sexta-feira, 17 de junho de 2016

vovô no mar de bering





Para dormir dentro do carro 
Foi um verão de tempestades terríveis e uma enchente levou a ponte bem diante de nosso fusca. Sem opção de ir ou voltar, Vovô estacionou no acostamento e avisou que dormiríamos no carro. Para nos acalmar, contou uma história. Disse que em sua antiga casa, havia um rolo infinito de papel higiênico, presente de uma cigana apaixonada. Perfeito para rinites crônicas ou diarreias de três dias. Certa vez, entretanto, passou no banheiro antes de viajar e um pedaço do papel grudou em seu sapato. Dali, saiu de carro para a estação e da estação para o aeroporto e do aeroporto para China, sem perceber que o papel continuava grudado em seu sapato, formando uma cauda de papel que vinha do céu para o chão e do chão para o aeroporto e do aeroporto para os trilhos do trem e do trem para o estacionamento e de lá para a estrada até terminar em sua casa, uma linha branca inacabável. Minha irmã cortou a história, lembrando que caso o papel absorvente fosse realmente infinito, e se esse papel tocar o rio e o oceano, logo sugaria toda a água para dentro de si e não haveria mais chuva ou enchente no mundo. Olhamos adiante e finalmente pudemos cruzar a ponte sobre o leito seco do rio.

Madrugada
Acordamos com barulhos de tampas e panelas vindos da cozinha. Era o Vovô, dizia ter ouvido um celular vibrando, não sabia de onde e por isso não conseguia dormir. Ajudamos a procurar, apesar dos protestos da Vovó, era hora de criança estar na cama. Olhamos embaixo da cama, atrás do sofá, sob a geladeira, por cima do armário, entre o telhado e o forro, mergulhamos na caixa d´água, fuçamos o porta-luvas do fusca, pusemos fogo no quintal, derrubamos o muro dos vizinhos, subimos no ninho do bem-te-vi, ligaram as caixas de som, começou um batuque, veio um carro tocar funk, gente de outro bairro, subiram no palanque, começou uma revolução, para outros era festa, apareceu a tropa de choque, os holofotes dos helicópteros, soltaram bombas de efeito moral, tacaram água sob pressão na gente, mas então Vovô encontrou o celular dentro da gaiola da calopsita, todo sujo de girassol e bosta. Voltamos todos para as camas, dormir em um momento de calma perfeita. Menos o Vovô, ele voltou para a cozinha, ficou conversando com um homem chamado Napoleão.

Atacama 
Apesar da alta da maré, continuávamos fazer o castelo de areia. Começamos a chorar de frustração, mas Vovô nos incentivou, lembrando que aquela praia fora rota de migração dos peixes-voadores, que ali eles saíam das ondas aos milhares, cobrindo o céu como gafanhotos, deixando no ar uma garoa salgada. Os cardumes cruzavam a serra e o planalto para além da cordilheira, tudo para desovar no Pacífico. Minha irmã quis saber o que havia de especial na água de lá que não havia na água de cá, Vovô confessou não saber. Olhamos para as ondas, tentando conceber a revoada, mas só vimos uma gaivota levando uma sardinha no bico. Nosso castelo tombou na guerra contra as marés, mas naquele dia, sem que soubéssemos, choveu no Atacama pela primeira vez em dois séculos.

Araguaia
Quando passeávamos com Vovô, muitas vezes ele repentinamente gritava – Ai! – e parava como se sofresse de alguma dor. Ele então culpava uma lembrança dolorosa: ele teria matado um homem no Araguaia. Depois, cresci, e li Cem Anos de Solidão. Descobri uma história muito parecida, roubada da infância de Gabriel Garcia Márquez. Minha irmã me fez confrontar Vovô com a página do livro. O velho nos encarou, inspirou fundo, foi para o quarto e voltou com chapéu e uma arma – que eu nem sabia que tinha – e avisou em voz alta para Vovó, que estava na cozinha: “Velha, as crianças preferem a coisa real ao invés de verdades; portanto, estou indo matar um homem na Padaria Araguaia”. Vovó pediu para aproveitar e trazer presunto e mussarela na volta.

