sexta-feira, 19 de março de 2010

Telegrama

Outros provérbios, todos do inferno.



"A Prudência é uma rica, feia e velha donzela cortejada pela Impotência."
William Blake, Provérbios do Inferno


"Por isto, feche as portas e janelas, Joãozinho. Não adianta nada deixar a janela apenas entreaberta. As janelas devem ter grades; e as portas, trancas; as trancas, cadeados; e os cadeados, fechos de segurança. Pois no coração do prudente repousa a sabedoria."

Luis Gê, Tubarões Voadores

(imagem: penny postcards)

segunda-feira, 15 de março de 2010

Achados




a)No ótimo gibi de Paul Pope, 100% (publicado no Brasil pela Opera Graphica), há um artista que pretende reunir um monte de chaleiras e botar água para ferver em todas elas, juntas, a um mesmo tempo. "...um coro sem fim, uma orquestra impossível. Uma sinfonia de uma nota só, de chaleiras gritantes que gemem."

Bem. Via Neatorama fiquei sabendo que um artista pretende fazer uma chaleira de instrumento musical. O som ficou meio chato, pode ser que melhore, pelo jeito ele ainda está desenvolvendo... mas o que mais me surpreendeu foi a quantidade de vídeos com chaleiras fervendo... ?

Imagino o tipo de chá preparado.

b)Adoro Paul Pope. Uma página com um trecho extraído de Duna, de Frank Herbert.

c)Voltando a falar de música e outros instrumentos estranhos. Um artista norte-americano se propôs criar vinte nove instrumentos novos em vinte e nove dias. Ouça o resultado AQUI.

d)Outro artista alemão resolveu criar música acendendo e apagando lâmpadas;

e)Acho que sou mais o Hermeto... Ou o Tomzé. Ou tocadores de cuíca, como o Oswaldinho ou o Fritz Escovão (do grande Trio Mocotó)... Ou ainda os batedores de pratos e de caixinhas de fósforo ou de latinhas de graxa para sapato (Não existe um vídeo que preste?) Ou bateiristas de balde.

f) Falando ainda de chaleiras. Conheça o De-chaleira: Blogue coletivo de criação literária...

g)



Dia 24 de março, das 18:30 às 21:30, o escritor Nelson de Oliveira lançará Poeira: Demônios e Maldições (Editora Língua Geral) na Livraria da Vila, em São Paulo. O livro especula sobre um mundo tão cheio de livros que os governos do mundo simplesmente proíbem a publicação de livros.

segunda-feira, 8 de março de 2010

os leopardos







Disseram que tomasse cuidado com os leopardos. Que daqui a 150 anos não haverá leões, ursos, jaguares ou tigres, exceto talvez nos zoológicos ou em algum show de Las Vegas. Mas ainda haverá os leopardos. Dos cinco grandes da África, os leopardos são os mais invisíveis. Escondem-se sobre as árvores, arrastam suas vítimas para cima dos galhos, que penduradas pelas presas, lembram santos em martírio. Caçam à noite, nos eclipses, e quando quilômetros de espessura das nuvens bloqueiam a luz do sol e da lua e a enxurrada abafa os gritos, os passos, os rugidos. Durante o dia também matam, apenas para lembrar que podem. Não se engane por sua beleza prostituída em calcinhas e sutiãs de senhoras que se acreditam mocinhas, os fios prateados cobertos por tintura loira, as dobras esticadas por veneno botulínico: se os leões são reis e os tigres, imperadores, os leopardos são os carrascos; após a queda, as cabeças dos regentes decoram a sala de troféus dos novos ocupantes do trono; entretanto, o leopardo permanece em seu cargo, um executor a afiar suas garras. As leoas trabalham em grupo, para emboscar e surpreender suas vitimas. Os tigres afamam-se por serem caçadores de homens, quebram o pescoço em um único golpe. Os leopardos não são tão fortes: primeiro pulam o muro e matam a cadela de guarda; depois, aproveitam a janela aberta pelo calor, ou escondem-se na garagem ou no celeiro ou entre os galhos da mangueira, esperando o descuido que os permita invadir a casa; escondem-se na cozinha, no calorzinho detrás da geladeira, ou sob a cama, ou atrás do sofá: Os leopardos preferem as crianças no berço, mas se não houver nenhuma, então rastrearão as mulheres pelo cheiro de suas menstruações. Mas as mulheres são difíceis, sempre desconfiam de algo, arrumarão uma desculpa, como visitar a mãe ou o amante. Então os leopardos esperam a noite para sufocá-lo, presas na garganta, você tenta reagir, procura o crachá, a carteira, usar o celular, despertar sua esposa, mas ela não está lá. Depois de matá-lo, o animal o arrasta para o devorar entre os galhos da mangueira. O som não é de frutos caindo. O leopardo não precisa do Natal; se acreditasse, sentiria-se como uma criança abrindo o presente sob a árvore.

