sexta-feira, 25 de junho de 2010

Achados



(desenho do Rafael Coutinho)

a)São Paulo 3014
Algumas semanas atrás, foi publicada no caderno Ilustríssima da Folha de São Paulo, uma curtíssima HQ de FC com argumento do escritor Daniel Galera e desenhada por Rafael Coutinho, chamada São Paulo 3014.

O Rafael deixou a história disponível em seu blogue. Clique AQUI para ler.

b)Lançamento Cachalote
O Rafael e o Galera trabalharam juntos em um livro chamado "Cachalote" que foi lançado agorinha-agorinha pela Cia das Letras. Uma prévia chegou a sair na Piauí, não sei se você viu. O lançamento em São Paulo está meio em cima (dia 26), mas haverá no Rio e em Porto Alegre também durante a próxima semana. Clique AQUI para detalhes.

c)E o homem ainda vai dar um curso na Quanta. Agora chega, antes que me acusem de jabá.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Telegrama

Lembrando que 2010 é ano de eleição:





Discurso do filho da puta
(De Alberto Pimenta)


O pequeno filho da puta
é sempre
um pequeno filho da puta;
mas não há filho da puta,
por pequeno que seja,
que não tenha
a sua própria
grandeza,
diz o pequeno filho da puta.
no entanto, há
filhos-da-puta que nascem
grandes e filhos da puta
que nascem pequenos,
diz o pequeno filho da puta.
de resto,
os filhos da puta
não se medem aos
palmos, diz ainda
o pequeno filho da puta.
o pequeno
filho da puta
tem uma pequena
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o pequeno
filho da puta.
no entanto,
o pequeno filho da puta
tem orgulho
em ser
o pequeno filho da puta.
todos os grandes
filhos da puta
são reproduções em
ponto grande
do pequeno
filho da puta,
diz o pequeno filho da puta.
dentro do
pequeno filho da puta
estão em ideia
todos os grandes filhos da puta,
diz o
pequeno filho da puta.
tudo o que é mau
para o pequeno
é mau
para o grande filho da puta,
diz o pequeno filho da puta.
o pequeno filho da puta
foi concebido
pelo pequeno senhor
à sua imagem
e semelhança,
diz o pequeno filho da puta.

é o pequeno filho da puta
que dá ao grande
tudo aquilo de que
ele precisa
para ser o grande filho da puta,
diz o
pequeno filho da puta.
de resto,
o pequeno filho da puta vê
com bons olhos
o engrandecimento
do grande filho da puta:
o pequeno filho da puta
o pequeno senhor
Sujeito Serviçal
Simples Sobejo
ou seja,
o pequeno filho da puta.

II

o grande filho da puta
também em certos casos começa
por ser
um pequeno filho da puta,
e não há filho da puta,
por pequeno que seja,
que não possa
vir a ser
um grande filho da puta,
diz o grande filho da puta.
no entanto,
há filhos da puta
que já nascem grandes
e filhos da puta
que nascem pequenos,
diz o grande filho da puta.
de resto,
os filhos-da-puta
não se medem aos
palmos, diz ainda
o grande filho-da-puta.
o grande filho da puta
tem uma grande
visão das coisas
e mostra em
tudo quanto faz
e diz
que é mesmo
o grande filho da puta.
por isso
o grande filho da puta
tem orgulho em ser
o grande filho da puta.
todos
os pequenos filhos da puta
são reproduções em
ponto pequeno
do grande filho da puta,
diz o grande filho da puta.
dentro do
grande filho da puta
estão em ideia
todos os
pequenos filhos da puta,
diz o
grande filho da puta.
tudo o que é bom
para o grande
não pode
deixar de ser igualmente bom
para os pequenos filhos da puta,
diz
o grande filho da puta.
o grande filho da puta
foi concebido
pelo grande senhor
à sua imagem e
semelhança,
diz o grande filho da puta.

é o grande filho da puta
que dá ao pequeno
tudo aquilo de que ele
precisa para ser
o pequeno filho da puta,
diz o
grande filho da puta.
de resto,
o grande filho da puta
vê com bons olhos
a multiplicação
do pequeno filho da puta:
o grande filho da puta
o grande senhor
Santo e Senha
Símbolo Supremo
ou seja,
o grande filho da puta.



