domingo, 18 de outubro de 2015
Telegrama
.
(Max Aub)
A formiga odiava o leão. Demorou dez mil anos, mas ela o comeu todo, pouco a pouco, sem que ele percebesse.
(Extraído de "Crimes Exemplares" (Amauta Editorial))
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quarta-feira, 30 de setembro de 2015
Telegrama
Histórias recontadas
a)Bolaño em "Detetives Selvagens"
Felipe Müller, sentado num banco da praça Martorell, Barcelona, outubro
de 1991. Tenho quase certeza de que quem me contou essa história foi Arturo
Belano, porque ele era o único entre nós que lia com prazer livros de ficção
científica. É, pelo que me disse, um conto de Theodore Sturgeon, mas pode ser
que seja de outro autor ou até do próprio Arturo, para mim o nome Theodore
Sturgeon não significa nada.
A história, uma história de amor,
fala de uma moça extremamente rica e muito inteligente que um belo dia se
apaixona por seu jardineiro, ou pelo filho do jardineiro, ou por um jovem
vagabundo que por acaso vai bater numa de suas propriedades e se torna seu
jardineiro. A moça, que além de rica e inteligente é voluntariosa e caprichosa,
na primeira oportunidade leva o rapaz para a cama e, sem saber muito bem como,
se apaixona perdidamente por ele. O vagabundo, que não é nem de longe tão
inteligente quanto ela e não tem estudo, mas que em compensação é de uma pureza
angelical, também se apaixona por ela, não sem que surjam, como é natural,
algumas complicações. Na primeira fase do romance eles vivem na luxuosa mansão
dela, onde ambos se dedicam a ler livros de arte, a comer pratos requintados, a
assistir a velhos filmes e, principalmente, a fazer amor o dia todo. Depois,
residem por um tempo na casa do jardineiro da mansão, depois num barco (talvez
numa das péniches que navegam pelos rios da França, como no filme de Jean
Vigo), depois vagam ambos pela vasta geografia dos Estados Unidos montados em
suas Harleys, o que era um dos sonhos do vagabundo.
Os negócios da moça, enquanto ela
vive seu amor, continuam se multiplicando e, como dinheiro chama dinheiro, a
cada dia que passa maior é sua fortuna. Evidentemente, o vagabundo, que não
está a par de grande coisa, tem decência suficiente para convencê-la a dedicar
parte de sua fortuna em obras sociais ou beneficentes (coisa que, por sinal, a
moça sempre fizera, por meio de advogados e uma rede de variadas fundações, mas
não diz nada, para que ele acredite que ela o faz por sugestão dele) e depois
se esquece totalmente, porque no fundo o vagabundo só tem uma ideia aproximada
do volume de dinheiro que se move como uma sombra atrás de sua amada. Enfim,
por um tempo, meses, talvez um ano ou dois, a moça milionária e seu amante são
indescritivelmente felizes. Mas um dia (ou entardecer), o vagabundo fica
doente, e, embora os melhores médicos do mundo venham examiná-lo, nada se pode
fazer, seu organismo está se ressentindo de uma infância miserável, de uma
adolescência cheia de privações, de uma vida agitada que o pouco tempo passado
em companhia da moça mal conseguiu paliar ou mitigar. Apesar dos esforços da
ciência, um câncer terminal acaba com sua vida.
Por um tempo, a moça parece
enlouquecer. Viaja por todo o planeta, tem amantes e se mete em histórias
sinistras. Mas acaba voltando para casa e, pouco depois, quando parece mais
consumida do que nunca, decide empreender um projeto que de alguma maneira
havia começado a germinar em sua mente pouco antes da morte do vagabundo. Uma equipe
de cientistas se instala em sua mansão. Num tempo recorde, a mansão se
transforma duplamente, na parte interna, num laboratório avançado e, na externa
— jardins e casa do jardineiro — numa réplica do Éden. Para proteger o local do
olhar de estranhos, um muro altíssimo é levantado em torno da propriedade.
