segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Telegrama





Você é um adulto?

 
















Depois tudo ficou calmo. Danny achou que estava sozinho, mas, quando virou a cabeça, lá estava o filho de Howard, Benjy, na cadeira em que Howard estivera sentado. A criança estava de pijama de manga comprida, estampado com peixes vermelhos. Seu cabelo escuro, emaranhado, como se tivesse acabado de acordar.

Benjy: Doeu?

Danny olhou para ele, esperando que os olhos se adaptassem à luz. O pijama do menino o confundiu – eram peixes vermelhos grandes comendo os vermelhos menores ou será que todos os peixes eram iguais?

Danny: Doeu o quê? Cair da janela?

Benjy: Não. A injeção.

Que nada. Foi até bom.

Benjy franziu a testa, como se não conseguisse saber se Danny estava brincando. Por fim, disse: Na verdade, não me deixam subir no parapeito das janelas porque é perigoso.

Vou anotar isso.

Benjy: Sua mãe já disse isso para você?

Provavelmente.

Agora você vai ter que ir para casa?

Por que eu iria para casa? Acabei de chegar.

Benjy: Sua casa é um apartamento?

É. Quer dizer, em geral, sim, mas neste momento eu não tenho casa. Estou numa fase de transição.

Por que diabo ele estava explicando tudo aquilo? Danny se revirou na cama, em busca de alguém que o resgatasse daquele pirralho. Mas até onde podia ver, não tinha mais ninguém no quarto. O vento soprava pela janela e balançava as tapeçarias penduradas nas paredes de pedra.

Benjy: Você tem uma esposa?

Não.

Minha mãe é esposa de meu pai.

É, eu percebi isso.

Você tem um cachorro?

Não.

Você tem um gato?

Não tenho nenhum animal de estimação, ok?

Nem um porquinho-da-índia?

Minha nossa! Sua voz soou muito alta e Benjy pareceu assustado. Danny torceu para que aquilo fizesse o garoto calar a boca.

Benjy: Você tem filhos?

Danny rangeu os dentes e cravou os olhos nas vigas do teto. Não, eu não tenho filho nenhum. Graças a Deus.

O garoto ficou calado por muito tempo. Afinal, disse: O que você tem?

Danny abriu a boca para responder. O que ele tinha?

Benjy: Eu perguntei o que você...

Já ouvi, já ouvi.

O que você tem?

Não tenho nada, ok? Nada. E agora eu gostaria de fechar os olhos.

Benjy inclinou-se mais perto dele. Em seu rosto, Danny viu compaixão misturada com uma espécie 
de curiosidade fria, que nunca se vê em adultos. Eles já aprenderam a disfarçar isso.

Benjy: Você não fica triste por não ter nada?

Não, não fico.

Só que ele estava triste. A tristeza baixou sobre Danny de repente e o soterrou. Ele viu a si mesmo: estirado de costas no meio do nada, naquele fim de mundo, com a cabeça esmagada. Um cara que não tinha nada.

Benjy: Está chorando?

Danny: Você deve estar de brincadeira com a minha cara.

Estou vendo lágrimas.

É só por causa do... minha cabeça está doendo. Você está fazendo ela doer.

Os adultos às vezes choram. Vi mamãe chorar.

Preciso dormir.

Benjy olhou bem para ele. Danny fechou os olhos, ouviu a criança respirando bem perto de seu ouvido.

Benjy: Você é um adulto?







(Trecho de "O Torreão", de Jennifer  Egan (Intrínseca). Imagem do CreepypastaWiki AQUI)

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Telegramas



As rocambolescas aventuras de Dennis Moore e a redistribuição de renda.


...(além de um pouco de poesia)...


