quarta-feira, 30 de setembro de 2020

na praia onde começa o mundo

 



1

 

O velho o carrega nas mãos até a amurada e dali o solta, em um gesto teatral. Você circula a Arca, dá duas ou três voltas para fixar na memória, depois abandona o navio. Um olho na frente e outro para trás, de modo a sempre saber para onde está indo e para onde voltar, se e quando você encontrar terra.

 

Passam-se os dias e as noites, a paisagem pouco muda: o céu encoberto, o mar na cor de asfalto, a mesma de suas penas. Apesar do pior da chuva ter se passado, ainda é muito perigoso. O vento vara latitudes e longitudes sem obstáculos e o chicoteia durante o voo. Sem continentes, as ondas crescem livres criando vales e cordilheiras de água. Você não é um bicho do oceano. Seu habitat é no meio das rochas, mas todas estão submersas até onde se sabe. Os demais pássaros tentaram aconselhá-lo, com o que conheciam, com o que imaginavam. Uma águia propôs que pescasse nas lagoas, sem perceber que todas as lagoas e rios viraram uma coisa só. A garça lhe falou de caranguejos imensos que poderiam lhe pinçar do ar para despedaçá-lo na boca. O dodô sugeriu que seguisse seu coração e tudo daria certo. A gaivota pouco ajudou; previu apenas que sua morte seria rápida e úmida.

 

Mesmo que houvesse alguma sabedoria útil, você pouco guardou da conferência dos pássaros. Seu cérebro não tem capacidade para tanto. Há espaço apenas para alguns sentimentos básicos. Por exemplo, a inveja quase absoluta contra sua companheira, que ficou no poleiro. Aquecida, preservada, segura do resto do dilúvio em um caixote de madeira a balançar sem rumo, náufragos perdidos comandados por um velho.

 

O outro sentimento é o da exaustão, que o faz cochilar e cair na água.

 

É impossível voar, as penas encharcadas. Deveria se deixar levar, afogar-se, morrer em paz. Mas não. Você é estúpido demais até para isso. Luta, bate as asas, estapeia as ondas, tenta continuar respirando. Não há o que enxergar, é noite, mas você escuta algo como um rugido insistente. Apesar da treva, você percebe a seu lado estranhos recifes. Não são rugidos, é o troar das ondas contra a primeira de todas as praias. As marés, furiosas por terem chegado ao limite, explodem contra o litoral que apareceu ali. Jogado para lá e para cá, empurrado em meio à espuma, você alcança a firmeza da areia, e se afasta da água em um passo trôpego e cheio de voltas do qual jamais conseguirá se livrar. Cansado demais para qualquer outra coisa, desmaia.

 

2

 

É um sonho idiota e inútil, mas é divertido, confesse. Não é bem uma história, está mais para um quadro, uma situação. Você sobrevive a um apocalipse muito mais absoluto que esse, do qual não resta nem água, nem céu, nem mundo. Apenas uma caverna. E, dentro dessa caverna, há um exército de terracota, uma infinidade de estátuas, uma imagem para cada criatura humana que já pisou e respirou. Ninguém mais existe, apenas você, um pombo, que tem como tarefa voar sobre cada uma dessas inúmeras frontes e presenteá-las com uma bela cagada.

 

Amanhece. O sol reaparece com dificuldade entre as nuvens ainda pesadas. Feito os urubus, você estende suas asas para secar naquela luz tímida. Com a claridade, percebe-se que os estranhos rochedos em meio às ondas não eram pedras. Eram cadáveres imensos, criaturas colossais, leviatãs, brontossauros, godzilas, megalomonstros encalhados à beira-mar.

 

Não havia apenas gigantes. Além deles, corpos de todo tipo de bicho e vegetal. Para cada casal a sobreviver na Arca, todos os demais da espécie se perderam na quarentena de enxurrada; girafas e caramujos, araras e ornitorrincos. Não eram apenas animais. Famílias de gentes, nobres e escravos, soldados e prisioneiros, lavradores e nômades. Levados pelas correntes, acumulavam-se pela praia, deitados em posições estranhas. Corpos inchados, vestidos de algas, cracas e siris, rolando felizes na praia.

