domingo, 28 de fevereiro de 2010

Achado




a)HAISU



"Coisas do Arco da Velha" é, como o próprio nome sugere, um compêndio de tudo que é tipo de velharia que se pode imaginar. O estilo é "fale pouco". Mas é muito bom e bem selecionado. Foi a partir de lá que encontrei outro filme tranqueira japonês, talvez o rei de todas as tranqueiras cinematográficas: um filme chamado Haisu, feito em 1977. O clipe que está no Coisas não dá ideia do que se trata o filme... O que me fez escarafunchar no You Tube. Percebe-se que, bem, a intenção é que seja uma história de terror.

Sete meninas viajam de férias para uma casa no interior, onde ela literalmente adquire vida e as devora uma a uma. É sério: tem desde um piano que literalmente mastiga uma garota em pedacinhos até um lustre assassino... Fora um gato com um olhar "maligno" e uma cabeça que morde a bunda de outra garota... Tudo regado a litros e mais litros de sangue. Foi o filme de estreia do diretor Nobuhiko Obayashi que veio do mundo dos comerciais de TV... Aparentemente ele resolveu jogar todo tipo de efeito disponível na época... O que dizer dos dedinhos amputados sobre o teclado? Mas não são só as cenas horríveis que são pavorosas... O início do filme também é todo maluco (psicodélico me parece pouco para descrever), conforme prova estas cenas iniciais... O que aquele pônei faz ali, meu Deus do céu???

Dá a impressão que o diretor quis se vingar de todos aqueles anos fazendo comerciais... Talvez faça sentido, baseado no que li a respeito em algumas críticas/resenhas (são raras) que encontrei em inglês.


b)Quem eram aqueles caras?

"If Charlie Parker Was a Gunslinger, There'd Be a Whole Lot of Dead Copycats" é o título quilométrico de um blog que também se especializou em trazer coisas do arco da velha, como o próprio "Coisas do Arco da Velha". Prefiro o "Coisas" que o "If Charlie Parker", que é voltado demais para as coisas próprias dos norte-americanos (Ainda que apareçam ocasionalmente uns outros).

Mas há uma sessão do "If Charlie Parker" bem interessante: várias e várias vezes você deve ter assistido em desenhos animados, personagens humanos caricaturais, dos quais você não tem ideia de quem seriam. O marcador "Ink and Paint Sets" diz para você quem eram os caras retratados: Greta Garbo, Bing Crosby, Fred Astaire, os Irmãos Marx, etc.

Dá só uma espiada: clica AQUI

c)Humprey Bogart já encontrou Pernalonga

Lembro de um: Em um desenho do Pernalonga, volta e meia, aparecia um personagem todo vestido de branco que pedia uma moeda dizendo: "Tem uma moeda para um compatriota?" Dias depois assisti ao "Tesouro de Sierra Madre", baseado em história do misterioso B.Traven, com Humprey Bogart... E acontecia exatamente a mesma cena.


d)Anais do Crime e Uma História Ilustrada do Vício

Outras sessões bastante interessantes do mesmo blog (uma vez que conta com alguma descrição).

e)Lost Art: Obras de arte destruídas ou consideradas perdidas.

A imagem acima é do quadro "Centauro e Ninfa", de Franz Stuck(1863-1928), destruído durante o bombardeio aliado de Dresden (via Coisas do Arco da Velha). Sobre o bombardeio: recomendo livros Matadouro 5, de Kurt Vonnegut e Homens do Fim do Mundo, de P.D.Smith (que pensa o bombardeio aliado como uma espécie de preparação "amoral" para o de Hiroshima)

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Telegrama







Fatos e Ficções




Em uma certa enciclopédia chinesa que se intitula Empório Celestial de Conhecimento Benevolente, está escrito, em suas remotas páginas, que os animais se dividem em:

a) pertencentes ao imperador; b) embalsamados; c) domesticados; d) leitões; e) sereias; f) fabulosos; g) cães em liberdade; h) incluídos na presente classificação; i) que se agitam como loucos; j) inumeráveis; k) desenhados com um pincel muito fino de pêlo de camelo; l) et cetera; m) que acabam de quebrar a bilha;n) que de longe parecem moscas.


