segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Achados






a)Neminho na Terra dos Sonhos

Estão traduzindo LITTLE NEMO para o português... Ao menos, na Internet. "Neminho" é graça minha, o tradutor português está usando Menino Nemo. AQUI.



b)Memórias da Ficção Científica e Fantasia Lusófona

No Baú da FC



c)Os melhores filmes de ficção científica... não-americanos.

Segundo um cara aí do youtube. Tem bastante coisa interessante. AQUI, são trinta filmes ao todo.


d)Lee Jeffries

Outro puta fotógrafo, responsável pela foto que enfeita o post. Descobri via Facebook

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

demônio mínimo






O escuro sugere quietude. Porém, talvez haja barulho. Não como na superfície, onde há motores e trovões; onde há os estridores das gaivotas procelárias albatrozes; onde os ventos e as ondas se roçam e se entrelaçam em popas chiados e murmúrios; onde há o sol e a comida farta para as criaturas marinhas; onde há os acalantos das baleias e os cardumes revoam nos recifes em meio a surupangos e quadrilhas. Mas ali, no Abismo, há nada quase; exceto uma garoa pouca e lenta de tudo que morreu e escapou de ser devorado no longo caminho até os picos invertidos destes Everests. Pensando bem, não sobraria quase nada, menos que um pó. Talvez não haja barulho. Afinal está tudo escuro.

Sem luz, todos ali deveriam ser cegos. Feito morcegos e corujas, os ouvidos prontos para detectar movimentos. Mas ali tudo silencia, exceto pela garoa rala de comida tocando o fundo, depois de tanta viagem. E as criaturas dali não possuem a força para a vencer o peso do oceano sobre a cabeça. Tudo precisaria ser calmo e lento. Se escutassem algo, não conseguiriam chegar na presa. Os peixes deveriam ser cegos, mas não podem. Então criam a própria luz para iluminar a treva. Portanto, nem tudo é escuro: como em um céu quase morto existem pequenas estrelas.

Atlas deu seu nome ao oceano e era um deus, um gigante a suportar o peso do céu. A água pesa mais que o ar. Para carregar o Oceano, talvez fosse necessário um colosso ainda maior. Mas pouca comida e luz são insuficientes para alimentar estes titãs. Então as criaturas ali têm que ser diminutas. As bocarras permanecem entretanto: deformam-se em redes para arrastar o que aparecer, se aparecer. Fazem-se monstros para sobreviver. Sempre se acreditou no fundo da terra como morada dos diabos, mas eles – coitados - estavam sob a água, no silêncio, trazendo luz a este Érebo. Bichos frágeis, transparentes e delicados como bolhas, demônios mínimos.

Não há lugar para o Amor aqui. Apenas os demônios sobrevivem, iluminando o breu e a própria feiúra. Vagam por desertos submersos, corredores negros, fossas abissais. Criaturas solitárias indo a lugar nenhum, podem passar a vida sem encontrar outro da espécie. Encontros casuais precisam ser frutíferos. Os machos nascem sem sistema digestivo. É indispensável encontrar a fêmea para continuar vivo. Em vez de beijo ou ritual, há uma dentada. No começo vem o sangue, mas depois vem o resto. Um suga a carne o outro devolve-lhe gônadas. O macho preso à fêmea, finalmente livre. Degenera-se em favor da fêmea. Torna-se um órgão da outra que passa a ser hermafrodita. Encontros casuais devem ser frutíferos: os biólogos afirmam que esta é a razão.

Mas não sou um biólogo. Não se engane: a razão é uma invenção humana. Sei que fazem por Amor. Você me degenera, você é meu demônio, mas isto é o mínimo para haver Amor no Abismo.








(Imagem VIA.)