Método perfeito
Minha irmã estava se pegando com o namorado atrás do muro e eu e meus amigos ao redor da mesa, fingindo que sabíamos jogar pôquer e beber cerveja. Contávamos vantagens uns para os outros, todos tentando vender o melhor método de escolher mulher. Uns defendiam a bunda, outros as coxas, aqueles os seios, e havia quem traçasse o que aparecer. Vovô ouviu a conversa e decidiu nos contar qual era o seu tipo predileto de mulher: a Vênus de Milo, com pernas para abrir e sem braços para impedir. Gargalhamos, até quem não sabia quem era Vênus de Milo, e só calamos quando a Vovó apareceu para empurrar a cadeira de rodas do velho paralítico: era hora de tomar sopa e parar de falar merda.

Esconderijo
Depois do enterro do Vovô, fomos nos reunir em sua casa, tomar cerveja, dividir lembranças. Esperávamos encontrar a casa abandonada mas acabamos encontrando-a habitada e bem conservada. Um homem chamado Napoleão nos recebeu. Era todo tatuado, inclusive sobre o crânio sem pelos, fumava um cachimbo feito de marfim de morsa. Ele afirmou que era nosso verdadeiro avô. Aquele velho fora contratado por ele e nossos pais para substituí-lo enquanto estivesse pescando caranguejos gigantes no fundo do Mar de Bering. Agora ele era milionário e tinha tempo para ser nosso Avô. Minha irmã pediu um instante e cochichou “Podemos confirmar isso com nossos pais”, eu disse não, era evidente que aquele homem – mesmo sob a tatuagem – era membro de nossa família. Nós nos abraçamos, aproveitei para cortar sua garganta com uma faca de osso de baleia. Depois cavamos um buraco no quintal, enterramos o corpo e voltamos para cozinha, tomar cerveja, fumar um cachimbo, dividir lembranças.

sexta-feira, 10 de junho de 2016

Telegrama




A tortura e a compaixão



Em geral, as execuções na Rússia eram similares às dos outros países. Os criminosos eram queimados até a morte, enforcados ou decapitados. O condenado ao fogo era queimado no meio de uma pilha de madeira e palha. Já a decapitação requeria que a vítima colocasse a cabeça em um bloco e se entregasse ao golpe de um machado ou espada. (...) Os falsificadores eram punidos com a ajuda de suas moedas falsas, que eram derretidas e derramadas, na forma de metal líquido, em suas gargantas. Os estupradores eram castrados.

Embora tortura pública e execuções não fossem novidades para nenhum europeu do século XVII, o que impressionava a maioria dos visitantes na Rússia era o estoicismo, “a teimosia indomável” com a qual a maioria dos russos aceitava essas terríveis agonias. Eles resistem com firmeza a dores horrendas, recusando-se a trair amigos e, quando condenados à morte, seguiam humilde e calmamente até a forca ou os blocos de pedra para serem decapitados. Um observador em Astracã viu trinta rebeldes serem decapitados em meia-hora. Não houve barulho ou clamor. Os condenados simplesmente iam até o bloco e apoiavam as cabeças nas poças de sangue deixadas pelos predecessores. Nenhum tinha sequer as mãos amarradas às costas.

Essa força incrível e resistência espantosa à dor impressionavam não apenas os estrangeiros, mas também o próprio (czar) Pedro. Certa vez, depois que um homem havia sido torturado quatro vezes com açoite e fogo, o monarca se aproximou impressionado e perguntou como ele suportava tamanha dor. O homem mostrou-se contente em conversar sobre o assunto e revelou a Pedro a existência de uma sociedade de tortura da qual era membro. Explicou que ninguém era aceito sem ser antes torturado e que, depois disso, a promoção dentro da sociedade residia em ser capaz de aceitar gradações mais altas de tortura. Para esse grupo bizarro, o açoite não significava nada. “A mais aguda das dores”, ele explicou a Pedro, “é quando um carvão em brasa é colocado em sua orelha; também é muito dolorido quando sua cabeça é raspada e água extremamente fria é derrubada, gota a gota, de uma altura considerável”.

