sexta-feira, 6 de maio de 2016
Telegrama
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sexta-feira, 8 de abril de 2016
mácula
1.
Dona Imaculada não deixou herdeiros. Apenas gatos, que felizmente, sabiam se virar: pulavam telhados, muros e lajes, perseguiam ratos e sabiás – para comer ou pelo prazer besta de matar -, subiam na pia da cozinha para roubar o bife descongelando para almoço. Por conta desses “filhos”, alguns vizinhos não gostavam muito de Dona Imaculada. Eram verdadeiros diabos, os felinos. Contrariando os bons hábitos higiênicos do restante da espécie, esses deixavam armadilhas, cagando logo depois dos capachos, feito presente bem diante da porta. Assim, ao saírem para o trabalho, as solas dos calçados eram engraxadas de baixo para cima.
Mas Dona Imaculada não tinha culpa. Ela nunca os atraiu. Foram eles que se achegaram nela, os bichanos a encontraram solitária, janelas e portas abertas, sem cacos de vidro ou lanças. Ela assistia aos desenhos na televisão ou ouvia programas de rádio. Às vezes se horrorizava com o noticiário, não por muito tempo: rezava e pedia proteção. Dona Imaculada poderia ter sido vítima de ladrões, moleques, escroques, ciganos, mas no muro alguém fizera o sinal, um código secreto próprio dos invasores de casa, “Mulher pobre, sem ninguém, retardada”. Todos a conheciam, todos sabiam que era sozinha e inofensiva e ninguém tinha coragem de tirar proveito da senhora.
Com exceção dos gatos. Ela reclamava dos animais, mas era uma reclamação vazia, de quem quer ter assunto para discutir, como quem fala do clima, se está frio, se está sol… Protestava contra esses folgados: comiam de sua comida, dormiam sobre sua cama. Mas, no fundo, ela gostava. Dona Imaculada era muito querida. Quem não eram queridos eram os gatos. Assim, tão logo, ela morreu, saíram distribuindo chumbinho na vizinhança. E lá se foram os gatos, os ratos, os periquitos, dois vira-latas e até um pangaré do carroceiro por conta dessa vingança.
2.
Dona Imaculada foi parar no Ceú. Ficou encantada com estar no Paraíso, era afinal a única possível vantagem de se estar velha e de se estar virgem. Como isso podia acontecer num bairro onde crianças comiam o cu de pombos e galinhas e irmãs se ofereciam em troca de bolacha? Não que não tivessem tentado, especialmente quando era mais nova. Mas Dona Imaculada era tão ingênua que não se prestava nem a isso. Havia o risco evidente dela sair contando para todo mundo e o canalha ser linchado na mão da vizinhança. E não havia possibilidade de ameaçá-la: medo pressupõe certa capacidade de previsão, e dona Imaculada sofria dessa benção.
3.
Ao menos, aparentemente, pois depois de uns dias, dona Imaculada pediu para falar com o Anjo encarregado de sua sessão. Dona Imaculada queria saber como poderia fazer para dormir. O Anjo, naquela paciência própria que só a eternidade favorece, explicou que ali não haveria necessidade de dormir ou descansar. No Paraíso, inexistia noite, treva, sombra, escuridão. Dona Imaculada explicou que estava cansada de olhar para o continente, queria deitar.
O Anjo, com a sabedoria de alguém confrontado com essa questão antes, sugeriu que afofasse as nuvens com as mãos, de forma a fazer um colchão próprio para se deitar. Dona Imaculada tentou. Primeiro como quem prepara massa de pão, mas o vapor d´água escapou-lhe entre os dedos. Em seguida, soprando, como criança inventando escultura de espuma, mas as correntes da troposfera impossibilitaram um leito decente, liso, que não provocasse dor na coluna.
4.
