Desconfie das vovozinhas
Mote
Vá pra puta que o pariu
Certa sujeita do paço
Um amante namorava,
Com quem se punheteava,
Com todo o desembaraço;
Ele quis ir-lhe ao cabaço
Mas ela lhe retorquiu:
"Gentes, pois já se viu?
Arre lá, arrede a trouxa!
Se já não lhe serve a coxa,
Vá pra puta que o pariu!"
Laurindo Rabelo, o "Poeta-Lagartixa" (1826-1864). Via Antologia Pornográfica: De Gregório de Mattos a Glauco Mattoso, Edt Saraiva, organizado por Alexei Bueno.
Foto: Diane Rigg nos anos 60 fez o papel de Emma Peel na série inglesa de espionagem The Avengers. Atualmente faz Oleanna Tyrell, a Rainha dos Espinhos em Game of Thrones.
domingo, 1 de junho de 2014
Telegrama
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segunda-feira, 26 de maio de 2014
Telegrama
A retirada, segundo o testemunho do tenente Eugenio Corti
(Trecho de “Inferno: o mundo em guerra 1939-45” (Intrínseca),
de Max Hastings)
Em 12 de janeiro (de 1943), quatro frentes russas atacaram o
exército do Don, ao norte de Stalingrado, repelindo as forças do Eixo, que
fugiram em debandada. A Divisão Pasubio, parte do VIII Exército italiano no
bolsão do Don, viu-se lutando para seguir na direção oeste. Sem combustível, as
infelizes tropas foram obrigadas a abandonar armas pesadas e fugir a pé. “Veículos
repletos de cargas eram abandonados na estrada”, escreveu o tenente de
artilharia Eugenio Corti. “Partiu meu coração vê-los. Quanto esforço e dinheiro
aquele equipamento deve ter custado à Itália!” Os soldados exaustos que
tentavam pegar caronas em viaturas alemãs eram repelidos com berros e
palavrões.
Corti fez esforços inúteis para preservar a disciplina em
sua unidade. “Porém, como esperar que pessoas desacostumadas a viver em ordem
como se civis se tornem ordeiras (...) simplesmente porque se veem usando
uniformes? Enquanto o fogo inimigo chovia, a chusma apressava seu passo
cambaleante. Vi, então uma das cenas mais lamentáveis da retirada: italianos
matando italianos (...) Não éramos mais um exército; eu não estava entre
soldados, mas entre criaturas que não podiam se controlar, obedientes a um
único instinto animal: autopreservação.” Ele amaldiçoava sua própria brandura,
que não lhe permitiu matar um homem que desafiou a ordem de que somente feridos
poderiam viajar nos poucos trenós. “Inúmeros exemplos de fraqueza como a minha
explicavam a confusão em que nos encontrávamos (...) Um soldado alemão entre
nós não conseguiu disfarçar seu desdém. Preciso admitir que tinha razão (...)
estávamos lidando com homens indisciplinados e desnorteados.”
Num posto de primeiros socorros, “os feridos jaziam uns por
cima dos outros. Quando um dos poucos auxiliares de enfermagem que cuidavam
deles apareceu com um pouco de água, aos gemidos foram acrescidos os gritos
daqueles em que ele inadvertidamente tropeçava. Na parte externa, colocou-se
palha sobre a neve, onde centenas de homens estavam deitados (...) Fazia
provavelmente quinze ou vinte graus negativos. Os mortos estavam misturados aos
feridos. Um médico fazia a ronda: ele mesmo havia sido ferido duas vezes por
estilhaços enquanto fazia amputações com uma navalha.”
Independentemente dos exércitos que predominavam na luta, os
sofrimentos russos persistiam. Numa cabana camponesa, Corti encontrou uma
família aflita. “Fui recebido pelo cadáver de um velho gigantesco, com uma
longa barba branca, deitado numa poça de sangue (...) Acuadas contra uma
parede, aterrorizadas, estavam três ou quatro mulheres e cinco ou seis crianças
– russas, magras, delicadas, rostos brancos como cera. Um soldado comia com
calma batatas cozidas (...) Como a casa estava aquecida! Insisti que as
mulheres e as crianças comessem antes que outros soldados chegassem e
engolissem tudo.” Soldados do Eixo costumavam ficar estupefatos e
impressionados com o estoicismo dos russos, que mais lhes pareciam vítimas do
comunismo do que inimigos. Mesmo após os invasores trazerem desgraças
indizíveis ao seu país, camponeses simples às vezes demonstravam uma simpatia
humana pelos aflitos e sofridos soldados do Eixo que os comovia. Corti
escreveu: “Nas pausas daquelas marchas, muitos de nossos compatriotas foram
salvos das ulcerações de congelamento pelos cuidados altruístas e maternais de
mulheres pobres.”