(Charge Angeli. Via Coisas do Arco da Velha)

Achados

a)A História Única da África



Importante ouvir a escritora nigeriana Chimamanda Adichie (Segundo a New Yorker, uma das melhores escritoras com menos de quarenta anos): sobre não nos deixar levar sobre o que dizem, sobre aquilo que aprendemos e apreendemos sem perceber.

(Via fórum Meia-Palavra e Libru Lumen)

b)Aproveitando que falamos de outros lugares, alguns links interessantes com aspectos inusitados de outros países:

Pink Tentacle
, sobre o Japão. EnglishRussia, sobre a Rússia (Warren Ellis gosta deste). Vida na Islândia, de um brasileiro "perdido" na Islândia.

O site da Folha tem vários blogues com este "tema": Pé na África, do jornalista Fabio Zanini com mestrado em relações internacionais pela School of Oriental and African Studies (Soas), da Universidade de Londres; Buenos Aires, de Gustavo Hennemann; Raul na China, de Raul Juste Lores.

c)Acho que o Brasil até merecia um blog parecido contando nossas esquisitices (temos muitas), mas pra ficar bom mesmo precisaria de um olhar estrangeiro. Não sei se existe um neste sentido.

Há um livro muito bom, escrito por Alex Bellos, um correspondente inglês que viajou o país (e mais alguns outros) atrás de histórias de nosso futebol. Aqui foi publicado pela Jorge Zahar: Futebol - O Brasil em Campo (O título original é Futebol: The brazilian way of life). Vale muito uma olhada, mesmo para quem não liga para futebol. Como eu.

d)Falando em futebol, leiam o artigo "A pátria em Copas", de Maria Rita Kehl, sobre como nosso amor foi embalado e sufocado pelo mondo marketing.:

"Hoje é impossível fugir do protocolo a ser seguido por todo brasileiro em casa, nos bares, nos estádios. Aprendemos pela tevê, com meses de antecedência, como devemos nos vestir, o que beber durante os jogos, quais os gestos e os gritos de guerra apropriados para os momentos mais emocionantes, como pular e dançar depois de um gol do Brasil. Tudo dominado, tudo decodificado. "

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Achados




a)




Um clip (tirado DAQUI) para uma música do Death in Vegas com uma colagem do filme L´Enfer de Henri-Georges Clouzot.

b)


" "A História do Futuro" soa como um conto de Borges, mas, na realidade, é o título de um livro do grande pregador jesuíta Antônio Vieira. Como muitos ocidentais em meados do século XVII, Vieira acreditava na iminência do milênio, associada a quinta e última monarquia mundial, a do rei português dom João IV. Sua história do futuro previa a chegada do reino de mil anos de Cristo na Terra. Não sou profeta nem futurólogo, de modo que o que se segue será uma discussão não do futuro propriamente dito, mas de diferentes visões daquilo que aguarda a humanidade. Como estas visões mudaram ao longo do tempo, podemos afirmar que o futuro tem um passado. "

(Início de artigo intitulado "História do Amanhã" do inglês Peter Burke que faz referência a um outro livro de outro historiador, Reinhart Koselleck. Acredito que seja a ESTE livro que Burke se referencia)


c)
Um senhor achado: Poesias transformadas em Músicas, neste blog.


d)
Sarau de lançamento do livro "Paraíso Líquido" de Luiz Bras, dia 26 de junho: não percam.

sábado, 12 de junho de 2010

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Telegrama





Balada do amor através das idades

Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Saí do cavalo de pau
para matar meu irmão.
Matei, brigamos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catatumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caída na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria do meu bergantim.
Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal da cruz
e rasgou o peito a punhal…
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira…
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula, rema.
Seu pai é que não faz gosto.
Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da Paramount,
te abraço, beijo e casamos.



(Carlos Drummond de Andrade... Imagem: Torso de Nefertite - 18ª Dinastia - Via @mateurdart )