Começam os trabalhos. Em pouco tempo, os cientistas implantam no óvulo de uma
puta, que será generosamente recompensada, um clone do vagabundo. Nove meses
depois, a puta tem um filho, ela o entrega à moça e desaparece.
Durante cinco anos, a moça e um
exército de especialistas cuidam do menino. Passado esse tempo, os cientistas
implantam num óvulo da moça um clone dela mesma. Nove meses depois a moça tem
uma menina. O laboratório da mansão é desmontado, os cientistas desaparecem e
são substituídos por educadores, artistas-tutores que observarão a certa
distância o crescimento das duas crianças, conforme um plano previamente
traçado pela moça. Quando tudo está em funcionamento, ela recomeça a viajar, volta
às festas da alta sociedade, mergulha de cabeça em aventuras arriscadas, tem
amantes, seu nome brilha como o de uma estrela. Mas de tempo em tempo, e
cercada pelo maior segredo, regressa à sua mansão e observa, sem que vejam, o
crescimento das crianças. O clone do vagabundo é uma réplica exata dele, a
mesma pureza, a mesma inocência pela qual ela se apaixonara. Só que agora ele
tem todas as suas necessidades satisfeitas, e sua infância é uma plácida
sucessão de brincadeiras e de mestres que o instruem em tudo que é necessário.
O clone da menina é uma réplica exata dela mesma, e os educadores repetem os
mesmos acertos e erros, os mesmos gestos do passado.
A moça, evidentemente, raras vezes
se deixa ver pelas crianças, embora ocasionalmente o clone do vagabundo, que
nunca se cansa de brincar e é medroso, a enxerga através das cortinas dos
andares de cima da mansão e vai correndo procurá-la, sempre em vão.
Os anos se passam, as crianças
crescem e se tornam cada dia mais inseparáveis. Um dia a milionária adoece, sei
lá por quê, um vírus mortal, um câncer, e, após uma resistência puramente
formal, começa a definhar e a se preparar para morrer. Ainda é jovem, tem
quarenta e dois anos. Seus únicos herdeiros são os dois clones, e ela deixa
tudo preparado para que eles recebam parte de sua imensa fortuna no momento em
que contraírem casamento. Por fim ela morre, seus advogados e cientistas a
choram amargamente.
O conto termina com uma reunião de
seus empregados, após a leitura do testamento. Alguns, os mais inocentes, os
mais distantes do círculo interno da milionária, levantam perguntas que
Sturgeon supõe que seus leitores possam levantar. E se os clones não quiserem
se casar? E se o rapaz ou a moça se amam, como parece incontestável, e esse
amor nunca atravessar a fronteira do estritamente fraternal? A vida deles não
irá se arruinar? Vão ser obrigados a conviver como dois condenados à prisão
perpétua?
Surgem discussões e debates. São
levantados aspectos morais, éticos. O advogado e o cientista mais velho, não
obstante, logo se encarregam de desfazer as dúvidas. Se os jovens não vierem a
se casar, se não se apaixonarem, será dado a eles o dinheiro que lhes cabe e
serão livres para fazer o que desejarem. Independentemente de como se
desenvolva a relação dos dois, os cientistas implantarão no corpo de uma
doadora, no prazo de um ano, um novo clone do vagabundo e, cinco anos depois,
repetirão a operação com um novo clone da milionária. E, quando esses novos
clones tiverem vinte e três e dezoito anos, qualquer que seja a relação
estabelecida entre eles, isto é, quer se amem como irmãos ou como amantes, os
cientistas ou os sucessores dos cientistas tornarão a implantar outros dois
clones, e assim por diante até o fim dos tempos ou até a imensa fortuna da
milionária se esgotar.
Nesse ponto o conto acaba. No
crepúsculo se desenham o rosto da milionária e o do vagabundo, depois as
estrelas, depois o infinito. Um pouquinho sinistro, não? Um pouquinho sublime e
um pouquinho sinistro. Como em todo amor louco, não? Se ao infinito se acrescentar
mais infinito, o resultado será o infinito. Se você juntar o sublime ao
sinistro, o resultado será sinistro. Não?
