Mostrando postagens com marcador joca reiners terron. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador joca reiners terron. Mostrar todas as postagens

domingo, 9 de dezembro de 2012

Telegramas








(­O sábio e desafortunado romano Pompônio Flato fala umas verdades ao Jesus menino. Ou Jesus moleque, se preferir.)
-Tudo que acontece, acontece por vontade de Deus, raboni?
-Não sei. Mas se é assim, devemos perdoá-lo, porque Deus ou os deuses do Olimpo não conhecem a dor de perder as pessoas queridas e isso os faz inferiores a nós.
Jesus me olhou com intensidade e exclamou:
-Isso que você está dizendo não é uma blasfêmia:
-Com certeza. Blasfemar é outro privilégio privativo dos homens. Não serve para muito, mas, em ocasiões como esta, até que não vai mal.



(...e, logo adiante, sobre a imortalidade da alma) 

-Das muitas coisas escritas, muito poucas estão comprovadas. Sócrates estava convencido da imortalidade da alma, assim como Platão. Mas nisso, com toda a humildade, discrepo de tão grandes mestres pelas razões que a seguir exporei. Antes de mais nada, partamos do pressuposto de que o homem é formado de duas partes bem diferenciadas, isto é a matéria e o espírito, ou, o que dá na mesma, o corpo e a alma. A alma é o que infunde vida ao corpo, de tal modo que quando o abandona, o corpo deixa de funcionar e dizemos que o homem a quem pertencia morreu. Já a alma, sim, pode existir sem o corpo, como demonstra o fato de que o corpo inanimado, seja quando dorme, seja quando por alguma causa perdeu a consciência, a alma o abandona e segue a seu bel-prazer, liberada de qualquer amarra, e por isso pode cobrir as maiores distâncias num instante, inclusive se deslocar no tempo, transmutar-se em outra pessoa sem perder, por isso, a consciência de sua própria identidade, e ter contato com seres vivos ou mortos, humanos ou animais, até mesmo com monstros ou quimeras, assim como conseguir façanhas que o corpo seria incapaz de realizar, ou desfrutar deleites, que ao corpo seriam inalcançáveis, para não falar de todo tipo de perversões. A essas experiências chamamos de sonhos. Não obstante, se os analisarmos um pouco, veremos que nesses episódios a alma obtém mais pesares que alegrias, com frequência sofre perseguições, opressões, angústias e tristezas, e encontra-se sempre em um estado de grande confusão, como se tivesse perdido o juízo. Por isso, ao cabo de muito pouco tempo, retorna ao corpo e o desperta com grande pressa e agitação, e quando de novo se une a ele,  tranquiliza-se e experimenta tal bem-estar que os problemas e aborrecimentos da vida real lhe parecem nímios em comparação com os apuros pelos quais passou em suas andanças. E, se é assim, o que acontecerá em comparação com os apuros pelos quais passou em suas andanças. E, se é assim, o que acontecerá se depois da morte a alma se vir obrigada a vagar eternamente, sabendo que nunca poderá voltar ao corpo que a conteve, posto que este se reduziu a pó? Por essa razão, muitos povos embalsamam e mumificam o corpo, para que a alma não se veja totalmente privada dele. Pois embora a alma, por sua capacidade, pareça pertencer à mesma ordem natural dos deuses, na realidade é inferior ao corpo, e está subordinada a ele, e só com ele consegue proteção e sossego. Por tudo isso, não me parece lógico que os deuses nos tenham condenado a um suplício semelhante, e prefiro acreditar que uma vez apurados os trabalhos e dissabores desta vida, quando também nosso corpo deixar de sentir, o espírito também encontrará seu descanso regressando para o nada em que estava tão placidamente antes de ter nascido.





(Trechos extraídos de "A Assombrosa Viagem de Pompônio Flato", de Eduardo Mendoza. Merecia melhor capa da editora. Dá impressão que o título é o nome do autor. Fora isto, ótimo livro, perfeito para amigos secretos)


(Imagem: Tracejado do grafite de Alexámanos. Encontrado em uma das ruínas do Monte Palatino em Roma. Supõe-se que seja uma chacota (bullying?) de um soldado romano contra outro, de fé cristã. No desenho, Cristo estaria representado com uma cabeça de burro. A legenda está em grego: Αλεξαμενοϲ ϲεβετε θεον, que poderia ser algo como "Alexámanos adorando a seu deus". A imagem seria do século III d.C.)

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Telegrama






As árvores todas todinhas vão pif.
as rochas todas todinhas vão paf.
a natureza toda todinha puf.

Os carinhas todos todinhos vão pif.
as minas todas todinhas vão paf.
o casamento todo todinho puf.

Os eslavos todos todinhos vão pif.
os judeus todos todinhos vão paf.
a Rússia toda todinha puf.

(início de outubro de 1929)





Tradução de Reiners Terron para poema de Daniil Kharms. Imagem... esqueci.