Dona Imaculada insistiu em falar com os superiores. E eles seguiram conforme a hierarquia própria dos Anjos, seguindo o fluxograma de São Tomás de Aquino: Arcanjos, Principados, Potestades, Virtudes, Dominações, Tronos, Querubins e até os sete Serafins, aqueles que deveriam estar ao redor do Senhor no momento do Juízo Final. Nenhum desses anjos se mostrou capaz de fornecer nem mesmo uma rede baiana para Dona Imaculada se balançar na varanda da eternidade. Dona Imaculada, sempre tão calma e pacífica, começou a ficar fula diante daquela tropa de burros. Ainda sob efeito daquela objetividade ingênua, quis saber de Deus, onde é que estava Deus, que somente ELE poderia resolver aquela pendenga ridícula. Ao mencionar o nome do Senhor, os demais Serafins e anjos demonstraram-se constrangidos. Então Ael, o maior de todos os Serafins, deu um passo adiante, encolheu suas sete asas e encurvou-se para sussurrar nos ouvidos de Dona Imaculada onde é que estava Deus: “Depois que fez o mundo, Deus voltou para o Caos de onde veio para morrer”. Cansada daquela burocracia teológica, Dona Imaculada pediu para reencarnar. Mas na forma de um gato, ou de um outro bicho capaz de se deitar onde bem lhe convier.
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segunda-feira, 14 de março de 2016
Telegrama
Rambo x Rimbaud
“Daí caminhei ao longo dos trilhos até uma pequena livraria.
Fiquei zanzando por lá, procurando alguma coisa pra ler, e vi Iluminations. Uma
edição de bolso barata de Iluminations, de Rimbaud, sabe? Quer dizer, todo
garoto teve uma. Tem aquela foto granulada de Rimbaud, e achei que ele tinha um
ar muito elegante. Rimbaud parecia muito genial. Peguei o livro no ato. Nem
sabia do que se tratava, simplesmente achei Rimbaud era um nome elegante.
Provavelmente chamei-o de “Rimbawd” e achei que ele era muito cool.
Daí voltei pra fábrica. E fiquei lendo o livro. Era em
francês de um lado e em inglês de outro, e isso quase custou meu emprego porque
Dotty Hook viu que eu estava lendo alguma coisa que tinha língua estrangeira e
disse: “Pra que você está lendo essa coisa estrangeira?”
Eu disse: “Não é estrangeira.”
Ela disse: “É estrangeira e é comunista. Qualquer coisa
estrangeira é comunista.”
Ela disse isso tão alto que todo mundo pensou que eu
estivesse lendo O Manifesto Comunista ou coisa parecida. Todos se levantaram,
foi um caos completo, é claro, e saí da fábrica muito puta da cara. Fui para
casa e, é claro, dei a maior importância antes mesmo de lê-lo.
Me apaixonei de verdade por ele. Foi por aquele encantador
Filho de Pan que me apaixonei, porque ele era tão sexy”
Patti Smith, em Mate-me por favor (Legs McNeil & Gillian McCain).
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segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016
Telegrama
"UMA COISA ESTRANHA sobre a lâmpada elétrica é ter virado
sinônimo de “gênio” da teoria de inovação – um único inventor criando uma única
coisa, num momento de súbita inspiração –, enquanto a verdadeira história por
trás de sua criação compõe um quadro explicativo bem diferente, o modelo de
inovação num sistema de trabalho em conjunto. Sim, a lâmpada marcou um limite
na história da inovação, mas por razões bem diferentes. Seria forçar a barra
dizer que a lâmpada foi criada por um mutirão, mas afirmar que um único homem
chamado Thomas Edison a inventou é uma distorção ainda mais grave.
A história tradicional é mais ou menos assim: depois de um
triunfante começo de carreira inventando o fonógrafo e o registrador de
cotações (stock ticker) aos trinta
anos de idade, Edison passou alguns meses fazendo uma turnê pelo Oeste
americano – talvez não por coincidência uma região bem mais escura à noite que
as ruas iluminadas a gás de Nova York e Nova Jersey. Dois dias depois de voltar
a seu laboratório em Menlo Park, em agosto de 1878, Edison desenhou três
diagramas em seu caderno de anotações, chamando-os de “luz elétrica”. Em 1879,
ele apresentou um pedido de patente para uma “lâmpada elétrica” que exibia
todas as principais características do bulbo que hoje conhecemos. No final de
1882, a empresa de Edison estava produzindo luz elétrica para todo o distrito
de Pearl Street, na baixa Manhattan.
