sábado, 5 de janeiro de 2013

Onirogrito



Uma afirmação negativa do método






Bom… foi mais difícil que esperava falar de meus métodos de criação. Conheço alguns e pesquiso constantemente a respeito do processo criatívo. É um vício. Muito do que vou dizer já foi dito, portanto. Mas, na realidade, eu não sei se posso afirmar positivamente (¿Existe “afirmar negativamente”?) “Tenho um método e ele é x”. Sou muito intuitivo. Me esforço para continuar sendo. Não sei se vale a pena repartir este esboço de metodologia. Pelo pouco que conheço das pessoas, elas são muito diferentes para existir uma receita geral.
Toda a regra (não apenas as fórmulas mágicas da criatividade) devem ser observadas com parcimônia. O contexto do próprio autor e da obra, aquilo que se deseja dizer e não-dizer, tudo isto não se ensina. Aprende-se, desaprende-se, apreende-se sozinho.

Bem que tentei me organizar, separar em tópicos, fazer alíneas e parágrafos, mas não conseguia botar tudo em uma hierarquia ou ajeitar didaticamente. A exemplo de Jodorowsky ou de um mendigo verborrágico, preferi emendar frase em frase, como provérbios, ordens, mandamentos, gritos de guerra, sem ordem. Seja crítico e criterioso e veja o que serve e o que não serve para você.


Divirta-se. Entre um cenário verossímil e um personagem verdadeiro, prefira sempre os personagens. Se possível, bole a conclusão antes; se não, aproveite a viagem e o leitor a aproveitará com você. Não tenha medo ou vergonha de errar. Divirta-se com o que está fazendo, mesmo que seja horrível. Abstrações emocionais funcionam melhor que as concretas. Apaixone-se por estranhos e escreva antes que aconteça. Se acontecer, não tente escrever. Surpreenda-se. Pesquise 300%, mas use 10%. Seja aberto: leia Dom Quixote e assista a A Hora da Aventura. Divirta-se. Leia (ou assista) de tudo, seja compreensivo com o mundo. Pergunte-se porque é assim. Cuidado com qualquer fórmula: Jornada do Herói, Morfologia de Propp, Manual de Syd Fields, Situações de Polti, Gramática de Rodari, inclusive aquelas que você mesmo inventar. Evite (ou recuse-se) a petrificar teorias. Surpreenda-se. Seja verdadeiro. Divirta-se. Anote as sincronicidades. Não faça charadas. Acredite no que está fazendo. Acredite até naquilo que duvida. Pesquise as brincadeiras das crianças. Escute as pessoas conversando. Observe, seja o fotógrafo secreto do mundo. Explore. Divirta-se.


Por último, creio que isto seja o mais importante (Hoje, pelo menos; amanhã posso acreditar em outra coisa), algo que li folheando um livro: Conhecer-se e escolher o “seu” próprio estilo de criação.
“Certa vez, perguntei ao artista gráfico Saul Steinberg “Por que será que não consigo conversar com alguns escritores? Não encontro assunto: por que parece que estou falando com pediatras ou corretores de imóveis e não escritores? Ele pensou e respondeu: “Isto é fácil: existem dois tipos de artistas, nenhum deles superior ao outro; um responde à própria vida e o outro responde à história da arte até aquele momento.” (Kurt Vonnegut, em leitura ao acaso na livraria)







(Publicado originalmente AQUI, no Universo Insônia. Imagem do livro Como a Mente Funciona, de Steven Pinker veio DAQUI)

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Telegrama




















repara como é sutil a estrela pastoreando o teu passo






(Mariana Ianelli. Via )

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Telegrama


Feliz ano velho.

Espero que você não passe o final de ano diante do micro. De toda forma, segundo dizem, daqui a uns dias será o fim do mundo. Portanto, feliz 2010.









ViaViva Saliva

domingo, 9 de dezembro de 2012

Telegramas








(­O sábio e desafortunado romano Pompônio Flato fala umas verdades ao Jesus menino. Ou Jesus moleque, se preferir.)
-Tudo que acontece, acontece por vontade de Deus, raboni?
-Não sei. Mas se é assim, devemos perdoá-lo, porque Deus ou os deuses do Olimpo não conhecem a dor de perder as pessoas queridas e isso os faz inferiores a nós.
Jesus me olhou com intensidade e exclamou:
-Isso que você está dizendo não é uma blasfêmia:
-Com certeza. Blasfemar é outro privilégio privativo dos homens. Não serve para muito, mas, em ocasiões como esta, até que não vai mal.



