquela da banheira, a do tapete já tivera sua vez. Recolocou o esquife puído e embolorado e tentou rearrumar tudo da melhor forma. Levou Vucovuco consigo, entretanto. De volta ao banheiro, Vitória já não boiava mais. Foi para o quarto dos pais, arrancou a cortina do varão e amortalhou-se.  Uma tarefa bastante complicada, Vitória não era uma criança, e o corpo todo um chumbo, resistente às diversas dietas de revista e da moda, balançando pesadamente como peitos sem sutiã. Ao final, estava ofegante, e não havia nem iniciado a escavação no jardim. Empurrou-se até o alto da escada, e deu um chute que fez dos degraus trilhos, o embrulho chegou na sala derrubando a mesinha do telefone.

Precisava passar pelo corredor estreito que terminava no jardim nos fundos da casa. O mesmo jardim que serviu de cenário para brincadeiras, agora era prenúncio de cemitério. Arrastava-se aos poucos, agarrando-se pelo pé exposto e enrugado pelo tempo submerso. Concentrada, não escutava os gritos vindos da rua, as sirenes, viaturas e ambulâncias.  Os vizinhos ocupados com suas próprias questões, Vitória não precisava temer ser observada enquanto puxava aquela trouxa pelo piso frio.

Em certo momento, ela desequilibrou e caiu de bunda. Desengatou a rir da situação: descabelada, unhas quebradas, suada, imunda (nem havia tomado banho). Deveria parecer uma bruxa, uma louca. A Vitória morta, entretanto, relaxava naquela inexpressão típica dos cadáveres, entre serena e entediada. Nua ainda, as unhas preservadas na cor da manicure daquela tarde. Vitória sabia, a morta estava muito mais atraente.

Para cavar uma cova não muito profunda, estragou o canteiro da mãe, mas essa era questão para outra hora. Talvez até fizesse bem para as plantas. Desceu no buraco, avaliando a profundidade. Achou que estava razoável, ninguém cogitou um crime perfeito. Começou a se puxar, e o corpo cedeu de uma forma inesperada. Não aguentou ao seu próprio peso, embolaram-se em um mole abraço bêbado, caíram juntas,Vitória sobre Vitória, ela sobre ela mesma, ambas  com terra na boca. Ficou feliz por estar escuro, não queria saber dos bichos rastejando ali. Num penúltimo esforço, conseguiu sair debaixo de si. Depois tapou tudo com a terra, do jeito que deu. Se fosse o caso, no sábado, completaria o serviço, talvez pedindo ajuda de Vítor, Vinicius e Valéria... e no final, comemorariam tudo com um churrasco.

Mas ali, naquele momento, toda essa festa soava distante demais, em outro mundo. Voltou para casa, cuspindo torrões e deixando pegadas no caminho. Estava imunda, imprescindível se limpar, se civilizar. Derramou Pinho Sol e enxaguou a banheira duas vezes, para só então entrar. Foi um banho tenso, de cócoras, numa posição que lembrava parto, sem coragem de encostar na porcelana. Muito desagradável tomar banho na mesma banheira onde antes havia um cadáver.

Depois foi direto para o quarto dos pais. Ligou a tevê. Sobre a cama, seminua, terminou de colocar curativos em seus vários cortes. Descobriu que havia perdido novamente o ursinho Vucovuco, bem como a disposição para reencontrá-lo. Havia mensagens no celular, mas não se animou a lê-las. Nem as de Vítor. Sentiu vontade de chorar ao pensar em si mesma, sob a terra, sob o conforto das raízes. Ao invés disso ou de qualquer outra coisa, dormiu, esparramada, aparelho de celular na mão. Sonhou com máquinas copiadoras e dentes quebrados.

Pela manhã, Vitória levantou e foi ver quem deixara a televisão ligada no quarto dos pais e encontrou a si mesma, seminua, toalha na cabeça. Morta. Pegou o celular de sua mão defunta, “Procurava você desde ontem”, e foi se arrumar. Antes de sair para a Universidade, deixou um recado na cozinha para a diarista, Veridiana: havia comida na geladeira, o encanador viria consertar um entupimento na privada, que ela passasse a pilha de roupas na área; por último, que desse um destino a si mesma, antes que começasse a feder, antes dos pais voltarem de viagem.


















O jogo foi dado pela Oficina de Bolso. A proposta foi extraída do "Literatura Pós-humana", elaborada pelo Luiz Bras: Escolha o início - A primeira frase - e continue. Com o tempo, pretendo colocar os resultados de outros exercícios dos demais livros da coleção.