Escadas



nº03: perspectiva histórica



1.METRÔ



Hoje em dia, o trânsito é uma reclamação constante. Em Londres, em meados do século XIX, também. Engarrafamentos frequentes de carruagens e cavalos. Esterco se acumulava pelas calçadas. Pressão sobre governo para encontrar uma solução. Surgiu a ideia do metrô. Os primeiros túneis não contavam com um sistema adequado de ventilação. Os trens eram a vapor, uma permanente e sufocante fumaceira preenchia galerias e estações. Já durante a escavação, alguns operários chegaram a morrer intoxicados na fumaça das locomotivas. O barulho provocava surdez precoce em maquinistas, mais uma entre tantas outras doenças de natureza laboral da época. De início, os vagões eram sem janelas, caixotes apenas com portas de entrada. Naquela paisagem subterrânea, janelas para quê? Além disso, pressupunha-se uma melhor proteção para os passageiros. A claustrofobia do público obrigou-os a reinventar o vagão com janelas. Felizmente estes são tempos passados e aqui não é Londres (apesar do desejo de muitos). Dentro das composições, as pessoas adquirem um ar bovino, os olhos mortos, enjaulados em seus pensamentos, hipnotizados pelos monitores digitais, ensurdecidos pelo som dos arquivos MP3. Talvez os antigos engenheiros tivessem razão em retirar as janelas. Às 17:17, Maria chega à estação de metrô, alheia do mundo ao redor e a como ele chegara até ali, concentrada na longa volta para casa.


2.ESCADAS ROLANTES


O reduzido tempo de espera faz das escadas rolantes um excelente meio de transportar pedestres. A máquina garante o fluxo contínuo e veloz de um grande volume de pessoas, ao contrário de elevadores e escadarias. Modelos diferentes foram patenteados desde 1859, mas apenas em 1896 foi construído um operacional. Era um brinquedo de um parque de diversões norte-americano. Divertido? Talvez tanto quanto hoje em dia seria divertido um teleférico (ou um bondinho). Em 1900 surgiu a primeira escada rolante comercial; recebeu o primeiro prêmio na Exposition Universelle em Paris. Os degraus não possuíam ranhuras e provocavam escorregões. Para evitar quedas, um funcionário de uniforme auxiliava no “embarque” e “desembarque” dos pedestres (em geral, um moleque de uniforme, comum naqueles tempos. Ganhavam gorjeta, quando não um convite de alguma senhora mais assanhada.). Ainda hoje, todos os anos acontecem milhares de acidentes em escadas rolantes. Cadarços, cabelos e pedaços de roupas presos entre as engrenagens e degraus. Outros estão relacionados a sua má-utilização: pessoas que tentam montar no corrimão, crianças que correm no sentido contrário da escada. Recentemente, norte-americanos descobriram um novo jogo arriscado envolvendo escadas rolantes, o “escalator-spinning”. Mas a maioria das pessoas é obediente e trata as escadas rolantes com a deferência de quem merece ser carregado como peças em linha de montagem. Concentrada apenas no movimento da multidão a sua frente, Maria prepara-se para descer as escadas rolantes rumo à plataforma de embarque, às 17:18.



3.ESCADAS FIXAS



“Ninguém terá deixado de observar que frequentemente o chão se dobra de tal maneira que uma parte sobe em ângulo reto com o plano do chão, e logo a parte seguinte se coloca paralela a esse plano, para dar passagem a uma nova perpendicular, comportamento que se repete em espiral ou em linha quebrada até alturas extremamente variáveis.”, já dizia de forma irretocável o escritor Julio Cortázar em “Instruções para subir uma escada”(1964). Faz muito tempo que o homem sobe escadas. As mais antigas escadarias construídas pelo homem remontam a seis mil anos antes de Cristo. Lugares altos eram e continuam sendo pontos estrategicamente importantes. As escadas forneciam meios de subir com um menor risco de desequilíbrio e ainda possibilitavam mãos livres. Como bem sabem os alpinistas, “descer” é tão ou mais arriscado que “subir” e as escadas concediam velocidade e agilidade. Para descer uma escadaria circular, o sentido era sempre horário e para subir, anti-horário, de forma a dificultar o trabalho de invasores e facilitar o dos protetores. A mão da espada era favorecida para quem descesse as escadas. A não ser que os invasores fossem canhotos, mas naquele tempo era uma obrigação ser destro. Mas João é indiferente a estas questões bélicas e de esquerda ou direita. Olha para o alto da escada sem razão aparente, talvez para confirmar que ele terá seus movimentos restritos ao do restante do rebanho a subir. E então ele a vê, de longe, descendo a escada rolante. À medida que avança, o rosto de Maria se aproxima e ele fixa-se nela, sob risco de tropeçar. As pessoas miram o chão ou a bunda de quem está adiante. João encara Maria. Ela está distraída, poderia deixar passar e acabar ali. Mas ela se surpreende com os olhos de João. Maria cora e abaixa o rosto. Talvez seja a timidez, talvez seja amor. Seja o que for, João decide ir atrás dela.