(...e, logo adiante, sobre a imortalidade da alma) 

-Das muitas coisas escritas, muito poucas estão comprovadas. Sócrates estava convencido da imortalidade da alma, assim como Platão. Mas nisso, com toda a humildade, discrepo de tão grandes mestres pelas razões que a seguir exporei. Antes de mais nada, partamos do pressuposto de que o homem é formado de duas partes bem diferenciadas, isto é a matéria e o espírito, ou, o que dá na mesma, o corpo e a alma. A alma é o que infunde vida ao corpo, de tal modo que quando o abandona, o corpo deixa de funcionar e dizemos que o homem a quem pertencia morreu. Já a alma, sim, pode existir sem o corpo, como demonstra o fato de que o corpo inanimado, seja quando dorme, seja quando por alguma causa perdeu a consciência, a alma o abandona e segue a seu bel-prazer, liberada de qualquer amarra, e por isso pode cobrir as maiores distâncias num instante, inclusive se deslocar no tempo, transmutar-se em outra pessoa sem perder, por isso, a consciência de sua própria identidade, e ter contato com seres vivos ou mortos, humanos ou animais, até mesmo com monstros ou quimeras, assim como conseguir façanhas que o corpo seria incapaz de realizar, ou desfrutar deleites, que ao corpo seriam inalcançáveis, para não falar de todo tipo de perversões. A essas experiências chamamos de sonhos. Não obstante, se os analisarmos um pouco, veremos que nesses episódios a alma obtém mais pesares que alegrias, com frequência sofre perseguições, opressões, angústias e tristezas, e encontra-se sempre em um estado de grande confusão, como se tivesse perdido o juízo. Por isso, ao cabo de muito pouco tempo, retorna ao corpo e o desperta com grande pressa e agitação, e quando de novo se une a ele,  tranquiliza-se e experimenta tal bem-estar que os problemas e aborrecimentos da vida real lhe parecem nímios em comparação com os apuros pelos quais passou em suas andanças. E, se é assim, o que acontecerá em comparação com os apuros pelos quais passou em suas andanças. E, se é assim, o que acontecerá se depois da morte a alma se vir obrigada a vagar eternamente, sabendo que nunca poderá voltar ao corpo que a conteve, posto que este se reduziu a pó? Por essa razão, muitos povos embalsamam e mumificam o corpo, para que a alma não se veja totalmente privada dele. Pois embora a alma, por sua capacidade, pareça pertencer à mesma ordem natural dos deuses, na realidade é inferior ao corpo, e está subordinada a ele, e só com ele consegue proteção e sossego. Por tudo isso, não me parece lógico que os deuses nos tenham condenado a um suplício semelhante, e prefiro acreditar que uma vez apurados os trabalhos e dissabores desta vida, quando também nosso corpo deixar de sentir, o espírito também encontrará seu descanso regressando para o nada em que estava tão placidamente antes de ter nascido.





(Trechos extraídos de "A Assombrosa Viagem de Pompônio Flato", de Eduardo Mendoza. Merecia melhor capa da editora. Dá impressão que o título é o nome do autor. Fora isto, ótimo livro, perfeito para amigos secretos)


(Imagem: Tracejado do grafite de Alexámanos. Encontrado em uma das ruínas do Monte Palatino em Roma. Supõe-se que seja uma chacota (bullying?) de um soldado romano contra outro, de fé cristã. No desenho, Cristo estaria representado com uma cabeça de burro. A legenda está em grego: Αλεξαμενοϲ ϲεβετε θεον, que poderia ser algo como "Alexámanos adorando a seu deus". A imagem seria do século III d.C.)

sábado, 8 de dezembro de 2012

Zerografia

Alexandre





Anteontem meu vizinho morreu.