A presa era indigesta, o leopardo sente-se desconfortável, ofega, as moscas rodeiam a boca e os olhos. O bicho mal consegue sustentar sua barriga. Pesado, decide dormir na cama de sua vítima. A mulher retorna da casa do amante ou da mãe. Está irritada: ou o amante não fora eficiente ou a presença sufocante dos parentes a fez sentir enjaulada. Está escuro, e o leopardo ainda tem o cheiro do marido. Confunde o zumbir das varejeiras com o ronco do sono. Pobrezinho, tão cansado. Despe-se e deita junto a ele.

A mulher convence o leopardo que precisam comprar uma cadela para substituir a outra. É preciso pensar no filho que ainda virá.









(Turn (2008): Quadro do finlandês Samuli Heimonen.)

Telegrama

Banksy vs Tarantino
(ou Era uma vez numa Londres vigiada por câmeras de segurança por todos os lados)


a)


Se você admira grafites, já deve ter ouvido falar em Banksy, artista e grafiteiro inglês. No "Rosebud é o Trenó", tem uma análise rápida sobre ele. Bráulio Tavares também o admira e gostou da espinafrada que ele deu em Paris Hilton. O seu verbete da Wikipedia inglesa parece ser digno. Não é difícil encontrar imagens pela Internet de seu trabalho.

O cara está fazendo um filme chamado "Exit Through The Gift Shop" (Saída através da Lojinha, Provavelmente uma referência ao fato que nos Parques de Diversão dos EUA - talvez em outros locais também, eu não sei - toda saída de brinquedo terá necessariamente uma "Lojinha" de lembranças...) . A estreia será este ano: detalhes (em português) AQUI.

Nem acho o grafite de Pulp Fiction tão interessante assim: existem grafites muito melhores e contundentes... Mas Tarantino conhece a imagem, conforme podemos ver AQUI.


b)

Durante algum tempo, Banksy fez vários e vários grafites com Ratos como tema principal: Ratos de óculos, Ratos de para-quedas, Ratos pichando, Ratos serrando a calçada, Ratos de britadeira, Ratos chiques, Ratos de guarda-chuva... Eis o que Banksy disse sobre os ratos:

"They exist without permission. They are hated, hunted and persecuted. They live in quiet desperation amongst the filth. And yet they are capable of bringing entire civilisations to their knees. If you are dirty, insignificant and unloved then the rats are the ultimate role model."

Livro "Banksy - Wall and Piece", editora Century, 2006, pg 95

Pareceu familiar? Você assistiu a "Bastardos Inglórios"? Lembra-se da primeira parte "Era uma vez na França dominada pela Alemanha Nazista" do discurso do nazista Coronel Hans Landa (interpretado por Cristoph Waltz) e a sua "comparação" entre os judeus e os ratos?

Achados



a)Desconectado

Um artigo da PopScience conta a história de um homem em Estocolmo (Suécia) que vive em um lugar ermo, isolado na floresta. Motivo? Ele sofreria de uma hipersensibilidade alérgica a ondas de rádio (EHS: Electro-hypersensitivity): violentas reações fisiológicas ao sentir a influência de ondas eletromagnéticas emitidas por aparelhos tecnológicos comuns, como celulares, computadores, televisores... Para evitar problemas, as fotos do homem presentes na matéria foram tiradas com filme de rolo, a luz do dia...