4.SENHORAS GORDAS



As senhoras gordas existiram desde sempre. Por toda a Eurásia, encontram-se pequenas figuras de pedra: são mulheres gordas, calipígias, regaços profundos, as formas arredondadas como bolas de sorvete sobre uma casquinha. Os braços finos, a cabeça sem rosto, coberta por tranças, ou chapéu ou olhos como os de um inseto. Pensava-se serem elas representações de alguma deusa feminina, a Grande Mãe, relacionaram estas imagens com a ideia de uma sociedade pré-histórica matriarcal. As imagens não ficam de pé, trazendo a suposição de se tratar de uma espécie de amuleto. Mas surgiram hipóteses nas quais estas figuras de pedra seriam brinquedos de homem, o equivalente ancestral da revista Penthouse. Os caçadores de mamutes usariam estes ídolos para se masturbar. Ou inserida na vagina em um ritual da fertilidade. Ou no rabo conforme a vontade. Nas paredes das cavernas, é difícil encontrar a figura humana bem representada. Alguns povos possuíam um senso artístico bastante desenvolvido: eram capazes de pintar com precisão e realismo animais selvagens; usavam o próprio relevo da parede da caverna para sugerir altos e baixos relevos. Já o ser humano era quase sempre esboçado, rascunhado, não se viam rostos ou pessoas. As imagens eram pouco melhores que bonequinhos de palitos. Apesar disso, em uma pedra no nordeste brasileiro ainda é possível reconhecer duas senhoras gordas. O povo argumenta ser possível acompanhar sua história como quem lê uma tira de jornal, apesar da crítica dos antropólogos que ridicularizam tais teses. Observa-se que estavam no caminho de um caçador. As imagens sugerem que o caçador não titubeou diante dos obstáculos obesos. Arremessou a lança contra as senhoras. Daquela vez, o animal escapou e as senhoras gordas sofreram o pior destino. A história sempre se repete, nunca da mesma forma. Vejamos, portanto, às 17:19, que duas senhoras gordas se interpuseram no caminho de João. Ele vê a Maria ir embora em um trem lotado para lugar ignorado, as costas dela prensadas contra o vidro das portas automáticas. As senhoras gordas prosseguem conversando, indiferentes. João gostaria de uma lança. Sem ela, volta a encarar a escadaria fixa, repleta de passageiros do trem que acabou de partir. São 17:22.





(=++=)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Telegrama






ou melhor ainda:


"Do not believe in anything simply because you have heard it. Do not believe in anything simply because it is spoken and rumored by many. Do not believe in anything simply because it is found written in your religious books. Do not believe in anything merely on the authority of your teachers and elders.
Do not believe in traditions because they have been handed down for many generations. But after observation and analysis, when you find that anything agrees with reason and is conducive to the good and benefit of one and all, then accept it and live up to it."

Siddhārtha Gautama

(Via Erospainter; via Codice Binario; via Girls in White Dresses)

p.s.: não fui conferir se a frase é mesmo do Buda.
Deixei isto pra você.

sábado, 29 de maio de 2010

a sociedade dos homens invisíveis





1



A recém-criada Sociedade dos Homens Invisíveis vem cobrir uma lacuna explicável da História. Pois já faz séculos que os invisíveis perambulam em meio à humanidade, quase sempre durante a noite, para evitar queimaduras de sol. Eram criaturas solitárias, acreditavam-se únicas, sem possibilidade de compartilhar experiências de invasão de recintos por portas entreabertas, dutos, venezianas, muros baixos. Entretanto, notícias estranhas em tablóides atiçavam a curiosidade destes: seria possível haver um Outro? Na maioria das vezes, o mistério destes crimes eram decifrados, decepcionando estes solitários, cada vez mais convictos de sua singularidade. Todavia, alguns permaneciam sem resposta: estupros realizados dentro de portas trancadas, as marcas de mãos e pés na umidade sobre o azulejo; jóias que corriam feito centopeias pelo chão até o interior de sacolas desavisadas de onde depois desapareciam; cartas denunciando esquemas de corrupção tão sigilosos, que faziam a suspeita brotar entre irmãos de sangue; alimentos mordiscados na cozinha antes de serem servidos. Estranhos fedores sem razão de ser impugnavam certos cantos onde se deitavam estes cadáveres transparentes, que só terminavam quando formigas e vermes e as chuvas faziam seu serviço de limpeza.