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Achados




a)Mirante dos Infinitos,

Blog das crônicas de Caio Silveira Ramos, autor do grande Sambexplícito (Girafa), sobre a vida do sambista Germano Mathias.


b)Raymond Chandler

As obras policiais de Raymond Chandler ganham nova tradução de Braulio Tavares, que criou um blog (Caminhando com Phillip Marlowe) para falar do autor.


c)Brett Walker

Um puta fotógrafo. É dele a foto que "decora" o post. Descobri via Facebook.


d)Hiperconexões 2

Amanhã, 18 de outubro, lançamento do livro Hiperconexões: Realidade Expandida (vol 2), organizado por Luiz Bras, no Hussardos Clube Literário. Convite abaixo.





domingo, 5 de outubro de 2014

espora





Assim que Galo ultrapassou a porta da sala, o Coordenador pediu-lhe que a fechasse. O empregado obedeceu e notou as persianas fechadas. Ninguém poderia vê-lo do lado de fora; se pudessem, veriam apenas as costas, a nuca com o cabelo desalinhado, a gola, as marcas de suor sobre as axilas. Em contrapartida, veriam as expressões do Coordenador, geralmente aplicadas para más-notícias. Se fosse possível escutar, ouviriam justificativas relacionadas às condições econômicas deste e de outros países, como se o mundo conspirasse para aquele contratempo, elefantes dedicados a espremer carrapatos. Portanto, nada haveria de pessoal naquela decisão, que se fosse por ele, aquilo não estaria sendo feito.

Enquanto Galo escutava as palavras, mais elas se perdiam em meio a outras, que emergiam em sua cabeça feito bolhas de ar sopradas por um canudo no fundo de um suco denso: um gesto feito quando criança, repreendido pelos adultos e repetido de forma misteriosa em seu filho: um menino nascido prematuro, a dilatação da esposa era muito maior do normal para o sexto mês: Entretanto, para quase todos os efeitos, era sadio, exceto pelo pulmão, atrofiado e vulnerável: o garoto ficou na incubadora durante semanas-meses até o processo de desenvolvimento se completar, todavia sabe o que dizem dos prematuros: adoecem mais, emburrecem mais, maior propensão à dislexia, engordam, sofrem de calvície precoce e diabetes, unha encravada e escolhem errado as mulheres, a profissão, o time.

Indiferente às digressões de Galo, o Coordenador prosseguia em seu discurso seguro e mentiroso, pois era claro a todos do escritório que Galo não regulava bem, se enrolava e se atrasava nos prazos. O RH também tende a escolher errado os funcionários, empregado hoje em dia é difícil, empregado é inimigo pago. Depois da Copa e da eleição, nuvens negras, o mundo vai acabar, serão tempos maus, portanto, empresa não deve ser boazinha, precisa de lucratividade, eficiência, fluxo de caixa, horizontes de longo prazo e portos seguros, não um navio cheio de âncoras. Mas o superior hierárquico não disse nada disso: encerrou com a parábola provavelmente incorreta do idioma chinês que usa a mesma palavra para desgraça e oportunidade. Galo agradeceu e cumprimentou o homem que anunciava a dispensa de seus serviços. Voltou para a mesa, a maioria dos colegas almoçava: os computadores dormiam, sonhavam paisagens bonitas e famílias felizes em suas telas de proteção. Sentou-se e escreveu um longo email de despedida, muito bonito, cheio de mensagens inspiradoras, cópia e cola de um modelo encontrado no Google com ligeiras adaptações de conteúdo, adaptações jamais concedidas quando o assunto era referente a si mesmo. Recolheu suas coisas, seu porta-retratos, apagou arquivos pessoais ou os transferiu para seu pendrive.

Escutou risos, vinham da sala do Coordenador, desta vez com a porta aberta.  Sua expressão agora era mais relaxada, quase estúpida, ria de algo no monitor, alguma piada fácil postada em rede social. Galo suspirou fundo e afrouxou a gravata; evitara pensar na própria família, porém era o momento de falar com a esposa. Ensaiou algumas palavras e quase as pronunciou, mas nada saiu de sua garganta. Sentiu algo errado e massageou o próprio pescoço como se fosse espremer as palavras, mas elas continuaram se recusando. Pressentiu que o incômodo em sua garganta precisava ser eliminado. Foi para o banheiro, abriu bem a boca e notou uma superfície branca e seca atrás da língua, poderia ser catarro, pus de alguma infecção não detectada, mas ao invés disso ocorreu-lhe uma história antiga de Sinbad. Com esforço, deglutiu um ovo inteiriço, branco. A este seguiram-se onze, até formar uma dúzia, depositada sobre a pia, ovos frescos recebidos em um ninho de louça. Os colegas chegaram do almoço e começaram a bater na porta, intrigados com estranhos sons de esforço, tanto poderiam ser de defecção quanto sexo: mas havia outros temores subentendidos, como o de um mal-estar súbito ou uma tentativa de suicídio.