Mais extraordinária, e ainda mais tocante, era o fato que às vezes os mesmos russos que podiam suportar o açoite e o fogo permanecerem mudos até a morte desabavam quando tratados com gentileza. Isso aconteceu com o homem que contou ao czar sobre a sociedade da tortura. Ele havia se recusado a dizer uma palavra de confissão, muito embora tivesse sido torturado quatro vezes. Pedro, percebendo que o homem era invulnerável à dor, foi até ele e lhe deu um beijo, dizendo “Não é segredo para mim que você sabe sobre a conspiração contra minha pessoa. E já foi punido o bastante. Agora confesse, pelo amor que me deve como seu soberano, e juro pelo Deus que me fez czar não apenas perdoá-lo completamente, mas também, como demonstração especial da minha clemência, transformá-lo em coronel”. Essa abordagem não ortodoxa deixou o prisioneiro tão perturbado e comovido que ele abraçou o czar e declarou “Para mim, essa é a maior de todas as torturas. Não haveria outra forma de me fazer falar”. O homem contou tudo à Pedro, e o czar, mantendo-se fiel à barganha, perdoou-o e o promoveu à posição de coronel.


Trecho da maravilhosa biografia "Pedro, o Grande - sua vida e seu mundo" de Robert K. Massie (Não sei de quem é a ilustração)

sexta-feira, 8 de abril de 2016

mácula



1.
Dona Imaculada não deixou herdeiros. Apenas gatos, que felizmente, sabiam se virar: pulavam telhados, muros e lajes, perseguiam ratos e sabiás – para comer ou pelo prazer besta de matar -, subiam na pia da cozinha para roubar o bife descongelando para almoço. Por conta desses “filhos”, alguns vizinhos não gostavam muito de Dona Imaculada. Eram verdadeiros diabos, os felinos. Contrariando os bons hábitos higiênicos do restante da espécie, esses deixavam armadilhas, cagando logo depois dos capachos, feito presente bem diante da porta. Assim, ao saírem para o trabalho, as solas dos calçados eram engraxadas de baixo para cima.
Mas Dona Imaculada não tinha culpa. Ela nunca os atraiu. Foram eles que se achegaram nela, os bichanos a encontraram solitária, janelas e portas abertas, sem cacos de vidro ou lanças. Ela assistia aos desenhos na televisão ou ouvia programas de rádio. Às vezes se horrorizava com o noticiário, não por muito tempo: rezava e pedia proteção. Dona Imaculada poderia ter sido vítima de ladrões, moleques, escroques, ciganos, mas no muro alguém fizera o sinal, um código secreto próprio dos invasores de casa, “Mulher pobre, sem ninguém, retardada”. Todos a conheciam, todos sabiam que era sozinha e inofensiva e ninguém tinha coragem de tirar proveito da senhora.
Com exceção dos gatos. Ela reclamava dos animais, mas era uma reclamação vazia, de quem quer ter assunto para discutir, como quem fala do clima, se está frio, se está sol… Protestava contra esses folgados: comiam de sua comida, dormiam sobre sua cama. Mas, no fundo, ela gostava. Dona Imaculada era muito querida. Quem não eram queridos eram os gatos. Assim, tão logo, ela morreu, saíram distribuindo chumbinho na vizinhança. E lá se foram os gatos, os ratos, os periquitos, dois vira-latas e até um pangaré do carroceiro por conta dessa vingança.


2.
Dona Imaculada foi parar no Ceú. Ficou encantada com estar no Paraíso, era afinal a única possível vantagem de se estar velha e de se estar virgem. Como isso podia acontecer num bairro onde crianças comiam o cu de pombos e galinhas e irmãs se ofereciam em troca de bolacha? Não que não tivessem tentado, especialmente quando era mais nova. Mas Dona Imaculada era tão ingênua que não se prestava nem a isso. Havia o risco evidente dela sair contando para todo mundo e o canalha ser linchado na mão da vizinhança. E não havia possibilidade de ameaçá-la: medo pressupõe certa capacidade de previsão, e dona Imaculada sofria dessa benção.