(Jorge Luís Borges: história citada em diversos ensaios e livros poraí. Por exemplo, está no prefácio de um livro de Michel Foucault,
As Palavras e as Coisas - Uma Arqueologia das Ciências Humanas)

"
...Encontramos em muitas línguas classificadores numéricos, encarregados de fornecer ma informação qualitativa sobre os objetos inventariados: a palavra designando o número será marcada diferentemente (graças, por exemplo, a um jogo de sufixos e afixos) de acordo com a classe à qual ele se refere.
O maori conhece assim duas classes, conforme se conta humanos ou não. Mas algumas línguas têm várias dezenas de classificadores numerais; assim a língua dioi (Sul da China) possui pelo menos 55, entre os quais apresentamos algumas das classes correspondentes: a)dívidas, créditos, contabilidade; b)montanhas, muros, territórios; c)cachimbos de ópio, apitos, etc; d) arrozais; e) roupas, cobertores; f)poções, medicamentos; g)espíritos, homens, trabalhadores, ladrões; h)meninas, mulheres jovens; i) estradas, rios e cordas; j)crianças, moedinhas e pedrinhas; k)pares de coisas... etc etc etc - Enfim uma lista bastante superior `aquela, fictícia, evocada por Borges e retomada por Foucault.
(...) Pelo menos, não é necessário inculcar nas crianças que a adição só faz sentido para objetos de mesma natureza: o próprio idioma não permite somar maçãs e peras (e bolinhas de gude).
"

(Jean-Marc Levy Leblond, extraído de "A Velocidade da Sombra - Nos Limites da Ciência")





(imagens Uma garrafa de Klein: o equivalente em termos "garrafais" da Faixa de Moebius, isto é um objeto cuja superfície do lado interno é contínua em relação ao lado externo. Explicações AQUI... Criada por Alain Bennett... Via Museucrack )

sábado, 20 de fevereiro de 2010

eucalipto








Então foi assim: era começo de noite, e o boteco enchendo, mas ainda devagar, tranquilo.Era aquela conversa miúda besta, e daí um de nós arregalou os olhos, paramos de falar, e ela entrou rindo em meio às outras cinco. Todas prestavam, mas aquela era uma rainha, uma modelo desfilando, nem olhou pro lado, nem reparou em nós ou em ninguém, foram direto para os fundos, o som de seu riso sumia no burburinho. Um de nós assobiou, o segundo uivou e o terceiro declamou, não sei se sábio, se poeta, se bêbado: meninas alegres de vestido feito fadas. Enquanto mandavam este calar a boca, levantei-me para ir ao banheiro. Lá estavam elas, as fadas ao redor da mesa, pétalas de uma flor. Devia ser reserva, conheciam os garçons pelo nome, frequentariam direto o lugar. Voltei para onde estava o resto da galera, todos comentavam, planejavam a divisão de butim: esta é minha, aquela é sua, tem uma pra cada, mas alguns querem duas... O de melhor lábia arrastou o mais bonito, nós continuamos na mesa, bebendo cerveja, esperando o provolone: o excesso de homens ao redor espanta as meninas. Devíamos esperar como se sairiam os dois. Logo o mais bonito dançava um samba com uma delas, a segunda melhor em minha opinião, certamente a primeira para ele. O Melhor Lábia se reaproximou e sugeriu que todos nos juntássemos numa única mesa com um “tá liberado”.


Cerveja vai, cerveja vem, falávamos alto, quase não nos escutávamos. Cigarros se acenderam, nossos petiscos e garrafas vieram conosco, alguém derrubou o copo, usávamos guardanapos para absorver o líquido borbulhante sobre a mesa de plástico. Risadas, piadas, joguinhos bobos com saleiros e paliteiros, procurávamos pontos em comum. Elas adivinharam que éramos de outras quebradas, bem para lá da Avenida nova, conheciam bem a galera do bairro. Eram irmãs, a mais nova mal tinha dezesseis, deveria estar em casa, mas elas nos explicaram: os pais viajaram e elas queriam aproveitar a balada.


Fiquei longe da melhor: ela no outro lado da mesa e o de Melhor Lábia fazendo gracinhas com as quais não podia competir, nem dava para chegar perto: no xaveco com a mulherada, não tinha para ninguém; ele era imbatível. Dancei com outra, esbocei interesse, não queria ficar para trás quando todos se arranjassem. Ela me respondeu séria, olhos nos olhos. Não ouvi direito, fazia muito barulho, ela então aproximou seu corpo do meu, encostou sua cabeça em meu pescoço, seus lábios roçaram em meus lóbulos: Você devia falar isto para minha irmã. Com os olhos a procurei, lá estava sentada na mesa, mirando-me, alheia a conversa do outro. Desacreditei.