Entretanto, como observaram os comentaristas, há que considerar alguns detalhes:
não se falou em algum estudo que confirme sua doença... Um dos leitores lembrou que as florestas nevadas são ambientes repletos de energia estática (graças à baixa umidade provocada pelo congelamento): ele não deveria sofrer também na floresta devido a esta "sensibilidade elétrica"? Outro mais ponderado levantou a hipótese de auto-sugestão e outro mais agressivo sugeriu que o homem fazia isto para receber benefícios sociais do governo...

Curiosamente, o autor do artigo se apressou em afirmar que os estudos que relacionam câncer e o uso de celulares são inconclusivos; a metodologia de estudos que encontraram ligações costuma ser colocada em cheque...

O que deu um "ar de propaganda institucional" a partes do artigo... O que certamente deve ter gerado tanta polêmica entre os leitores...

(Ao final do artigo, especialistas citaram cuidados preventivos no uso de celulares... um deles, por exemplo, aconselhou às crianças que usem celulares mais para torpedos do que para telefonar... evitando que as ondas eletromagnéticas atravessem o cérebro...)


b)Casulos

-Segundo outro artigo da Pop Science, em 12 de janeiro, pela primeira vez, borboletas saíram do casulo dentro da Estação Espacial Internacional, em gravidade zero. Foram duas só (pela foto deviam ser centenas) que conseguiram sair da fase larval, desenvolver casulos e nascerem como borboletas. Não se sabe (Ou não se sabia àquela altura, mas não encontrei notícia recente sobre o assunto, o que deve ser mal sinal) se elas conseguiriam desenvolver asas direito e voar - até onde sei as asas dependem da gravidade para desenrolar.

c)Roteiro para HQ, com Octavio Cariello

Se não fosse por Octavio Cariello, provavelmente jamais levaria muito a sério este negócio de escrever... Ele já atuou nas grandes editoras de quadrinhos do mundo e neste curso ele apresentará a estrutura do roteiro para HQs permitindo aos interessados, desenhistas ou não, possam dominar este gênero que vem ganhando cada vez mais mercado no Brasil. Entre os assuntos abordados estão: criação de personagens, elaboração de universos, elementos das narrativas gráficas, elaboração de projetos, entre outros.

O curso tem duração de 4 meses, e tem início em 20 de Março (turma do sábado) e 22 de Março (turma da quarta). Será realizado no Espaço Terracota, que fica na Av. Lins de Vasconcelos, 1886 - Aclimação - São Paulo.

Matrículas e dúvidas: MAIS DETALHES AQUI.



(Imagem: Geospaces do alemão Hubert Blanz. Postagem que já saiu de forma mais sucinta no Projeto Portal e - parcialmente - no Encaixe-se...)

segunda-feira, 1 de março de 2010

Telegrama



Caça à raposa

(João Bosco)

O olhar dos cães, a mão nas rédeas
E o verde da floresta
Dentes brancos, cães
A trompa ao longe, o riso
Os cães, a mão na testa
O olhar procura, antecipa
A dor no coração vermelho
Senhorita, seus anéis,
corcéis e a dor no coração vermelho.
O rebenque estala, um leque aponta: foi por lá...

um olhar de cão, as mãos são pernas
E o verde da floresta
Oh, manhã entre manhãs
A trompa em cima, os cães
Nenhuma fresta
O olhar se fecha, uma lembrança
Afaga o coração vermelho
Uma cabeleira sobre o feno
Afoga o coração vermelho
Montarias freiam, dentes brancos: terminou...

Línguas rubras dos amantes
Sonhos sempre incandescentes
Recomeçam desde instantes
Que os julgamos mais ausentes
Ah! recomeçar, recomeçar
Como canções e epidemias
Ah! recomeçar como as colheitas
Como a lua e a covardia
Ah! recomeçar como a paixão
E o fogo, e o fogo...



( fonte imagem: Darla Teagarden´s Tales of blood and glitter. A versão original do próprio Bosco está AQUI)

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Achado




a)HAISU



"Coisas do Arco da Velha" é, como o próprio nome sugere, um compêndio de tudo que é tipo de velharia que se pode imaginar. O estilo é "fale pouco". Mas é muito bom e bem selecionado. Foi a partir de lá que encontrei outro filme tranqueira japonês, talvez o rei de todas as tranqueiras cinematográficas: um filme chamado Haisu, feito em 1977. O clipe que está no Coisas não dá ideia do que se trata o filme... O que me fez escarafunchar no You Tube. Percebe-se que, bem, a intenção é que seja uma história de terror.

