Strange Fruit
Southern trees bear strange fruit
Blood on the leaves and blood at the root
Black bodies swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees
Pastoral scene of the gallant south
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolias, sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh
Here is fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for the trees to drop
Here is a strange and bitter crop
(Billie Holiday, 1939)
* * *
"Billie Holiday tinha apenas 23 anos quando cantou pela primeira vez "Strange Fruit".
Ela estava no palco do Café Society, "a única boate de Nova York
realmente integrada", descreve o jornalista americano David Margolick,
referindo-se ao fato de que este era um dos raros locais em que brancos e
negros eram tratados como iguais, em 1939, nos Estados Unidos.
Mas mesmo ali, continua Margolick, Billie Holiday teve medo de
interpretar "uma canção que atacava de frente o ódio racial, numa época
em que nem se sonhava com a música de protesto".
"Não houve nem mesmo uma tentativa de aplauso quando eu terminei",
escreveu Holiday em sua autobiografia. "Então uma pessoa começou a
aplaudir nervosamente. De repente, todo mundo estava aplaudindo."
Nos 21 anos seguintes, até sua morte, aos 44 anos, Billie Holiday causou
comoção todas as vezes que entoou "Strange Fruit", música que descrevia
o horror dos linchamentos de negros nos Estados do sul do país.
A trajetória dessa triste canção inspirou Margolick a escrever "Strange
Fruit - Billie Holiday e a Biografia de uma Canção" (2000), que chega
agora ao Brasil."
(Para ler o restante da matéria de Adriana Ferreira Silva na Folha, clique AQUI. A imagem é do linchamento de C.J.Miller em 1893. Encontrei no Abagond. Outras informações sobre sua morte injusta, AQUI e AQUI.)
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segunda-feira, 19 de novembro de 2012
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domingo, 27 de fevereiro de 2011
Onirogrito

Zerar
A crônica "Racismo Camuflado" foi escrita para a revista Trip 195 pelo cineasta Henrique Goldman, vivendo em Londres. Segue o trecho inicial (para o caso do link estar indisponível)
"
Sábado passado foi um dia de cão. Eu estava com meu filhinho de 3 anos numa enorme fila do caixa num supermercado aqui em Londres. Com aquela inocência típica de uma criança que descobre o mundo e se maravilha com cada detalhe, meu filho começou a encarar uma senhora negra que estava logo atrás de nós na fila. Secando a senhora com os olhos maravilhados, ele me perguntou, bem alto, em português: “Papai, por que esta mulher é marrom?”. A senhora percebeu que o menino tinha dito algo a seu respeito e, sorrindo, perguntou em inglês: “O que foi que você disse?”. Meu filho continuou calado, ainda mais abismado ao ver que a senhora, além de ser marrom, estava falando com ele. Eu hesitei um pouco, mas resolvi dizer a verdade e respondi com um sorriso apologético: “Ele perguntou por que a senhora é marrom”. Profundamente ofendida, a senhora me disse: “Você deveria educar o seu filho a não ser racista!”. E foi, com a cara amarrada, para outra fila. Ao meu redor, notei no olhar de muitas pessoas o desconforto, que ficou ainda maior quando meu filho começou a perguntar, agora falando ainda mais alto e em inglês: “Why did the brown lady leave, daddy?” (Papai, por que a senhora marrom foi embora?).
O que eu podia responder? “Filho, eles inventaram e implantaram no século 17 o modelo da escravidão colonial, cujos lucros astronômicos financiaram a Revolução Industrial, criando as bases do império britânico. Para gerar essa riqueza, por séculos milhões de vidas foram destruídas e um continente inteiro, a África, foi devastado. O legado de racismo e pobreza continua ativo, espalhado pelo mundo. Mas também, filho, neste país esquizofrênico, tem muita gente legal, e eles, praticamente ao mesmo tempo, inventaram o abolicionismo, movimento de massa em defesa dos direitos humanos. A filha-da-putice e a enorme culpa gerada por tamanha filha-da-putice sobrevivem ainda hoje. Por isso, não seria um problema perguntar para uma senhora loira por que ela é amarela, mas pode ser um problema perguntar para uma senhora negra por que ela é marrom. E olha, filho, aqui na Europa, onde a cor das pessoas é uma questão tão fundamental, nós dois, que somos brasileiros, somos considerados já meio marronzinhos. Mas não é um problema. É bom ser meio marronzinho.” Aproveitei que chegou minha vez no caixa para distraí-lo, sentindo-me aliviado por não ter que responder algo tão complicado.
"
..Acho que ao invés disto tudo que se propôs, ele poderia ter dito: Filho, as pessoas são diferentes; Tem quem tem o cabelo enrolado, a pele preta, o olho rasgado, a barriga grande, a bunda enorme, o que não anda, o de barbona, o careca, a pele amarela, a pele canela, a pele azul, o cabeludo, o que fala espanhol, o árabe, o alto, o anão. Ela é marrom porque ela é diferente e isto não é ruim, nem bom. É só diferente.
Cair numa justificativa histórica é mais uma forma de preservar preconceitos. Acaba alimentando e justificando o ódio. O esquecimento pode nos fazer errar de novo. Existe este risco. Por outro lado, pode nos libertar, deixar-nos livres pra fazer as coisas do jeito certo. Recomecemos.
(imagem: ? - via Haw-Lin)
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sexta-feira, 26 de junho de 2009
Onirogrito

memento mori
(Vivia entre Chico, Arrigo, Pink Floyd, Zeppelin e Dead Kennedys. Nunca fui seu fã, nem nunca tive um disco dele, ou baixei um mp3. Natural então que minhas primeiras lembranças diante da menção de sua morte não fossem de suas músicas que, por um estalo, passaram a tocar ininterruptamente no rádio, TV e, provavelmente, nos fones de MP3. Foi um documentário que assisti na TV a cabo. O assunto não era ele. O apresentador deste programa conviveria com grupos extremistas raciais (brancos) da África do Sul, Estados Unidos e outros lugares. O desenrolar era tenso: o repórter continha as suas perguntas para evitar que o convívio se encerrasse antes de se obter minutos suficientes de filmagem e, ao mesmo tempo, debater às claras, para que, afinal, houvesse motivo para acompanhar o programa.
Numa família de africânders (eles viviam em uma fazenda), o apresentador mantinha um diálogo relativamente amigável, observando álbuns de fotos, retratos, relembrando histórias antigas do apartheid. Em determinado momento, o repórter descobriu em meio à coleção de discos de vinil, um do Jackson Five. E aí, a coisa toda degringolou, porque o homem branco não queria ver paradoxo entre ser racista e acreditar na superioridade da raça branca e apreciar a música negra daqueles moleques. Mas lá estava o paradoxo, sob a vitrola na casa-grande.
Hoje, sei que encerrar assim será clichê. Tenho certeza que mais alguém terá esta ideia... Entretanto, continuará sendo uma verdade, para todos nós: We´ll be there. )
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