Era um senhor bastante idoso, patriarca de uma família de muitas mulheres, que se distribui em vários apartamentos de meu condomínio. São imigrantes, vieram do ******. São Paulo é uma cidade com gente de todo lugar, do Líbano ao Japão, da Nigéria a Bolívia, mas ****** não é um país típico. Temos curiosidade sobre como vieram para aqui. Por conta das guerras e de tudo mais, imaginamos alguma história triste de fuga. Mas também pode não ser. Como é típico entre vizinhos, não somos íntimos. Não temos coragem de perguntar sua história.

Era um senhor de nome jovem, helênico. Nos dias frios usava uma boina. Tinha olhos azuis, o que imagino ser incomum no oriente. É uma família de muitas mulheres, divididas entre solteiras, viuvas e solteironas. Com elas há um pouco mais de diálogo. O básico de elevador. Bom dia, boa tarde, boa noite, meteorologia amadora, o crescimento dos filhos, o síndico, a roubalheira do governo ou de quem quer que seja.

Com aquele senhor, entretanto, evitávamos uma conversa mais longa. Falava com dificuldade, e não somente pelo sotaque. Por culpa do trânsito e de nossa preguiça, estamos sempre atrasados e com pressa. E que diálogo poderia haver entre nós, sem nada em comum?

Os encontros com este senhor viúvo ocorriam quase sempre pela manhã, horário para uma caminhada lenta ao redor do condomínio ou do quarteirão, dependendo do clima. Depois do passeio, ele sentava ao lado do porteiro do prédio e observava o movimento de pedestres e de carros e de vizinhos indo para escola ou trabalhar.

Numa destas manhãs, nevoeiro prometendo sol depois, eu saía com as crianças. Meus filhos não são dados, escondem-se entre as pernas na presença de estranhos no elevador. “São tímidos”, explicamos, enquanto os incentivamos a cumprimentar. Passamos pelo senhor viúvo, ele de boina e o cumprimentei. Enquanto esperávamos a grade da prisão se abrir (a portaria do nosso edifício também têm dois portões que se abrem separadamente), aquele velho senhor sentado gesticulou com as mãos um rápido “vem cá-vem cá” para meus filhos. Sem dizer nada, as crianças foram até lá para serem abraçadas. Meus dois filhos nascidos após a queda das Torres e a dispersão do wireless responderam ao abraço daquele senhor viúvo das montanhas, que caminhou entre ovelhas e rios gelados, em vilarejos destruídos por bombas e terremotos. Século XX e século XXI. Depois se afastaram.

Enquanto o portão se fechava, houve tempo para um último tchauzinho. Não sei se eles se viram depois disso. Possivelmente minha mulher e as crianças tenham se cruzado mais uma vez. Naquele dia de neblina, caminhamos de mãos dadas rumo a escola, onde se espera que sejam preparados para a vida. Enquanto isto, deixamos vidas passarem.





(Publicado originalmente no blog da Terracota. Imagem: pedaço de um mosaico encontrado em uma casa (A Casa do Fauno) nas ruínas de Pompéia, representando Alexandre o Grande enfrentando Dario III. O mosaico representa a batalha de Isso e é parte do acervo do Museu Arqueológico de Nápoles)

domingo, 2 de dezembro de 2012

Telegrama






(Páprika, o anime)

1)

"O mundo dos vivos já contém suficientes maravilhas e mistérios sendo como é; maravilhas e mistérios agindo sobre nossas emoções e inteligências de modos tão inexplicáveis que quase justificariam a vida como um estado de encantamento."

Joseph Conrad, ao justificar seu desapego ao Sobrenatural, em introdução para o livro "A Linha de Sombra".

2)

Dois trechos (fora de ordem) de  uma antiga (2009) matéria de Audrey Furlaneto (na Folha de São Paulo) sobre Jorge Furtado, diretor da TV Globo e de filmes, como “O Homem que Copiava” e “Meu Tio Matou um Cara” e que fez a versão de Decamerão (Bocaccio).

a)

Em 2002, hospedado com a equipe num hotel para as filmagens de “O Homem que Copiava”, Furtado descobriu na TV do quarto um canal que exibia imagens da recepção em tempo real.”Eu ficava olhando a TV no quarto e me dei conta de que toda a equipe assistia”, lembra, rindo.

