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domingo, 1 de janeiro de 2012

Telegramas




Metal Contra As Nuvens

Legião Urbana


I
Não sou escravo de ninguém
Ninguém, senhor do meu domínio
Sei o que devo defender
E, por valor eu tenho
E temo o que agora se desfaz.
Viajamos sete léguas
Por entre abismos e florestas
Por Deus nunca me vi tão só
É a própria fé o que destrói
Estes são dias desleais.
Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.
Reconheço meu pesar
Quando tudo é traição,
O que venho encontrar
É a virtude em outras mãos.
Minha terra é a terra que é minha
E sempre será
Minha terra tem a lua, tem estrelas
E sempre terá.

II
Quase acreditei na sua promessa
E o que vejo é fome e destruição
Perdi a minha sela e a minha espada
Perdi o meu castelo e minha princesa.
Quase acreditei, quase acreditei
E, por honra, se existir verdade
Existem os tolos e existe o ladrão
E há quem se alimente do que é roubo
Mas vou guardar o meu tesouro
Caso você esteja mentindo.
Olha o sopro do dragão...

III
É a verdade o que assombra
O descaso que condena,
A estupidez, o que destrói
Eu vejo tudo que se foi
E o que não existe mais
Tenho os sentidos já dormentes,
O corpo quer, a alma entende.
Esta é a terra-de-ninguém
Sei que devo resistir
Eu quero a espada em minhas mãos.
Eu sou metal, raio, relâmpago e trovão
Eu sou metal, eu sou o ouro em seu brasão
Eu sou metal, me sabe o sopro do dragão.
Não me entrego sem lutar
Tenho, ainda, coração
Não aprendi a me render
Que caia o inimigo então.

IV
- Tudo passa, tudo passará...
E nossa história não estará pelo avesso
Assim, sem final feliz.
Teremos coisas bonitas pra contar.
E até lá, vamos viver
Temos muito ainda por fazer
Não olhe pra trás
Apenas começamos.
O mundo começa agora
Apenas começamos.






(imagem DAQUI)

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

plenitude





1

Naquela manhã, entretanto, viram surgir logo antes da arrebentação a silhueta do homem e de sua montaria. As ondas os varriam para o raso. As pessoas na praia estancaram, interrompendo a coleta de conchas mortas. Logo se constatou ser um cavaleiro medieval.

Aproximaram-se daqueles dois com curiosidade de mulher que cerca o jangadeiro que retorna do mar. Ao nascer do sol, é costume dos nativos caminhar à beira-mar com pequenos baldes plásticos e cajados com os quais futucam a tralha trazida na maré: tábuas podres cobertas de craca; latas, copos descartáveis e guimbas; tocos de remos e pedaços rasgados de redes; estrelas, peixes e pinguins mortos; às vezes, um pequeno kraken preto, semidevorado por gaivotas e sereias.

A montaria estava exaurida, rodara mais de um mundo para chegar àquele litoral: vomitava água como se alguém torcesse suas tripas encharcadas. Testemunhas presenciaram algas e camarões trançados na crina e nos cabelos do rabo. Mesmo assim, indiferente à exaustão do animal, o cavaleiro somente apeou sobre a areia, no limite final do alcance das ondas, onde ficam os furos das tocas dos tatuíras. Cada movimento do cavaleiro derramava água das articulações da armadura. Quando este ergueu a viseira do elmo, um pequeno siri escapuliu do esconderijo. O homem voltou seu rosto para o mar, inspirou fundo e feliz os raios daquele sol. As demais pessoas ao redor sorriram, calcularam que fazia muito tempo que ficara submerso, talvez tivesse se esquecido do dia.

Rompendo a passividade dos nativos, um senhor já de alguma idade adiantou-se e, com o cajado, tocou naquele estranho. O cavaleiro desembainhou a espada e fez o aço da lâmina roçar na papada do pescoço do velho. A roda dos curiosos revoou, uns correram, outros deixaram os baldes e as conchas na areia. O velho respondeu à única questão feita pelo cavaleiro.

- Sim, aqui é Cocanha.


2

Feito um escafandrista, o cavaleiro caminhou pesadamente sobre a areia fofa, arrastando atrás de si a montaria. O esforço era grande, aconselhava o descanso. Mas resistiu para rumar ao interior daquela terra, onde avenidas de asfalto serviam de fosso para as torres de alturas diferentes que compunham a muralha irregular daquela cidadela.