Mas então surgiu a Internet e enquanto empregados saíam para o almoço e deixavam seus micros desprotegidos, ali se sentavam e aproveitavam para criar emails, participar de redes sociais, criar diários on-line onde relatavam seus percalços e dissabores e mais e mais invisíveis descobriam existir outros invisíveis. E eles passaram a se reunir em Salões vazios, onde fornecedores desconfiados preparavam a mesa do buffet com canapés e brigadeiros e só retornavam ao final da festa, imaginando o tipo de orgia que ali teria se desenrolado. Mas os mais curiosos veriam perplexos, as pequenas porções a desaparecer no ar consumidas por sucos gástricos tão perceptíveis quanto o espaço vazio em volta. E ali se formou a Sociedade dos Homens Invisíveis pronta para cometer todas as iniquidades que já cometiam, mas com a vantagem de poderem contar uns para os outros. Pois um amigo já me ensinou: busca-se sempre o respeito dos semelhantes.

2

À medida que a nova se espalhava pela Rede, surgiam mais e mais membros, a maioria sem esperar convite, curiosos de conhecer outros de semelhante condição. O velho prazer de estabelecer uma conversa, de dividir saberes, gostos, histórias, coincidências, padrões. Antes de se conhecer o outro, é costume criar a ilusão que o simples calor do contato humano abafará todas as dessemelhanças e aparará as imperfeições. As pessoas não enxergam, mas sempre praticam imperceptivelmente a especulação: descobrir pelo tom de voz, pelo linguajar, pelos gestos, pela cultura, pelo humor, pela boa colocação de palavrões, pela quantidade de calçados, onde aquele se encontra na hierarquia. Sendo assim, como em qualquer sociedade humana, desde o começo, já são estabelecidas pequenas fissuras.

Em pouco tempo, ficou claro que aquele que fazia mais os outros rirem tinha uma posição francamente superior. E quem mais fazia rir, eram aqueles que praticavam a maior quantidade de baixezas. Um levantava a mão e pedia a palavra e ia para o palco sob aplausos onde relatava suas grandes aventuras de assustar criancinhas, enfartar velhotes, descarrilhar locomotivas. Risos. Outro contou como sacudiu a cama de uma beata virgem até convencê-la que era o demônio e lambeu os ouvidos daquela velha até ela implorar a penetração. KKKKKKK. Um jamais esquecido fora aquele que beliscava controladores de voo. Mas ele desapareceu, dizem que foi atropelado, um acidente nada incomum à sua classe, o cadáver aplainado sob a prensa contínua de borracha vulcanizada ou obstáculo oculto para infelizes e azarados motoqueiros.

3

Pouco tempo depois, apareceu aquele. Sendo natural entre eles a condição de invisibilidade, não há como saber desde quando acompanhava regularmente os Encontros. Por certo, ele foi um dos últimos membros: se tivesse participado desde o início, talvez sua reação fosse outra. De início, não se sabia seu nome. Porém, logo todos reconheceriam sua voz. Escutavam sua inspiração indignada em meio às gargalhadas que concluíam as narrativas. Os Invisíveis não são muito bons para ocultar seus sentimentos e ele se recusou a compactuar ou a se familiarizar com a conduta torpe de sua raça, Vocês deveriam se envergonhar. As gargalhadas prosseguiram mais um pouco, mas ele repetiu sua frase feita Vocês deveriam se envergonhar e as risadas cessaram, substituídas por um silêncio culpado e interrompido novamente Vocês precisam se envergonhar. O rubor da face incolor queimava-lhes as bochechas, entre irados e envergonhados. Houve quem protestasse Ah, que me importam aqueles? Eles, por acaso, um dia se importaram comigo? E o moralista retorquiu simplesmente Você é tão invisível para eles, quanto eles o são para você.

De início, aquela voz apenas pontuava as conversas e torpedeava a graça dos histórias, promovendo um silêncio incômodo e a dispersão dos grupos. Porém, logo o inquisidor assumiu o microfone. E seus perdigotos de condenação se esparramavam entre os indiferentes e cruéis. Ensinou que tanto podiam fazer o bem quanto o mal. Absurdo dos absurdos, aquele senhor arrumou seguidores para sua pregação insensata. Os baderneiros se calavam quando os conservadores subiam ao palanque. Muito embora, fique a dúvida: conservadores do quê?, se a libertinagem e a gatunagem mequetrefe sempre esteve presente. Seja como for, subiam os moralistas e cantavam seu terço de fábulas de bom comportamento: sobre como impediam acidentes, socorriam cegos, cobriam mendigos, denunciavam corruptos, alimentavam os pobres, matavam os cães. Os defensores da liberdade se perguntavam até onde iria aquela evangelização. Logo nos farão agradecer a Deus por esta merda de invisibilidade.