Essa é uma emocionante história de invenção. O jovem bruxo
de Menlo Park tem um lampejo de inspiração, e em poucos anos sua ideia ilumina
o mundo todo. O problema é que a luz incandescente já tinha sido inventada
oitenta anos antes de Edison voltar sua atenção para o problema. Uma lâmpada
envolve três elementos fundamentais: uma espécie de filamento que brilha quando
a corrente elétrica o percorre, um mecanismo que impede o filamento de queimar
muito depressa e uma fonte de energia elétrica para dar início à reação. Em
1802, o químico britânico Humphry Davy anexou um filamento de platina a uma
primitiva bateria elétrica, fazendo com que queimasse durante alguns minutos.
Lá pela década de 1840, dezenas de inventores independentes trabalhavam em
variações da lâmpada elétrica. A primeira patente foi concedida em 1841 a um
inglês chamado Frederick de Moleyns. O historiador Arthur A. Bright compilou
uma lista de inventores parciais da lâmpada, chegando até o triunfo de Edison
no final dos anos 1870.
Pelo menos metade dos homens havia chegado à fórmula básica
que Edison afinal elaborou: um filamento de carbono suspenso no vácuo para
evitar a oxidação, impedindo assim que o filamento queimasse muito depressa. Na
verdade, quando enfim começou a mexer com a lâmpada elétrica, Edison passou
meses trabalhando num sistema de retroalimentação para regular o fluxo de
eletricidade de modo a evitar a fusão, antes de abandonar essa abordagem em
favor do vácuo, embora quase a metade de seus antecessores já tivesse elegido o
vácuo como o melhor ambiente para o brilho contínuo.
A lâmpada foi o tipo de inovação que juntou partes ao longo
de décadas. Não houve um momento eureca na história da lâmpada. Quando Edison
apertou o botão na estação de Pearl Street, um punhado de outras empresas já
vendia seus próprios modelos de lâmpadas elétricas incandescentes. O inventor
britânico Joseph Swan tinha iniciado a iluminação de casas e teatros no ano
anterior. Edison inventou a lâmpada da mesma forma que Steve Jobs inventou o
MP3 player: não foi o criador original, mas o primeiro a fazer algo que
conquistou o mercado.
Então, por que Edison ficou com todo o crédito? É tentador
usar o mesmo elogio ambíguo que muitos fazem a Steve Jobs: o de ser um mestre
do marketing e das relações públicas. É verdade que Edison tinha um
relacionamento muito próximo com a imprensa nesse momento de sua carreira. (Pelo
menos em uma ocasião ele trocou ações de sua empresa com um jornalista a fim de
obter melhor cobertura da imprensa.) Edison foi também um mestre do que hoje
chamaríamos de “vaporware”: ele
anunciava produtos inexistentes para assustar os concorrentes. Poucos meses
depois de ter começado a trabalhar na luz elétrica, Edison declarou aos
repórteres dos jornais de Nova York que o problema fora resolvido, que ele
estava prestes a lançar um sistema nacional da mágica luz elétrica. Um sistema
tão simples, dizia ele, “que um engraxate pode entender”.
Apesar dessa bravata, o fato é que os melhores exemplares de
luz elétrica do laboratório de Edison não duravam cinco minutos. Isso não o
impediu de convidar a imprensa ao laboratório de Menlo Park para ver sua
lâmpada revolucionária. Edison levava um repórter de cada vez, ligava a chave
de uma lâmpada e deixava o repórter curtir a luz por três ou quatro minutos
antes de indicar a porta de saída. Quando o repórter perguntava quanto tempo
suas lâmpadas durariam, ele respondia com confiança: “Para sempre, quase.”
Apesar de todo esse blefe, Edison e sua equipe conseguiram
fazer um produto mágico e revolucionário, como o marketing da Apple teria
definido a lâmpada Edison. Publicidade e marketing levam tudo mais longe. Em
1882, Edison havia produzido uma lâmpada que decididamente superava a de seus
concorrentes, assim como o iPod superou os MP3 players rivais nos primeiros
anos.
