domingo, 9 de março de 2014

Telegramas

(Procuro evitar postar longos textos de outros autores, mas esse merece sua integridade. faz rir e pensar... 
Além disso, pressinto que ele “conversa” com os estudos do físico americano Yaneer Bam Yam que mencionei na postagem imediatamente anterior. ...Qual a melhor maneira de lidar com os problemas da sociedade? Por processos? Por resultados? Em escala ou em complexidade? E qual desses métodos é mais esquerda ou direita? 
A princípio, eu diria que tudo que é autoritário (tanto faz se de esquerda ou de direita) é de escala, e tudo que é milícia, linchadores e blackblocks (tanto faz que é de esquerda ou de direita) são complexidade. Mas eu não sou ninguém, portanto esqueçam-me)







Direita X Esquerda - o retorno


Depois que o muro de Berlim foi partido em cubinhos e vendido como souvenir, Che Guevara passou a usar o chapéu do Mickey Mouse e a Colgate uniu o mundo num único e branco sorriso, muita gente pensou que esquerda e direita tinham ficado para trás. Dizia-se que, dali em diante, os termos só seriam usados para indicar o caminho no trânsito e diferenciar os laterais no futebol. Afinal de contas, estávamos no fim da história e, como sabíamos desde criancinhas, todos viveriam felizes para sempre.
Mas o mundo gira, gira e – eis aí um grande problema de rodar em torno do próprio eixo – voltamos para o mesmo lugar. Se a história se repete como farsa ou como história mesmo, não faço a menor idéia, mas ouso dizer, parafraseando Nelson Rodrigues (que já foi de direita, mas o tempo e Ruy Castro liberaram para a esquerda), que hoje em dia não se chupa um Chicabom sem optar-se por um dos blocos.
Ah, como fomos tolos! Acreditar que aquela dicotomia ontológica resumia-se à discussão sobre quanto o Estado deveria intervir no mercado (ou quanto o Mercado deveria ser regulado pelo estado, o que vem a ser a mesma coisa, de maneira completamente diferente) é mais ou menos como pensar que a diferença entre homens e mulheres restringe-se ao cromossomo Y. Ou ao comprimento do cabelo.
Estado e Mercado são apenas a ponta de um iceberg, ou melhor, dois icebergs sociais, culturais, gastronômicos, gramaticais, musicais, lúdicos, léxicos, religiosos, higiênicos, esportivos, patafísicos, agronômicos, sexuais, penais, eletro-eletrônicos, existenciais, metafísicos, dietéticos, lógicos, astrológicos, pundonôricos, astronômicos, cosmogônicos -- e paremos por aqui, porque a lista poderia levar o dia todo.
Justamente agora, quando esquerda e direita, pelo menos em suas ações, pareciam não divergir mais sobre as relações entre Estado e Mercado (ponhamos assim, os dois com maiúsculas, para não nos acusarem de nenhuma parcialidade), a discussão ressurge lá do mar profundo, com toda a força, como o tubarão de Spielberg.
Para que o pasmo leitor que, como eu, dá um boi para não entrar numa discussão, mas uma boiada para não sair, não termine seus dias sem uma única rês, resolvi enumerar algumas diferenças entre essas, digamos, maneiras de estar no mundo. Dessa forma saberemos, ao comentar numa mesa de bar, na casa da sogra ou na padaria da esquina, “dizem que o filme é chato” ou “como canta bem esse canário belga”, se estamos ou não pisando inadvertidamente numa dessas minas ideológicas, mandando os ânimos pelos ares e causando inestancáveis verborragias.
A lista é curta e provisória. Outras notas vão entrar, mas a base, por ora, é essa aí. Se a publico agora é por querer evitar, mesmo que parcialmente, que mais horas sejam ceifadas, no auge de suas juventudes, nas trincheiras da mútua incompreensão. Vamos lá.