(...)
Corti horrorizava-se com o espetáculo do massacre de
prisioneiros russos pelos alemães, embora soubesse que o Exército Vermelho
fazia o mesmo com seus prisioneiros. “Era extremamente penoso – pois éramos
homens civilizados – estar preso naquele conflito selvagem entre bárbaros.” Ele
se sentia dividido entre o nojo diante da crueldade dos alemães, “que, por
vezes, os desqualificava, a meus olhos, como membros da família humana”, e o
respeito relutante por sua força de vontade. Lamentava o desprezo que tinham
por outras raças. Ouvira falar sobre oficiais alemães que matavam a tiros
soldados feridos demais para andar, sobre estupros e assassinatos, sobre trenós
carregados com italianos feridos sequestrados pela Wehrmacht. Porém,
admirava-se com a maneira como soldados alemães desempenhavam suas obrigações
por instinto, mesmo sem ordens de um oficial ou graduado. “Eu (...) me
perguntava (...) o que seria de nós sem os alemães. Com relutância, eu era
obrigado a admitir que, sozinhos, acabaríamos nas mãos dos inimigos (...)
Agradeci aos céus por eles estarem conosco naquela coluna (...) Sem sombra de
dúvida, ninguém se iguala a eles como soldados.”
Repetidas vezes, tanques alemães e aviões Stuka repeliram
ataques de blindados russos, permitindo que as colunas em retirada
prosseguissem sob os terríveis morteiros soviéticos. Os testículos de um
soldado italiano foram decepados por um estilhaço de bomba. Enfiando-os no
bolso, o homem amarrou o ferimento com barbante e seguiu em frente. No dia
seguinte, num posto de primeiros socorros, ele arriou as calças e, remexendo
nos bolsos, segundo o relato de Eugenio Corti, ofereceu ao médico, “na palma da
sua mão, os testículos escurecidos misturados com farelo de biscoito e
perguntou se poderiam ser costurados no lugar.” Corti sobreviveu até alcançar o
terminal ferroviário em Yasinovataya e, dali, viajou para a Alemanha através da
Polônia. Um trem-hospital finalmente levou-o para casa, em sua amada Itália. No
fim de 1942, um general italiano afirmou que 99% de seus compatriotas não
apenas esperavam perder a guerra, como desejavam ardentemente perde-la o mais
depressa possível.”
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domingo, 11 de maio de 2014
Achados
1)I want to play god
Aula de anatomia com esculturas clássicas, por Cao Hui. Via Le Zèbre bleu.
2)Slave Girl Comics
(1949) Via Pappy´s Golden Age Comics
3)Navalha na Carne, peça de Plínio Marcos, na edição de Walter Hüne.
Veja mais imagens no Gramatologia, que fez a conexão com a versão de Robert Massin para "A Cantora Careca" de Ionesco. Pedro Bandeira relembra sua parte na história na Folha.
4)Ruínas de Igrejas e capelas abandonadas pelo interior do Brasil. (Via Cesar Silva.)
(aliás, vale uma espiada no site de "Exploração Urbana": Lugares esquecidos)
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quinta-feira, 1 de maio de 2014
Telegrama
História pausterizada
(trecho de Pequenas Maravilhas: Como os micróbios governam o mundo, de Idan Ben-Barak, Zahar. Ilustração de Nicolas Nemiri )
"No romance histórico Xógum, de James Clavell, ambientado no
Japão de quatro séculos atrás, há uma cena memorável em que o navegante inglês
John Blackthorne, recém-chegado ao país, é convocado pelo soberano japonês
Toranaga e submetido a um longo interrogatório. Em certo momento, Blackthorne
fala a Toronaga da política europeia contemporânea: a Holanda, que
anteriormente era um Estado vassalo do rei espanhol, rebelou-se e está em
guerra com a Espanha. O governador feudal nipônico, governante de uma sociedade
estritamente hierárquica, fica furioso – uma rebelião contra um rei legítimo é
inaceitável. Blackthorne, que corre grande risco de ter a cabeça decepada nesse
ponto, diz “Mas havia circunstância amenizadoras.” Ainda assim, Toronaga não
quer saber: “Não existem `circunstâncias amenizadoras` quando se trata de uma
rebelião contra um soberano”, exclama, e Blackthorne responde: “A menos que a
rebelião vença.”