Em parte, a “invenção” da lâmpada de Edison não veio de uma
grande ideia original, e sim do fato de ele ter suado nos detalhes. (Sua famosa
piada sobre a invenção ser 1% inspiração e 99% transpiração se aplica muito bem
a suas aventuras com a luz artificial.) Talvez a única contribuição mais
significativa de Edison para a lâmpada elétrica tenha sido o filamento de bambu
carbonizado que acabou implantando. Ele desperdiçou pelo menos um ano tentando
fazer a platina funcionar como filamento, mas aquele era um material muito caro
e propenso a derreter. Quando afinal abandonou a platina, Edison e sua equipe passaram
por um verdadeiro jardim botânico de diferentes materiais: “celuloide, aparas
de madeira (bucho, abeto, nogueira, caoba, cedro, pau-rosa e até bordo),
madeira podre e seca, cortiça, linho, cerdas, casca de coco e uma variedade de
papéis.”Depois de um ano de experimentação, o bambu surgiu como a substância
mais durável, dando início a um dos capítulos mais estranhos da história do
comércio global.
Edison enviou uma série de emissários de Menlo Park para
vasculhar o planeta em busca do bambu mais incandescente no mundo natural. Um
dos representantes percorreu 3 mil quilômetros de rios no Brasil. Outro viajou
para Cuba, onde logo foi abatido pela febre amarela e morreu. Um terceiro
representante, chamado William Moore, aventurou-se na China e no Japão, onde
fez um acordo com um fazendeiro local para fornecimento do bambu mais forte que
os assistentes de Menlo Park haviam encontrado. O acordo continuou cumprido por
muitos anos, fornecendo os filamentos que iluminavam salões em todo o mundo.
Edison não inventou a lâmpada, mas inaugurou uma tradição que seria vital na
inovação moderna: empresas de eletrônicos americanas importando partes de seus
componentes da Ásia. A única diferença é que, na época de Edison, a fábrica
asiática era uma floresta.
Outro ingrediente-chave para o sucesso de Edison estava no
time que ele reuniu em Menlo Park, memoravelmente conhecido como “os
cafajestes”. Os cafajestes eram bem diversificados, tanto em termos de
especialização profissional quanto de nacionalidade: o mecânico britânico
Charles Batchelor, o maquinista suíço John Kruesi, o físico e matemático
Francis Upton e uma dúzia de desenhistas, químicos e metalúrgicos. Como a
lâmpada de Edison era menos uma invenção original que uma bricolagem de
pequenas melhorias, a diversidade da equipe acabou sendo uma vantagem essencial
para o inventor.
Resolver o problema do filamento, por exemplo, exigiu uma
compreensão científica da resistência elétrica e da oxidação que Upton
fornecia, complementando o estilo mais inculto e intuitivo de Edison; e foram
as improvisações mecânicas de Batchelor que permitiram testar tantos candidatos
diferentes para o filamento. Menlo Park marcou o início de uma forma de
organização que viria a predominar no século XX: o laboratório de pesquisa e
desenvolvimento interdisciplinar. Nesse sentido, as ideias transformadoras e as
tecnologias geradas em lugares como a Bell Labs e a Xerox-Parc têm raiz na
oficina de Edison. Ele não apenas inventou a tecnologia, criou todo um sistema
de invenção, um sistema que viria a dominar a indústria do século XX.
Edison também ajudou a inaugurar outra tradição que se
tornaria vital para a inovação contemporânea de alta tecnologia: pagar seus
funcionários com dividendos, e não apenas em dinheiro. Em 1879, em meio às
pesquisas mais frenéticas para a lâmpada, Edison ofereceu a Francis Upton ações
no valor de 5% da Edison Electric Light Company – embora ele tivesse de
renunciar a seu salário de US$ 600 por ano. Upton relutou em aceitar a
proposta, mas afinal decidiu receber as ações, apesar das objeções do pai, mais
conservador em termos fiscais. Até o final do ano, o aumento do valor das ações
da Edison significava que seu patrimônio já valia US$ 10 mil, mais de US$ 1
milhão em moeda atual. Sem qualquer delicadeza, Upton escreveu ao pai: “Não
consigo deixar de rir quando penso quão tímido você era em casa.”
Sem dúvida, Edison foi um verdadeiro gênio, uma figura de
destaque na inovação do século XIX. No entanto, como a história da lâmpada
deixa claro, temos entendido mal esse gênio ao longo da história. Sua maior
conquista pode ter sido a maneira que descobriu para tornar as equipes mais
criativas, agregando diversas habilidades num ambiente de trabalho que
valorizava a experimentação e aceitava os erros, incentivando o grupo com recompensas
financeiras alinhadas ao sucesso global da organização, e com base em ideias
originadas em outro local. “Não me sinto muito impressionado com os grandes
nomes e reputações de quem pode estar tentando me vencer numa invenção. … São
suas ‘ideias’ que me interessam”, disse Edison em uma das suas famosas
declarações. “Sou corretamente descrito como ‘mais uma esponja que um
inventor’.”