(Segundo apurações via google, o conto de Sturgeon é "When you care, when you love" (1962))
b)Pais e Filhas, Érico Assis (no blog da Cia)
c)Retold Stories in Literature
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terça-feira, 8 de setembro de 2015
Telegrama
Estacas
(George Sanders)
Todos os anos, na noite de Ação de Graças íamos atrás de
Papai quando ele arrastava a roupa de Papai Noel para fora e a vestia numa
espécie de crucifixo que tinha feito com canos de metal no quintal. Na semana
do Super Bowl o poste era vestido com um uniforme de futebol americano e o
capacete de Rod, e Rod tinha que se entender com Papai se quisesse tirar o capacete dali. No
Dia da Independência o poste era o Tio Sam; no Dia dos Veteranos, um soldado;
no Halloween, um fantasma. O poste era a única concessão de Papai à diversão.
Só podíamos tirar um giz de cera da caixa de cada vez. Numa noite de Natal ele
gritou com Kimmie porque ela desperdiçou uma fatia de maçã. Ele nos vigiava
enquanto despejávamos ketchup na comida, dizendo, Já chega já chega já chega.
As festas de aniversário consistiam de cupcake, sem sorvete. A primeira vez que
levei uma namorada em casa ela disse, Qual é a do seu pai com aquele poste de
metal?, e eu fiquei em silêncio, piscando.
Saímos de casa, casamos, tivemos nossos próprios filhos,
descobrimos as sementes da mesquinhez também em nós. Papai começou a vestir os
canos com mais complexidade e uma lógica menos discernível. Cobria-os com algum
tipo de pele animal no Dia da Marmota e levava para fora um holofote para
produzir uma sombra. Quando um terremoto atingiu o Chile ele deitou o poste de
lado e pintou com spray uma fenda na terra. Mamãe morreu e ele vestiu o poste
como a Morte, pendurando na barra transversal fotos de Mamãe quando bebê. A gente passava por ali e encontrava em redor
da base estranhos amuletos da juventude dele: medalhas militares, ingressos de
teatro, velhos abrigos de moletom, bisnagas de maquiagem de Mamãe. Num outono
ele pintou o poste de amarelo-escuro. Cobriu-o com cotonetes, para agasalhar, e
propiciou-lhe uma prole fincando pelo quintal seis cruzes feitas de estacas.
Estendeu um barbante entre o poste e as estacas, colando com fita adesiva nesse
varal cartas com pedidos de perdão, admissões de erro, apelos por compreensão,
tudo escrito com letra convulsa em fichas de arquivo. Pintou um cartaz que
dizia AMOR e pendurou-o no poste, e outro que dizia PERDÃO? E depois morreu no
corredor com o rádio ligado e vendemos a casa para um jovem casal que arrancou
o poste e deixou-o na beira da calçada no dia do lixo pesado.
(Extraído de Dez de dezembro (Cia das Letras). Imagem: um bug no Google Maps)
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terça-feira, 1 de setembro de 2015
Telegrama
"De uma desgraça morria o hábito de perguntar direções.