“Tem uma compulsão pela realidade, com Big Brother e todos os realities, os blogs, o YouTube. E o atrativo é: isso está acontecendo. Tudo bem. A “TV Portaria” está realmente acontecendo. O cara está realmente chegando com a pizza, está realmente entregando a pizza para a pessoa. E daí? Qual o valor dramático disso? O que eu aprendo com isso? É quase um voyeurismo e eu acho que a poesia é outra coisa. A arte é uma outra coisa.

Ou pelo menos, pode ser outra coisa que não tem nada a ver com a realidade.”


b)

Numa casa de matéria em que tudo remete ao século XIX, há uma caneca de plástico esquecida sobre a mesa. Nela, lê-se a frase de Rimbaud: “Jamais réel et toujours vrai”(Nunca real e sempre verdadeiro). Foi escrita à mão por Jorge Furtado, porque sintetiza sua busca como diretor de cinema e televisão: quer estar distante da realidade e perto da mágica.


(“Abaixo o realismo na TV”
Folha de São Paulo, caderno Ilustrada, sexta-feira, 22 de maio de 2009)



3)


- Lembre-se: é a verdade que surge da ficção.

(Páprika, anime de 2006 dirigido por Satoshi Kon)

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

Telegrama

Strange Fruit






Southern trees bear strange fruit
Blood on the leaves and blood at the root
Black bodies swinging in the southern breeze
Strange fruit hanging from the poplar trees

Pastoral scene of the gallant south
The bulging eyes and the twisted mouth
Scent of magnolias, sweet and fresh
Then the sudden smell of burning flesh

Here is fruit for the crows to pluck
For the rain to gather, for the wind to suck
For the sun to rot, for the trees to drop
Here is a strange and bitter crop

(Billie Holiday, 1939)


* * *

"Billie Holiday tinha apenas 23 anos quando cantou pela primeira vez "Strange Fruit".

Ela estava no palco do Café Society, "a única boate de Nova York realmente integrada", descreve o jornalista americano David Margolick, referindo-se ao fato de que este era um dos raros locais em que brancos e negros eram tratados como iguais, em 1939, nos Estados Unidos.

Mas mesmo ali, continua Margolick, Billie Holiday teve medo de interpretar "uma canção que atacava de frente o ódio racial, numa época em que nem se sonhava com a música de protesto".

"Não houve nem mesmo uma tentativa de aplauso quando eu terminei", escreveu Holiday em sua autobiografia. "Então uma pessoa começou a aplaudir nervosamente. De repente, todo mundo estava aplaudindo."

Nos 21 anos seguintes, até sua morte, aos 44 anos, Billie Holiday causou comoção todas as vezes que entoou "Strange Fruit", música que descrevia o horror dos linchamentos de negros nos Estados do sul do país.

A trajetória dessa triste canção inspirou Margolick a escrever "Strange Fruit - Billie Holiday e a Biografia de uma Canção" (2000), que chega agora ao Brasil."




(Para ler o restante da matéria de Adriana Ferreira Silva na Folha, clique AQUI. A imagem é do linchamento de C.J.Miller em 1893. Encontrei  no Abagond. Outras informações sobre sua morte injusta, AQUI e AQUI.)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Escadas



nº17: Prova



Responda as questões abaixo baseado no conto lido anteriormente:

1)Quem é a menina que se dirige ao metrô? Para onde ela vai?
R:_________________________________________________
___________________________________________________


2)Por que ela usa uniforme escolar se é sábado?
R:_________________________________________________
___________________________________________________


3)Quem é o personagem que irá descer na mesma estação da menina? Para onde ele vai?
R:_________________________________________________
___________________________________________________


4)Por que ele carrega um capacete cor-de-rosa na mão?
R:_________________________________________________
___________________________________________________


5)O que ela pensa enquanto desce a escada rolante? Por que ela não está teclando seu celular?
R:_________________________________________________
___________________________________________________


6)O que faz João parar enquanto sobe a escadaria?
R:_________________________________________________
___________________________________________________


7)Complete a frase abaixo, de acordo com sua interpretação.

Quando os olhares dos dois jovens se cruzam, eles________________________________.