É um momento tenso: Blackthorne certamente morrerá por sua
intolerável insolência e as demais mil e tantas páginas terão de ser deixadas
em branco. Mas não. Toranaga ri e responde: “O senhor citou a única
circunstância amenizadora.”
Do Japão fictício passamos à França real da década de 1860,
quando irrompeu uma batalha furiosa entre cientistas, acompanhada de perto pelo
público em geral (ou, ao menos pelas classes mais altas, que já são um público
suficiente para nossas necessidades presentes). De um lado estavam os que
defendiam a teoria da geração espontânea, segundo a qual os microrganismos são
criados regularmente a partir da matéria orgânica em decomposição. Do outro
estavam os que afirmavam que a vida só surge a partir da vida – o principal
deles era o grande Louis Pasteur, o homem cujas conquistas lhe valeram,
merecidamente, o título de “pai da microbiologia”, ao lado de Robert Koch.
Pasteur havia preparado soluções esterilizadas de leveduras
em frascos de vidro cujos pescoços estavam dobrados de tal maneira que os
microrganismos não poderiam entrar, como ele afirmou corretamente.
Qualquer forma de vida encontrada ali deveria ter sido
gerada espontaneamente a partir da matéria orgânica morta, alegava Pasteur. A
geração espontânea, é claro, não ocorreu: nos frascos do tipo “pescoço de
ganso” de Pasteur não cresceu nenhum mofo por longos períodos de tempo. Essas
demonstrações, características das habilidades técnicas e da lógica poderosa do
virtuose Pasteur, praticamente encerraram o debate.
Digo praticamente porque nesse momento surgiu em cena Felix
Pouchet, o principal rival de Pasteur, que preparou um frasco semelhante, mas
com uma infusão de feno esterilizada ao calor, em vez de uma solução de
levedura na água. O mofo surgiu imediatamente. Pouchet podia agora argumentar
que o experimento de Pasteur provava apenas que a geração espontânea não
poderia ocorrer no caso muito específico da levedura em água. Havia ali
evidências concretas bastante problemáticas para Pasteur. Isto também pode ser
inquietante para você: como é possível que a vida tenha surgido de repente em
um recipiente estéril? “Estéril” não significa que não há nada vivo ali dentro?
Então, de onde veio o mofo?
A resposta, como sabemos hoje, é que a infusão de feno de
Pouchet não era estéril: a técnica de esterilização pelo calor que todos usavam
na época, chamada atualmente de pasteurização, era adequada para eliminar a
maior parte das espécies de micróbios, mas ninguém sabia que certas espécies
podem gerar esporos – envoltórios externos resistentes que protegem o micróbio
de condições adversas, sendo capazes de suportar temperaturas muito elevadas.
Esses micróbios que sobrevivem ao processo de pasteurização podem, uma vez
terminada a esterilização, livrar-se de sua camada protetora externa, tornar-se
ativos e se multiplicar. Eles se banqueteiam na lactose do leite e excretam
ácido láctico que é azedo; por isso que o leite pasteurizado fica azedo depois
de mais ou menos uma semana, mesmo na geladeira. Para preparar leite estéril,
inteiramente livre de esporos (do tipo que chamamos “longa vida”), é necessário
um tratamento mais rigoroso.
Voltemos então a Pasteur, que não sabia da existência dos
esporos. O que ele poderia fazer ante esse desafio à sua posição? A atitude
cientificamente correta teria sido tentar replicar o experimento e então
encontrar nele alguma falha técnica (como ele conseguira fazer com tentativas
prévias de Pouchet) ou propor alguma explicação teórica para os resultados do
rival, que poderia então ser testada (sugerindo talvez a existência de
micróbios resistentes ao calor, que foram de fato responsáveis pelo resultado,
ou alguma outra razão possível). Se tudo isso falhasse, ele poderia desistir e
admitir a derrota.
