quarta-feira, 18 de agosto de 2010

Escadas



nº07: negativo




João não pegou o metrô naquele dia. Não sentou no assento preferencial, destinado aos inválidos. Não perscrutou discretamente os demais passageiros. Não ouviu o condutor da composição anunciar sua estação. Não seria sua estação, porque não estava lá. Não desceu, não cruzou a linha amarela de segurança na plataforma ou as trilhas em relevo para as bengalas dos cegos. Não acompanhou a multidão no caminho para a saída. Não foi mais um, embora sempre tenha sido. Não subiu passo a passo os degraus da escadaria fixa. Não viu Maria do outro lado. Maria também não estava lá, então não haveria Maria para ver. Ela não desceu as escadas rolantes. Maria não viu João do outro lado. Nem esperou o trem chegar, nem ouviu seu sopro rugir no túnel, nem o freio rinchar nos ouvidos. O trem que não levou Maria sumiu na escuridão no caminho para as demais estações.

João e Maria que não pegaram o metrô naquele dia. Nunca esperariam encontrar seu amor no metrô. João e Maria que não estavam sozinhos, estavam um com o outro, em um não-lugar todo deles.












(Fonte imagem: R. Demachy, portrait de femme retouchée,
négatif sur verre au gélatino-bromure d’argent - 1905
)

domingo, 15 de agosto de 2010

Telegramas



Um tributo a Lorenzo Mattotti. Via Comicsando

Achados




a)
Paixão segundo G.H... no Mangá?

Uma postagem em inglês do "Tokio Scum Brigade" (Blog em inglês que explora o trash japonês) fala de um mangá chamado "Baptism" no qual uma aluna força a esposa de seu professor a comer um apetitoso "mingau" de baratas. E então descobrimos que existe uma série de aulas (em japonês) para quem se dispuser a preparar receitas com baratas.

Há uma outra postagem diferente, mas bastante deliciosa AQUI, mais fácil de acompanhar por serem fotos apenas e estarem em inglês.

b)
Cenas de "The Golden Voyage of Sindbad": Centauro versus Grifo. E viva Ray Harryhausen neste vídeo (E dá-lhe Tito Puente!)!

c)IV Simpósio de Literatura Fantástica

http://fantasticon.com.br/?p=35

Dias 27, 28 e 29 de agosto na Biblioteca Viriato Correa, Av Sena Madureira, 298 - Vila Mariana - São Paulo - SP

* * *

"A idéia do Fantasticon é reunir pessoas interessadas em Literatura Fantástica (ficção científica, fantasia e horror) para
que elas possam se encontrar, debater idéias, trocar informações, levantar tendências e se divertir.

A proposta é incentivar e enriquecer o estudo e o debate sobre o Fantástico no Brasil. Para isso, contaremos com
palestras, mesas-redondas, oficinas, mostra de filmes, exposições, lançamentos, sessões de autógrafos e muita
confraternização!

O Fantasticon é organizado por Silvio Alexandre, em uma realização da Biblioteca Viriato Corrêa, do Sistema Municipal de Bibliotecas e da Secretaria Municipal de Cultura. Com o apoio da Fly Cow Produções Culturais, da TV Cronópios e da Revista MOVIE."

Programação do Evento:
http://fantasticon.com.br/?page_id=381

"Sábado dia 28 de agosto 15h às 16h

Celebração: “Projeto Portal”

O Projeto Portal, coordenado por Nelson de Oliveira, é uma revista de contos de ficção científica com periodicidade semestral. Cada número da revista homenageia, no título, uma obra célebre do gênero: já foram lançados o Portal Solaris, o Portal Neuromancer, o Portal Stalker e o Portal Fundação.

O Projeto Portal realizará uma celebração para lançar o Portal 2001, com a presença dos autores, que conversarão com o público e sortearão exemplares da revista.

Portal 2001, o quinto número do Projeto, traz contos inquietantes que vão do universo da ficção científica ao do fantástico, passando pelo da fantasia. São 31 narrativas sobre novas tecnologias, viagens no tempo, ciberespaço, telepatia, contatos imediatos do terceiro grau, pós-apocalipse, pós-humano, utopias e distopias, de dezesseis autores contemporâneos.

Os contistas são: Braulio Tavares, Brontops Baruq, Claudio Parreira, Daniel Fresnot, Delfin, Luiz Bras, Marcelo Bighetti, Marco Antônio de Araújo Bueno, Maria Helena Bandeira, Mayrant Gallo, Mustafá Ali Kanso, Ricardo Delfin, Roberto de Sousa Causo, Rodrigo Novaes de Almeida, Rogers Silva e Sid Castro."