A ilustração é da mexicana Kikyz Ferrer Zamudio, nascida em 1988. Veja seu trabalho repleto de cadáveres despedaçados de crianças e animais AQUI.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Telegrama



A história do carcereiro de Lao Tsé







Lao Tsé, um dia, cansou-se dos homens por estes não o escutarem, e decidiu deixar a China para trás – como se a China pudesse ser deixada para trás. O guarda da fronteira, ao ver o velho mestre abandonar o Império do Meio, a China, impediu-o. Levou-o para sua casa.

-Mulher – disse ele para a esposa -, sirva-lhe um chá.

Depois, o prendeu em um quarto que antes fora de seu filho.

Quando lhe levou o chá, hesitou. Será que Lao Tsé bebia chá? Diziam que se alimentava de orvalho.

-Mestre, tenho dúvidas quanto ao que vai comer e beber. Que tal se me dissesse? Pode ser chá?

-Chá está bem – disse o velho de um modo oriental.

-Já sabe, lamento sublinhar, que só sairá daqui quando escrever todos os seus ensinamentos. Não vai deixar a China completamente despovoada. Olhe para mim como uma grande muralha que impedirá sua sabedoria de escapar. Trouxe papel. Que grande invenção esta!... Uma pena, tinta e ordem para começar a escrever.

O velho pegou a grande invenção, a pena, a tinta e pousou-se ao lado do corpo. Estava sentado no chão, observando a parede de bambu e terra.

-Não sei por onde começar.

-Não sabe por onde começar? Quer que eu lhe faça um desenho? Mestre, deixe de brincadeira. Pegue sua sabedoria toda e escreva-a aí, com todos os caracteres que é composta.

-Não sei por onde começar – insistia o velho.

Chang coçou a cabeça:

-Por que é que não começa, por exemplo, dizendo o que é o Tao o Caminho?

-Como se eu soubesse.

-Isso é isso mesmo. O mestre começa por dizer que o Tao que pode ser dito não é o verdadeiro Tao. Que tal? Parece-lhe bom? O Tao que pode ser pronunciado não é o verdadeiro Tao. Vá, escreva isso.

O mestre, com dificuldade, escreveu o que o guarda da fronteira lhe dissera. Durante meses, escreveu o que o guarda lhe ditava. No fim desse tempo, perguntou:

-Já posso ir embora, venerável Chuang?

-Chang.

-Ou isso. Nunca fui bom em decorar nomes chineses.

-Pode ser embora. Deixou este belo livro para trás, toda a sua sabedoria está aqui. Já não precisamos do senhor.

Lao Tsé  saiu daquela casa pensando: “O mundo não precisa de lao tsés. Precisa, isso sim, de lao tsés calados”. E nunca mais voltou à China.



O escritor português Afonso Cruz em “Os Livros que devoraram meu pai’ (Leya). Foto Wolfgang Weinhardt

domingo, 1 de junho de 2014

Telegrama

Desconfie das vovozinhas








Mote
Vá pra puta que o pariu




Certa sujeita do paço
Um amante namorava,
Com quem se punheteava,
Com todo o desembaraço;
Ele quis ir-lhe ao cabaço
Mas ela lhe retorquiu:
"Gentes, pois já se viu?
Arre lá, arrede a trouxa!
Se já não lhe serve a coxa,
Vá pra puta que o pariu!"




Laurindo Rabelo, o "Poeta-Lagartixa" (1826-1864). Via Antologia Pornográfica: De Gregório de Mattos a Glauco Mattoso, Edt Saraiva, organizado por Alexei Bueno. 


Foto: Diane Rigg nos anos 60 fez o papel de Emma Peel na série inglesa de espionagem The Avengers. Atualmente faz Oleanna Tyrell, a Rainha dos Espinhos em Game of Thrones.

segunda-feira, 26 de maio de 2014

Telegrama





A retirada, segundo o testemunho do tenente Eugenio Corti


(Trecho de “Inferno: o mundo em guerra 1939-45” (Intrínseca), de Max Hastings)



Em 12 de janeiro (de 1943), quatro frentes russas atacaram o exército do Don, ao norte de Stalingrado, repelindo as forças do Eixo, que fugiram em debandada. A Divisão Pasubio, parte do VIII Exército italiano no bolsão do Don, viu-se lutando para seguir na direção oeste. Sem combustível, as infelizes tropas foram obrigadas a abandonar armas pesadas e fugir a pé. “Veículos repletos de cargas eram abandonados na estrada”, escreveu o tenente de artilharia Eugenio Corti. “Partiu meu coração vê-los. Quanto esforço e dinheiro aquele equipamento deve ter custado à Itália!” Os soldados exaustos que tentavam pegar caronas em viaturas alemãs eram repelidos com berros e palavrões.