3.
Ao menos, aparentemente, pois depois de uns dias, dona Imaculada pediu para falar com o Anjo encarregado de sua sessão. Dona Imaculada queria saber como poderia fazer para dormir. O Anjo, naquela paciência própria que só a eternidade favorece, explicou que ali não haveria necessidade de dormir ou descansar. No Paraíso, inexistia noite, treva, sombra, escuridão. Dona Imaculada explicou que estava cansada de olhar para o continente, queria deitar.
O Anjo, com a sabedoria de alguém confrontado com essa questão antes, sugeriu que afofasse as nuvens com as mãos, de forma a fazer um colchão próprio para se deitar. Dona Imaculada tentou. Primeiro como quem prepara massa de pão, mas o vapor d´água escapou-lhe entre os dedos. Em seguida, soprando, como criança inventando escultura de espuma, mas as correntes da troposfera impossibilitaram um leito decente, liso, que não provocasse dor na coluna.

4.
Dona Imaculada insistiu em falar com os superiores. E eles seguiram conforme a hierarquia própria dos Anjos, seguindo o fluxograma de São Tomás de Aquino: Arcanjos, Principados, Potestades, Virtudes, Dominações, Tronos, Querubins e até os sete Serafins, aqueles que deveriam estar ao redor do Senhor no momento do Juízo Final. Nenhum desses anjos se mostrou capaz de fornecer nem mesmo uma rede baiana para Dona Imaculada se balançar na varanda da eternidade. Dona Imaculada, sempre tão calma e pacífica, começou a ficar fula diante daquela tropa de burros. Ainda sob efeito daquela objetividade ingênua, quis saber de Deus, onde é que estava Deus, que somente ELE poderia resolver aquela pendenga ridícula. Ao mencionar o nome do Senhor, os demais Serafins e anjos demonstraram-se constrangidos. Então Ael, o maior de todos os Serafins, deu um passo adiante, encolheu suas sete asas e encurvou-se para sussurrar nos ouvidos de Dona Imaculada onde é que estava Deus: “Depois que fez o mundo, Deus voltou para o Caos de onde veio para morrer”. Cansada daquela burocracia teológica, Dona Imaculada pediu para reencarnar. Mas na forma de um gato, ou de um outro bicho capaz de se deitar onde bem lhe convier.

segunda-feira, 14 de março de 2016

Telegrama




Rambo x Rimbaud



“Daí caminhei ao longo dos trilhos até uma pequena livraria. Fiquei zanzando por lá, procurando alguma coisa pra ler, e vi Iluminations. Uma edição de bolso barata de Iluminations, de Rimbaud, sabe? Quer dizer, todo garoto teve uma. Tem aquela foto granulada de Rimbaud, e achei que ele tinha um ar muito elegante. Rimbaud parecia muito genial. Peguei o livro no ato. Nem sabia do que se tratava, simplesmente achei Rimbaud era um nome elegante. Provavelmente chamei-o de “Rimbawd” e achei que ele era muito cool.

Daí voltei pra fábrica. E fiquei lendo o livro. Era em francês de um lado e em inglês de outro, e isso quase custou meu emprego porque Dotty Hook viu que eu estava lendo alguma coisa que tinha língua estrangeira e disse: “Pra que você está lendo essa coisa estrangeira?”

Eu disse: “Não é estrangeira.”

Ela disse: “É estrangeira e é comunista. Qualquer coisa estrangeira é comunista.”

Ela disse isso tão alto que todo mundo pensou que eu estivesse lendo O Manifesto Comunista ou coisa parecida. Todos se levantaram, foi um caos completo, é claro, e saí da fábrica muito puta da cara. Fui para casa e, é claro, dei a maior importância antes mesmo de lê-lo.