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Telegramas




O nascimento do "mercado" na Rússia


Trecho do livro "Limonov" do escritor francês Emmanuel Carrére (Alfaguara)

"Consciente de sua ignorância em assuntos econômicos, [o primeiro presidente da Rússia, Bóris] Iéltsin tirou da cartola um jovem prodígio chamado Egor Gaidar, espécie de Attali russo,  barrigudo, oriundo da alta nomenklatura, comunista e professando um fé absoluta no liberalismo. Nenhum teórico da escola de Chicago, nenhum conselheiro de Ronald Reagan ou de Margaret Tatcher acreditava nas virtudes de mercado com o mesmo fervor de Egor Gaidar. A Rússia nunca conhecera nada que, de perto ou de longe, se assemelhasse a um mercado, e o desafio era gigantesco. Iéltsin e Gaidar julgaram necessário agir depressa, muito depressa, furar o bloqueio para pegar de calças curtas a reação, que prevalecera sobre todos os reformadores russos desde Pedro, o Grande. Batizaram o remédio que teriam de empurrar goela abaixo, de "terapia de choque" e, em matéria de choque, foi um choque.

Para começar, os preços foram liberados, o que provocou uma inflação de 2.600% e malogrou a iniciativa, conduzida em paralelo, de "privatização por bônus". Em 1º de setembro de 1992, foram enviados pelo correio a todos os cidadãos russos acima de um ano de idade bônus de dez mil rublos, correspondentes à fração de cada um na economia do país. A ideia, após sessenta anos durante os quais teoricamente não se tinha o direito de trabalhar para si próprio, mas apenas para a coletividade, era despertar o interesse das pessoas e assim fazer prosperar empresas, propriedade privada, resumindo: mercado. Lamentavelmente, em consequência da inflação, esses bônus não valiam mais nada quando chegaram. Com eles, seus beneficiários descobriam que pagavam no máximo uma garrafa de vodka. Venderam-nos então em massa a espertinhos que por eles ofereciam, digamos, o preço de uma garrafa e meia.

Esses espertinhos, que em poucos meses viram-se reis do petróleo, chamavam-se Boris Berezovski, Vladimir Gussinski e Mikhail Khodorovski. Havia outros, mas para poupar meu leitor, peço que guarde apenas esses três nomes: Berezovski, Gussinski, Khodorovski. Os três porquinhos, que como nas companhias teatrais mambembes em que há mais papéis para representar do que atores para desempenhá-los, encarnarão na continuação desse livro todos aqueles a quem chamamos oligarcas. Eram homens jovens, inteligentes, enérgicos, desonestos não por vocação, embora houvessem crescido num mundo no qual era proibido fazer negócios, quando eles dotados para isso e, de um dia para o outro, disseram-lhes: "Vão em frente." Sem regras, sem leis, sem sistema bancário, sem fiscalidade. Como dizia o jovem comparsa, deslumbrado, o jovem comparsa de Julian Semionov: era o faroeste.

(...)

Enquanto, graças à "terapia de choque", um milhão de espertos começaram a enriquecer freneticamente, cento e cinquenta milhões de retardatários mergulharam na miséria. Os preços não paravam de subir, sem que os salários acompanhassem. Um ex-oficial da KGB, como o pai de Limonov, mal podia com a aposentadoria, comprar um quilo de salame. Um oficial de patente mais elevada, que iniciara a carreira no serviço de informações em Dresden, na Alemanha Oriental, depois de repatriado às pressas, uma vez que não existia mais Alemanha Oriental, via-se sem emprego, sem apartamento funcional, fadado a ser taxista pirata em sua cidade natal, Leningrado, amaldiçoando os "novos-russos" tão asperamente quanto Limonov. Esse oficial não é uma abstração estatística. Chama-se Vladimir Putin, tem quarenta anos, pensa como Limonov que o fim do império soviético é a maior catástrofe do século XX e é convocado (entre outros) a desempenhar um papel não desprezível na última parte deste livro.