* * *

A esquerda acha que o homem é bom, mas vai mal -- e tende a piorar. A direita acredita que o homem é mau, mas vai bem -- e tende a melhorar.
A esquerda acusa a direita de fazer as coisas sem refletir. A direita acusa a esquerda de discutir, discutir, marcar para discutir mais amanhã, ou discutir se vai discutir mais amanhã e não fazer nada. (Piada de direita: camelo é um cavalo criado por um comitê).
Temos trânsito na cidade. O que faz a direita? Chama engenheiros e constrói mais pontes. Resolve agora? Sim, diz a direita. Mas só piora o problema, depois, diz a esquerda. A direita não está preocupada com o depois: depois é de esquerda, agora é de direita.
Temos trânsito na cidade. O que faz a esquerda? Chama urbanistas para repensar a relação do transporte com a cidade. Quer dizer então que a Marginal vai continuar parada ano que vem?, cutuca a direita. Sim, diz a esquerda, mas outra cidade é possível mais pra frente. A direita ri. “Outra” é de esquerda. “Isso” é de direita.
Direita e esquerda são uma maneira de encarar a vida e, portanto, a morte. Diante do envelhecimento, os dois lados se dividem exatamente como no urbanismo. Faça plásticas (pontes), diz a direita. Faça análise, (discuta o problema de fundo) diz a esquerda. (“filosofar é aprender a morrer”, Cícero). Você tem que se sentir bem com o corpo que tem, diz a esquerda. Sim, é exatamente por isso que eu faço plásticas, rebate a direita. Neurótica! -- grita a esquerda. Ressentida! -- grita a direita.
A direita vai à academia, porque é pragmática e quer a bunda dura. A esquerda vai à yoga, porque o processo é tão ou mais importante que o resultado. (Processo é de esquerda, resultado, de direita).
Um estudo de direita talvez prove que as pessoas de direita, preocupadas com a bunda, fazem mais exercícios físicos do que as de esquerda e, por isso, acabam sendo mais saudáveis, o que é quase como uma aplicação esportiva do muito citado mote de Mendeville, de que os vícios privados geram benefícios públicos -- se encararmos vício privado como o enrijecimento da bunda (bunda é de direita) e benefício público como a melhora de todo o sistema cardio-vascular. (Sistema cardio-vascular é de esquerda).
Um estudo de esquerda talvez prove que o povo de esquerda, mais preocupado com o processo do que com os resultados, acaba com a bunda mais dura, pois o processo holístico da yoga (processo, holístico e yoga são de extrema esquerda) acaba beneficiando os glúteos mais do que a musculação. (Yoga já é de direita, diz alguém que lê o texto sobre meus ombros, provando que o provérbio correto é “pau que nasce torno, sempre se endireita”).
Dieta da proteína: direita. Dieta por pontos: esquerda. Operação de estômago: fascismo. Macrobiótica: stalinismo. Vegetarianismo: loucura. (Foucault escreveria alguma coisa bem interessante sobre os Vigilantes do Peso).
Evidente que, dependendo da época, as coisas mudam de lugar. Maio de 68: professores universitários eram de direita e mídia de esquerda. (“O mundo só será um lugar justo quando o último sociólogo for enforcado com as tripas do último padre”, escreveram num muro de Paris). Hoje a universidade é de esquerda e a mídia, de direita.
As coisas também mudam, dependendo da perspectiva: ao lado de um suco de laranja, Guaraná é de direita. Ao lado de uma Coca-Cola, Guaraná é de esquerda. Da mesma forma, ao lado de um suco de graviola, pitanga ou umbu (extrema-esquerda), o de laranja vira um generalzinho. (Anauê juice fruit: 100% integralista).
Leão, urso, lobo: direita. Pinguim, grilo, avestruz: esquerda. Formiga: fascismo. Abelha: stalinismo. Cachorro: social democrata. Gato: anarquista. Rosa: direita. Maria sem-vergonha: esquerda. Grama: nacional socialismo. Piscina: direita. Cachoeira: esquerda. (Quanto ao mar, tenho minhas dúvidas, embora seja claro que o Atlântico e o Pacífico estejam, politicamente, dos lados opostos aos que se encontram no mapa). Lápis: esquerda. Caneta: direita. Axilas, cotovelo, calcanhar: esquerda. Bíceps, abdomem, panturrilha: direita. Nariz: esquerda. Olhos: direita. (Olfato é sensação, animal, memória. Visão é objetividade, praticidade, razão).
Liquidificador é de direita. (Maquiavel: dividir para dominar). Batedeira é de esquerda. (Gilberto Freyre: o apogeu da mistura, do contato, quase que a massagem dos ingredientes). Mixer é um caudilho de direita. Espremedor de alho é um caudilho de esquerda. Colher de pau, esquerda. Teflon, direita. Mostarda é de esquerda, catchupe é de direita -- e pela maionese nenhum dos lados quer se responsabilizar. Mal passado é de esquerda, bem passado é de direita. Contra-filé é de esquerda, filé mignon é de direita. Peito é de direita, coxa é de esquerda. Arroz é de direita, feijão é de esquerda. Tupperware, extrema direita. Cumbuca, extrema esquerda. Congelar é de direita, salgar é de esquerda. No churrasco, sal grosso é de esquerda, sal moura é de direita e jogar cerveja na picanha é crime inafiançável.
Graal é de direita, Fazendinha é de esquerda. Cheetos é de direita, Baconzeetos é de esquerda e Doritos é tucano. Ploc e Ping-Pong são de esquerda, Bubaloo é de direita.
No sexo: broxada é de esquerda. Ejaculação precoce é de direita. Cunilingus: esquerda. Fellatio: direita. A mulher de quatro: direita. Mulher por cima: esquerda. Homem é de direita, mulher é de esquerda. (mas talvez essa seja a visão de uma mulher -- de esquerda).
Vogais são de esquerda, consoantes, de direita. Se A, E e O estiverem tomando uma cerveja e X, K e Y chegarem no bar, pode até sair briga. Apóstrofe ésse anda sempre com Friedman, Fukuyama e Freakonomics embaixo do braço. (A trema e a crase acham todo esse debate uma pobreza e são a favor do restabelecimento da monarquia).
“Eu gostava mais no começo” é de esquerda. “Não vejo a hora de sair o próximo” é de direita.
Dia é de direita, noite é de esquerda. Sol é de direita, lua é de esquerda. Planície é de direita, montanha é de esquerda. Terra é de direita, água é de esquerda. Círculo é de esquerda, quadrado é de direita. “É genético” é de direita. “É comportamental” é de esquerda. Aproveita é de esquerda. Joga fora e compra outro, de direita. Onda é de direita, partícula é de esquerda. Molécula é de esquerda, átomo é de direita. Elétron é de esquerda, próton é de direita e a assessoria do neutron informou que ele prefere ausentar-se da discussão.