Mas Pasteur não seguiu nenhum dos três caminhos. Em vez
disso, ele ignorou inteiramente os resultados de Pouchet. Para tal, apoiou-se
na opinião pública favorável e em suas convicções privadas. Pasteur, que era
católico, opunha-se fortemente a qualquer ideia que tivesse algum cheiro de
ateísmo, inclusive as novas terias de Darwin, que sopravam do outro lado do
canal da Mancha. Sendo um conservador religioso, ele defendia a ideia de que a
vida só havia sido criada uma vez – pelo Criador, no início dos tempos, como
descrito nas escrituras – e portanto não continuaria a surgir diariamente. A
atitude de Pasteur se encaixava muito bem no clima político francês da época,
por isso ele não sofreu grandes pressões e pôde simplesmente dar de ombros a
seus oponentes.
Pouchet, que também era um homem pio e baseava suas teorias
em questões religiosas (bastante elaboradas, reconheço), foi deixada de lado.
Pasteur venceu o debate e seguiu em frente, conquistando outros triunfos
científicos. Sua vitória, nesse caso, não se deveu ao fato de ser um cientista
exemplar; apoiou-se fortemente em circunstâncias públicas favoráveis e em suas
noções preconcebidas.
Há duas questões nesse episódio que, para mim, são bastante
bastante desconcertantes, e também esclarecedoras: uma delas é científica;
outra, histórica.
A questão científica é que Pasteur não foi inteiramente
profissional em sua conduta. Geralmente, temos a tendência de enxergar os
grandes cientistas como a encarnação do espírito da ciência – observadores imparciais
da natureza que seguem suas observações para onde quer que os levem. Isto não
passa de uma imagem ideal e, dessa forma, é algo dificilmente personificado por
homens de carne e osso. Um cientista,
até mesmo um dos grandes, é um ser humano, com todas as falhas e falácias
humanas que isso implica. Além disso, homens visionários tendem a ser muito
obstinados, a ponto de se tornarem cabeças-duras. Eles possuem intuições e
convicções, além de seu orgulho. Se Pasteur admitisse, depois de tanto tempo e
esforço, que seus rivais poderiam ter estado certos, isso não apenas iria
contra sua concepção da natureza, como seria um golpe bastante forte em seu
ego, que não era nada insignificante.
No fim das contas, provou-se que Pasteur estava certo. E
isso não se deveu a seus próprios experimentos, mas aos de pesquisadores
futuros que seguiram seus passos. É uma estranha maneira de proceder, quando
paramos para pensar no assunto, mas é assim que a ciência funciona. Ela dá
resultado porque os que seguem por um caminho não o fazem cegamente, eles
verificam e reverificam as ideias que recebem de seus predecessores,
descartando então as que são vistas como imprecisas. Pasteur defendia a ideia
de que a vida surge da vida. Ele estava certo. Esse é o veredicto da ciência.
Assim como no caso do vassalo rebelde, essa é uma circunstância amenizadora.
A questão histórica é que Pasteur, um grande cientista,
opunha-se às ideias evolutivas de Darwin e lutava do lado do conservadorismo
religioso. É uma boa lição a ser absorvida – que os cientistas às noções e
alinhamentos das gerações futuras. Eles trabalham com o conhecimento, o
entendimento e os meios técnicos que têm às noções e alinhamentos das gerações
futuras. Eles trabalham com o conhecimento, o entendimento e os meios técnicos
que têm à disposição, e também são, em grande medida, influenciados pela
sociedade. Não devemos lhes atribuir erroneamente nossas próprias visões de
mundo, por maior que tenha sido o papel que eles desempenharam em cimentar
essas mesmas visões.
O veredicto da história é complicado. Como devemos julgar um
homem que não teve um comportamento profissional, mas que estava acidentalmente
certo? Devemos enaltece-lo por seus instintos, ficar decepcionados pelo modo
como levou vantagem ou apenas nos contentar com o fato de que, ao menos desta
vez, a verdade venceu (ainda que por métodos estranhos)?
Você decide. Do meu lado, eu me pergunto o que Pasteur teria
pensado de tudo o que sabemos hoje sobre a vida e os microrganismos. Ele teria
ficado contente e fascinado, ou chateado com as conclusões modernas,
abertamente seculares, a que chegamos com base em seus achados? Xógum, se posso
voltar a ele, é um livro repleto de homens fortes. De fato, James Clavell
parece ser da escola de pensamento que diz que os homens fortes fazem a
história[3].
Vendo Pasteur, eu talvez acrescentaria que, se é isso que homens fortes fazem, a
história que eles produzem raramente é a história que pensaram estar
produzindo."