De sessenta e cinco anos em 1987, a expectativa de vida do russo de sexo masculino caiu para cinquenta e oito em 1993. O espetáculo das monótonas filas diante de lojas vazias, tão típico da era soviética, foi substituído pelo dos velhinhos perambulando pelas passagens subterrâneas tentando vender o pouco que possuem. Para sobreviver, vendem de tudo. Se a pessoa é um pobre aposentado, é um quilo de pepinos, um bule, números antigos de Krokodil, o lamentável jornal "satírico" dos anos Brejnev. Se é um general, podem ser tanques ou aviões (...). Se é um juiz, são sentenças. Um policial, sua tolerância. Um veterano do Afeganistão, suas habilidades como matador. Um assassinato encomendado custa entre dez mil e quinze mil dólares. Em 1994, cinquenta banqueiros foram abatidos em Moscou. (...)"



Imagem via English Russia. Vale também uma espiada nos gifs bizarros russos, cheios de testosterona (como esse livro, a seu modo)


sábado, 4 de janeiro de 2014

Telegramas






Porque os americanos são loucos ou porque o humor torna-se sombrio.

"Na década de 1830, viajando pelos Estados Unidos, na época um país jovem, o advogado e historiador francês [Alexis de Tocqueville] identificou uma doença inesperada que corroía a alma dos cidadãos da nova república. Os americanos tinham muito, mas essa prosperidade não os impedia de querer mais ainda e de sofrer sempre que viam outra pessoa com posses maiores que a suas. Em um capítulo de A democracia na América (1835) intitulado "Por que os americanos costumam ser incansáveis em meio a sua prosperidade", ele esboçou uma análise resignada da relação entre a insatisfação e a expectativa elevada, entre inveja e igualdade:

"Como todas as prerrogativas de nascimento e fortuna foram abolidas, como cada profissão é aberta a todos, um homem ambicioso pensa que é fácil se lançar em uma grande carreira e acha que foi convocado a um destino extraordinário. Mas isso é uma ilusão que a experiência corrige rapidamente. Quando a desigualdade é a regra geral na sociedade [como na Europa até a Revolução Francesa], as maiores desigualdades não atraem atenção nenhuma. Mas, quanto tudo é mais ou menos nivelado, a menor variação é percebida (...). Essa é a razão para a estranha melancolia que com frequência assombra os habitantes de democracias em meio à abundância e por isso o desgosto com a vida às vezes os agarra até em circunstâncias tranquilas e fáceis. Na França, nos preocupamos com a taxa crescente de suicídios. Na América, o suicídio é raro, mas soube que a loucura é mais comum que em qualquer outro lugar."

Familiarizado com as limitações das sociedades aristocráticas, Tocqueville não tinha vontade de voltar às condições que existiam antes de 1776 ou 1789. Ele sabia que os habitantes do Ocidente moderno desfrutavam um padrão de vida muito superior ao das classes mais baixas da Europa medieval. Mas ele gostaria que essas classes excluídas também tivessem beneficiadas com uma tranquilidade mental negada a seus sucessores para sempre.

(...) Nas aristocracias, os servos com frequência aceitavam seu destino de bom grado; eles poderiam nas palavras de Tocqueville, "pensamentos elevados, um forte orgulho e respeito próprio". Nas democracias, contudo, a atmosfera da imprensa e da opinião pública sugeria incansavelmente aos empregados que eles podiam chegar aos pináculos da sociedade, que podiam se tornar industriais, juízes, cientistas ou presidentes. Embora esse senso de oportunidade ilimitada pudesse estimular, no início, um contentamento superficial, especialmente entre os empregados jovens, e, embora ele permitisse que o mais talentoso ou sortudo satisfizesse suas metas, com o passar do tempo e com o insucesso da maioria das pessoas, Tocqueville percebeu que o humor delas tornou-se sombrio, a amargura assumiu o controle e sufocou o espírito e o ódio que tinham de si mesmas e de seus senhores tornou-se feroz."