Sete meninas viajam de férias para uma casa no interior, onde ela literalmente adquire vida e as devora uma a uma. É sério: tem desde um piano que literalmente mastiga uma garota em pedacinhos até um lustre assassino... Fora um gato com um olhar "maligno" e uma cabeça que morde a bunda de outra garota... Tudo regado a litros e mais litros de sangue. Foi o filme de estreia do diretor Nobuhiko Obayashi que veio do mundo dos comerciais de TV... Aparentemente ele resolveu jogar todo tipo de efeito disponível na época... O que dizer dos dedinhos amputados sobre o teclado? Mas não são só as cenas horríveis que são pavorosas... O início do filme também é todo maluco (psicodélico me parece pouco para descrever), conforme prova estas cenas iniciais... O que aquele pônei faz ali, meu Deus do céu???

Dá a impressão que o diretor quis se vingar de todos aqueles anos fazendo comerciais... Talvez faça sentido, baseado no que li a respeito em algumas críticas/resenhas (são raras) que encontrei em inglês.


b)Quem eram aqueles caras?

"If Charlie Parker Was a Gunslinger, There'd Be a Whole Lot of Dead Copycats" é o título quilométrico de um blog que também se especializou em trazer coisas do arco da velha, como o próprio "Coisas do Arco da Velha". Prefiro o "Coisas" que o "If Charlie Parker", que é voltado demais para as coisas próprias dos norte-americanos (Ainda que apareçam ocasionalmente uns outros).

Mas há uma sessão do "If Charlie Parker" bem interessante: várias e várias vezes você deve ter assistido em desenhos animados, personagens humanos caricaturais, dos quais você não tem ideia de quem seriam. O marcador "Ink and Paint Sets" diz para você quem eram os caras retratados: Greta Garbo, Bing Crosby, Fred Astaire, os Irmãos Marx, etc.

Dá só uma espiada: clica AQUI

c)Humprey Bogart já encontrou Pernalonga

Lembro de um: Em um desenho do Pernalonga, volta e meia, aparecia um personagem todo vestido de branco que pedia uma moeda dizendo: "Tem uma moeda para um compatriota?" Dias depois assisti ao "Tesouro de Sierra Madre", baseado em história do misterioso B.Traven, com Humprey Bogart... E acontecia exatamente a mesma cena.


d)Anais do Crime e Uma História Ilustrada do Vício

Outras sessões bastante interessantes do mesmo blog (uma vez que conta com alguma descrição).

e)Lost Art: Obras de arte destruídas ou consideradas perdidas.

A imagem acima é do quadro "Centauro e Ninfa", de Franz Stuck(1863-1928), destruído durante o bombardeio aliado de Dresden (via Coisas do Arco da Velha). Sobre o bombardeio: recomendo livros Matadouro 5, de Kurt Vonnegut e Homens do Fim do Mundo, de P.D.Smith (que pensa o bombardeio aliado como uma espécie de preparação "amoral" para o de Hiroshima)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Telegrama







Fatos e Ficções




Em uma certa enciclopédia chinesa que se intitula Empório Celestial de Conhecimento Benevolente, está escrito, em suas remotas páginas, que os animais se dividem em:

a) pertencentes ao imperador; b) embalsamados; c) domesticados; d) leitões; e) sereias; f) fabulosos; g) cães em liberdade; h) incluídos na presente classificação; i) que se agitam como loucos; j) inumeráveis; k) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo; l) et cetera; m) que acabam de quebrar a bilha;n) que de longe parecem moscas.