[3] A
escola oposta diz que todos os homens são engrenagens inconscientes da marcha
inevitável da história.
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segunda-feira, 14 de abril de 2014
Achados
a)Obra de Jean Fabre, via La Zèbre bleu.

"Je me vide de moi même"
b)O Google patenteou o gesto de S2.
Parece que tem a ver com o Google Glass.
E se o Google patentear o dedo do meio?
c)Homem boneca encontra Homem sem cabeça. Os Quadrinhos já foram mais divertidos.
História clássica (1946) do Polegar (Acho que esse é o nome oficial do personagem) via Pappy´s Golden Age Comics.
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quarta-feira, 9 de abril de 2014
Telegrama
Justiças
"Quando ainda era um jovem professor, quando a guerra estava
começando para valer, Rey usou seu velho pseudônimo para publicar um ensaio num
dos jornais mais sectários da cidade. O comitê central tinha decidido que o
risco valia a pena: uma provocação calculada. Apesar da pouca circulação do
jornal, o ensaio causou uma certa controvérsia. Numa série de artigos, Rey
descrevia um ritual que tinha testemunhado na selva. Ele chamou o ritual de tadek, que era o nome da planta
psicotrópica usada, embora ele afirmasse que os nativos da aldeia tinham mais
de meia dúzia de nomes para ele, dependendo da época do ano em que fosse
realizado, do dia da semana, do crime que ele serviria para punir, et cetera. Tadek, segundo a descrição de
Rey, era uma forma rudimentar de justiça e funcionava assim: diante de um
roubo, por exemplo, os anciãos da aldeia escolhiam um menino com menos de dez
anos, drogavam-no com um chá muito forte e deixavam a criança embriagada
encontrar o culpado. Rey tinha testemunhado isso: um menino cambaleando bêbado
pelos caminhos enlameados de uma aldeia, entrando no mercado, sentindo-se
atraído pela cor da camisa de um homem, pelos padrões geométricos do vestido de
uma mulher ou por um cheiro ou sensação que só o menino, naquele estado
alterado, podia identificar. A criança se dirigia a um adulto e isso era o
bastante. Os anciões anunciavam que o tadek
estava terminado e levavam embora o criminoso para cortar fora as mãos dele ou
dela.
Se o artigo de Rey tivesse sido meramente uma descrição de
um ritual raramente praticado, as coisas poderiam ter terminado por aí. Esta
parte não era polêmica, uma vez que os lugares da selva, naquela época, eram
conhecidos principalmente por serem desconhecidos, e um leigo não se
surpreenderia com um rito pagão violento vindo da floresta tenebrosa. Mas Rey
foi mais longe. Tadek, ele
argumentou, era algo quase em extinção, mas agora sofria uma espécie de
renascimento. Além disso, ele se recusou a condená-lo, a chama-lo de rito
bárbaro e não deu nenhuma conotação pejorativa à descrição de sua crueldade. Tadek, na visão de Rey, era o precursor
do sistema de justiça inteiramente moderno que vinha sendo empregado na nação.
Justiça de guerra, justiça arbitrária, ele argumentou, era válida tanto ética
(ninguém podia saber quais os crimes no coração e na mente dos homens)
quanto pragmaticamente (castigo rápido, violento, mesmo que de natureza
fortuita, podia apoiar a causa da paz, amedrontando subversivos potenciais
antes que estes atacassem). Numa prosa equilibrada, ele aplaudia alguns poucos
casos conhecidos de líderes sindicais torturados e do desaparecimento de
estudantes como versões contemporâneas, bem-sucedidas, do tadek, nos quais o estado com base em indicadores externos
(juventude, ocupação, classe social), nem mais nem menos reveladores do que o
padrão geométrico de um vestido de mulher. A criança bêbada era talvez
extrínseca num contexto moderno, mas a essência era a mesma. A presença do tadek da selva não era o vestígio de uma
tradição moribunda e sim uma reinterpretação da justiça contemporânea pelo
prisma do folclore. O Estado-nação, em tempos de guerra, tinha finalmente
conseguido infiltrar-se nas massas isoladas: condená-las agora por recriar
nossas instituições em suas próprias comunidades era nada menos que hipocrisia."
(Extraído de Rádio Cidade Perdida, Daniel Alarcón (Rocco). Imagem do PocketComics de Isabella Amaral)
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