8)O que João disse para Maria sobre extintores de incêndio? Por quê?
R:_________________________________________________
___________________________________________________


9)Maria respondeu furiosa “A melhor história é sempre aquela que ainda está na sua cabeça, aquela que ainda não foi para o papel.” Relacione esta resposta com os eventos ocorridos na rave durante a madrugada.
R:_________________________________________________
___________________________________________________


10)Você aprovaria a ação da polícia, alvejando João dentro do vagão antes que pudesse reagir? Justifique.
R:_________________________________________________
___________________________________________________





(imagem pelo Flickr)

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

o grito do sol sobre a cabeça




Convite:






Dia 20 de outubro, das 17h30 às 21h30, com som ao vivo de Cláudia Vaz e Celso Ribeiro, acontece o coquetel de lançamento de meu livro O grito do sol sobre a cabeça.
 
Inclui o conto vencedor do prêmio Hydra de 2012: (História com desenho e diálogo). O Concurso Hydra de Literatura Fantástica Brasileira, uma parceria entre a revista eletrônica norte-americana Orson Scott Card’s Intergalactic Medicine Show e o website brasileiro A Bandeira do Elephante e da Arara, visa expor o melhor da literatura fantástica brasileira para leitores em língua inglesa do mundo inteiro. 

O conto recebeu tradução para o inglês e foi publicado na revista eletrônica Orson Scott Card’s Intergalactic Medicine Show.

Além deste, o livro reúne boa parte de minha produção de contos.

 Apareçam!

Abaixo, o texto da orelha escrito por Caio Silveira Ramos (autor de “Sambexplícito – As vidas desvairadas de Germano Mathias”):



"
Prepare-se para morrer.

Brontops Baruq aponta para nossos olhos seu livro solo O grito do sol sobre a cabeça e não nos deixa nenhuma esperança. Seus contos ultrapassam a fronteira do imaginário e nos violentam com o real presente-passado- -futuropresente-futuropassado- -futurofuturo, desorganizando nossos labirintos e liberando dezenove minotauros famintos.

Talvez por isso, o crítico Marco Avinhão Minerdi tenha escrito: “(…) exceto pelo Baruq que evoca Spinoza – e os não deuses do autor são alimentados pela mão desse filósofo – tudo mais não existe: ‘Brontops’ não é um dinossauro, e equivoca-se quem o classifica como autor de ficção científica: se em seus textos há ‘ficção fantástica’, ele (ou alguém) se utiliza do rótulo ‘científica’ talvez para atrair incautos fãs de Star Wars. No fundo, Brontops vale-se do universo fantástico para expor sua desilusão sobre política, religião, moralidades e a (des)necessidade de deus. Há quem se fascine por suas (pré)visões de futuro ou de seus cenários apocalípticos, mas tudo é simulacro para provocar, questionar desde padrões de sexualidade até o desejo de perder-se de si e dos outros. ‘Brontops Baruq’ talvez nem seja homem, mulher, hermafrodita, ruminante ou mutante do transfuturo: deve ser uma invenção, algo que não existe de fato ou só vive no delírio de alguém. Eu o odeio: ele me sentenciou à morte”.

Desvarios à parte, o escritor utiliza todo seu arsenal de forma e de conteúdo recolhido durante anos de mergulho insano nas mais diversas literaturas, inclusive na dos quadrinhos. Os enredos perturbadores nascem não só dos livros lidos e imaginados: eles brotam de uma curiosidade compulsiva, que revira TV, cinema, arte, zoologia, internet e bizarrices.

Brontops, de fato, vai além dos rótulos ou gêneros, ficção científica ou fantástica e, se por acaso se utiliza deles, é para amadurecê-los. Ou corrompê-los. Por isso, o sol grita sobre a cabeça que a literatura está nua. Mas o próprio sol e a cabeça também estão. Assim como Noé igualmente está, mesmo sem ter se embriagado desta vez. E Spock corre nu segurando as orelhas. Não há mais tempo: como o hipopótamo de Brás Cubas, Brontops atravessa os tempos e invade a minha sacada. Não, não é um pesadelo, nem existem emplastos salvadores. Ameaçador, ele me condena ao futuro infinito: prepare-se para viver.
 "