A lâmpada foi produto de inovação em rede, e por isso é
justo que a realidade da luz elétrica, em última instância, tenha se revelado
mais como rede ou sistema que como entidade única. A verdadeira vitória de
Edison não veio com o filamento de bambu incandescente no vácuo, chegou com a
iluminação do distrito de Pearl Street, dois anos depois. Para que isso
acontecesse, era necessário inventar a lâmpada, sim, mas também era preciso uma
fonte de corrente elétrica confiável, um sistema de distribuição de corrente
que abrangesse a localidade, um mecanismo para conectar as lâmpadas individuais
à rede e um medidor para auferir a quantidade de eletricidade utilizada em cada
casa. Uma lâmpada por si só é uma curiosidade, algo para deslumbrar os
repórteres. O que Edison e seus aventureiros criaram era muito maior que isso:
uma rede de múltiplas inovações, todas ligadas entre si para tornar a magia da
luz elétrica segura e acessível.
Por que deveríamos nos importar se Edison inventou a lâmpada
agindo como gênio solitário ou como parte de uma rede mais ampla? Para começar,
se a invenção da lâmpada é uma história ilustrativa de como novas tecnologias
passam a existir, seria preciso construir uma narrativa verídica. A questão,
todavia, vai além de apenas obter os fatos de forma correta, pois há
implicações sociais e políticas em histórias desse tipo. Sabemos que um motor
essencial do progresso e dos padrões de vida é a inovação tecnológica. Sabemos
que queremos incentivar as tendências que nos levaram dos dez minutos de luz
artificial com uma hora de salário para trezentos dias. Se pensarmos que a
inovação vem de um gênio solitário, de criar uma nova tecnologia a partir do
zero, esse modelo nos leva naturalmente a determinadas decisões políticas, como
uma proteção de patente mais forte. No entanto, se pensarmos que a inovação sai
de redes colaborativas, é preferível apoiar diferentes políticas e formas
organizacionais: leis de patente menos rígidas, normas abertas, participação de
funcionários nos programas de ações, conexões interdisciplinares. A lâmpada faz
a luz iluminar melhor nossa leitura de cabeceira; nos ajuda a ver mais
claramente o caminho para o nascimento de novas ideias e como cultivá-las numa
sociedade."
Como chegamos até aqui – Steven Johnson – Editora Zahar
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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
Onirogrito e Achados
Tenho dado pouca atenção ao blog, um pouco porque o "mercado do blog" faliu... Ao menos, é o que parece acontecer aqui. Já li que em alguns países, especialmente uns do Oriente Médio, como o Irã, eles ainda conseguem chamar a atenção... Mas fiquei sabendo que a coisa anda braba por lá também.
Todo mundo correu para o Facebook, mas mesmo no Facebook ando sem muita paciência. Mas quem quiser, pode me procurar por lá.
Eu não sei se lamento ou comemoro esse desenvolvimento dada a quantidade de bobões que sentem a necessidade de se pronunciar sobre qualquer coisa... ou de falsos especialistas, ou de reis dos clichês, ou das reis das piadinhas de 2 segundos e assim por diante.
Não me excluo desses bobões.
E, muitas vezes, eles nem são tão bobões assim. Mas é como jogar aviõezinhos de papel no vento e torcer para muita gente pegar e seguir adiante. Quem sabe assim chega na China? Ou na Finlândia?
* * *
A verdade é que a Internet tornou-se mais um meio de comunicação do que uma fonte de conteúdo. Teoricamente, os geradores de conteúdo - por sua raridade - se tornaram mais "valiosos". Não é bem verdade: a figura que desponta é a do "curador de conteúdo". Vejam o caso do sujeito que cobra entrada para acessar Grupos de Whatzap...
Faz sentido. Mesmo no mundo físico da economia, a regra diz que o intermediário - aquele que traz o produto para perto do consumidor - lucra muito mais que o produtor. Digo por mim mesmo: gosto de produzir minhas histórias, mas tenho pouco saco para lidar com o "resto".