Imagem via Popholic

domingo, 8 de agosto de 2010

Telegrama


Alguém me avisou
(Composição Dona Ivone Lara)



Foram me chamar
Eu estou aqui, o que é que há?
Eu estou aqui, o que é que há?
Eu vim de lá, eu vim de lá pequenininho
Mas eu vim de lá pequenininho
Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho
Alguém me avisou pra pisar nesse chão devagarinho

Sempre fui obediente
Mas não pude resistir
Foi numa roda de samba
Que juntei-me aos bambas
Pra me distrair
Quando eu voltar na Bahia
Terei muito que contar
Ó padrinho não se zangue
Que eu nasci no samba
E não posso parar
Foram me chamar
Eu estou aqui, o que é que há?







(Gil, Caetano e Bethânia. A gente chamava "PAAAAI" e lá vinha ele cantarolando esta música.)

au revoir, mon amur





O micro já estava desligado e precisou conferir a hora no celular. Só então se deu conta que a bateria se esgotara. Apropriado até: a bateria de Marco também estava nas últimas. Precisava dormir. Espiou entre as persianas e leu a hora na torre do outro lado da Avenida. Mais de onze.

Jogou a caixa da pizza no lixo, os caroços de azeitona correram em seu interior. Apagou a luz, trancou a sala e depois a porta de vidro. Chamou o elevador, a chave do carro na mão. Demorava. Só falta esta merda estar quebrada. Sentiu então um cheiro estranho, antigo, remetia a terra e a zoológico. A campainha indicou qual das portas iriam abrir. Marco se posicionou diante e, ao abrir, espantou-se com o fato da cabine estar cheia num horário ingrato como aquele.


Eram três caçadores de faces asiáticas. Em dois deles, longos e finos bigodes desciam pelos cantos dos lábios dos lábios, evocando pequenos cabides pendurados nas narinas. O último era um adolescente de aspecto feroz. Vestiam peles escuras e grossas e traziam várias zibelinas mortas penduradas em varas. Marco disse boa noite e eles (menos o adolescente) devem ter respondido o mesmo em seu idioma, espremendo-se no fundo do elevador.

Marco deu as costas para os três, os números das planilhas ainda dançavam em sua cabeça, sentia que estava esquecendo de algo, mas que se dane, já era tarde demais. Se faltasse algo, amanhã ele veria. Tentou conter o odor de carniça beliscando sutilmente as narinas como se as coçasse ou estivesse resfriado. Depois do silêncio inicial, os dois mais velhos retomaram o diálogo anteriormente interrompido. Um fez um gesto a demonstrar como era pesada sua vara. O outro pesou com a mão algumas das zibelinas do primeiro e ponderou algo que fez ambos rirem. O adolescente calado não esboçou um esgar. Fungou profundamente, chamando catarro e cuspiu no mármore do elevador.

O andar dos três caçadores chegou antes: pediram passagem e Marco deu espaço para eles saírem, um de seus sapatos afundou e ele sentiu o suor nas meias se condensar rapidamente. Eles desceram numa paisagem nevada de árvores desfolhadas como foguetes abandonados em suas plataformas de lançamento. Estava dia.

Marco desceu no S3. Passou pela cadeira vazia do segurança. Desta vez não foi difícil encontrar o carro, era o último estacionado, junto a uma pilastra. Caminhava rapidamente, destravou o alarme a distância e o veículo buzinou e piscou em resposta. Todavia, Marco não o alcançou. Um leopardo-de-amur saltou sobre suas costas, o molho de chaves tilintou no chão, ele não chegou a entender o que estava acontecendo, sentiu apenas o peso do animal, as garras atravessando o paletó, a prensa das presas em seu pescoço. Mas chegou a escutar o sistema automático de seu carro travar novamente o alarme do carro.







(Minha pesquisa sobre Amur foi zero, portanto não levem a sério demais. O Leopardo de Amur é um dos animais mais ameaçados de extinção no planeta. A imagem é do Endangered Species Print Project. )

quarta-feira, 4 de agosto de 2010

Telegrama



valeu


(Paulo Leminski)




dois namorados olhando o céu
chegam à mesma conclusão
mesmo que a Terra não passe da próxima guerra
mesmo assim, valeu

valeu encharcar esse planeta de suor
valeu esquecer as coisas que eu sei de cor
valeu encarar essa vida que podia ser melhor

valeu


valeu







(Imagem via Super Punch: Peace(1985), de Steff Geissbuhler)

Achados



a)Zdzisław Beksiński

(1929-2005): um artista polonês fabuloso. Vá a seu site ou procure no google outras obras dele. Dão medo. Suas obras "emolduram" a música-tema de "O Bebê de Rosemary", composta por Krzysztof Komeda neste "clipe" do YouTube..

b)Pray for "Rosemary´s Baby"

Um trailer assustador de "O Bebê de Rosemary"... na época em que os trailers não entregavam o filme.