sábado, 13 de outubro de 2012

Telegrama

Inversão 






Embora eu sempre tenha odiado jardins zoológicos e na verdade achado suspeitas as pessoas que os visitam, não escapei de ir certa vez ao zoológico de Schönbrunn e, a pedido de meu acompanhante, um professor de teologia, deter-me diante da jaula dos macacos para observar aqueles aos quais ele, meu acompanhante, alimentava com a comida que, para esse fim, tinha levado no bolso. O tempo passou e o professor de teologia que me pedira que fosse com ele a Schönbrunn, um ex-colega de faculdade, já havia dado aos macacos toda a comida que trouxera consigo, quando, de repente, os próprios macacos, por sua vez, puseram-se a coletar a comida que se espalhara pelo chão e, através das grades da jaula, ofereceram-na a nós. O professor de teologia e eu ficamos tão chocados com o súbito comportamento dos macacos que, no mesmo instante, demos meia-volta e partimos de Schönbrunn pela primeira saída que encontramos.



Thomas Bernhard . Extraído de "O Imitador de Vozes"

Imagem Jeremy Enecio.







quinta-feira, 11 de outubro de 2012

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Achados







a)Cirqueee:

Equilibristas, contorcionistas, acrobatas, trapezistas, malabaristas, pole dancing... tudo isto no tumbrl do Cirqueee.


b)A Margarida e o Mestre

Série de TV assistida por mais de 40 milhões de espectadores russos em 2005, baseada na obra de Mikhail Bulgarov.
Legendas em português

Via (agora estou confuso) o antigo Coisas do Arco da Velha.+ o ótimo tumbrl QUACK.

c)Super-heroínas

No SUPERDAMES!

Com imagens como esta:


ou


(Ops)





d)Literary Dogs

Cães + algum importante.


(Desculpem a preguiça)

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Telegramas

BAD TRIP





a)Uma mega tristeza

(Christian Carvalho Cruz emulando uma teen. Publicado no Estadão em janeiro deste ano, com a história de uma garota brasileira que estava naquele naufrágio cretino do Costa Concordia. Lembram? Ou já é notícia velha?)

Trecho

"
Bom, tinha também a primeira vez de fazer um cruzeiro num daqueles naviozões enormes, com piscina, lojas, cinema, teatro, balada... E, o mais importante, o motivo da minha volta, da minha alegria e ansiedade (minha mãe até me deu floral antes do embarque em São Paulo, hehe), a primeira vez que eu via a Juliana desde o dia em que nos despedimos, ela chorando horrores, na minha partida um ano e pouco atrás. Super hiper melhor amiga, a Juliana. Nos conhecemos no colégio em Barcelona, ela recém-chegada da Colômbia, meio perdida e isolada. Como eu no começo.

Gente, vocês não têm noção do inferno que pode se transformar a adaptação de um adolescente estrangeiro num país que não é o dele. Com o tempo melhora, mas até lá, afff!

A Juliana ia fazer 15 anos em 12 de janeiro e ganhou de presente dos pais uma viagem no Costa Concordia. Uma semana pelo Mediterrâneo com a família toda e direito a levar uma amiga - no caso, eu \o/. Do dia 9 ao 16. Só que tinha uma maldita sexta-feira 13 no meio. Cheguei a Barcelona no dia 2, e como tínhamos muuito tempo livre antes de subir no navio, aproveitamos basicamente para:

1) Fazer corujão (passar a noite conversando e só dormir quando o sol nasce).

2) Ir ao kart perto da minha ex-casa, que era o nosso programa preferido. Dessa vez, achei engraçado poder usar os carrinhos grandes, de adulto. Antes a gente só andava nos de criança. Caraca, cresci!

3) Comprar o meu primeiro salto alto da vida, porque no navio rola noite de gala. Tive que praticar pra não cair, UHUAHUAHUA... Eu tinha um vestido longo na mala, vermelho, e a mãe da Juliana me deu outro, dourado, pro jantar de aniversário a bordo.

4) O melhor de tudo: ficar vendo na internet uns vídeos do Costa Concordia. Muuuito tops! A gente riu bastante dos elevadores panorâmicos que subiam e desciam por trilhos iluminados por lâmpadas verdes. E foi aí que a Juliana inventou a expressão que depois a gente repetia toda hora que via uma coisa legal na viagem: "guuaauuuu!"