Complemento:
Outras histórias de Daniil Kharms, em inglês, AQUI, via Coisas do Arco da Velha

domingo, 14 de agosto de 2011

Achados




Dilemas de pais


a)O Império da Verdade, por Bráulio Tavares

Trecho:

"Corolário: existem verdades factuais (coisas concretas que aconteceram e que podem ser comprovadas por testemunhas independentes), verdades intelectuais (coisas que, argumentadas, fazem sentido, mas existem apenas no plano das idéias e não podem ter comprovação material, nem precisam) e verdades afetivas, as mais difíceis de definir, mas que exercem talvez a maior pressão sobre as decisões que tomamos."


b)Brás Cubas e o gene do amadurecimento precoce, por Joca Reiners Terron

Trecho:

"Com a mudança hormonal, minha filha também mudou de hábitos. A principal mudança está relacionada ao uso do celular. Se antes ela atendia minhas ligações, agora não as atende mais. O diálogo secou, murchou, virou uma estática interrompida por interjeições monossilábicas pelas quais cobram 1 real o minuto. É um preço caro demais, esse.

Outros hábitos, entretanto, se mantêm. Um deles é a leitura de livros adiantados à sua faixa etária. O único culpado dessas leituras antecipadas sou eu, e acho justo que seja justamente eu a pagar o pato da incomunicabilidade atual.

Ao adiantar as leituras da Julia, eu me rebelava contra a chatice dos livros que lhe eram impostos na escola. Ao mesmo tempo, sem saber, inventava o chip que lhe extirparia a inocência. É claro que ler livros inadequados para uma determinada idade fornece apenas, digamos, o arcabouço teórico da existência, pois a dor prática sempre bate alguns palmos abaixo de onde fica o cérebro."


c)Pequenas Trapaças, por Aldo Quiroga

Trecho:

"Desde sempre temos um pacto por aqui: as coisas devem ser ditas como elas são. Claro que as adaptações se fazem necessárias, seja pela idade dos pequenos, seja pelo adiantado da hora. Mas o que chamo aqui de “pequenas trapaças” aparece em questões que não são aquelas vitais, que formarão o caráter. São aquelas coisas que tem mais a ver com a nossa sobrevivência."




(Imagem - via Caprichos de Cómic - Frederik Peeters. Segundo Raquel Cozer, Peeters será publicado no Brasil pela editora Tordesilhas, ilustrando o quadrinho Castelo de Areia. Mas ainda não é Blue Pills - conta a história de seu relacionamento com uma garota soropositivo nem Lupus, um "road movie" interplanetário.)

sábado, 4 de junho de 2011

Achados


Round & Round by New Order

new order | Myspace Music Videos



a)Timidez?

Um DVD pra homens hiper-travados: A ideia é que se fique olhando para as meninas nos olhos como um treinamento para quando rolar uma conversa de verdade com uma garota (Supondo, obviamente, que o cara chegará a este ponto). O produto é japonês e o SUPERPUNCH postou um vídeo com uma amostra de um minuto, pra quem quiser ver...

Desde o ano de 2006, uma garota posta vídeos similares a este... Ela se tornou uma "celebridade do You Tube", Magibon. A garota é norte-americana mas aprendeu algumas palavras em japonês que são ditas durante seus vídeos curtos, nos quais simplesmente fica encarando a câmera com olhos "pidões"(mas pedindo o quê, meu Deus do céu?). Estes videozinhos estranhos conseguiram atrair milhões de visualizações.


Pessoalmente prefiro o New Order.


b)Bonecas de Marina Bychkova. Conforme eu vi no English Russia.





c)25 Trepadas literárias, achadas pelo Joca Reiners Terron. Ele escolheu pra Playboy, agora você escolhe qual prefere pra mandar/fazer/sonhar com o namorado/namorada. Clique AQUI.

Pra não ficar diferente, deixo uma de Clive Barker. O trecho é de um dos contos do esgotadíssimo Livros de Sangue, "A Idade do Desejo", no qual um homem fode, entre outras coisas e pessoas, com uma parede.

"Refugiou-se num beco quieto para se fazer apresentável. As roupas que havia conseguido agarrar antes de fugir eram uma confusão só, mas serviram para evitar que ele atraísse uma atenção indesejável. Enquanto abotoava as calças - o corpo parecia tenso como ressentido por estar oculto - tentou controlar o holocausto que trovejava entre suas orelhas. Mas as chamas não cediam. Cada fibra sua parecia viva ao fluxo do mundo ao seu redor. As árvores ao longo da estrada, a parede às suas costas, as próprias pedras do calçamento sob seus pés descalços lhe atiçavam fagulhas e queimavam agora com fogo próprio. Ele sorriu ao ver a conflagração se espalhar. O mundo, em cada detalhe ansioso, sorriu de volta.

Excitado além do controle, virou-se para a parede contra a qual se apoiara. O sol havia caído por completo sobre ela, e estava quente: os tijolos cheiravam maravilhosamente. Depositou beijos em suas faces terrosas, as mãos explorando cada reentrância. Murmurando besteiras adocicadas, baixou o zíper, encontrou um nicho confortável e o preencheu. Sua mente corria com imagens líquidas: anatomias misturadas, femininas e masculinas em um único indistinguível congresso. Acima dele, mesmo as nuvens haviam pegado fogo; enfeitiçado por suas cabeças em chamas, ele sentiu o momento elevar-se em sua excitação. A respiração era rápida agora. Mas o êxtase? Certamente continuaria para sempre."