Como "Poltergheist", corre a lenda a respeito do filme "O Bebê de Rosemary" ser um filme maldito.

Primeiro: meses após o filme ser lançado, a modelo Sharon Tate, esposa grávida do diretor Roman Polansky é assassinada por seguidores de Charlie Manson em uma mansão (que já tinha fama de ser mal-assombrada). Já li algo a respeito que Sharon Tate teria tido pesadelos premonitórios de sua própria morte.

Segundo: Komeda, amigo e parceiro de Polanski sofre um acidente e morre por danos cerebrais.

Terceiro: o edifício Dakota, onde o filme foi rodado, foi onde se desenrolou o assassinato de John Lennon.

Tema de Komeda reinterpretado por Fantomas, a banda capitaneada pelo velho general Mike Patton

c)Gárgulas

Um passeio (em inglês) pelas Gárgulas na Europa. A palavra "gárgula" ainda hoje pode ser usada como escoadouro d´água de chuva sobre os telhados: no cotidiano, pelo menos, aqui usamos a palavra "calha". A Gárgula decorava com "motivos monstruosos" estas saídas de água. O texto é basicamente, extraído do Wikipedia... Mas, há as fotos e a penúltima delas vale uma olhadela.

d)Iniciando na vida literária.

No blog da jornalista Raquel Cozer encontramos sua matéria que saiu no Estado de São Paulo sobre uma pesquisa informal entre escritores e suas dificuldades para publicar seu primeiro romance por uma editora de "primeira linha", vamos dizer assim.

também estão os links para uma pesquisa similar (de onde ela tirou a ideia para a matéria) realizadas nos EUA pelo escritor Jim C. Hines (de Orcs) entre os escritores que conhecia.

(Via Meia Palavra)

terça-feira, 3 de agosto de 2010

rota migratória






Estação, hora do rush.
No inverno escurece cedo, sendo assim já era noite quando Maria se viu em meio à multidão. A cabeça vazia de tudo que não seja caminho e caminhar. Mas mesmo assim, alguns mugidos fizeram Maria levantar a cabeça e reduzir o ritmo. Todavia, ninguém abrandou o passo, e logo ela sentiu uns primeiros empurrões. E entre as pernas e costas e corpos, ela viu no meio um gnu. Não quis interromper-se, seguiu a romaria cotidiana. Dentro do trem, no aperto e no sufoco, é que ela foi atinar. O que era aquilo? A melhor hipótese era a de um carroceiro puxado por um pangaré de chifres.



Praça
O ônibus cheio de pessoas que não se olham nos olhos. Para escapar, tentam a confusa tela urbana na janela de fios, placas e árvores mirradas. Em uma praça, dormiam uns mendigos e seus cães. Aqui e ali pastavam os gnus.



Sirenes.
Uma moto do Resgate passa entre os automóveis presos no trânsito. Alguns minutos depois, uma ambulância força caminho entre os carros. Alguém sobe na calçada e ela passa gritando sirene nas nossas orelhas. Mais adiante, descobre-se o motivo. Estendido no chão, o corpo de um gnu atropelado no cruzamento.



Rio
Para evitar as enchentes, aprofundaram o leito do rio. Cimentaram suas margens e plantaram árvores chicoteadas pelo ar em movimento das vias expressas. Apenas os pássaros se aproveitam de suas sombras. Os gnus escorregam pelas paredes, os cascos incapazes de se prender. Caem no rio, já sem crocodilos ou peixes, e atravessam a crosta de lixo para realizarem sua migração. Mas do outro lado não conseguem encontrar forma de subir a muralha e se acumulam atabalhoados na beira da água podre.