(Jorge Luís Borges: história citada em diversos ensaios e livros poraí. Por exemplo, está no prefácio de um livro de Michel Foucault,
As Palavras e as Coisas - Uma Arqueologia das Ciências Humanas)

"
...Encontramos em muitas línguas classificadores numéricos, encarregados de fornecer ma informação qualitativa sobre os objetos inventariados: a palavra designando o número será marcada diferentemente (graças, por exemplo, a um jogo de sufixos e afixos) de acordo com a classe à qual ele se refere.
O maori conhece assim duas classes, conforme se conta humanos ou não. Mas algumas línguas têm várias dezenas de classificadores numerais; assim a língua dioi (Sul da China) possui pelo menos 55, entre os quais apresentamos algumas das classes correspondentes: a)dívidas, créditos, contabilidade; b)montanhas, muros, territórios; c)cachimbos de ópio, apitos, etc; d) arrozais; e) roupas, cobertores; f)poções, medicamentos; g)espíritos, homens, trabalhadores, ladrões; h)meninas, mulheres jovens; i) estradas, rios e cordas; j)crianças, moedinhas e pedrinhas; k)pares de coisas... etc etc etc - Enfim uma lista bastante superior `aquela, fictícia, evocada por Borges e retomada por Foucault.
(...) Pelo menos, não é necessário inculcar nas crianças que a adição só faz sentido para objetos de mesma natureza: o próprio idioma não permite somar maçãs e peras (e bolinhas de gude).
"

(Jean-Marc Levy Leblond, extraído de "A Velocidade da Sombra - Nos Limites da Ciência")





(imagens Uma garrafa de Klein: o equivalente em termos "garrafais" da Faixa de Moebius, isto é um objeto cuja superfície do lado interno é contínua em relação ao lado externo. Explicações AQUI... Criada por Alain Bennett... Via Museucrack )

sábado, 20 de fevereiro de 2010

eucalipto








Então foi assim: era começo de noite, e o boteco enchendo, mas ainda devagar, tranquilo.Era aquela conversa miúda besta, e daí um de nós arregalou os olhos, paramos de falar, e ela entrou rindo em meio às outras cinco. Todas prestavam, mas aquela era uma rainha, uma modelo desfilando, nem olhou pro lado, nem reparou em nós ou em ninguém, foram direto para os fundos, o som de seu riso sumia no burburinho. Um de nós assobiou, o segundo uivou e o terceiro declamou, não sei se sábio, se poeta, se bêbado: meninas alegres de vestido feito fadas. Enquanto mandavam este calar a boca, levantei-me para ir ao banheiro. Lá estavam elas, as fadas ao redor da mesa, pétalas de uma flor. Devia ser reserva, conheciam os garçons pelo nome, frequentariam direto o lugar. Voltei para onde estava o resto da galera, todos comentavam, planejavam a divisão de butim: esta é minha, aquela é sua, tem uma pra cada, mas alguns querem duas... O de melhor lábia arrastou o mais bonito, nós continuamos na mesa, bebendo cerveja, esperando o provolone: o excesso de homens ao redor espanta as meninas. Devíamos esperar como se sairiam os dois. Logo o mais bonito dançava um samba com uma delas, a segunda melhor em minha opinião, certamente a primeira para ele. O Melhor Lábia se reaproximou e sugeriu que todos nos juntássemos numa única mesa com um “tá liberado”.


Cerveja vai, cerveja vem, falávamos alto, quase não nos escutávamos. Cigarros se acenderam, nossos petiscos e garrafas vieram conosco, alguém derrubou o copo, usávamos guardanapos para absorver o líquido borbulhante sobre a mesa de plástico. Risadas, piadas, joguinhos bobos com saleiros e paliteiros, procurávamos pontos em comum. Elas adivinharam que éramos de outras quebradas, bem para lá da Avenida nova, conheciam bem a galera do bairro. Eram irmãs, a mais nova mal tinha dezesseis, deveria estar em casa, mas elas nos explicaram: os pais viajaram e elas queriam aproveitar a balada.


Fiquei longe da melhor: ela no outro lado da mesa e o de Melhor Lábia fazendo gracinhas com as quais não podia competir, nem dava para chegar perto: no xaveco com a mulherada, não tinha para ninguém; ele era imbatível. Dancei com outra, esbocei interesse, não queria ficar para trás quando todos se arranjassem. Ela me respondeu séria, olhos nos olhos. Não ouvi direito, fazia muito barulho, ela então aproximou seu corpo do meu, encostou sua cabeça em meu pescoço, seus lábios roçaram em meus lóbulos: Você devia falar isto para minha irmã. Com os olhos a procurei, lá estava sentada na mesa, mirando-me, alheia a conversa do outro. Desacreditei.