Continuamos embalados, bebendo muito, elas também, o Bonitão já trocava uns beijos com a mais nova. Elas vieram com a ideia de continuar a festa na casa delas, ninguém foi contra, quem seria o louco? Pagamos e saímos, lembro de ter observado que o homem do caixa era familiar, a garota que me deu o toque da irmã fez um gracejo qualquer e acabaria me esquecendo disto.


Nossos carros circularam pelas ruas do bairro, o delas na frente, o nosso atrás. Cada vez que freavam, as lanternas traseiras iluminavam o interior de nosso veículo e a gente ficava com a cara toda vermelha, feito uns exus. Estávamos no maior aperto, mas a que eu queria – infelizmente – estava no outro carro. A garota que me deu o toque encostou seu rosto no meu, na pretensão de beijar, eu hesitei, ela então me disse, fique tranqüilo, ela não está vendo, achei muita putaria fazer isto com a irmã, mas quem sou para me meter em assuntos de família? Beijei-a e soube que ela sabia beijar, senti um hálito gelado de eucalipto, era o drope que chupava. Se eu tivesse reparado, perceberia que ela catou o Hall´s preto enquanto eu pagava minha parte lá no bar.


Paramos o carro, elas pediram para baixar o som para não despertar o caçula. Deixariam colocar o carro em sua garagem, os pais viajavam. Descemos do carro antes disso, seria mais fácil, dentro o espaço era estreito. O motorista sofria para entrar com o veículo e eu observava a altura elevada dos muros que terminavam em cacos de garrafas e dei de cara com uma lua gorda e bonita, uma auréola a circundava. Mais próximo de nós, um emaranhado de gambiarras e fiação dos postes e transformadores formava uma teia sobre nossas cabeças, uma rabiola de pipa crepitava sob a brisa fria da madrugada que se aproximava. Aquela que me beijou se aproximou novamente, vamos ficar aqui fora enquanto eles vão para dentro. Só então que eu percebi que rolava um joguinho, aquelas intriguinhas entre mulheres. Pensei até em aceitar, a minha não era tão bonita, mas parecia legal, só que então a outra surgiu do nada, me puxou pelo braço, vamos lá, tem mais cerveja lá em casa e faltou a vontade para recusar. Fui no embalo.

Pediram para continuar em silêncio, seguiríamos para o fundo da casa, onde havia um quartinho sossegado, sem perigo de acordar vizinhos ou o irmão caçula. Não acenderam as luzes, imaginamos ser pelo mesmo motivo, então enfileiramo-nos no corredor estreito, alguém chutou um vaso, outro comentou que a casa comprida e estreita lembrava um trenzinho, outro comparou a residência com uma cobra, ríamos baixinho, aquela que eu queria apertava-me firme no braço, seria ciúmes da irmã? Senti vaidade, enquanto abaixávamos para cruzar a fileira de varais, onde esqueceram pendurado um trapo úmido. O corredor do quintal se estreitava mais até não passar mais a luz da lua. Ouvimos um abrir de portão; elas disseram, esperem um pouco, já chegaremos com a cerveja. A minha soltou-me o braço e me largou no escuro. Um de nós se ofereceu para ajudar a carregar, eu não, não queria fazer força, mas daí escutamos um novo ranger e um barulho de corrente e aí já era tarde.

Demoravam. O Bonitão tropeçou em uma mangueira de borracha. Os outros riram e sentaram-se. O bêbado criticou o fato delas saírem e deixarem o irmão menor sozinho em casa. Alguém reclamou do cheiro de cachorro molhado. Mas havia outro fedor além desse, um pouco mais longe na escuridão, feito lixo de açougue; se fosse calor do dia, estaria aquele frenesi de varejeiras. Eu já não sei se notei algo errado, mas decidi sacar meu celular para iluminar o portão. Vi então o cadeado trancado. Escutamos então um rugido constante e os demais também pegaram seus celulares, quem fumava acendeu seu isqueiro, estava lá a criatura, cabelos, pelos, dentes e olhos brilhando sob nossas luzes pálidas, um pouco antes de nos atacar. Se tivéssemos reparado, perceberíamos que eram seis irmãs e o caçula era o sétimo, e que aquela era uma sexta feira da paixão. E então foi assim que morremos, eu ainda com um drope na boca.