Madrugada
João não precisa de alarme para acordar. O trânsito da via expressa bem adiante da janela de seu apartamento é o seu despertador. Às vezes, uma freada noturna indica um acidente. De tantos, João se habituou: nem se levanta para ver o que sobrou. Se enterra sob a fronha e espera não acordar quando chegarem os socorristas. Mas naquela noite fria foi diferente. João quase perdeu a hora. Estranhou o silêncio, silêncio de automóveis. Foi para a janela e viu as faixas vazias de carros. O céu coloria-se, mas ainda não havia sol. Nestas horas intermediárias, com uma linha se faz o contorno do mundo. Lá adiante, iluminada pelos postes, se aproximava uma massa estranha e se escutava seus mugidos, as mães chamando os filhotes, os filhotes querendo perder-se. Era uma manada, era um rebanho sem pastoreio. Fediam como fede tudo que está vivo. Seus cascos rastejavam e trotavam no asfalto. Eram muitos. Milhares talvez. João não tinha o costume de tomar café da manhã em casa: sentiu fome, mas esperou até o final da migração. Era possível observar as pessoas nos edifícios vizinhos, todos olhando pela janela, como se aquele fosse um enterro de alguém importante. Deixaram um rastro de esterco e urina e carcaças de abortos, filhotes perdidos e animais velhos e mortos, prontamente esmagados e ocultos pela rota migratória dos automóveis coloridos que vinham logo a seguir. Só então fechou a cortina e foi trabalhar. O chefe descontaria o atraso.












(imagem via)

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Telegramas

Provérbios do Inferno





No tempo da semeadura, aprende; na colheita, ensina; no inverno, desfruta.

Conduz teu carro e teu arado por sobre os ossos dos mortos.

A estrada do excesso leva ao palácio da sabedoria.

A Prudência é uma solteirona rica e feia, cortejada pela Impotência.

Quem deseja, mas não age, gera a pestilência.

O verme partido perdoa ao arado.

Mergulha no rio quem gosta de água.

O tolo não vê a mesma árvore que o sábio.

Aquele, cujo rosto não se ilumina, jamais há de ser uma estrela.

A Eternidade anda apaixonada pelas produções do tempo.

A abelha atarefada não tem tempo para tristezas.

Os alimentos sadios não são apanhados com armadilhas ou redes.

Torna do número, do peso e da medida em ano de escassez.

Um cadáver não vinga as injúrias.

O ato mais sublime é colocar outro diante de ti.

Se o louco persistisse em sua loucura, acabaria se tornando sábio.

A loucura é o manto da velhacaria.

O manto do orgulho é a vergonha.

Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da educação.

As Prisões se constroem com as pedras da Lei, os Bordéis, com os tijolos da Religião.

O orgulho do pavão é a glória de Deus.

A luxúria do bode é a bondade de Deus.

A fúria do leão é a sabedoria de Deus.

A nudez da mulher é a obra de Deus.

O rugir dos leões, o uivar dos lobos, o furor do mar tempestuoso e a espada destruidora são fragmentos de eternidade grandes demais para os olhos humanos.

A raposa condena a armadilha, não a si própria.

Os júbilos fecundam. As tristezas geram.

Que o homem use a pele do leão; a mulher a lã da ovelha.

O pássaro, um ninho; a aranha, uma teia; o homem, a amizade.

O que hoje se prova, outrora era apenas imaginado.

A ratazana, o camundongo, a raposa, o coelho olham as raízes; o leão, o tigre, o cavalo, o elefante olham os frutos.

A cisterna contém; a fonte derrama.

Um só pensamento preenche a imensidão.

Dize sempre o que pensa, e o homem torpe te evitará.

Tudo o que se pode acreditar já é uma imagem da verdade.

A águia nunca perdeu tanto o seu tempo como quando resolveu aprender com a gralha.

Da água estagnada espera veneno.

A raposa provê para si, mas Deus provê para o leão.



(As Mercenárias: um grupo paulista da década de 80, punk feito por garotas. Elas musicaram boa parte dos "Provérbios do Inferno", de William Blake, provavelmente em cima da tradução de Paulo Vizioli. Eu tinha uma gravação extraída do rádio em cassete. Ilustração de Jeremy Enecio.)

sexta-feira, 23 de julho de 2010

Telegrama







“It’s not enough to have lived. We should be determined to live for something.”


Winston Chruchill


(Via The Impossible Cool)

Zerografia


Geysa e o guêiser



Geysa não tinha pernas. Perdeu-as num acidente de trem. Eu não sei os detalhes. Ficava na cadeira de rodas vendendo flores e soldados a pilha que se arrastavam e atiravam. Era na Estação, a meio caminho entre a Biblioteca e o Estádio. À noite, seu tio desempregado a buscava numa Brasília. Dentro, ficavam tupperwares vazios, cheio das migalhas de doces e salgados vendidos. Ele a erguia no ar, os olhos curiosos secavam os cotos das coxas morenas sob os holofotes dos faróis de carros, viaturas e coletivos no trânsito congestionado de início da noite.