Galo finalmente abriu a porta, ovos retidos no braço como o seu filho fizera na escolinha quando o fizeram procurar ovos de páscoa. Então, o demitido separou um ovo na testa para cada um de seus colegas, ovos que se espatifaram deixando uma gosma sobre a pele que ressecaria e ficaria como fica a porra desperdiçada na pele. O Coordenador melecado e ultrajado chamou a segurança, mas Galo já gargalhava e cacarejava descendo a escadaria de incêndio deixando o escritório mais sujo que o próprio pau, senhor de sua própria crista e espora.






Conto publicado na Revista Flaubert Imagem: Jean-Léon Gérôme (1824-1904), The Cock Fight

sábado, 4 de outubro de 2014

Telegrama

Punk Rock





I'll tell you about punk rock:
Punk rock is a word used by dillitante's
And ah... and ah... heartless manipulators
About music that takes up the energies and the bodies
And the hearts and the souls and the time
And the minds of young men who give what they
Have to it and give everything they have to it and it's a...
It's a term that's based on contempt, it's a term
That's based on fashion, style, elitism, satanism
And everything that's rotten about rock'n'roll.
I don't know johnny rotten but i'm sure...
I'm sure he puts as much blood and sweat
Into what he does as sigmund freud did. you see,
What sounds to you like a big load of trashy old noise
Is in fact the brilliant music of a genius, myself .
And that music is so powerful that it's quite beyond my control
And ah... when i'm in the grips of it i don't feel pleasure
And I don't feel pain, either physically or emotionally.
Do you understand what i'm talking about?
Have you ever felt like that?
When you just couldn't feel anything and you didn't want to either.
You know? like that? do you understand what i'm saying sir?


Mogway.
Vídeo  AQUI 
("Punk Rock:" samples a speech made by Iggy Pop during an interview on the CBC, broadcast on 11 March 1977)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

mango






Se isto tudo acontecesse hoje, haveria registros mais precisos; porém estes estariam perdidos na rede em links suspeitos para sites carregados de vírus e cavalos de troia. Como não acontece mais e sempre foi raro, há poucas informações sólidas. Um caderno dentro de um baú em uma casa prestes a ser demolida para dar lugar às obras das olimpíadas. Uma fotografia cor de barro de um soldado colonial do Império Britânico. No sonho lisérgico de uma jovem primatologista. Um pedinte cego contador de histórias nas ruas de Zanzibar. Esta versão, sem dúvida a mais tosca, é a de um húngaro, artista circense, que antes de enlouquecer e degolar sua esposa e filhos no Mato Grosso viveu oito anos na África Central acompanhando o pai, na ocasião correspondente de guerra e espião soviético. O homem, que já tivera um bigode diariamente aparado, contou a seus companheiros de cela, mais ou menos, nos seguintes termos:

“Naquelas montanhas vive uma espécie de gorila arredia ao homem. São essencialmente vegetarianos mas conseguem fazer de osso graveto e são evitados pelos negros. Os caçadores ilegais perseguem-nos com alguns objetivos: venda a zoológicos, venda a colecionadores, venda a circos, venda de suas partes a feiticeiros, venda de suas partes a indústria medicinal chinesa, ou por qualquer outro motivo que lhes der na telha.

Quando as conjunturas permitem um dos gorilas do bando cai vítima de febre forte. Os demais membros urram e batem no peito, enquanto as fêmeas se afastam com os filhotes e esperam tudo se acalmar à distância segura. Nenhum dos machos, nem o alfa, nem os próximos na cadeia sucessória do grupo se aproxima muito do febril. Gritam e vociferam expondo seus dentes, mas ninguém ousa perturbar o feio adormecido.