Assim que embarcamos eu e a Juliana corremos pros elevadores. Apertamos todos os botões e em cada andar entrava alguém falando um idioma diferente. Só muito tempo e risadas depois é que fomos pra nossa cabine. Ela ficava no lado direito do navio, bem o que tombou. Número 2.405, piso Suécia, que era o nome do segundo andar do Costa Concordia. Ficamos numa Suécia esquisitamente localizada em cima da Holanda e embaixo da Bélgica - meio diferente das aulas de geografia, hehe. Ainda mais pra cima, tudo empilhado, ficavam Grécia, Itália, Grã-Bretanha, Irlanda, Portugal, França, Alemanha e Espanha no topo \o/\o/. Na nossa cabine não rolava varanda, mas ela tinha um janelão onde cabíamos nós duas sentadas. Passamos os melhores momentos da viagem ali, vendo o mar, rindo e combinando como faríamos pra nos ver de novo quando as férias acabassem e eu voltasse pro Brasil.

A tal noite de gala, que acontecia em dias alternados, não era nada demais, tirando o fato de a gente ter que se produzir toda. E só pra jantar, hehe. Eu e a Juliana saíamos da cabine meio envergonhadas. Cabelo, unha, longo, salto alto... E ainda tinha um moooonte de gente circulando de sunga e maiô, UHUAHUAHUA. Depois da refeição, os adultos dançavam um pouco no restaurante e no final todos cantavam Volare, ô-ô, Cantare, ô-ô-ô rodopiando os guardanapos de pano no ar. Divertido até ;-). Numa dessas noites, antes do jantar, fomos pro teatro. O comandante do navio ia se apresentar aos passageiros. O teatro ficou lotado, e olha que era beeeem grande, três andares. O capitão apareceu no palco, junto com a equipe dele. Falou primeiro em italiano, depois em inglês e espanhol. Se apresentou, apresentou os colegas e desejou boa viagem. Só isso. Foi mega aplaudido, parecia Domingão do Faustão. Umas pessoas gritavam, assoviavam, U-HU!, tipo, "esse cara é bom!" Na hora eu não prestei atenção no nome dele, mas depois de tudo não esqueço mais: Schettino. Schettino cretino. :-(

Fizemos muitos amigos a bordo, e passávamos o dia inteiro circulando. Teen Zone, piscina, lojinhas, o deck. O navio é mesmo uma cidade. Mas tínhamos que estar no restaurante Milano às 9 horas para jantarmos juntos. Era uma ordem dos pais da Juliana. E, pensando agora, vejo como foi importante essa ordem, porque quando tudo aconteceu não tinha ninguém do nosso grupo de 15 pessoas em outra parte do navio. Estávamos todos no restaurante Milano, na mesma mesa, assim que o Costa Concordia bateu na pedra. E se vocês vissem a cara dos pais procurando os filhos que não estavam perto deles... Ai, foi muuuuito apavorante. A pior parte."





b)


No mundo do ócio, compras e viagens se tornaram fins em si porque são atividades de puro potencial – cheias de possibilidades e promessas. (...)

As viagens também se baseiam em expectativas. O novo destino será exótico, diferente, inesperado, e dali nascerá um novo ser transfigurado. Mas o novo lugar, embora provavelmente mais empolgante, não passa de outro lugar, com céu, edifícios, pessoas e árvores – e o self ansioso e triste insistiu em vir junto. Em “A Arte de Viajar”, Alain de Botton conta uma temporada de férias que passou no Caribe com uma namorada. Antes de partir, eles sonhavam com a harmonia que praias, mar azul, palmeiras e magnífico pôr do sol com certeza inspirariam, mas, assim que chegaram, começaram a discutir sobre o tamanho e a aparência das sobremesas servidas no restaurante. Ambos pediram a mesma sobremesa, mas a porção dele tinha uma apresentação melhor, enquanto a dele era maior. Ela trocou os pratos e se justificou alegando que fazia aquilo para agradar a ele, quando na verdade agradava a si mesma. Eles discutiram e voltaram ao hotel de mau humor, indiferentes ao glorioso cenário que deveria inspirá-los. Todos já tivemos experiências como essa – e convenientemente as esquecemos. Porque as próximas férias já estão planejadas e com certeza trarão a verdadeira felicidade.