Alain de Botton, Desejo de Status (Rocco/LPM)


imagem veio daqui.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Telegramas

A honra cria as artes





Eu tenho por bem que coisas tão assinaladas, e porventura nunca ouvidas nem vistas, cheguem ao conhecimento de muitos e não se enterrem na sepultura do esquecimento, pois pode ser que alguém que as leia nelas encontre algo que lhe agrade, e àqueles que não se aprofundarem muito, que os deleite. A esse propósito diz Plínio que não há livro, por pior que seja, que não tenha alguma coisa boa. Principalmente porque os gostos são variados e o que um não come, os outros se matam por comer. Assim vemos coisas que, menosprezadas por alguns, por outros não o são. Por isso, nenhuma coisa deveria ser destruída ou desprezada, a menos que fosse muito detestável; antes, que chegasse ao conhecimento de todos, principalmente sendo sem prejuízo e podendo-se dela tirar algum proveito. Porque, se assim não fosse, muito poucos escreveriam para um só, pois isso não se faz sem trabalho, e, já que o têm, querem ser recompensados, não com dinheiro, mas com que vejam e leiam suas obras e, se forem merecedoras, que sejam elogiadas. A esse propósito, diz Túlio: “A honra cria as artes”.



Pensará alguém que o soldado, que é o primeiro na escala, tem a vida mais maçante? É certo que não; mas o desejo de ser louvado o faz lançar-se ao perigo. Nas artes e nas letras acontece a mesma coisa. Predica muito bem o prelado e é homem que deseja ardentemente o proveito das almas, mas perguntem a sua mercê se lhe pesa quando lhe dizem: “Oh, quão maravilhosamente pregou Vossa Reverência!”. Lutou muito mal o senhor dom Fulano e deu o gibão da batalha ao truão porque este o louvava por ter dado muito boas lançadas. Que teria feito, se fosse verdade?



E tanto vai a coisa dessa forma, que, confessando que não sou mais santo que meus vizinhos, desta nonada, que neste grosseiro estilo escrevo, que não me pesa que tomem parte e com isto se divirtam aqueles que nela algum prazer encontrarem, e vejam como vive um homem com tantas desgraças, perigos e adversidades.


"Prólogo" de Lazarilho de Tormes, autor anônimo, 1554.

Imagem: La Fabula, de El Greco.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Telegramas






"Pode-se dizer que a vida adulta é definida por duas grandes histórias de amor. A primeira - a da busca por amor sexual - é bem conhecida e bem representada, suas peculiaridades formam a matéria-prima da música e da literatura, ela é socialmente aceita e celebrada. A segunda - a história da nossa busca do amor do mundo - é mais secreta e infame. Se mencionada, tende a ser em termos cáusticos, debochados, como algo que interessa principalmente a almas invejosas ou imperfeitas, ou então o impulso por status é interpretado somente no sentido econômico. No entanto, a segunda história do amor não é menos intensa que a primeira nem menos complicada, importante ou universal, e seus reveses não são menos dolorosos. Aqui também há desilusão, sugerida pelos olhares distantes e resignados de muitos daqueles que o mundo elegeu para desprezar por serem ninguém"


Alain de Botton, Desejo de Status.



(Foto via Rich Kids of Instagram)

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Telegramas




"
Que leitura você faz do que se passa na literatura contemporânea? 

Não creio que seja possível fazer tal leitura, mas acredito que há mais desconfiança que nunca na ficção. Creio que a sociedade contemporânea deixou de confiar na ficção como uma maneira única e insubstituível de explorar nosso mundo e nossa condição humana. Creio que os modos de pensamento que a ficção propõe - modos ambíguos, baseados no teimoso questionamento de nossa realidade, na vontade de explorar nossos lados mais obscuros sem fechar os olhos - não são muito populares no presente. A ficção que não se resigna a apaziguar o leitor, mas inquietá-lo, que se nega a enganá-lo e busca, ao contrário, dizer as verdades mais dolorosas, essa ficção está desaparecendo porque já não interessa à grande massa dos leitores, cuja consciência foi sequestrada pelo conformismo e pela frivolidade. Nada que, obviamente, seja uma razão para não continuar a escrever. "

Entrevista de Juan Gabriel Vásquez, publicada no Estadão

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Telegramas


O escritor precisa ser um ursinho carinhoso.