“O voo 007 da Korean Air Lines (também conhecido como KAL 007 e KE 007) foi um
voo agendado pelas Linhas Aéreas Coreanas, de Nova Iorque para Seul, via
Anchorage. No dia 1 de setembro de 1983, o aparelho que fazia esse voo foi
abatido por um avião de interceção Sukhoi Su-15 soviético, perto da ilha
Moneron, a oeste da ilha Sakhalin, no mar do Japão. O piloto do intercetor era
o major Gennadi Osipovich. Os 269 passageiros e tripulação a bordo foram todos
mortos, incluindo Lawrence McDonald, representante da Georgia na Câmara dos
Deputados nos EUA. A aeronave estava em rota de Anchorage para Seul quando voou
através de espaço aéreo soviético proibido na mesma altura que se efetuava uma
missão de reconhecimento dos EUA. Inicialmente, a União Soviética negou ter
conhecimento do acidente, mais tarde admitiu o abate, alegando que o aparelho
estava numa missão de espionagem. O Politburo disse que era uma provocação
deliberada dos EUA para testar a preparação militar da União Soviética, ou até
mesmo provocar uma guerra. A Casa Branca acusou a União Soviética de obstruir
as operações de busca e salvamento. (…). O acontecimento foi um dos principais
factos que levaram a administração Reagan a permitir o acesso mundial ao
sistema militar americano GNSS, que era secreto na época. Hoje este sistema é
amplamente conhecido como GPS. (…). O presidente Ronald Reagan anunciou em 16
de setembro de 1983, que o Global Positioning System (GPS) seria
disponibilizado para uso civil de forma gratuita, uma vez concluído, de forma a
evitar erros de navegação semelhantes no futuro. Além disso, o interface do
piloto automático usado nos grandes aviões de passageiros foi modificado para
tornar mais claro se está operando em modo HEADING ou em modo INS.” "
===
[1] “Um Boeing 747-230B com o
número de série CN20559/186 e registo HL7442. A aeronave partiu da porta 15 do
aeroporto internacional John F. Kennedy, Nova Iorque, dia 30 de agosto de 1983,
com destino ao aeroporto Gimpo em Gangseo-gu, em Seul, 35 minutos
atrasado do seu horário de partida, as 23:50 EDT. O voo transportava 246
passageiros e 23 tripulantes. Após reabastecimento no aeroporto internacional
de Anchorage, no Alasca, o avião, pilotado nesta etapa da viagem pelo capitão
Chun Byung-in, partiu para Seul pelas 04:00, hora do Alasca, a 31 a agosto.
(…). Cerca de 10 minutos após a descolagem, o KAL 007, voando num rumo de 245
graus, começou a desviar-se para a direita (norte) da sua rota atribuída para
Bethel, e continuou a voar nesta direção nas próximas cinco horas e meia. A
simulação e análise da caixa negra pela Organização Internacional de Aviação
Civil concluiu que este desvio foi provavelmente causado pelo sistema de piloto
automático do aparelho operando em modo HEADING, depois do ponto onde deveria
ter mudado para o modo INS.”
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segunda-feira, 3 de agosto de 2015
Telegrama
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domingo, 2 de agosto de 2015
Onirogrito
1.O trecho sobre alimentação em um antigo Guia Lonely Planet
sobre o Brasil dizia – mais ou menos – o seguinte: Se o turista gostar de prato
cheio (pense nos churrascos, no P.F., no comercial) não terá problema, mas ele
não verá muita variação além do feijão-arroz-salada-mistura. Um pouco burro,
como toda generalização. Mas não deixa de ter lá sua verdade.
2. De uns tempos para cá, parece que viramos franceses, dada
a quantidade de programas culinários e gastronômicos. Porém, para o dia-a-dia, continuamos
sem muito tempo de ficar na cozinha. Embora ir ao restaurante ainda seja um
programa, fazer comida, ou melhor, fazer “gastronomia” não se tornou ainda um
programa de lazer, ou para fazer entre amigos.
(ou - pelo menos - entre meus amigos, que ainda preferem ir
ao bar)
3.Assisti a “A Fantástica Fábrica de Chocolate” com o Gene Wilder.
Mas acho que incluíram a cena na refilmagem com Johnny Deep. O Sr. Wonka criou
o “Wonkavisão”, no qual um chocolate gigante é “televisionado” para um aparelho
e se consubstancia em um chocolate normal, que pode ser devorado pelos
espectadores. Um comercial de TV que entrega o produto. Pronto para ser devorado.