Tal é a compatilibilidade entre comprar e viajar que as duas coisas andam cada vez mais juntas. Pode-se comprar no aeroporto, no avião, na estação de trem, no saguão do hotel e até mesmo no quarto do hotel via internet – mas naturalmente, tudo isso é só uma preparação para o principal: experiências de compras inteiramente novas no novo destino.

A combinação perfeita entre viajar e comprar, porém, é o cruzeiro de luxo. Na verdade, como o cruzeiro também envolve diversão e outros mimos, o navio é o símbolo perfeito da era contemporânea: um enorme palácio móvel do prazer, que transporta crianças crescidas, vestidas em roupas informais de cor pastel, circulando em uma série de lojas.

O relato hilariante e terrível de David Foster Wallace sobre um cruzeiro pelo Caribe, “A supposedly fun thing I´ll never do again”, é de um escrupuloso realismo documental, mas também uma fábula de nosso tempo – porque o cruzeiro apresenta, embora de maneira exagerada, todas as novas tendências culturais. Ali está a universal sensação de direito a privilégios – todo mundo acredita que merece aquelas férias mais do que ninguém. Ali está a infantil necessidade de ser mimado – o navio de cruzeiros oferece serviços dia e noite, prestados por um exército de diligentes funcionários. Ali está a incansável, quase fanática, alegria da equipe de serviço. Ali está a recusa a pensar dos passageiros infantilizados. Wallace observa:

“Ouvi cidadãos americanos de classe alta perguntarem ao funcionário na mesa de informações se para mergulhar com snorkel era preciso se molhar; se o tiro ao alvo móvel seria praticado ao ar livre; se a tripulação dormia a bordo; e a que horas seria servido o bufê da meia noite.”

Ali estão as infinitas oportunidades de compras a bordo e nos portos, e as infindáveis oportunidades de distração e entretenimento: piscinas, academias, instações para a prática de vários esportes (inclusive um local para treinamento de golfe), cassinos, piano bars, discotecas, cinemas e um salão de shows, onde se apresentam um imitador, um ilusionista, um casal que canta um pot-pourri de músicas da Broadway e um hipnotizador que alega ter colocado em transe a rainha Elizabeth II e o Dalai-Lama.


(A Era da Loucura, por Michael Foley, editora Alaúde. Outros trechos AQUI, no Grifando.)

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Achados



a)Domínio Público

Site "Public Domain"


b)A Cidade-Muro de Kowloon

(A cidade-muro-favela de Kowloon é citada no livro ldoru de Willian Gibson. Encontrei sua história AQUI)

"
Kowloon Walled City was a densely populated, largely ungoverned settlement in Kowloon, Hong Kong. Originally a Chinese military fort, the Walled City became an enclave after the New Territories were leased to Britain in 1898.
Its population increased dramatically following the Japanese occupation of Hong Kong during World War II. From the 1950s to the 1970s, it was controlled by Triads and had high rates of prostitution, gambling, and drug use. In 1987, the Walled City contained 33,000 residents within its 6.5-acre (0.03 km2; 0.01 sq mi) borders.
In January 1987, the Hong Kong government announced plans to demolish the Walled City. After an arduous eviction process, demolition began in March 1993 and was completed in April 1994. Kowloon Walled City Park opened in December 1995 and occupies the area of the former Walled City. Some historical artifacts from the Walled City, including its yamen building and remnants of its South Gate, have been preserved there.
"
Portanto, Kowloon não existe mais, mas encontrei uma "planta" AQUI, no Zoohaus. Algumas fotos aqui numa lista de 7 monumentos modernos arquitetônicos abandonados da Ásia, mas há várias pelo google.

c)Colecção Argonauta

"Este espaço é uma homenagem à Colecção Argonauta, um memorial que esperamos possa contribuir para esclarecer possíveis dúvidas relativas aos números publicados, bem como constituir um espaço de partilha, onde comentários relativos às obras possam ajudar a enriquecer o vasto universo de memórias aqui reunido."

d)Mistério Antigo

Sabe aqueles anúncios cheio de bugigangas e brinquedos supostamente maravilhosos que ficavam nas últimas capas das revistas importadas norte-americanas?

Então, um sujeito fez um livro revelando o que REALMENTE eram aqueles trecos. A maioria era pura enganação, mas o hovercraft realmente funcionava!!!