Continuamos embalados, bebendo muito, elas também, o Bonitão já trocava uns beijos com a mais nova. Elas vieram com a ideia de continuar a festa na casa delas, ninguém foi contra, quem seria o louco? Pagamos e saímos, lembro de ter observado que o homem do caixa era familiar, a garota que me deu o toque da irmã fez um gracejo qualquer e acabaria me esquecendo disto.


Nossos carros circularam pelas ruas do bairro, o delas na frente, o nosso atrás. Cada vez que freavam, as lanternas traseiras iluminavam o interior de nosso veículo e a gente ficava com a cara toda vermelha, feito uns exus. Estávamos no maior aperto, mas a que eu queria – infelizmente – estava no outro carro. A garota que me deu o toque encostou seu rosto no meu, na pretensão de beijar, eu hesitei, ela então me disse, fique tranqüilo, ela não está vendo, achei muita putaria fazer isto com a irmã, mas quem sou para me meter em assuntos de família? Beijei-a e soube que ela sabia beijar, senti um hálito gelado de eucalipto, era o drope que chupava. Se eu tivesse reparado, perceberia que ela catou o Hall´s preto enquanto eu pagava minha parte lá no bar.


Paramos o carro, elas pediram para baixar o som para não despertar o caçula. Deixariam colocar o carro em sua garagem, os pais viajavam. Descemos do carro antes disso, seria mais fácil, dentro o espaço era estreito. O motorista sofria para entrar com o veículo e eu observava a altura elevada dos muros que terminavam em cacos de garrafas e dei de cara com uma lua gorda e bonita, uma auréola a circundava. Mais próximo de nós, um emaranhado de gambiarras e fiação dos postes e transformadores formava uma teia sobre nossas cabeças, uma rabiola de pipa crepitava sob a brisa fria da madrugada que se aproximava. Aquela que me beijou se aproximou novamente, vamos ficar aqui fora enquanto eles vão para dentro. Só então que eu percebi que rolava um joguinho, aquelas intriguinhas entre mulheres. Pensei até em aceitar, a minha não era tão bonita, mas parecia legal, só que então a outra surgiu do nada, me puxou pelo braço, vamos lá, tem mais cerveja lá em casa e faltou a vontade para recusar. Fui no embalo.

Pediram para continuar em silêncio, seguiríamos para o fundo da casa, onde havia um quartinho sossegado, sem perigo de acordar vizinhos ou o irmão caçula. Não acenderam as luzes, imaginamos ser pelo mesmo motivo, então enfileiramo-nos no corredor estreito, alguém chutou um vaso, outro comentou que a casa comprida e estreita lembrava um trenzinho, outro comparou a residência com uma cobra, ríamos baixinho, aquela que eu queria apertava-me firme no braço, seria ciúmes da irmã? Senti vaidade, enquanto abaixávamos para cruzar a fileira de varais, onde esqueceram pendurado um trapo úmido. O corredor do quintal se estreitava mais até não passar mais a luz da lua. Ouvimos um abrir de portão; elas disseram, esperem um pouco, já chegaremos com a cerveja. A minha soltou-me o braço e me largou no escuro. Um de nós se ofereceu para ajudar a carregar, eu não, não queria fazer força, mas daí escutamos um novo ranger e um barulho de corrente e aí já era tarde.

Demoravam. O Bonitão tropeçou em uma mangueira de borracha. Os outros riram e sentaram-se. O bêbado criticou o fato delas saírem e deixarem o irmão menor sozinho em casa. Alguém reclamou do cheiro de cachorro molhado. Mas havia outro fedor além desse, um pouco mais longe na escuridão, feito lixo de açougue; se fosse calor do dia, estaria aquele frenesi de varejeiras. Eu já não sei se notei algo errado, mas decidi sacar meu celular para iluminar o portão. Vi então o cadeado trancado. Escutamos então um rugido constante e os demais também pegaram seus celulares, quem fumava acendeu seu isqueiro, estava lá a criatura, cabelos, pelos, dentes e olhos brilhando sob nossas luzes pálidas, um pouco antes de nos atacar. Se tivéssemos reparado, perceberíamos que eram seis irmãs e o caçula era o sétimo, e que aquela era uma sexta feira da paixão. E então foi assim que morremos, eu ainda com um drope na boca.