Surgiram rumores que estes não seriam verdadeiros Invisíveis. Trouxeram um calhamaço antigo e apontaram numa página puída, o capítulo Sobre a Invisilibilidade. Aquele grimório trazia uma receita simples: na virada do ano novo, o candidato a ficar invisível deve ficar nu defronte ao espelho com o sétimo osso da cauda de um gato preto, já limpo e fervido numa sopa de alecrim; deve-se manter a relíquia em um canto no interior da boca, sem mordiscar ou engolir; então, rezar rapidamente três pais nossos antes que se encerre o zero minuto da zero hora do ano que se inicia. Ao término daquele tempo, o homem visível se tornará invisível sempre que o tal osso de gato estiver na boca. Alguns caçoaram de tal bobagem, mas outros lembraram que a tecnologia, a mesma tecnologia que os colocou em contato seria capaz de criar estes mestiços, entre as graças da vida livre e transparente, mas sufocados nos labirintos moralizadores dos normais. Concluíram que esta era a única resposta possível. Ele não era como eles.

Se ele é visível não merece estar entre nós, os verdadeiros e claramente Invisíveis. Tramaram um atentado então. Deixaram o microfone em um lugar tal, bem diante da janela. De um edifício próximo, um rifle flutuou no ar e posicionou-se. No momento em que o pregador iniciou sua oração, escutou-se um tiro, a vidraça explodiu, a bala parou no ar, bem diante do microfone. O corpo caiu. Todos escutaram. Os seguidores choraram e protestaram e começou uma briga violenta, na qual voaram cadeiras e bandejas de canapés. Eram velhos assassinos e sabiam lutar. Parece que o outro lado também preparava um motim de purificação. Pretendiam uma cruzada para exterminar os descontentes. Vizinhos do Salão confundiram o som da refrega com o de um baile.

Deixaram os cadáveres em uma caçamba de lixo. Falaram em comemoração, mas ninguém teve vontade. As reuniões nunca mais foram as mesmas. O site permanece ativo, parece que se encontram ainda pela Internet. Ainda hoje não se tem certeza quem matou. Ou quem morreu. Não que isto importe: no fundo, eram tão parecidos quanto só homens invisíveis podem ser.










(.)

terça-feira, 25 de maio de 2010

Telegrama






A queda
(Lobão)



Quantos sonhos em sonhos acordo aterrado
A terrores noturnos minha alma se leva
É um insight soturno é o futuro passando

Na velocidade terrível da queda
Na velocidade terrível da queda

Ante o colapso final a vertigem
próximo ao chão a penúltima descoberta
Que a lógica violenta das cores tinge

A velocidade terrível da queda
A velocidade terrível da queda

Como cair do céu é tão simples
Queda que a tudo e a todos transtorna
Ah! as bombas, a chuva, os anjos e os loucos

O mundo todo na velocidade terrível da queda
O mundo todo na velocidade terrível da queda

Resvalando em abismos um pôr do sol furioso
Que a sensação de perda ao ver exagera
É o desespero vermelho de um apocalipse luminoso

Ejaculado da velocidade terrível da queda
Ejaculado da velocidade terrível da queda

Diante do medo um sorriso aeróbico
Nas bochechas a câimbra de uma alegria incompleta
Nada como um sorriso burro e paranóico

Para não perceber a velocidade terrível da queda
Para não perceber a velocidade terrível da queda


(fotografia: Christer Strömholm - Calcutta, 1963)

Telegrama

Desamparo sem reparo

a)


(Em 22 de julho de 1975, o fotógrafo norte-americano Stanley J. Forman acompanhava uma ocorrência de incêndio na cidade de Boston e tirou esta foto que flagrou o desabamento de uma escada e o exato momento da queda de uma jovem mulher, Diana Bryant e sua criança, Tiare Jones. Diana morreu no local, mas a criança sobreviveu. Via.)


b)

"...Volto ao julgamento dos assassinos da criança Isabella. Penso que as pessoas não torceram apenas pela condenação dos principais suspeitos. Torceram também para que a versão que inculpou pai e madrasta fosse verdadeira. (...)