4.A tecnologia ainda está um pouco longe de fazer isso. Mas
para todo o resto parece que já está assim. Desde sapatos até cocaína, desde perfumes
até badulaques da 25 de março, tudo pode ser comercializado pela internet. Não
sei como as coisas andam em sua cidade (ou em seu bairro, já que essas coisas
variam bastante), mas nas minhas redondezas, poucos comércios conseguem
sobreviver muito tempo.
Exceto os que se relacionam com atividades que não podem ser
“virtualizadas”: por exemplo, comida.
5. Queimamos uma floresta de atividades econômicas e a
substituímos por pasto.
6. Em um dos filmes surrealistas de Buñuel, há a cena famosa
do jantar elegante. Pessoas chiques sentam-se ao redor de uma mesa. Todavia, ao
invés de cadeiras, temos vasos sanitários. Quando um convidado sente fome, ele
se dirige ao banheiro, onde em uma mesinha frugal, em um ambiente escuro e
espartano, ele pode fazer sua refeição solitariamente.
7. Como se não bastassem as regras de etiqueta, temos as de saúde:
evitar açúcar, carboidratos, gorduras, colesterol, lactose, glúten. Além delas,
há as de consciência ambiental: comida orgânica, vegetal, veganismo. Se eu estivesse
a fim de pesquisar, encontraria outras formas diferentes: comer no escuro,
meditando, comer em pé, em divãs. Comer é básico. O resto é que não é.
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domingo, 10 de maio de 2015
Telegrama
(Max Aub)
"Se pude dar vida, também posso tirá-la. Que a sua avó os mantenha."
(Extraído de "Crimes Exemplares" (Amauta Editorial))
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sábado, 2 de maio de 2015
Telegrama
The Man with the Beautiful Eyes
The Man with the Beautiful Eyes from Jonathan Hodgson on Vimeo.
(Poema de Bukowski animado por Jonathan Hodgson. VIA Brainpickings )
The Man with the Beautiful Eyes from Jonathan Hodgson on Vimeo.
when we were kids
there was a strange house
all the shades were
always
drawn
and we never heard voices
in there
and the yard was full of
bamboo
and we liked to play in
the bamboo
pretend we were
Tarzan
(although there was no
Jane).
and there was a
fish pond
a large one
full of the
fattest goldfish
you ever saw
and they were
tame.
they came to the
surface of the water
and took pieces of
bread
from our hands.
our parents had
told us:
“never go near that
house.”
so, of course,
we went.
we wondered if anybody
lived there.
weeks went by and we
never saw
anybody.
then one day
we heard
a voice
from the house
“YOU GOD DAMNED
WHORE!”
it was a man’s
voice.
then the screen
door
of the house was
flung open
and the man
walked
out.
he was holding a
fifth of whiskey
in his right
hand.
he was about
30.
he had a cigar
in his
mouth,
needed a shave.
his hair was
wild and
and uncombed
and he was
barefoot
in undershirt
and pants.
but his eyes
were
bright.
they blazed
with
brightness
and he said,
“hey, little
gentlemen,
having a good
time, I
hope?”
then he gave a
little laugh
and walked
back into the
house.
we left,
went back to my
parents’ yard
and thought
about it.
our parents,
we decided,
had wanted us
to stay away
from there
because they
never wanted us
to see a man
like
that,
a strong natural
man
with
beautiful
eyes.
our parents
were ashamed
that they were
not
like that
man,
that’s why they
wanted us
to stay
away.
but
we went back
to that house
and the bamboo
and the tame
goldfish.
we went back
many times
for many weeks
but we never
saw
or heard
the man
again.
the shades were
down
as always
and it was
quiet.
then one day
as we came back from
school
we saw the
house.
it had burned
down,
there was nothing
left,
just a smoldering
twisted black
foundation
and we went to
the fish pond
and there was
no water
in it
and the fat
orange goldfish
were dead
there,
drying out.
we went back to
my parents’ yard
and talked about
it
and decided that
our parents had
burned their
house down,
had killed
them
had killed the
goldfish
because it was
all too
beautiful,
even the bamboo
forest had
burned.
they had been
afraid of
the man with the
beautiful
eyes.
and
we were afraid
then
that
all throughout our lives
things like that
would
happen,
that nobody
wanted
anybody
to be
strong and
beautiful
like that,
that
others would never
allow it,
and that
many people
would have to
die.
