quinta-feira, 26 de junho de 2014

Telegrama



A história do carcereiro de Lao Tsé







Lao Tsé, um dia, cansou-se dos homens por estes não o escutarem, e decidiu deixar a China para trás – como se a China pudesse ser deixada para trás. O guarda da fronteira, ao ver o velho mestre abandonar o Império do Meio, a China, impediu-o. Levou-o para sua casa.

-Mulher – disse ele para a esposa -, sirva-lhe um chá.

Depois, o prendeu em um quarto que antes fora de seu filho.

Quando lhe levou o chá, hesitou. Será que Lao Tsé bebia chá? Diziam que se alimentava de orvalho.

-Mestre, tenho dúvidas quanto ao que vai comer e beber. Que tal se me dissesse? Pode ser chá?

-Chá está bem – disse o velho de um modo oriental.

-Já sabe, lamento sublinhar, que só sairá daqui quando escrever todos os seus ensinamentos. Não vai deixar a China completamente despovoada. Olhe para mim como uma grande muralha que impedirá sua sabedoria de escapar. Trouxe papel. Que grande invenção esta!... Uma pena, tinta e ordem para começar a escrever.

O velho pegou a grande invenção, a pena, a tinta e pousou-se ao lado do corpo. Estava sentado no chão, observando a parede de bambu e terra.

-Não sei por onde começar.

-Não sabe por onde começar? Quer que eu lhe faça um desenho? Mestre, deixe de brincadeira. Pegue sua sabedoria toda e escreva-a aí, com todos os caracteres que é composta.

-Não sei por onde começar – insistia o velho.

Chang coçou a cabeça:

-Por que é que não começa, por exemplo, dizendo o que é o Tao o Caminho?

-Como se eu soubesse.

-Isso é isso mesmo. O mestre começa por dizer que o Tao que pode ser dito não é o verdadeiro Tao. Que tal? Parece-lhe bom? O Tao que pode ser pronunciado não é o verdadeiro Tao. Vá, escreva isso.

O mestre, com dificuldade, escreveu o que o guarda da fronteira lhe dissera. Durante meses, escreveu o que o guarda lhe ditava. No fim desse tempo, perguntou:

-Já posso ir embora, venerável Chuang?

-Chang.

-Ou isso. Nunca fui bom em decorar nomes chineses.

-Pode ser embora. Deixou este belo livro para trás, toda a sua sabedoria está aqui. Já não precisamos do senhor.

Lao Tsé  saiu daquela casa pensando: “O mundo não precisa de lao tsés. Precisa, isso sim, de lao tsés calados”. E nunca mais voltou à China.



O escritor português Afonso Cruz em “Os Livros que devoraram meu pai’ (Leya). Foto Wolfgang Weinhardt

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