"No ensaio “Why I Write”, de George Orwell, o pensador britânico reflete sobre os motivos que levam alguém a escrever um livro. O primeiro item da lista choca os mais idealistas: “puro egoísmo”. Orwell explica o que quis dizer com isso: “O desejo de parecer inteligente, de que outras pessoas falem de você (…)”. Os outros três motivos para escrever, de acordo com Orwell, são: “entusiasmo estético”, “impulso histórico” e “motivação política”. Cada uma destas motivações está presente, nas mais variadas proporções, em todos os escritores – e, como sugere Murphy, talvez também nos leitores. No final, faz diferença o que motivou Orwell a escrever 1984? E se lêssemos uma entrevista no qual ele revelasse ter redigido a obra por pura vaidade? Isso mancharia a imagem do autor? O escritor precisa ser um ursinho carinhoso? O fato é que Orwell escreveu 1984 e que James Murphy compôs Losing My Edge, provavelmente movido por pretensão e por uma leitura que fez por vaidade. E somos gratos ao egoísmo deles."

Finalzinho da postagem de Xerxenesky no blog da Cosac sobre os motivos fúteis e egocêntricos que levam alguém a escrever.

sábado, 9 de novembro de 2013

Achados



O avô de Sherlock Holmes acreditava em fadas





a)Charles Altamont Doyle (1832-1893), pai de Arthur Conan Doyle (o criador de Sherlock Holmes), foi pintor de pouca relevância. Foi alcoólatra e sofria de depressão. Dentre seus temas prediletos, cenários com fadas (com o tempo, tornaram-se mais sinistros).  O quadro acima, A Dance around the Moon, me lembrou Charles Vess. Via Victorian Era Fan Guide (que entre outras coisas tem o programa da primeira peça de teatro baseada em Drácula de Bram Stoker em 1897)




b)Sharon Tate - Via Ffactory.


c)Destroy comics, tumbrl de um fã do quadrinista Paul Pope.

sábado, 2 de novembro de 2013

Telegramas





“Parecia um claro dia de primavera. O sol brilhava nos loureiros que ladeavam o caminho do jardim por onde irmã Inez passeava, agarrada a seu breviário. Até ela chegar à fonte, as saias negras compridas esconderam o fato de que estava descalça. Era o tipo de jardim em que se esperaria que o ar estivesse pesado com o cheiro doce do jasmim, e embora os pássaros não aparecessem dava para imaginá-los cantando e roçando as asas com nervoso prazer à sombra dos arbustos. A irmã Inez estendeu um pé brilhante e tocou a água do tanque; o céu cintilava alvo. Dos arbustos, padre José observava, os olhos brilhantes ao acompanharem os pezinhos seguindo um depois do outro pela água transparente. De repente, a irmã Inez soltou o capelo que estava preso por um colchete debaixo do queixo; as madeixas negras rolaram pelos ombros. Com um segundo gesto brusco ela soltou o hábito até embaixo (era incrivelmente fácil), abriu bem e virou para revelar o jovem corpo branco e roliço. Um momento depois ela jogara as roupas em cima de um banco de mármore e estava parada ali, completamente nua, ainda segurando o livrinho preto e o rosário. Os olhos de padre José se abriram ainda mais, e ele voltou o olhar para o céu: estava rezando para pedir forças para resistir a tentação. Na verdade, as palavras PIDIENDO EL AMPARO DIVINO apareceram gravadas no céu e lá ficaram, tremulando ligeiramente, durante vários segundos. O que se seguiu não era uma surpresa para Dyar, uma vez que ele não esperava que viesse o amparo divino, nem se surpreendeu quando, um momento depois, três outras freiras saudáveis entraram de outras tantas direções para se juntar ao ocupado casal na fonte, transformando assim o pas de deux em um número coral.”