O animal resfolegou até alcançar o calçadão. Os cascos estalaram no mosaico de pedras recortadas. O cavaleiro maravilhou-se com o chiado do vento nas palmas das palmeiras, a disposição de janelas como em um tabuleiro deixado de lado, a oferta de javali assado e água de coco nos quiosques,a peculiar autolocomoção das carruagens. Observou que diversas pessoas estavam nuas, em aparente desvergonha. Todavia, a maioria delas corria, acreditou que haveria algum perigo em curso, que fazia com que fugissem daquele jeito.


Apesar do escudo, peitoral, cota de malha, gorjal, sobrepeliz, camal, bacinete, o cavaleiro parecia ser mais leve que os usuais frequentadores da praia, com dobras de gordura a transbordar sobre sungas, bermudas, cangas e biquínis. Seu aspecto atraía a atenção dos demais nativos na rua. Outros se ajuntaram à romaria curiosa. Inicialmente acompanhavam os estrangeiros (homem e animal) e depois bloquearam-lhes o caminho. Crianças puxavam-lhe os restos puídos do mantelete, mulheres apontavam rindo a espada embainhada, os homens gargalhavam e se empurravam na tentativa de tocá-lo, e, neste momento, o cavaleiro baixou sua viseira.

A turba continuou a apontar-lhe os celulares, gravando suas imagens como balestras apontadas. Nem mesmo depois da espada ter cortado um ou dois, os nativos ignoravam aqueles caídos e insistiam em um frenesi de hienas cercando moribundo. Só depois de montar no cavalo e abrir caminho entre a multidão e cruzar a avenida rumo às vielas da cidadela, perceberam os corpos flácidos e nus em poças de sangue e tecido adiposo.

3

Pediu orientação a um sujeito que lhe apontou o leste. Em seu país, normalmente a igreja ou o castelo seria o lugar mais alto de toda a cidade. Naquela ilha, entretanto, as torres eram tão altas que impediam que se enxergasse muito longe. Os próprios pássaros precisaram aprender a se orientar pelos becos e ruas, pois eles também estavam confinados pelas paredes daqueles prédios. As carruagens grasnavam para os estrangeiros, contínua e violentamente, enervando o cavalo.

Encontrou uma praça aberta como uma clareira queimada naquele jardim de pedra, e no meio da praça, entre as sombras das révoas dos pombos e oculta entre alamedas de mangueiras, havia uma catedral de pedras brancas decorada com pequenas cagadas que derretiam das paredes, pequena e inapropriada para aquela terra de maravilhas.


O cavaleiro notou uma cerca de lanças ao redor da Igreja, um tanto frágil para servir como defesa. Amarrou seu animal ali, indiferente à curiosidade de pipoqueiros, vendedores de terços e medalhinhas. Adentrou na nave e deu de cara com o quadro de avisos e uma cortiça espetada com cartões de apresentação. Não havia celebração no momento, um grupo de senhoras orava em voz alta em um dos braços da catedral. Ajoelhou-se perante o altar e agradeceu.

Um padre se aproximou daquela estranha figura fétida; com tapinhas em suas ombreiras, interrompeu a prece. Perguntou se tinha autorização do bispo para fazer filmagens ali dentro e solicitou seus documentos. O cavaleiro respondeu à maneira de sua terra. Quis saber de Cocanha, dos alimentos voadores, dos rios de vinho e mel, das mulheres virgens a verter leite, do trabalho que não existia, de onde estava a alegria naquela terra de prazeres, de onde vinha o sentido. O padre, se entendeu, ignorou suas palavras, estava muito nervoso, afirmava que não se podia fazer dinheiro em nome da Santa Igreja, que o templo era um lugar de adoração e não de heresias. Fez aquele homem se erguer, sem disfarçar sua repugnância pela exalação de peixe morto do viajante. O empurrou em direção à saída, sob os olhares dos pedintes na escadaria.

O cavaleiro percebeu que a cerca não estava lá para os inimigos da cidadela mas para os fiéis.

4

Veio a noite, o cavaleiro acendeu uma fogueira sob os arcos de um viaduto. Dividiu sua ceia com a montaria; restos de hambúrguer e pizzas mofadas em um saco preto de lixo. Chovia e as águas desciam da pista sobre sua cabeça em uma torrente, fazendo nascer uma cascata. Logo se reuniram outros, e o homem sentiu-se mais à vontade entre aqueles humildes do que entre os nativos da praia. Eram mais magros que aqueles da manhã e pareciam tão famintos quanto aqueles vilões de sua terra natal. Eram quase todos velhos bêbados, como zumbis ou crianças ligeiras, como duendes. Acendiam seus cachimbos e dormitavam sonhos quentes de olhos entreabertos. Sabia-se que em Cocanha havia uma nascente que faria os anciões recobrarem a juventude. Ali, no meio dos pivetes e dos bebuns, pensou se a corredeira daquela sarjeta iluminada pelos faróis dos carros seria a origem daquela história.