Me apaixonei de verdade por ele. Foi por aquele encantador Filho de Pan que me apaixonei, porque ele era tão sexy”



Patti Smith, em Mate-me por favor (Legs McNeil & Gillian McCain).

segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

Telegrama







"UMA COISA ESTRANHA sobre a lâmpada elétrica é ter virado sinônimo de “gênio” da teoria de inovação – um único inventor criando uma única coisa, num momento de súbita inspiração –, enquanto a verdadeira história por trás de sua criação compõe um quadro explicativo bem diferente, o modelo de inovação num sistema de trabalho em conjunto. Sim, a lâmpada marcou um limite na história da inovação, mas por razões bem diferentes. Seria forçar a barra dizer que a lâmpada foi criada por um mutirão, mas afirmar que um único homem chamado Thomas Edison a inventou é uma distorção ainda mais grave.

A história tradicional é mais ou menos assim: depois de um triunfante começo de carreira inventando o fonógrafo e o registrador de cotações (stock ticker) aos trinta anos de idade, Edison passou alguns meses fazendo uma turnê pelo Oeste americano – talvez não por coincidência uma região bem mais escura à noite que as ruas iluminadas a gás de Nova York e Nova Jersey. Dois dias depois de voltar a seu laboratório em Menlo Park, em agosto de 1878, Edison desenhou três diagramas em seu caderno de anotações, chamando-os de “luz elétrica”. Em 1879, ele apresentou um pedido de patente para uma “lâmpada elétrica” que exibia todas as principais características do bulbo que hoje conhecemos. No final de 1882, a empresa de Edison estava produzindo luz elétrica para todo o distrito de Pearl Street, na baixa Manhattan.

Essa é uma emocionante história de invenção. O jovem bruxo de Menlo Park tem um lampejo de inspiração, e em poucos anos sua ideia ilumina o mundo todo. O problema é que a luz incandescente já tinha sido inventada oitenta anos antes de Edison voltar sua atenção para o problema. Uma lâmpada envolve três elementos fundamentais: uma espécie de filamento que brilha quando a corrente elétrica o percorre, um mecanismo que impede o filamento de queimar muito depressa e uma fonte de energia elétrica para dar início à reação. Em 1802, o químico britânico Humphry Davy anexou um filamento de platina a uma primitiva bateria elétrica, fazendo com que queimasse durante alguns minutos. Lá pela década de 1840, dezenas de inventores independentes trabalhavam em variações da lâmpada elétrica. A primeira patente foi concedida em 1841 a um inglês chamado Frederick de Moleyns. O historiador Arthur A. Bright compilou uma lista de inventores parciais da lâmpada, chegando até o triunfo de Edison no final dos anos 1870.

Pelo menos metade dos homens havia chegado à fórmula básica que Edison afinal elaborou: um filamento de carbono suspenso no vácuo para evitar a oxidação, impedindo assim que o filamento queimasse muito depressa. Na verdade, quando enfim começou a mexer com a lâmpada elétrica, Edison passou meses trabalhando num sistema de retroalimentação para regular o fluxo de eletricidade de modo a evitar a fusão, antes de abandonar essa abordagem em favor do vácuo, embora quase a metade de seus antecessores já tivesse elegido o vácuo como o melhor ambiente para o brilho contínuo.

A lâmpada foi o tipo de inovação que juntou partes ao longo de décadas. Não houve um momento eureca na história da lâmpada. Quando Edison apertou o botão na estação de Pearl Street, um punhado de outras empresas já vendia seus próprios modelos de lâmpadas elétricas incandescentes. O inventor britânico Joseph Swan tinha iniciado a iluminação de casas e teatros no ano anterior. Edison inventou a lâmpada da mesma forma que Steve Jobs inventou o MP3 player: não foi o criador original, mas o primeiro a fazer algo que conquistou o mercado.

Então, por que Edison ficou com todo o crédito? É tentador usar o mesmo elogio ambíguo que muitos fazem a Steve Jobs: o de ser um mestre do marketing e das relações públicas. É verdade que Edison tinha um relacionamento muito próximo com a imprensa nesse momento de sua carreira. (Pelo menos em uma ocasião ele trocou ações de sua empresa com um jornalista a fim de obter melhor cobertura da imprensa.) Edison foi também um mestre do que hoje chamaríamos de “vaporware”: ele anunciava produtos inexistentes para assustar os concorrentes. Poucos meses depois de ter começado a trabalhar na luz elétrica, Edison declarou aos repórteres dos jornais de Nova York que o problema fora resolvido, que ele estava prestes a lançar um sistema nacional da mágica luz elétrica. Um sistema tão simples, dizia ele, “que um engraxate pode entender”.