Corti fez esforços inúteis para preservar a disciplina em sua unidade. “Porém, como esperar que pessoas desacostumadas a viver em ordem como se civis se tornem ordeiras (...) simplesmente porque se veem usando uniformes? Enquanto o fogo inimigo chovia, a chusma apressava seu passo cambaleante. Vi, então uma das cenas mais lamentáveis da retirada: italianos matando italianos (...) Não éramos mais um exército; eu não estava entre soldados, mas entre criaturas que não podiam se controlar, obedientes a um único instinto animal: autopreservação.” Ele amaldiçoava sua própria brandura, que não lhe permitiu matar um homem que desafiou a ordem de que somente feridos poderiam viajar nos poucos trenós. “Inúmeros exemplos de fraqueza como a minha explicavam a confusão em que nos encontrávamos (...) Um soldado alemão entre nós não conseguiu disfarçar seu desdém. Preciso admitir que tinha razão (...) estávamos lidando com homens indisciplinados e desnorteados.”

Num posto de primeiros socorros, “os feridos jaziam uns por cima dos outros. Quando um dos poucos auxiliares de enfermagem que cuidavam deles apareceu com um pouco de água, aos gemidos foram acrescidos os gritos daqueles em que ele inadvertidamente tropeçava. Na parte externa, colocou-se palha sobre a neve, onde centenas de homens estavam deitados (...) Fazia provavelmente quinze ou vinte graus negativos. Os mortos estavam misturados aos feridos. Um médico fazia a ronda: ele mesmo havia sido ferido duas vezes por estilhaços enquanto fazia amputações com uma navalha.”

Independentemente dos exércitos que predominavam na luta, os sofrimentos russos persistiam. Numa cabana camponesa, Corti encontrou uma família aflita. “Fui recebido pelo cadáver de um velho gigantesco, com uma longa barba branca, deitado numa poça de sangue (...) Acuadas contra uma parede, aterrorizadas, estavam três ou quatro mulheres e cinco ou seis crianças – russas, magras, delicadas, rostos brancos como cera. Um soldado comia com calma batatas cozidas (...) Como a casa estava aquecida! Insisti que as mulheres e as crianças comessem antes que outros soldados chegassem e engolissem tudo.” Soldados do Eixo costumavam ficar estupefatos e impressionados com o estoicismo dos russos, que mais lhes pareciam vítimas do comunismo do que inimigos. Mesmo após os invasores trazerem desgraças indizíveis ao seu país, camponeses simples às vezes demonstravam uma simpatia humana pelos aflitos e sofridos soldados do Eixo que os comovia. Corti escreveu: “Nas pausas daquelas marchas, muitos de nossos compatriotas foram salvos das ulcerações de congelamento pelos cuidados altruístas e maternais de mulheres pobres.”

(...)

Corti horrorizava-se com o espetáculo do massacre de prisioneiros russos pelos alemães, embora soubesse que o Exército Vermelho fazia o mesmo com seus prisioneiros. “Era extremamente penoso – pois éramos homens civilizados – estar preso naquele conflito selvagem entre bárbaros.” Ele se sentia dividido entre o nojo diante da crueldade dos alemães, “que, por vezes, os desqualificava, a meus olhos, como membros da família humana”, e o respeito relutante por sua força de vontade. Lamentava o desprezo que tinham por outras raças. Ouvira falar sobre oficiais alemães que matavam a tiros soldados feridos demais para andar, sobre estupros e assassinatos, sobre trenós carregados com italianos feridos sequestrados pela Wehrmacht. Porém, admirava-se com a maneira como soldados alemães desempenhavam suas obrigações por instinto, mesmo sem ordens de um oficial ou graduado. “Eu (...) me perguntava (...) o que seria de nós sem os alemães. Com relutância, eu era obrigado a admitir que, sozinhos, acabaríamos nas mãos dos inimigos (...) Agradeci aos céus por eles estarem conosco naquela coluna (...) Sem sombra de dúvida, ninguém se iguala a eles como soldados.”

Repetidas vezes, tanques alemães e aviões Stuka repeliram ataques de blindados russos, permitindo que as colunas em retirada prosseguissem sob os terríveis morteiros soviéticos. Os testículos de um soldado italiano foram decepados por um estilhaço de bomba. Enfiando-os no bolso, o homem amarrou o ferimento com barbante e seguiu em frente. No dia seguinte, num posto de primeiros socorros, ele arriou as calças e, remexendo nos bolsos, segundo o relato de Eugenio Corti, ofereceu ao médico, “na palma da sua mão, os testículos escurecidos misturados com farelo de biscoito e perguntou se poderiam ser costurados no lugar.” Corti sobreviveu até alcançar o terminal ferroviário em Yasinovataya e, dali, viajou para a Alemanha através da Polônia. Um trem-hospital finalmente levou-o para casa, em sua amada Itália. No fim de 1942, um general italiano afirmou que 99% de seus compatriotas não apenas esperavam perder a guerra, como desejavam ardentemente perde-la o mais depressa possível.”