É mais fácil imaginar um crescimento repentino do que um esvaziamento. Mas é isto que lhe ocorre durante aquele dia: como um bulímico, a criatura vomita e evacua seu conteúdo interno sobre o mato e a pele sobra sobre os ossos. Em pouco tempo, este emagrece e quando desperta e abre o couro para revelar dentro dele um homem branco de aspecto semicivilizado. Os cabelos lisos e castanhos e a barba rala sugerem uma rebeldia cristã ou hippie. Ele tenta se expressar com um gentil Boa Noite, mas logo os demais primatas se arremessam contra ele e o massacram como se o pobre Mango houvesse roubado um cavalo. Na manhã seguinte, encontram-se restos e um passaporte britânico sobre a lama da floresta.”






(foto de Patrick Gries, Evolution Conto publicado na revista Flaubert)

segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Telegramas

Liberdade







Liberdade é aquilo que impede todos os limites de serem livres.



(Afonso Cruz, em "Enciclopédia da Estória Universal" - Quetzal)

quinta-feira, 31 de julho de 2014

Telegrama



Quem é o rei?





Lembro-me de uma de minhas ideias mais antigas.O tsar é o chefe e o pai espiritual de cento e cinquenta milhões de homens. Uma responsabilidade atroz, que é apenas aparente. Talvez não seja responsável, perante Deus, senão por uns poucos seres humanos. Se os pobres de seu império são oprimidos durante seu reinado, se desse reinado surgem catástrofes imensas, quem sabe se o criado encarregado de lustrar suas botas não é o verdadeiro e único culpado? Nas disposições misteriosas da Profundidade, quem é realmente o tsar, quem é rei, quem pode se gabar de ser um mero criado?








Léon Bloy, extraído da Antologia da Literatura Fantástica (Bioy Casares/Borges/Ocampo), conforme a edição da Cosac; Um texto interessante sobre Bloy en español aqui. Capa de Crhris Ware para New Yorker.


sábado, 28 de junho de 2014

vitórias





“Depois que Vitória encontrou seu próprio corpo boiando sem vida na banheira de casa, suas noites nunca mais foram as mesmas.” Os mortos são sempre pesados, por mais leves que sejam; sendo assim ela teve um trabalhão para se tirar de lá.

Antes de mais nada, esvaziou a banheira. Com repugnância, Vitória enfiou a mão naquela água gelada e puxou a tampa do ralo. A corrente formou uma espiral, a gravidez do redemoinho. Enquanto a água escoava, sentou-se no vaso, concentrando-se numa solução. Me cortar em pedaços ou levar tudo do jeito que está e enterrar no quintal? Concluiu que não teria força para se desmembrar. Força para separar carne, músculos, ossos: trabalho de homem. Considerou ligar para Vítor, mas certamente ele já tinha o seu problema por lá, melhor não arriscar, contar apenas consigo.

Foi para a edícula, lembrando do antigo tapete da sala, podia usá-lo para colocar-se dentro. Estava bem no fundo, atrás de um televisor de tubo e bicicletas de pneu murcho, encostado a uma parede com sinais de infiltração. Ao desenrolá-lo, descobriu ali outra Vitória, esta pequena, meio criança, um corpinho seco, a pele despedaçava-se, fina como papel velho. Ainda abraçada ao Vucovuco, seu bicho de pelúcia perdido.

Seria errado livrar-se das duas juntas.  Era a vez daquela da banheira, a do tapete já tivera sua vez. Recolocou o esquife puído e embolorado e tentou rearrumar tudo da melhor forma. Levou Vucovuco consigo, entretanto. De volta ao banheiro, Vitória já não boiava mais. Foi para o quarto dos pais, arrancou a cortina do varão e amortalhou-se.  Uma tarefa bastante complicada, Vitória não era uma criança, e o corpo todo um chumbo, resistente às diversas dietas de revista e da moda, balançando pesadamente como peitos sem sutiã. Ao final, estava ofegante, e não havia nem iniciado a escavação no jardim. Empurrou-se até o alto da escada, e deu um chute que fez dos degraus trilhos, o embrulho chegou na sala derrubando a mesinha do telefone.

