segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Telegrama



5. O conto maldito e o conto benfazejo






 (Sérgio Sant´anna)



I

Quantas vezes não nos espreita o conto maldito, do qual queremos fugir, mas algo assim como uma sina nos obriga a atravessá-lo? O conto dos crimes hediondos, como a sevícia e morte de mulheres e crianças, que preferíamos não escrever, como se o fazendo déssemos realmente à luz o monstro e seus atos. Não a escrita lúdica, proporcionando o prazer das histórias noires, policiais, como se o assassinato pudesse ser considerado uma das belas-artes, como no livro de Thomas de Quincey, e, sim, o lance brutal de uma lâmina espetando a carne indefesa, enquanto se abusa do corpo de quem não ousa nem gritar em seu pavor. O conto do qual somos simultaneamente autor e presa, pois passamos por ele como um flagelo e, no entanto, são apenas palavras que nós mesmos encadeamos. Mas, nessas palavras, como que se materializam, por exemplo, o maníaco que atrai o menino de nove anos, com a promessa de lhe dar uma bola de presente, e este menino e sua dor muda, pois sua boca foi tapada por uma das mãos do algoz. E não bastasse essa dor de carnes rasgadas, ao ser violentado, tão logo termina o sexo macabro há a faca que lhe penetra as costas até o coração. Um crime tão nefando que clamaria aos céus, houvesse um pastor nos céus  cuidando dos meninos aqui na Terra. Mas, houvesse Deus, não seria Ele responsável também pelo estuprador e assassino, pela extrema abjeção dessa criatura Sua? Não deveria Ele acudi-la em sua confusão e infâmia?


II

Mas por que teríamos tanto pudor ou desprezo pelo conto benfazejo, em que um homem deitasse o rosto na barriga da mulher grávida, auscultando os ruídos naquele lago profundo e milagroso, enquanto a mulher, por sua vez, lhe acariciaria os cabelos e, nesse momento, todas as possíveis desavenças seriam esquecidas assim como toda angústia para dar lugar a um entendimento mudo dos seres com o melhor de sua natureza?


 




(Conto do livro O Homem-Mulher (Cia das Letras). Imagem Via )

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Achados






a)Neminho na Terra dos Sonhos

Estão traduzindo LITTLE NEMO para o português... Ao menos, na Internet. "Neminho" é graça minha, o tradutor português está usando Menino Nemo. AQUI.



b)Memórias da Ficção Científica e Fantasia Lusófona

No Baú da FC



c)Os melhores filmes de ficção científica... não-americanos.

Segundo um cara aí do youtube. Tem bastante coisa interessante. AQUI, são trinta filmes ao todo.


d)Lee Jeffries

Outro puta fotógrafo, responsável pela foto que enfeita o post. Descobri via Facebook

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

demônio mínimo






O escuro sugere quietude. Porém, talvez haja barulho. Não como na superfície, onde há motores e trovões; onde há os estridores das gaivotas procelárias albatrozes; onde os ventos e as ondas se roçam e se entrelaçam em popas chiados e murmúrios; onde há o sol e a comida farta para as criaturas marinhas; onde há os acalantos das baleias e os cardumes revoam nos recifes em meio a surupangos e quadrilhas. Mas ali, no Abismo, há nada quase; exceto uma garoa pouca e lenta de tudo que morreu e escapou de ser devorado no longo caminho até os picos invertidos destes Everests. Pensando bem, não sobraria quase nada, menos que um pó. Talvez não haja barulho. Afinal está tudo escuro.

Sem luz, todos ali deveriam ser cegos. Feito morcegos e corujas, os ouvidos prontos para detectar movimentos. Mas ali tudo silencia, exceto pela garoa rala de comida tocando o fundo, depois de tanta viagem. E as criaturas dali não possuem a força para a vencer o peso do oceano sobre a cabeça. Tudo precisaria ser calmo e lento. Se escutassem algo, não conseguiriam chegar na presa. Os peixes deveriam ser cegos, mas não podem. Então criam a própria luz para iluminar a treva. Portanto, nem tudo é escuro: como em um céu quase morto existem pequenas estrelas.

Atlas deu seu nome ao oceano e era um deus, um gigante a suportar o peso do céu. A água pesa mais que o ar. Para carregar o Oceano, talvez fosse necessário um colosso ainda maior. Mas pouca comida e luz são insuficientes para alimentar estes titãs. Então as criaturas ali têm que ser diminutas. As bocarras permanecem entretanto: deformam-se em redes para arrastar o que aparecer, se aparecer. Fazem-se monstros para sobreviver. Sempre se acreditou no fundo da terra como morada dos diabos, mas eles – coitados - estavam sob a água, no silêncio, trazendo luz a este Érebo. Bichos frágeis, transparentes e delicados como bolhas, demônios mínimos.

Não há lugar para o Amor aqui. Apenas os demônios sobrevivem, iluminando o breu e a própria feiúra. Vagam por desertos submersos, corredores negros, fossas abissais. Criaturas solitárias indo a lugar nenhum, podem passar a vida sem encontrar outro da espécie. Encontros casuais precisam ser frutíferos. Os machos nascem sem sistema digestivo. É indispensável encontrar a fêmea para continuar vivo. Em vez de beijo ou ritual, há uma dentada. No começo vem o sangue, mas depois vem o resto. Um suga a carne o outro devolve-lhe gônadas. O macho preso à fêmea, finalmente livre. Degenera-se em favor da fêmea. Torna-se um órgão da outra que passa a ser hermafrodita. Encontros casuais devem ser frutíferos: os biólogos afirmam que esta é a razão.

Mas não sou um biólogo. Não se engane: a razão é uma invenção humana. Sei que fazem por Amor. Você me degenera, você é meu demônio, mas isto é o mínimo para haver Amor no Abismo.








(Imagem VIA.)

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Achados




a)Mirante dos Infinitos,

Blog das crônicas de Caio Silveira Ramos, autor do grande Sambexplícito (Girafa), sobre a vida do sambista Germano Mathias.


b)Raymond Chandler

As obras policiais de Raymond Chandler ganham nova tradução de Braulio Tavares, que criou um blog (Caminhando com Phillip Marlowe) para falar do autor.


c)Brett Walker

Um puta fotógrafo. É dele a foto que "decora" o post. Descobri via Facebook.


d)Hiperconexões 2

Amanhã, 18 de outubro, lançamento do livro Hiperconexões: Realidade Expandida (vol 2), organizado por Luiz Bras, no Hussardos Clube Literário. Convite abaixo.