(Pintura: "A Família" (1988) da portuguesa Paula Rego)

Onirogrito





"
Mais ensino


Meu pai tem a frase seca, que mal e mal vou ao fundo

-A idade faz velhos não faz sábios.

"
Trecho de Dedo-duro, livro de João Antônio (Cosac & Naify)







Faz um ano que comecei a postar no blogue. Foi por muita insistência. Eu ainda tenho vontade de parar. Obrigado a quem acompanha. Segue um vídeo que me fez sentir 10 anos mais novo... Não é o clipe oficial da música Flagpole Sitta... É um pessoal que trabalha numa empresa norte-americana chamada Connected Ventures. Também quero mandar meu CV pra lá.


Lip Dub - Flagpole Sitta by Harvey Danger from amandalynferri on Vimeo.



Abraços.

Achados




Um post automobilístico: não, eu não gosto de carros, mal sei a diferença entre acelerador e freio, sou barbeiro, desconheço as manhas de fazer baliza e só dei cavalo-de-pau sem querer, não consigo diferenciar um fusca de um gordini.
Por outro lado, como qualquer menino, tive meus carrinhos de ferro, criava pistas e rampas para praticar "saltos", gostava de Speed Racer, e assistia a muitos filmes e seriados do final dos 70 e da década 80 recheados de perseguições (como os Dukes de Hazard - traduzidos escabrosamente como "Os Gatões" -, Duro na Queda, Super Máquina, etc).

1)Perseguições cinematográficas dos anos 70
O blog RideLust escolheu as 10 melhores perseguições dos anos 70. A primeira, do Vanishing Point foi desapontadora para mim... Mas as demais valeram, especialmente a 8) Blazing Magnum (1976): me lembrou aquelas provas de Rally de Demolição. Bom para relembrar de um tempo sem trânsito ou engarrafamentos... A perseguição com John Wayne na direção foi curiosa foi divertida

Via Neatorama

2)Outras perseguições:

2.a) Bullit, com Steve McQueen: perseguição nas ruas de São Francisco (O filme é de 68 e por isto ficou de fora da lista acima)

Bullit ficou de fora da lista anterior: o filme de Steve McQueen é de 1968.

2.b)To live and die in L.A. (1985): parte 1 e parte 2 ou aqui em um link único. Na contramão.

2.c)Ronin (1998)

3)Catálogo de 1969 de carrinhos matchbox;

Via Atomic Antiques

4)Autobol.

Autobol, não Autobots. A primeira vez que ouvi falar neste esporte foi no livro "Futebol - O Brasil em Campo", do inglês Alex Bellos (Jorge Zahar Editora). O livro varre o Brasil (e alguns outros lugares, como as gélidas Ilhas Faroe) em busca de tudo de mais peculiar sobre o nosso futebol e como ele mexe com a cabeça do brasileiro. Tanto é que o título original do livro é "Futebol: The Brazilian Way of Life"; Muito bom.

No início dos anos 70, um bando de ricaços cariocas se digladiava em campos cuja grama seria trocada em carros jogando futebol com uma bola enorme. Uma mistura de rally de destruição e futebol. Segue abaixo um trecho do livro, quando foi questionado qual o pior acidente em jogo a Ivan Sant´Anna (o escritor) e Mario Bucich (os mesmo que estão neste vídeo descrevendo e relembrando o Autobol, e ainda com imagens de lances das partidas):

"
"Foi o cara cujo carro explodiu?", pegunta Ivan.
Mario sacode a cabeça: "Não. Foi quando um espectador estava onde não devia, logo atrás da linha lateral, mais ou menos um metro abaixo do nível de campo. Um piloto perdeu o controle, rodou em círculos e aterrissou no peito do cara. Mas acho que ele quebrou só um braço, não foi?"