 Que venha a tempestade, Paul Bowles (1952)

sábado, 12 de outubro de 2013

Telegramas

Escalas






I was continuing to shrink, to become... what? The infinitesimal? What was I? Still a human being? Or was I the man of the future? If there were other bursts of radiation, other clouds drifting across seas and continents, would other beings follow me into this vast new world? So close — the infinitesimal and the infinite. But suddenly, I knew they were really the two ends of the same concept. The unbelievably small and the unbelievably vast eventually meet — like the closing of a gigantic circle. I looked up, as if somehow I would grasp the heavens. The universe, worlds beyond number, God’s silver tapestry spread across the night. And in that moment, I knew the answer to the riddle of the infinite. I had thought in terms of man’s own limited dimension. I had presumed upon nature. That existence begins and ends in man’s conception, not nature’s. And I felt my body dwindling, melting, becoming nothing. My fears melted away. And in their place came acceptance. All this vast majesty of creation, it had to mean something. And then I meant something, too. Yes, smaller than the smallest, I meant something, too. To God, there is no zero. I still exist!


From Jack Arnold’s The Incredible Shrinking Man

(Via "But does it float")



b)O artista holandês Arne Hendriks iniciou um projeto para promover a ideia da redução de tamanho da espécie humana, reduzindo-a a cinquenta centímetros. O caso está relatado AQUI, no Second Sight e o blog do projeto é ESTE.






(foto: Paisagens de contos-de-fada por Magdalena Bors. Via.)

sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Telegramas







a)
Até a tolice é perigosa nas mãos de um tolo. 

O Mago de Terramar, Crônicas de Terramar, Ursula Le Guin.

b)
 Uma horda ávida por tagarelar sem ponderação alguma, emitindo opiniões compulsivas sobre qualquer coisa como se esse desespero servisse para confirmar sua existência. 

 Digam a Satã que o recado foi recebido, Daniel Pellizzari.








(voltei, mas em ritmo de aranha na teia.)

sábado, 18 de maio de 2013

Onirogrito





Ando meio sem paciência.

Faz muito tempo que não coloco nada aqui.

A verdade é que a onda já não passa mais pelos blogues. Boa parte do conteúdo (links para outros links) migrou para o Facebook e, apesar do que andam dizendo, ele ainda se sustenta. Não por força própria, eu creio, mas simplesmente por não ter aparecido outro "lugar".

E não sei se este lugar irá "aparecer" tão cedo, pois agora todos já perceberam que ele também irá nascer, crescer, tornar-se imenso, desmoronar sob seu próprio peso e morrer. Além do mais, a rede parece ter se tornado um lugar mais para se comunicar (entre amigos, paqueras, arrumar trabalho) do que para gerar conteúdo.

E, cá entre nós, até mesmo o conteúdo anda chato. Tanta gente falando e fazendo barulho que é difícil encontrar um ponto de vista original, que faça você pensar... É muito mais uma questão de concordar... ou discordar...



Mas isto não é um adeus. Volto aqui qualquer dia desses. "O olho do dono engorda o boi" Já ouviu falar?

Nos comentários, deixarei um email para quem quiser se comunicar.

Obrigado

sábado, 2 de fevereiro de 2013

Onirogrito

Jogo do Velho





Dentre as penalidades cabíveis ao pai moderno está a de frequentar aniversários em buffets infantis. Perguntar ao menino se não quer ir antes ao banheiro, tirar foto, entupir-se de coxinhas, passear de carrossel, almoçar massa sujeita a alternativas binárias (bolonhesa ou molho branco), conversar com os pais sobre as doenças dos filhos, sobre as amizades dos filhos, sobre os times que os filhos deverão torcer, tomar coca quente fugindo assim do chope quente, entupir-se de empadinhas, arrastá-lo para o banheiro (o guri escapa por entre os dedos, sem mijar), tirar foto, tentar alimentar o moleque enquanto corre, pegar trenzinho, verificar fralda, rastejar no brinquedão para resgatar criança empacada, levar canelada, gravar vídeo, enfiar-se na piscina de bolinhas atrás do celular perdido, estimular o medroso a escorregar por um intestino plástico de cinco metros de altura, separar brigas na fila do pula-pula, tirar foto, observar as calças do filho (Você fez xixi? Mas eu não perguntei pra você?).