O relativo alívio que se sente ao saber que um assassinato se explica a partir do círculo de relações pessoais da vítima talvez tenha duas explicações. Primeiro, a fantasia de que em nossas famílias isso nunca há de acotnecer. Em geral temos mais controle sobre nossas relações íntimas do que sobre o acaso dos maus encontros que podem nos vitimar numa cidade grande. Nada mais assustador do que a possibilidade do mau encontro: um ladrão armado, nervoso, cabeça fraca, que depois de roubar resolve atirar sem saber por que, porque sim, porque já matou outras vezes e então, por que não? Morrer na mão de um semelhante a quem não se pode dizer palavra alguma.

Segundo porque o crime familiar permite o lenitivo da construção de uma narrativa. Se toda morte violenta ou súbita, nos deixa frente a frente com o real traumático, busca-se a possibilidade de inscrever o acontecido numa narrativa, ainda que terrível, capaz de produzir sentido para o que não tem tamanho nem nunca terá, o que não tem conserto nem nunca terá, o que não faz sentido.

Até hoje não se inventou nada melhor do que as narrativas para proporcionar algum sentido para o sem sentido do real. Não é o simbólico que faz efeito de verdade sobre o real, é o imaginário. O mar de histórias, lendas, mitos, fofocas, as mil versões que correm de boca em boca, ainda que mentirosas, ainda que totalmente inventadas, promovem um descanso na loucura que é estar nesse mundo sem bússola, sem instruções de voo, sem verdade, sem amparo.

Desde que o renascimento abalou a narrativa hegemônica que a Igreja impôs ao homem medieval, as pessoas se lamentam que o mundo perdeu sua antiga ordem. A modernidade, primeiro, pulverizou as grandes narrativas, depois tentou consolidar utopias mortíferas da razão e agora procura recobrir a face do mundo com imagens industrializadas. Mas ainda não foi capaz de inventar narrativas à altura da complexidade das forças humanas que ela própria liberou."



Maria Rita Kehl

“A Morte do sentido”, Estado de São Paulo, Última página do Caderno2, dia 03/04/2010.

Ou INTEGRAL AQUI.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Onirogrito





Arquipélago


Há aqueles que se isolam por não gostarem das pessoas.

Eu escolhi ficar sozinho. Quero continuar gostando delas.

















(.Imagem de Wayne Levin)

sábado, 15 de maio de 2010

Achados



a)Sandy Nelson



Via Nynphomaniac

b)O som "Tarantinesco" de Shawn Lee´s Ping Pong Orchestra (O clipe foi montado aqui no "The Smoochy World of Mrs Muddle", um blogue cujo tema é o "porn vintage" e está cheio de clipes com músicas dos anos 60. Cuidado onde for abrir!!! Depois não reclame.)
Via Nynphomaniac

c)Documentário da BBC sobre LSD

d)"Escritores por escritores faz parte de uma série de projetos relacionados ao curso de especialização em Prática de Criação Literária, coordenado por Nelson de Oliveira e Claudio Brites, no Espaço Terracota.

Serão, no total, quatro palestras. Em cada encontro, um escritor renomado dará uma aula sobre um grande escritor da literatura nacional: sua biografia, algumas curiosidades, a gênese de suas principais obras, além de promover a leitura dos textos fundamentais da produção do autor escolhido.



De 7 a 10 de junho, das 19h30 às 21h, Vinícius de Moraes, Paulo Leminski, Clarice Lispector e Erico Verissimo serão relidos por Carlos Felipe Moisés, Ademir Assunção, Nelson de Oliveira e Jeanette Rozsas."

Mais detalhes aqui.

sábado, 8 de maio de 2010

Telegramas



x


Diálogo



"Certa vez, perguntei ao artista gráfico Saul Steinberg "Por que será que consigo conversar com alguns escritores? Não encontro assunto: por que parece que estou falando com pediatras ou corretores de imóveis e não escritores? Ele pensou e respondeu: "Isto é fácil: existem dois tipos de artistas, nenhum deles superior ao outro; um responde à própria vida e o outro responde à história da arte até aquele momento."

(Kurt Vonnegut, citado de memória em um livro que folheei e não me preocupei em guardar o título.)