Precisava passar pelo corredor estreito que terminava no jardim nos fundos da casa. O mesmo jardim que serviu de cenário para brincadeiras, agora era prenúncio de cemitério. Arrastava-se aos poucos, agarrando-se pelo pé exposto e enrugado pelo tempo submerso. Concentrada, não escutava os gritos vindos da rua, as sirenes, viaturas e ambulâncias.  Os vizinhos ocupados com suas próprias questões, Vitória não precisava temer ser observada enquanto puxava aquela trouxa pelo piso frio.

Em certo momento, ela desequilibrou e caiu de bunda. Desengatou a rir da situação: descabelada, unhas quebradas, suada, imunda (nem havia tomado banho). Deveria parecer uma bruxa, uma louca. A Vitória morta, entretanto, relaxava naquela inexpressão típica dos cadáveres, entre serena e entediada. Nua ainda, as unhas preservadas na cor da manicure daquela tarde. Vitória sabia, a morta estava muito mais atraente.

Para cavar uma cova não muito profunda, estragou o canteiro da mãe, mas essa era questão para outra hora. Talvez até fizesse bem para as plantas. Desceu no buraco, avaliando a profundidade. Achou que estava razoável, ninguém cogitou um crime perfeito. Começou a se puxar, e o corpo cedeu de uma forma inesperada. Não aguentou ao seu próprio peso, embolaram-se em um mole abraço bêbado, caíram juntas,Vitória sobre Vitória, ela sobre ela mesma, ambas  com terra na boca. Ficou feliz por estar escuro, não queria saber dos bichos rastejando ali. Num penúltimo esforço, conseguiu sair debaixo de si. Depois tapou tudo com a terra, do jeito que deu. Se fosse o caso, no sábado, completaria o serviço, talvez pedindo ajuda de Vítor, Vinicius e Valéria... e no final, comemorariam tudo com um churrasco.

Mas ali, naquele momento, toda essa festa soava distante demais, em outro mundo. Voltou para casa, cuspindo torrões e deixando pegadas no caminho. Estava imunda, imprescindível se limpar, se civilizar. Derramou Pinho Sol e enxaguou a banheira duas vezes, para só então entrar. Foi um banho tenso, de cócoras, numa posição que lembrava parto, sem coragem de encostar na porcelana. Muito desagradável tomar banho na mesma banheira onde antes havia um cadáver.

Depois foi direto para o quarto dos pais. Ligou a tevê. Sobre a cama, seminua, terminou de colocar curativos em seus vários cortes. Descobriu que havia perdido novamente o ursinho Vucovuco, bem como a disposição para reencontrá-lo. Havia mensagens no celular, mas não se animou a lê-las. Nem as de Vítor. Sentiu vontade de chorar ao pensar em si mesma, sob a terra, sob o conforto das raízes. Ao invés disso ou de qualquer outra coisa, dormiu, esparramada, aparelho de celular na mão. Sonhou com máquinas copiadoras e dentes quebrados.

Pela manhã, Vitória levantou e foi ver quem deixara a televisão ligada no quarto dos pais e encontrou a si mesma, seminua, toalha na cabeça. Morta. Pegou o celular de sua mão defunta, “Procurava você desde ontem”, e foi se arrumar. Antes de sair para a Universidade, deixou um recado na cozinha para a diarista, Veridiana: havia comida na geladeira, o encanador viria consertar um entupimento na privada, que ela passasse a pilha de roupas na área; por último, que desse um destino a si mesma, antes que começasse a feder, antes dos pais voltarem de viagem.


















O jogo foi dado pela Oficina de Bolso. A proposta foi extraída do "Literatura Pós-humana", elaborada pelo Luiz Bras: Escolha o início - A primeira frase - e continue. Com o tempo, pretendo colocar os resultados de outros exercícios dos demais livros da coleção.



A ilustração é da mexicana Kikyz Ferrer Zamudio, nascida em 1988. Veja seu trabalho repleto de cadáveres despedaçados de crianças e animais AQUI.