Aquela era mesmo Cocanha, a terra da fartura. Aquela matilha faminta viciada sifilítica era mais sadia e robusta que a canalha de sua casa. Dormiam rodeados pelo ouro, que de tanto brilhar irrompia pelas janelas dos apartamentos. Sim, estamos em Cocanha. Estamos no paraíso. Mas não existe plenitude.











(Cocanha. Publicado pel´O Bule. Grato Rodrigo. Foto Via Mystic Lady)

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Escadas



nº05: amazonas






A porta do metrô abriu, e, lentamente, João saiu do vagão. As pessoas corriam para entrar no trem, apressadas. João tossiu. Arrumou os óculos sobre o nariz e procurou as flechas de saída, uma vez que não havia fluxo de pessoas para se orientar. Alguns pareciam gritar para ele, mas João ouvia mal, coisas da idade. Entretanto, ele poderia ter notado o cheiro de algo queimando. Caminhou com vagar para a escada, o sapato chiando sobre o piso da plataforma. O trem partiu, a composição passando cada vez mais rápida a seu lado, o mundo corre e os velhos ficam para trás. Lá em cima, as Amazonas invadiam a estação. Os rinchos e cascos estalavam na calçada. Um policial tentara reagir e agora ele era arrastado no asfalto por uma guerreira a cavalo. A carcaça de um ônibus fumegava, elas jogavam roupas livros revistas dvds piratas para alimentar aquela chama. Apearam de seus corcéis, espadas em punho, escudos erguidos. Buscavam aqueles que tentaram fugir por ali. Disparavam setas e arremessaram lanças contra passageiros e funcionários. Alguém que filmava os eventos com um celular teve a mão decepada. Um grupo rodeava a bilheteria à prova de balas. Os funcionários se escondiam ali dentro, chamavam por ajuda. Golpes de maças contra o vidro desenhavam estranhos girassóis. Finalmente trouxeram o candeeiro para os archotes e as flechas. Queimariam eles ali, em meio ao dinheiro, às moedas, aos bilhetes de metrô. As pessoas se deitavam e se encolhiam, as Amazonas puxavam estes pelos cabelos, roupas, mochilas. Deixavam estes degolados, os gritos afogados na mancha lenta densa de sangue pelo chão. Outros corriam, mas as setas varavam a carne interrompendo a fuga. Uma mulher da limpeza reagiu com vassouradas e até acertou uma antes de ser talhada pelos sabres. Alguns eram poupados, acorrentados, empurrados para a rua onde ocorriam outros massacres. E João subia as escadas com dificuldade. Nem viu o cadáver que descia sobre a escada rolante, a flecha certeira nas costas. Maria, a assassina, caminhava lentamente em meio aos gritos: queria se certificar que aquele estava morto. O corpo chegara ao fim do percurso e era sacudido pelas ondas dos degraus da máquina como se fosse um afogado. Arco ainda na mão, retirou outra flecha da aljava e desceu a escada rolante para recuperar a seta sangrenta. Ignorou as instruções de segurança aconselhando a sempre segurar o corrimão. Maria percebeu o velho subindo as escadas. Se antes ele estava alheio a tudo, agora notou aquela seminua, um dos pequenos seios mutilados. Ela retesou o arco que cedeu com um rangido reclamação de corda e madeira. Quando os dedos afrouxaram e a seta saltou com um silvo no ar, Maria o reconheceu, talvez tarde demais:


-Vô..?






(Horse Spirit by Marcelina Martin. Via Vasuki e Smoke & Sassafras)

sábado, 4 de abril de 2009

faca cravada


Estava no alto a faca cravada.