(Poema de Bukowski animado por Jonathan Hodgson. VIA Brainpickings )
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sexta-feira, 3 de abril de 2015
Zenon, o último ascensorista
"Eu sou o último ascensorista, e hoje é meu último dia. Amanhã me aposento. O senhor sabe, quando se é ascensorista, não sobra muito tempo para conhecer as pessoas. É o resultado do futebol, a previsão ou constatação do tempo lá fora do Ministério, é algum espanto ou piscadela, coisa rápida. Mas já que hoje é meu último dia, e já que o senhor ficou aqui preso comigo, acho que dá para gente conversar um bocadito mais"
A partir desse mês, colaborarei com o Projeto Quotidianos, de Rober Pinheiro.
A ideia é apresentar as pequenas aventuras de Zenon, o Último Ascensorista.
A primeira história está aqui, chama-se "O Último Lance" e foi ilustrada pela Carolina Mancini. Espero que curtam.
.
o último lance
No percurso para o trabalho no Edifício Carlos Mendes, Zenon – o último ascensorista – passava na banca do terminal de ônibus. Ali, adquiria um exemplar do Lance. Não se enganem, seu interesse pelo futebol era restrito ao básico. O magrelo nunca teve talento para jogar bola: o físico não ajudou, um corpo incapaz de aguentar qualquer tranco. Zenon até sentia um carinho especial pelo time da Sociedade Esportiva, herança do pai, um daqueles sujeitos com um radinho constantemente colado na orelha.
Todavia, os conhecimentos acerca dos resultados da última rodada eram essenciais para seu emprego. Pois, conforme estabelecido no Estatuto Condominial dos Ascensoristas do Edifício Carlos Mendes, uma de suas tarefas era impedir que o Dr. Palhares do 17º andar encontrasse o Dr. Aldebaran do 12º. Especialmente se o resultado dos jogos entre o Sport Atlético e o Futebol Clube fosse diferente de um empate. Afinal, Palhares era fanático pelo Sport Atlético e Aldebaran era sócio torcedor do Futebol Clube.
No dia da tragédia, entretanto, Zenon estava abalado pelo rebaixamento da Sociedade Esportiva. Pensava no pai morto, talvez revirando-se no túmulo, desgostoso. Isso o distraiu e, por acidente, calhou do Dr. Palhares e do Dr. Aldebaran se encontrarem na mesma cabine durante a travessia rumo ao térreo. Palhares começou a provocar Aldebaran, que estava sem humor para piadinhas. Antes que se passassem cinco andares, Aldebaran enforcava Palhares com a corda do crachá e Palhares respondia puxando a gravata do adversário. Quando o elevador parou no oitavo andar, adentraram dois da uniformizada do Sport Atlético, atacando com mastros de bandeira. Aldebaran se defendeu, pedindo para Zenon parar no sétimo, onde três mascarados do Futebol Clube invadiram disparando rojões. Alguém deve ter chamado a polícia, pois no quarto a porta abriu e a Tropa de Choque invadiu disparando balas de borracha e gás lacrimogêneo. Felizmente, Zenon tinha um vidro de vinagre sob o banco. No segundo, ninguém entrou – já estava lotado -, mas puderam ver a confusão no corredor: a cavalaria avançando contra os saqueadores por entre nuvens de fumaça e atiradores de pedras. No térreo, todos os ocupantes do elevador saíram uns tropeçando nos outros, exceto Aldebaran, a cabeça arrebentada por um pau ou por um cassetete, não se sabe. Zenon separou as páginas e os cadernos do jornal e improvisou uma mortalha para o doutor estendido no chão.
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