Um dia, o tio avisou: melhor não irmos amanhã. Imagina, amanhã não vai ter nada, fica sossegado. Ela emprestou um vestido vermelho da vizinha. Usou uma calcinha branca. Melhor perfume falsificado. O tio não quis levá-la quando a viu daquele jeito. E ela, "imagina, eles são todos gente de bem". A Brasília parou, o tio armou a cadeira de rodas e a banquinha. Ligou alguns dos soldados. Retirou as flores murchas. Colocou uma mais ou menos no painel do carro. Despediu-se.

Lá pelo meio da tarde, começaram as sirenes. Depois os cavalos e a tropa de choque. As pessoas começaram a correr no sentido do Estádio. Um cavalo acompanhava estes fugitivos, o pé preso no estribo e um policial arrastado no asfalto.

Ela desviou o olhar. De longe, depois dos automóveis virados e do incêndio na Estação, ela viu a multidão saindo da Biblioteca; eram estudantes, todos eles nus, as caras pintadas de bandeira e os pintos duros como mastros.

Tirou o espelhinho e começou a passar o batom.






(.)

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Achados

a)




O velho caçador


"Era um velho caçador acampado e o caçador compartilhou seu tabaco com ele e lhe falou sobre o bisão e dos embates que tivera com eles, deitado em uma cavidade em alguma elevação com os animais mortos espalhados pelo terreno em volta e a manada começando a circular confusa e o cano do rifle tão quente que os pequenos retalhos de limpeza chiavam ali dentro e os animais aos milhares e às dezenas de milhares e as peles esticadas cobrindo verdadeiras milhas quadradas de terreno e as equipes de peleiros se revezando dia e noite e a sucessão de semanas e de meses atirando e atirando até as estrias dos cano ficarem lisas e o encaixe da coronha ficar solto e as manchas amarelo-azuladas dos ombros aos cotovelos e os carroções em comboios gemendo através da pradaria e as juntas de vinte e de vinte e dois bois e os couros enrijecidos às toneladas e centenas de toneladas e as carnes apodrecendo ao chão e o ar zunindo de moscas e os abutres e os corvos e a noite um horror de rosnados e de presas rasgando com os lobos meio enlouquecidos se espojando na vertigem da carniça.

Vi as carroças Studbaker com parelhas de seis e oito bois rumando para os campos de caça sem outra carga senão chumbo. Galena pura e mais nada. Toneladas. Só aqui nesta região entre o rio Arkansas e o Concho foram oito milhões de carcaças pois esse tanto de peles que chegou no terminal do trem. Faz uns dois anos a gente saiu de Griffin para uma última caçada. Vasculhamos o território. Seis semanas. Até que acabamos encontrando um bando de oito animais e matamos e fomos embora. Sumiram. Sumiram todos até o último exemplar que um dia Deus pôs neste mundo como se nunca tivessem existido.

O vento soprou fagulhas irregulares. A pradaria em torno estava mergulhada em silêncio. Além da fogueira fazia frio e a noite era clara e as estrelas caíam. O velho caçador se embrulhou na manta. Fico pensando se existem outros mundos assim, ele disse. Ou se esse aqui é o único."

(Trecho do último capítulo de Meridiano de Sangue, livro de Cormac McCarthy)

b)Laelaps
Um bom blogue (em inglês) sobre zooologia, ecologia e meio-ambiente: Laelaps. Visite também o endereço antigo. De , extraí a fotografia acima (tirada por volta de 1870) que mostra uma pilha de crânios de bisões mortos durante os massacres destes animais na segunda metade do século XIX. Segundo se diz, a quase extinção deste animal foi a maneira utilizada de colocar os "peles-vermelhas" de joelhos perante o governo norte-americano, eliminando a forma de sobrevivência destes índios.


c)Alfabeto do Velho Oeste

Via Bigorna:
"O quadrinhista Wilson Vieira (Cangaceiros - Homens de Couro; Gringo - O Escolhido), que entre 1973 e 1980 trabalhou no estúdio Staff di If em Gênova/Itália e desenhou algumas histórias de western como Il Piccolo Ranger, iniciou o projeto O Alfabeto do Velho Oeste no Tex Willer Blog, de Portugal. O blog dedicado ao cowboy Tex é coordenado por José Carlos Pereira Francisco, o Zeca, e Mário João Marques, o Marinho. "

Muito interessante e completo: O projeto está em andamento. CLIQUE para ver.


d)A Estrada

Ainda sobre Cormac McCarthy: Meia Palavra explica "A Estrada"

domingo, 18 de julho de 2010

sábado, 10 de julho de 2010

Achados




a)Curso Prática de Criação Literária


"Dia 03 de agosto é o início da próxima turma do curso de Prática de Criação Literária (em São Paulo).