To be continued (para os de direita)
Under construction (para os de esquerda)




(imagem Che daqui)

sábado, 8 de março de 2014

Telegrama

non ducor duco?









“A tese central é que todo sistema complexo tem duas características: a escala e a complexidade. Para fazer um sistema complexo funcionar, é preciso ter uma estratégia para a escala e outra para a complexidade.

Exemplo: o corpo humano tem dois sistemas de proteção, uma para escala, outro para complexidade. O sistema neuromuscular (cérebro comandando nervos que acionam músculos que movem ossos) serve para escala, enquanto o sistema imunológico (glóbulos brancos independentes agindo cada um por conta própria) lida com complexidade. O neuromuscular nos defende de ameaças grandes – surras, atropelamentos, ladrões. O imunológico lida com inimigos minúsculos – bactérias, vírus, fungos. Por terem funções diferentes, os dois sistemas adotam estratégias diferentes.

No neuromuscular, a lógica é hierárquica, centralizada e linear – o cérebro manda, nervos e músculos obedecem, todos juntos, orquestrados, somando esforços numa mesma direção, para gerar uma ação em grande escala (um soco, por exemplo). Já no sistema imunológica, cada célula age com liberdade e se comunica com as outras, o que gera milhões de ações a cada segundo, uma diferente da outra, cada uma delas microscópica, em pequena escala – e o resultado é uma imensa complexidade, com o corpo protegido de uma quantidade quase infinita de possíveis ameaças.

Para viver saudável é preciso ter os dois sistemas: neuromuscular e imunológico. Um sem o outro não adianta. Não há nada que um bíceps forte possa fazer para matar uma bactéria, assim como glóbulos brancos sarados são inúteis numa briga. É assim com todo sistema complexo: precisamos de algo hierárquico para lidar com a escala das coisas e de algo conectado em rede para a complexidade.

O problema do mundo de hoje (...) é que a nossa sociedade está toda ajustada para lidar com escala, mas é absolutamente incompetente na gestão da complexidade.”



