sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Escadas

nº09: Amor, um clichê gasto e surrado



Desculpe a insistência, mas esta história gira em torno de um golpe de sorte. Pois nem a imaginação mais fértil acreditaria em uma mudança tão radical no clima, da água para o vinho. Amanhecera um sol de rachar, promessa de um belo dia, sem nada a temer. Porém, lá pelo meio da tarde, armou uma forte tempestade, de gotas grossas. Um toró torrencial, de espantar cães e gatos. Maria se viu em maus e molhados lençóis, pois caminhava na cidade sem a prudência de um guarda-chuva. Vinda de local incerto e não sabido, decidiu tomar o metrô.

No subsolo, subindo para o exterior, vinha João, livre, leve e solto. Acabara de sair da composição e nem imaginava como estaria o clima lá fora. Estava feliz da vida, sem maiores preocupações, quem sabe nem se importasse com as nuvens ameaçadoras, quem sabe se arriscasse em um banho de chuva.

De tanto bater perna, Maria finalmente bateu de frente com João. Ou de lado, para ser mais exato: Maria descia a escada rolante e João, à sua direita, subia a escadaria fixa. Olharam-se, olhos nos olhos, e por um segundo sentiram-se inebriados e inebriantes pela paixão à primeira vista.

Pelas regras – sempre tão usadas e abusadas - do lugar-comum, eles deveriam continuar hipnotizados um pelo outro, iniciariam uma conversa afável, uma leve simpatia que se converteria em um amor pesado, daqueles para sempre, flechados pelo cupido da linha do metrô. A velha história de terminar em um final feliz.

Mas (sempre existe um "mas"), em um segundo olhar, analisaram-se melhor: eram jovens e bonitos, porém uma beleza comum, trivial, espécimes vulgares. Estavam em pé de igualdade com qualquer um. Julgavam-se especiais, melhores do que realmente eram; portanto, esperavam mais, alguém que não se encontra assim, à toa, dentro de uma estação de metrô. Decidiram ignorar-se solenemente e seguiram para um em seu caminho, em sentidos diametralmente opostos. Os dois em busca de seu gran finale particular.



 (Essa história não teria sido possível sem a participação essencial de “O Pai dos Burros” de Humberto Werneck. Hm... Ou talvez tivesse, mas não de propósito)

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