Talvez a leitura mais indicada para entender o mundo internáutico seja o site do YouPix. Eles se reinventaram uns anos atrás e ficou bem mais maduro. Desconfio que a audiência reduziu, mas ficou bem melhor.
* * *
Existem uns poucos blogues que ainda consigo seguir mais ou menos bem. Um ou outro "tema livre" como o Mundo Fantasmo de Braúlio Tavares, mas a maioria gira ao redor de alguns temas, como o Belogue da Beluga... ou até o Mirante dos Infinitos do Caio Silveira Ramos.
Lembro de um livro da Indigo, O Colapso dos Bibelôs (Moderna), que imagina os efeitos de uma queda definitiva na rede. O design da edição é bem interessante, orientação paisagem, as páginas simulando um blog, etc. Em certo ponto da história, as pessoas desesperadas tentam substituir os blogues criaram uma espécie de painel de recados imenso no qual colavam qualquer coisa. A ideia é divertida, mas duvido que acontecesse algo assim.
A rede tem mais a ver com mundo externo do jeito que sempre foi... mas nunca ninguém percebeu ou escreveu a respeito porque não havia como "anotar".
Um outro motivo - na verdade, melhor motivo- pelo qual tenho dado pouca atenção ao meu blog da Toca é que andei publicando uma série no finado (mas ainda disponível) blog coletivo Quotidianos, de Rober Pinheiro.
Lá criei várias pequenas histórias ao redor do personagem Zenon, o último ascensorista. Passe lá, nesse link. Depois de ler, desça até "posts mais antigos" para abrir as histórias anteriores.
Abs
PS1: Mas não cancelei o blog não. Só não esperem grande movimento. Vou continuar na minha, sem alardes. Até porque se "gritar mais alto não funciona", gritar sempre também não
PS2: Movimento tem no "Escritores de Segunda", onde copio e colo dicas e regras mensais sobre criação de histórias... É só uma pasta de recortes, então não espere muita organização
(A ilustração é de Fernando de Sousa Lima para um dos contos de Zenon).
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quarta-feira, 6 de janeiro de 2016
Telegrama
O cérebro do meu irmão
Worth passou aquela noite – e
o segundo dia e a noite seguinte – em coma. Não havia nenhum sinal exterior de
mudança, mas as máquinas começaram a detectar indícios de crescente atividade
cerebral. O neurocirurgião, um irlandês, nos explicou – no que deve ter sido,
para ele, como falar com crianças – que o cérebro é um dispositivo elétrico em
si, e que os volts que haviam emanado de seu velho amplificador Gibson do meu
irmão e traumatizado seu corpo estavam como que correndo ao redor de seu
crânio. Havia uma chance razoável, disse o médico, de ele sair do como, mas era
impossível saber quem sairia dali. Lembro do período de espera como uma
gororoba, alento cauteloso de enfermeiras e a inquietante presença do meu irmão
estirado na cama, feito um oráculo que poderia responder a todas nossas
perguntas mas se recusava a falar. A gente se revezava no quarto como turistas
circulando por um museu.
“No terceiro dia” (...),
Worth acordou. As enfermeiras nos conduziram ao quarto, seus rostos quase
orgulhosos, e nós o encontramos sentado – delicadamente apoiado sobre os
cotovelos, com os olhos pesados, como se a qualquer momento pudesse decidir que
preferia o coma e mergulhar de volta nele. Seu rosto se iluminava como o de um pateta
a cada vez que um de nós entrava no quarto, e ele nos cumprimentava com uma voz
áspera, quase inaudível. Ele nos reconhecia, mas não tinha a menor ideia do que
fazíamos ali, ou de onde era “ali” – apesar de ter criado teorias a esse a esse
respeito durante as duas semanas seguintes, entre as quais se destacavam uma
festa de casamento, um jogo de pôquer de escola e algum tipo de cela de
delegacia.