Ivan concorda: "Um braço, uma clavícula. Foi isso. O piloto foi processado. Houve uma ação na Justiça. Atropelar alguém é crime - mesmo se acontecer como parte de um evento esportivo. Demorou cinco anos para ser julgado."
"

5)Carros ridículos

Via Neatorama

6)Imagem: Como desenhar um Dodge 1969, passo a passo. Via Dragonart

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Telegrama




o homem deu nome a todos animais
desde o início, desde início
o homem deu nome a todos animais
desde o início, há muito tempo atrás

viu um animal com tal poder
garras afiadas e um porte
quando rugia, tremia o chão
disse com razão: chamar-se-á leão

o homem deu nome a todos animais
desde o início, desde o início
o homem deu nome a todos animais
desde o início, há muito tempo atrás

viu um animal que era tão manso
puro, lindo, nenhum mal fará
mas seu predador, que não é bobo
vou chamar de lobo e sempre o caçará
era a ovelha

o homem deu nome a todos animais
desde o início, desde o início
o homem deu nome a todos os animais
desde o início, há muito tempo atrás

viu outro animal se alimentar
no peito da mãe, seu leite a sugar
viu que aquela fêmea não é fraca
d'outras se destaca e a chamou de vaca

o homem deu nome a todos animais
desde o início, desde o início
o homem deu nome a todos os animais
desde o início, há muito tempo atrás

viu uma criatura se arrastando
no chão, sibilando lentamente
só não percebeu foi o veneno
dentro de seu dente



* * *


(Versão de Zé Ramalho para a música de Bob Dylan "Man Gave Names to All Animals" e regravada pela Adriana Partimpim 2. ZR JM TO
Imagem "?" encontrada no Haw-Lin. Talvez tenha algo a ver com o livro Animal Logic do fotógrafo Richard Barnes que tirou várias fotos de dioramas e exposições com animais em museus norte-americanos: detalhes aqui. Via Neatorama)

Telegrama




Sistema Solar de Licoti (http://licoti.deviantart.com)
(Via Warren Ellis)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

ultravioleta








A fada acorda e recusa-se a despertar. Devia se espreguiçar, abrir os braços, respirar fundo, esticar as pernas, sentir o mundo com os pés... Não dá. Sono pesado demais. Então se aninha mais sob a coberta e enterra a cabeça em si mesma, para impedir a luz de se infiltrar sob as pálpebras. Tenta continuar a dormir, sonhar talvez, mas o som do bosque não deixa. Cigarras. Zumbido de zangões transitando entre anteras e nectários. Sinal de manhã quase madura, o sol pinicando a pele de quem se submete a sair nu sobre o dia. Mas ela está ali, protegida, um nenê em meio ao enxoval. Murmúrio de riacho perto. Tapete de limo nas pedras. Um avião mudo passando lá em cima. A fada sente um pouco de sede, mas ainda não quer se levantar. Deveria ter ido dormir perto do rio, ou sobre as folhas, aproveitaria para beber o orvalho. Ela tenta recordar como viera parar ali, naquele aconchego. Conclusão: acabara de se fechar na crisálida e agora só faltava nascer. Seria sair, rebentar aquela seda e se pendurar no abismo. Então esperar secar as asas, abrí-las, deixá-las na brisa. Ela sairia pelo bosque, pousando entre as flores, procurando as irmãs. Cantoria de passaredo. Brilho metálico dos colibris. Entretanto o não-nascimento implicaria no não-conhecimento do mundo. Tudo seria instinto, inocência ou ignorância. Desconheceria o dia ou a noite, ou os chamados dos insetos, ou os rastros dos jatos no azul ou o odor doce da primavera. Entre as fadas, não se fala em ressuretos ou em reencarnações. Só se conjuga o tempo presente. A fada espera o momento de arrebentar a crisálida. Mas é só delírio: ela não conseguirá. Pois ali, entre os elos e nós das teias, a fada está presa no casulo no veneno no sono de viver.









(via bibliodissey: E.A. Séguy - 1. Delias neagra. Nouvelle Guinée; 2. Catagramma kolyma. Amazone; 3. Dichorragia nesimachus. Sikkim; 4. Elymnias malelas. Inde; 5. Eulepis eudamippus. Indo Malaisie)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010