A ênfase na prática de diversos gêneros literários, em prosa e verso, é a principal característica do curso de pós-graduação promovido pela Terracota Editora e pela Universidade Cruzeiro do Sul.

Essa ênfase faz dele a primeira etapa na formação de escritores completos, com amplo conhecimento dos gêneros literários e da realidade editorial.

Os módulos são ministrados por professores criadores, que dominam não só o ofício que praticam, mas também a teoria e a técnica em torno desse ofício."

Interessado? Saiba que existem duas possibilidades para frequentar o curso. Uma, "para os já graduados interessados em se aprofundar nas questões da prática de criação literária, o curso serve como alternativa de pós-graduação lato sensu. Neste caso, são 12 módulos: 8 de criação, abordando os gêneros textuais e 4 acadêmicos. O lato sensu é certificado pela Universidade Cruzeiro do Sul." Outra, para "os escritores iniciantes com vontade de conhecer e praticar os diversos gêneros literários, o curso pode ser frequentado de forma livre, neste caso são 8 módulos disponíveis, de criação."

Professores: Marcelino Freire (EraOdito, Angu de Sangue, BaléRalé, Contos Negreiros. Jabuti de melhor livro de contos com Rasif – Mar que Arrebenta); Nelson de Oliveira (Poeira: demônios e maldições, A oficina do escritor, A maldição do macho e O filho do Crucificado. Ganhador dos prêmios da Fundação Biblioteca Nacional, duas vezes o da APCA, o da Fundação Cultural da Bahia e o Casa de las Américas); Luís Eduardo Marra (O coletivo aleatório e O diário perdido do Jardim Maia); Marne Lucio Guedes; Edson Cruz (poeta e co-fundador do site literário Cronópios); Di Moretti; Marcelo Maluf; Claudio Brites; Carlos Andrade. Para biografias mais completas, clique AQUI.

Mais informações AQUI.


b)A Tríade: A Espada Templária



c)
21ª Bienal do Livro de SP terá entrada a R$ 10 e debates sobre vampirismo


"A Bienal Internacional do Livro de São Paulo optou pelo congelamento do valor dos ingressos para estimular a presença do público na 21ª edição, que ocorre de 12 a 22 de agosto de 2010 na capital paulista. Este ano, serão cobrados R$ 10 pela entrada, o mesmo valor praticado desde 2006, quando foi realizada a 19ª edição.

Além disso, poderão entrar de graça professores, profissionais do livro, bibliotecários, estudantes incluídos no programa de visitação escolar programada, maiores de 65 anos e crianças com até cinco anos.

O primeiro dia do evento, 12 de agosto, será dedicado à visitação de profissionais. Apesar disso, eles poderão comparecer à feira editorial em qualquer um dos demais dez dias de atividades. Já a programação destinada ao público em geral começa na chamada “Sexta-feira 13 na Bienal do Livro”, baseada em atividades especiais para destacar a efeméride, como os debates sobre o tema vampirismo. Neste mesmo dia, os visitantes que comparecerem fantasiados como seus personagens favoritos entrarão de graça na feira e concorrerão a prêmios."

(Leia notícia completa no Fórum Meia Palavra. Fonte UOL)

(Imagem: salvo engano, veio daqui: It´s a deadlicious, um blogue de motoqueiros, rock´n roll, luta-livre, mulheres de biquini, cultura "B" e outros assuntos de macho)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Telegramas

Planetas Invisíveis: Diana



Prova de Carinho
(Adoniran Barbosa/Hervê Cordovil)


Com a corda Mi
Do meu cavaquinho,
Fiz uma aliança pra ela,
Prova de carinho.


Com a corda Mi
Do meu cavaquinho,
Fiz uma aliança pra ela,
Prova de carinho.


Quanta serenata
Eu tenho que perder,
Pois meu cavaquinho
Não pode mais gemer!
Quanto sacrifício
Eu tive que fazer,
Pra dar a prova pra ela
Do meu bem querer!



(desenho de cidade imaginária por Chico Buarque. Portal 2001 está se aproximando)