 

Você nota, no alto de um dinossauro, outro pássaro. Suas asas estão secas e você pode arriscar um voo até lá. Surpreende-se ao encontrar o corvo, aquele, o primeiro a ser escolhido pelo velho para explorar o oceano.

 

Esta também fora uma decisão controversa do velho, muito debatida pelos animais. Afinal, por que corvos e pombos? Havia outros muito mais capazes e preparados, bichos de natureza migratória, andorinhas, albatrozes, gansos, as borboletas ou até os lemingues. Nunca se soube de corvos migratórios, justo eles que preferem ficar em meio à neve do inverno por apreciar olhos congelados em suas carcaças, um sorvete crocante.

 

Foi um boi quem melhor justificou a escolha do corvo, os corvos são astutos, talvez o velho veja nele uma espécie de irmão. Bem, se for assim, por que o pombo?, contra-argumentou o chimpanzé. Todos riram, até sua companheira. Você não estava acompanhando a discussão. Na verdade, se estivesse, não estaria entendendo. O papagaio concluiu, lembrando que o pombo só foi escolhido porque o asno ainda não aprendera a voar.

 

De volta ao crânio de dinossauro, o corvo recebe com alegria o antigo companheiro. Sentia-se solitário, sem ter com quem crocitar. Elogia aquele novo continente e o novo mundo que surgirá dali. Um paraíso esperando alguém para se servir. Sem homens, nem falcões. Sem lobos ou hienas a disputar carniça. Sem outros corvachos como concorrência. Sem filhotes a chorar por comida. Aqui se pode ser rei. Há carne o suficiente para nós por décadas. Isso é uma bênção de Deus, nós somos os escolhidos para reger esse banquete já temperado pelo mar. Essa nossa fartura putrefata.

 

3

Você escuta o corvo, sem perceber a proposta. Não se engane, você não é melhor que ele. Você não é, nem nunca será puro. Pureza é uma qualidade aplicável aos minerais, não à biologia.

 

Depois de descansar e se alimentar em meio ao lixo à beira-mar, você recupera um ramo de uma planta. As folhas contêm um estimulante, e mascá-las o ajudará a resistir à travessia.

 

De algum jeito, você consegue se orientar. Talvez as linhas magnéticas da Terra, talvez as constelações, talvez o fedor do esterco do rinoceronte. Ou, quem sabe, aquela linha de fumaça no horizonte, como uma prévia da estrela-de-Belém, apontando-lhe o caminho em meio ao mar.

 

O velho e sua família estão ocupados em tentar apagar o incêndio na Arca. Sem alternativa, alguns dos animais tentam ajudar, apesar do medo: elefantes com água em suas trombas; os tatus-bolas rolam sobre as chamas mais baixas para abafá-las. Você pergunta o que aconteceu. Sua companheira acusa os netos do velho, eles que iniciaram o fogo, eles que iniciaram o fogo, enquanto faziam churrasco de unicórnio. Estavam cansados de peixe.

 

Vocês abandonam o barco rumo ao continente. Atrás, segue todo animal capaz de voar: um enxame, uma revoada. Libélulas, morcegos, harpias e colibris a peneirar o dia com suas sombras. Sem o peso deles, o calado reduz consideravelmente, deixando a Arca ainda mais instável. Ondas ultrapassam as amuradas e facilitam o combate contra o fogaréu. Galinhas, emas e avestruzes ressentem-se de suas escolhas vendo a nuvem partir.

 

Se você tivesse permanecido, teria notado que o ramo caiu de seu bico enquanto estava sobre o convés. Mais tarde, após o final do fogo, durante o rescaldo, algum dos humanos terá encontrado a folha em meio às penas e às cinzas. E assim o velho receberá a notícia de que existem terras, que as águas baixaram e que o mundo continuará. Ele ordena que sigam na direção tomada pelas aves. Em uma espécie de agradecimento, você, o pombo, se tornará um símbolo de paz. Ou de submissão, por mais que bombardeie sua repulsa sobre as cabeças humanas.

 

 

 

 

2016, publicado na antologia O outro lado da notícia (Link Editora)

Nenhum comentário:

Postar um comentário