Apesar dessa bravata, o fato é que os melhores exemplares de luz elétrica do laboratório de Edison não duravam cinco minutos. Isso não o impediu de convidar a imprensa ao laboratório de Menlo Park para ver sua lâmpada revolucionária. Edison levava um repórter de cada vez, ligava a chave de uma lâmpada e deixava o repórter curtir a luz por três ou quatro minutos antes de indicar a porta de saída. Quando o repórter perguntava quanto tempo suas lâmpadas durariam, ele respondia com confiança: “Para sempre, quase.”

Apesar de todo esse blefe, Edison e sua equipe conseguiram fazer um produto mágico e revolucionário, como o marketing da Apple teria definido a lâmpada Edison. Publicidade e marketing levam tudo mais longe. Em 1882, Edison havia produzido uma lâmpada que decididamente superava a de seus concorrentes, assim como o iPod superou os MP3 players rivais nos primeiros anos.
Em parte, a “invenção” da lâmpada de Edison não veio de uma grande ideia original, e sim do fato de ele ter suado nos detalhes. (Sua famosa piada sobre a invenção ser 1% inspiração e 99% transpiração se aplica muito bem a suas aventuras com a luz artificial.) Talvez a única contribuição mais significativa de Edison para a lâmpada elétrica tenha sido o filamento de bambu carbonizado que acabou implantando. Ele desperdiçou pelo menos um ano tentando fazer a platina funcionar como filamento, mas aquele era um material muito caro e propenso a derreter. Quando afinal abandonou a platina, Edison e sua equipe passaram por um verdadeiro jardim botânico de diferentes materiais: “celuloide, aparas de madeira (bucho, abeto, nogueira, caoba, cedro, pau-rosa e até bordo), madeira podre e seca, cortiça, linho, cerdas, casca de coco e uma variedade de papéis.”Depois de um ano de experimentação, o bambu surgiu como a substância mais durável, dando início a um dos capítulos mais estranhos da história do comércio global.

Edison enviou uma série de emissários de Menlo Park para vasculhar o planeta em busca do bambu mais incandescente no mundo natural. Um dos representantes percorreu 3 mil quilômetros de rios no Brasil. Outro viajou para Cuba, onde logo foi abatido pela febre amarela e morreu. Um terceiro representante, chamado William Moore, aventurou-se na China e no Japão, onde fez um acordo com um fazendeiro local para fornecimento do bambu mais forte que os assistentes de Menlo Park haviam encontrado. O acordo continuou cumprido por muitos anos, fornecendo os filamentos que iluminavam salões em todo o mundo. Edison não inventou a lâmpada, mas inaugurou uma tradição que seria vital na inovação moderna: empresas de eletrônicos americanas importando partes de seus componentes da Ásia. A única diferença é que, na época de Edison, a fábrica asiática era uma floresta.

Outro ingrediente-chave para o sucesso de Edison estava no time que ele reuniu em Menlo Park, memoravelmente conhecido como “os cafajestes”. Os cafajestes eram bem diversificados, tanto em termos de especialização profissional quanto de nacionalidade: o mecânico britânico Charles Batchelor, o maquinista suíço John Kruesi, o físico e matemático Francis Upton e uma dúzia de desenhistas, químicos e metalúrgicos. Como a lâmpada de Edison era menos uma invenção original que uma bricolagem de pequenas melhorias, a diversidade da equipe acabou sendo uma vantagem essencial para o inventor.

Resolver o problema do filamento, por exemplo, exigiu uma compreensão científica da resistência elétrica e da oxidação que Upton fornecia, complementando o estilo mais inculto e intuitivo de Edison; e foram as improvisações mecânicas de Batchelor que permitiram testar tantos candidatos diferentes para o filamento. Menlo Park marcou o início de uma forma de organização que viria a predominar no século XX: o laboratório de pesquisa e desenvolvimento interdisciplinar. Nesse sentido, as ideias transformadoras e as tecnologias geradas em lugares como a Bell Labs e a Xerox-Parc têm raiz na oficina de Edison. Ele não apenas inventou a tecnologia, criou todo um sistema de invenção, um sistema que viria a dominar a indústria do século XX.