Fora de vista, se não erguesse a cabeça. Quase ninguém olha para cima, enquanto caminha pela rua. Muito arriscado: a calçada cheia de degraus e buracos e fendas e rampas e bostas de cachorro. Mas, por acaso, eu a vi. Uma faca de pão, destas grandes, serrilhadas, cabo de plástico laranja, enfiada em um galho da árvore, quase fora de alcance. Eu não entendo muito de plantas, até hoje mal sei diferenciar rosas e violetas. De árvores, então... Não era um ipê, nem uma quaresmeira, não havia flores. O tronco era escuro, de aparência carnosa e úmida, um tapete de limo surgia nas dobras e se espalhava. Devia ter uns quinze metros, talvez mais, seus galhos disputavam espaço com os cabos de força dos postes. Percebia-se que a prefeitura cortara alguns galhos para não impedir a passagem dos coletivos e caminhões. A natureza não pode atravancar o fluxo de veículos.
A árvore estava na esquina de um cruzamento, perto do semáforo. Cogitei que a faca deveria ser estratégia de malandro. Um bandido deixa a arma na esquina e assim pode ir e vir tranqüilamente e usá-la apenas na hora de fazer o serviço, quando parar uma moça que esqueceu uma fresta na janela do carro. Porém, para ser justo, ponderei uma outra hipótese, menos grave, talvez. Havia uma residência adiante da árvore: bem antiga, com piso de cacos vermelhos e um jardim ressequido. Toda a manhã, eu fazia este caminho para o ponto de ônibus e, vez ou outra, cruzava a velha proprietária, sempre de camisola e óculos e cabelos desgrenhados como uma bruxa a varrer, furiosa, as folhas da calçada e do quintal.
Talvez não fosse uma faca de ladrão afinal. Podia ser que a faca estivesse cravada lá para sangrar a seiva da árvore e fazer então ela morrer. A velha poderia dizer adeus então a sujeita e ao cocô dos pombos que empestiavam seu quintal. Mas não devia ser isto, não. De plantas, conheço pouco, mas pelo que sei, o corte precisava ser mais baixo, no tronco principal e não em um galho alto.
Mas, por outro lado, faca de pão não é arma que se preza para um ladrão: a não ser que ele pretenda passar margarina na vítima depois de cortá-la.



À noite, sonhei estranho. Caminhava por uma floresta de filmes, não aquele mato suarento que a gente tem aqui. Uma névoa cobria o céu e o horizonte e me sentia perdido e gelado. Eu escutei um trote de cavalo, mas quem apareceu foi um velho de barbas longas e brancas, em uma ridícula camisa havaiana estampada com planetas, estrelas e meia-luas. Uma das luas transformou-se em uma foice pequena, e o velho a usava para aparar as extremidades da barba. Seu olhar era malicioso (eu não gosto desta palavra, pois me soa pervertida, mas agora não vou procurar outra), porém seu dizer era sensato: Com aquela faca na madeira há o risco de haver um crime ou morte e é melhor tomar a coroa para si antes que um aventureiro o faça.



Manhã seguinte, feriado. Cidade vazia, pareceria madrugada, não fossem os corredores matutinos e aqueles passeando com os cães. Fui à padaria e enquanto comia meu sonho, lembrei do outro, de verdade.
Saco de pães e jornal na mão, passei pela árvore. A faca permanecia lá. Antes de me render, refleti que poderia ser uma espécie de feitiço, algo como um despacho de macumba. Eu poderia acabar interferindo nas vontades dos orixás, acabar amaldiçoado ou coisa assim. Ainda assim, deixei meus embrulhos sobre a mureta pichada da casa da velha. Meus chinelos ficaram na calçada. Subi pelo tronco, não foi fácil, a madeira podre soltava-se em minhas mãos e sob meus pés.
Sobre a árvore, um último delírio surgiu, aquela árvore era mais antiga que a cidade, ela conseguiu sobreviver a tudo, ao concreto e ao asfalto, à fumaça e às pessoas, a cidade irrompeu a sua volta, apenas porque ela permitiu. E agora ela pede por uma chance, por uma voz. Retirei a faca de pão, escutei um grito à distância, poderia até ser uma sirene, mas a mim pareceu um animal. Caí da árvore.


Machucado, verifiquei o objeto de meu tormento. Estava escrito em letras mínimas sobre o cabo de plástico laranja, quase invisíveis: “Quem retirar esta espada da pedra será o Rei da Inglaterra”. Sorri e voltei para casa, achando tudo uma bobagem. Obviamente, isto foi muitos anos antes de nosso exército de motoboys tomar Londres devastada. Mas esta é uma outra história.













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(basicamente, este foi meu conto publicado em Anno Domini, antologia de contos organizada por Claudio Brites e Helena Gomes e publicado pela editora Andross)