Ao longo dos anos, tentei
várias vezes descrever para os outros quem era a pessoa que acordou daquela
quase morte por eletrocussão, e que permaneceu entre nós por quase um mês antes
de voltar a ser a pessoa que a gente conhecia e hoje conhece. Seria bem fácil
dizer “era-como-se-ele-estivesse-louco-de-ácido”, mas isso não seria exatamente
verdade. Ele parecia estar numa dessas viagens de ácido imaginárias, daquelas
que fingimos ter no colegial, antes de ter experimentado a coisa e descoberto que
ela era ligeiramente menos mágica do que parecia: “Nossa, cara, seu nariz
parece tipo uma estrela...” Ele tinha estado lá. Meu pai e eu mantivemos
anotações sobre ele, sem saber que o outro estava fazendo, tentando registrar
todas as pequenas revelações de Worth antes de se perderem. Tenho aqui minha
própria lista aqui na minha frente. Daria para começar de qualquer parte. Vou
transcrever algumas coisas:
Espremeu minha mão na
madrugada do dia 23. Sussurrou: “Essa é a experiência humana”.
Enquanto almoçava no dia 24,
subitamente se convenceu de que eu estava me fazendo passar pelo seu irmão.
Pediu para ver minha identidade. Perguntou: “Por que você tá fingindo que é o
John?” Quando retruquei, “mas, Worth, eu não pareço com o John?”, ele respondeu
“Você é igualzinho a ele. Não é à toa que consegue enganar todo mundo”.
No dia 25, levantou-se
durante o almoço, apesar das minhas tentativas de contê-lo, derramando o
conteúdo da bandeja. Deu uma olhada nas minhas mãos, que apertavam seus ombros
e disse: “Eu não sinto... repulsa... pelo amor entre homens. Mas não é minha
praia”.
Tarde do dia 25. Espiando os
próprios pés na cama, observou: “Daria uma boa foto – Pés na Fumaça”.
(...)
Noite do dia 26. Tentou me
acertar um soco com toda a força enquanto eu tentava, com o pai e o tio John,
segurá-lo na cama. Errou por centímetros. Os tubos soltaram-se de seus braços.
Seus olhos estavam aterrorizados e indefesos. Acho que pensou que fôssemos um
bando de fascistas.
Noite do dia 27.
Inesperadamente pulou da cadeira, expressão perplexa no rosto, e correu até a
parede. Tateou uma pequena área da parede, como se fosse um cego. Virou-se.
Perguntou “Cadê a piñata?”Arrastou-se para o corredor. Viu uma enfermeira
enorme que se afastava. Sussurrou “Vou ficar bem puto se ela tiver pegado nossa
pinhata”
A experiência foi da tragédia
para a tragicomédia e depois para a simples farsa num movimento contínuo, o que
torna difícil apontar quando foi que uma coisa virou outra. Ele era o bêbado
mais encantador do mundo – eu tinha que acompanhá-lo pelo hospital para evitar
que caísse, já que não conseguia parar de se mexer, não se concentrava em nada
por mais de um segundo. Ele se transformou num santo louco. Olhava para a palma
da mão, onde a corda e o traste haviam desenhado uma cruz vermelha na pele, e
dizia “Ei, se não fossem as formigas rastejando, isso aqui seria um estigma”.
Apresentou minha mãe e meu pai como se não se conhecessem, dizendo “Mãe, este é
meu pai; pai, esta é Dixie Jean”. (...)
Outra enfermeira, quando
perguntei se Worth voltaria ao normal, disse “Talvez, mas não seria maravilhoso
se ficasse desse jeito?”. Tinha razão; ela me colocou no lugar. Não havia nada
mais estimulante ou engraçado que assistir ao espetáculo do cérebro do meu
irmão reconstruindo a realidade. Como vários outros, eu sempre acreditei (numa
espécie de hobbesianismo barato) que o centro do cérebro, se fosse possível
acessá-lo, seria inevitavelmente um lugar bem sombrio – o que quer que exista
de bom ou belo num ser humano seria resultado de sua luta contra tudo o que lhe
é inato, contra sua natureza física. Meu irmão mudou minha opinião. Ali estava
uma consciência reduzida à sua matéria básica, a um baile de sinapses
crepitantes – palavras que ele sabia usar, mas não conseguia conectar às coisas
certas; objetos novos e estranhos para os quais tinha que inventar nomes;
pessoas desconhecidas que se aproximavam e se afastavam como campos de energia –
e era um bom lugar para se estar, até mesmo... um lugar poético. Ele havia tocado
a morte, ou a morte o havia tocado, mas ele não parecia achar a vida menos
interessante por ter passado por isso.
Trecho de “Pés na Fumaça” - John
Jeremiah Sullivan, em Pulphead (Cia das Letras)
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