Edison também ajudou a inaugurar outra tradição que se tornaria vital para a inovação contemporânea de alta tecnologia: pagar seus funcionários com dividendos, e não apenas em dinheiro. Em 1879, em meio às pesquisas mais frenéticas para a lâmpada, Edison ofereceu a Francis Upton ações no valor de 5% da Edison Electric Light Company – embora ele tivesse de renunciar a seu salário de US$ 600 por ano. Upton relutou em aceitar a proposta, mas afinal decidiu receber as ações, apesar das objeções do pai, mais conservador em termos fiscais. Até o final do ano, o aumento do valor das ações da Edison significava que seu patrimônio já valia US$ 10 mil, mais de US$ 1 milhão em moeda atual. Sem qualquer delicadeza, Upton escreveu ao pai: “Não consigo deixar de rir quando penso quão tímido você era em casa.”

Sem dúvida, Edison foi um verdadeiro gênio, uma figura de destaque na inovação do século XIX. No entanto, como a história da lâmpada deixa claro, temos entendido mal esse gênio ao longo da história. Sua maior conquista pode ter sido a maneira que descobriu para tornar as equipes mais criativas, agregando diversas habilidades num ambiente de trabalho que valorizava a experimentação e aceitava os erros, incentivando o grupo com recompensas financeiras alinhadas ao sucesso global da organização, e com base em ideias originadas em outro local. “Não me sinto muito impressionado com os grandes nomes e reputações de quem pode estar tentando me vencer numa invenção. … São suas ‘ideias’ que me interessam”, disse Edison em uma das suas famosas declarações. “Sou corretamente descrito como ‘mais uma esponja que um inventor’.”

A lâmpada foi produto de inovação em rede, e por isso é justo que a realidade da luz elétrica, em última instância, tenha se revelado mais como rede ou sistema que como entidade única. A verdadeira vitória de Edison não veio com o filamento de bambu incandescente no vácuo, chegou com a iluminação do distrito de Pearl Street, dois anos depois. Para que isso acontecesse, era necessário inventar a lâmpada, sim, mas também era preciso uma fonte de corrente elétrica confiável, um sistema de distribuição de corrente que abrangesse a localidade, um mecanismo para conectar as lâmpadas individuais à rede e um medidor para auferir a quantidade de eletricidade utilizada em cada casa. Uma lâmpada por si só é uma curiosidade, algo para deslumbrar os repórteres. O que Edison e seus aventureiros criaram era muito maior que isso: uma rede de múltiplas inovações, todas ligadas entre si para tornar a magia da luz elétrica segura e acessível.

Por que deveríamos nos importar se Edison inventou a lâmpada agindo como gênio solitário ou como parte de uma rede mais ampla? Para começar, se a invenção da lâmpada é uma história ilustrativa de como novas tecnologias passam a existir, seria preciso construir uma narrativa verídica. A questão, todavia, vai além de apenas obter os fatos de forma correta, pois há implicações sociais e políticas em histórias desse tipo. Sabemos que um motor essencial do progresso e dos padrões de vida é a inovação tecnológica. Sabemos que queremos incentivar as tendências que nos levaram dos dez minutos de luz artificial com uma hora de salário para trezentos dias. Se pensarmos que a inovação vem de um gênio solitário, de criar uma nova tecnologia a partir do zero, esse modelo nos leva naturalmente a determinadas decisões políticas, como uma proteção de patente mais forte. No entanto, se pensarmos que a inovação sai de redes colaborativas, é preferível apoiar diferentes políticas e formas organizacionais: leis de patente menos rígidas, normas abertas, participação de funcionários nos programas de ações, conexões interdisciplinares. A lâmpada faz a luz iluminar melhor nossa leitura de cabeceira; nos ajuda a ver mais claramente o caminho para o nascimento de novas ideias e como cultivá-las numa sociedade."

Como chegamos até aqui – Steven Johnson – Editora Zahar