Chega um momento que a gente aprende a relaxar, e passa a se divertir. As crianças envelhecem e você pode afrouxar a atenção. Deixe-as poraí. Existem outras coisas além de calor e barulho. Veja as monitoras adolescentes com o brilho da idade nova, o viço necessário para estimular seus vícios. Mães divorciadas com quem repartir um chope quente. Subornar (mediante uma nota de cinquenta ou por pura simpatia) o garçom para que ele sirva sua mesa antes.

Alguns buffets possuem brinquedos adultos. Nada tão pesado quanto o que passou pela sua cabeça. Uma televisão com a programação de esportes. Talvez, mesas de bilhar, pebolins. Dardos são perigosos. O normal é a diversão voltada aos adolescentes acabe sobrando aos adultos. Inclusive as máquinas de fliperama. Estes locais tornaram-se um dos últmos nichos para estes jogos. Os antigos paraísos de office-boys foram extintos das ruas. Nestas festas, entretanto, é normal ver adultos saudosos disputando lugar para comandar naves espaciais, bater uma bola ou tirar um racha.

* * *

Em um final de semana qualquer, fomos para uma destas festas. Não era um buffet luxuoso, nada de montanhas russas ou pistas de autorama. Contudo, a comida era boa, salgadinho seco no ponto certo. Além disso, houve a inteligência de separar adultos e pirralhos do convívio. Foi bom, possível até conversar sem gritar. O lugar era simples, depois ficamos sabendo que o imóvel fora vendido e daria lugar a outro destes megaultra-empreendimentos imobiliários residenciais. Isto explicava algum descuido com os brinquedos. Carrinhos de bate-bate já não batiam. Plástico remendado com fita adesiva. Máquinas de fliperama quebradas, apenas uma em funcionamento.

A Máquina tinha uma tela menu na qual seria possível escolher um entre mil jogos, quase todos muito antigos, telas de fundo preto. Asteroids, Frogger, Enduro, Shinobi, River Raid, Green Beret, Galaca, Pitfall, Double Dragon e demais artefatos arqueo-tecno-lógicos. Exemplares pixelados que, se não fosse a capacidade alephiana da Internet de agrupar reunir a eternidade, espaço e tempo, em um único ponto, certamente só existiriam nas nossas memórias. Mas ali estavam estas preciosidades históricas nas mãos inábeis de pimpolhos incapazes de usar até um giz de cera.

Bem que gostaria de ter experimentado um pouco destes jogos. Mas os meninos acostumados a ver filmes 3D, a coreografar em Kinect, crianças que deveriam se encantar com as figuras perfeitas de Final Fantasy e não com aqueles tangrans mal feitos. Digo isto com raiva, pois eu não queria ficar na fila junto com aqueles pirralhos e esperava uma oportunidade que não surgia. Os garotos (eram quase sempre meninos) tentavam um jogo, perdiam as três vidas de praxe e voltavam para a tela de menu, trocando de jogo. Ninguém insistia. Experimentavam, se não funcionava imediatamente, zapeavam para outro jogo. Havia uma rotatividade constante diante da máquina.

Dentre as penalidades sugeridas ao pai moderno, está a de procurar oferecer o máximo de oportunidades possível a seus filhos, como se apenas a liberdade permitisse a melhor alternativa. Mas não. Ao ver aqueles garotos trocando constantemente de jogos, sem se concentrar em nenhum, sofrendo derrota após derrota, pensei que mais que abrir horizontes devêssemos indicar direções para se guiar. Mesmo que você se encontre tão perdido quanto ele.



Quando finalmente consegui jogar, me vi fazendo exatamente o mesmo que as crianças.






* * *
(Original AQUI; desculpem este blog anda preguiçoso; Falando em games antigos, foi notícia recente: a Atari pediu falência.)