Denis R. Burgierman descreve a complexidade no mundo atual e em sistemas, a partir do livro “Complexity Rising” e “Making Things Work” do físico americano Yaneer Bar-Yam. Via “O Mundo anda muito Complexo”, matéria da Superinteressante, de fev de 2014. A matéria toda vale muito a pena, se ela aparecer na rede, posto o link.


Imagens: referem-se a gráficos que acompanharam as grandes manifestações de junho de 2013. Maiores esclarecimentos AQUI.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Telegrama





Você é um adulto?

 
















Depois tudo ficou calmo. Danny achou que estava sozinho, mas, quando virou a cabeça, lá estava o filho de Howard, Benjy, na cadeira em que Howard estivera sentado. A criança estava de pijama de manga comprida, estampado com peixes vermelhos. Seu cabelo escuro, emaranhado, como se tivesse acabado de acordar.

Benjy: Doeu?

Danny olhou para ele, esperando que os olhos se adaptassem à luz. O pijama do menino o confundiu – eram peixes vermelhos grandes comendo os vermelhos menores ou será que todos os peixes eram iguais?

Danny: Doeu o quê? Cair da janela?

Benjy: Não. A injeção.

Que nada. Foi até bom.

Benjy franziu a testa, como se não conseguisse saber se Danny estava brincando. Por fim, disse: Na verdade, não me deixam subir no parapeito das janelas porque é perigoso.

Vou anotar isso.

Benjy: Sua mãe já disse isso para você?

Provavelmente.

Agora você vai ter que ir para casa?

Por que eu iria para casa? Acabei de chegar.

Benjy: Sua casa é um apartamento?

É. Quer dizer, em geral, sim, mas neste momento eu não tenho casa. Estou numa fase de transição.

Por que diabo ele estava explicando tudo aquilo? Danny se revirou na cama, em busca de alguém que o resgatasse daquele pirralho. Mas até onde podia ver, não tinha mais ninguém no quarto. O vento soprava pela janela e balançava as tapeçarias penduradas nas paredes de pedra.

Benjy: Você tem uma esposa?

Não.

Minha mãe é esposa de meu pai.

É, eu percebi isso.

Você tem um cachorro?

Não.

Você tem um gato?

Não tenho nenhum animal de estimação, ok?

Nem um porquinho-da-índia?

Minha nossa! Sua voz soou muito alta e Benjy pareceu assustado. Danny torceu para que aquilo fizesse o garoto calar a boca.

Benjy: Você tem filhos?

Danny rangeu os dentes e cravou os olhos nas vigas do teto. Não, eu não tenho filho nenhum. Graças a Deus.

O garoto ficou calado por muito tempo. Afinal, disse: O que você tem?

Danny abriu a boca para responder. O que ele tinha?

Benjy: Eu perguntei o que você...

Já ouvi, já ouvi.

O que você tem?

Não tenho nada, ok? Nada. E agora eu gostaria de fechar os olhos.

Benjy inclinou-se mais perto dele. Em seu rosto, Danny viu compaixão misturada com uma espécie 
de curiosidade fria, que nunca se vê em adultos. Eles já aprenderam a disfarçar isso.

Benjy: Você não fica triste por não ter nada?

Não, não fico.

Só que ele estava triste. A tristeza baixou sobre Danny de repente e o soterrou. Ele viu a si mesmo: estirado de costas no meio do nada, naquele fim de mundo, com a cabeça esmagada. Um cara que não tinha nada.

Benjy: Está chorando?

Danny: Você deve estar de brincadeira com a minha cara.

Estou vendo lágrimas.

É só por causa do... minha cabeça está doendo. Você está fazendo ela doer.

Os adultos às vezes choram. Vi mamãe chorar.

Preciso dormir.

Benjy olhou bem para ele. Danny fechou os olhos, ouviu a criança respirando bem perto de seu ouvido.

Benjy: Você é um adulto?







(Trecho de "O Torreão", de Jennifer  Egan (Intrínseca). Imagem do CreepypastaWiki AQUI)

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Telegramas



As rocambolescas aventuras de Dennis Moore e a redistribuição de renda.


...(além de um pouco de poesia)...