(Pintura: "A Família" (1988) da portuguesa Paula Rego)

Onirogrito





"
Mais ensino


Meu pai tem a frase seca, que mal e mal vou ao fundo

-A idade faz velhos não faz sábios.

"
Trecho de Dedo-duro, livro de João Antônio (Cosac & Naify)







Faz um ano que comecei a postar no blogue. Foi por muita insistência. Eu ainda tenho vontade de parar. Obrigado a quem acompanha. Segue um vídeo que me fez sentir 10 anos mais novo... Não é o clipe oficial da música Flagpole Sitta... É um pessoal que trabalha numa empresa norte-americana chamada Connected Ventures. Também quero mandar meu CV pra lá.


Lip Dub - Flagpole Sitta by Harvey Danger from amandalynferri on Vimeo.



Abraços.

Achados




Um post automobilístico: não, eu não gosto de carros, mal sei a diferença entre acelerador e freio, sou barbeiro, desconheço as manhas de fazer baliza e só dei cavalo-de-pau sem querer, não consigo diferenciar um fusca de um gordini.
Por outro lado, como qualquer menino, tive meus carrinhos de ferro, criava pistas e rampas para praticar "saltos", gostava de Speed Racer, e assistia a muitos filmes e seriados do final dos 70 e da década 80 recheados de perseguições (como os Dukes de Hazard - traduzidos escabrosamente como "Os Gatões" -, Duro na Queda, Super Máquina, etc).

1)Perseguições cinematográficas dos anos 70
O blog RideLust escolheu as 10 melhores perseguições dos anos 70. A primeira, do Vanishing Point foi desapontadora para mim... Mas as demais valeram, especialmente a 8) Blazing Magnum (1976): me lembrou aquelas provas de Rally de Demolição. Bom para relembrar de um tempo sem trânsito ou engarrafamentos... A perseguição com John Wayne na direção foi curiosa foi divertida

Via Neatorama

2)Outras perseguições:

2.a) Bullit, com Steve McQueen: perseguição nas ruas de São Francisco (O filme é de 68 e por isto ficou de fora da lista acima)

Bullit ficou de fora da lista anterior: o filme de Steve McQueen é de 1968.

2.b)To live and die in L.A. (1985): parte 1 e parte 2 ou aqui em um link único. Na contramão.

2.c)Ronin (1998)

3)Catálogo de 1969 de carrinhos matchbox;

Via Atomic Antiques

4)Autobol.

Autobol, não Autobots. A primeira vez que ouvi falar neste esporte foi no livro "Futebol - O Brasil em Campo", do inglês Alex Bellos (Jorge Zahar Editora). O livro varre o Brasil (e alguns outros lugares, como as gélidas Ilhas Faroe) em busca de tudo de mais peculiar sobre o nosso futebol e como ele mexe com a cabeça do brasileiro. Tanto é que o título original do livro é "Futebol: The Brazilian Way of Life"; Muito bom.

No início dos anos 70, um bando de ricaços cariocas se digladiava em campos cuja grama seria trocada em carros jogando futebol com uma bola enorme. Uma mistura de rally de destruição e futebol. Segue abaixo um trecho do livro, quando foi questionado qual o pior acidente em jogo a Ivan Sant´Anna (o escritor) e Mario Bucich (os mesmo que estão neste vídeo descrevendo e relembrando o Autobol, e ainda com imagens de lances das partidas):

"
"Foi o cara cujo carro explodiu?", pegunta Ivan.
Mario sacode a cabeça: "Não. Foi quando um espectador estava onde não devia, logo atrás da linha lateral, mais ou menos um metro abaixo do nível de campo. Um piloto perdeu o controle, rodou em círculos e aterrissou no peito do cara. Mas acho que ele quebrou só um braço, não foi?"

Ivan concorda: "Um braço, uma clavícula. Foi isso. O piloto foi processado. Houve uma ação na Justiça. Atropelar alguém é crime - mesmo se acontecer como parte de um evento esportivo. Demorou cinco anos para ser julgado."
"

5)Carros ridículos

Via Neatorama

6)Imagem: Como desenhar um Dodge 1969, passo a passo. Via Dragonart

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Telegrama




o homem deu nome a todos animais
desde o início, desde início
o homem deu nome a todos animais
desde o início, há muito tempo atrás

viu um animal com tal poder
garras afiadas e um porte
quando rugia, tremia o chão
disse com razão: chamar-se-á leão

o homem deu nome a todos animais
desde o início, desde o início
o homem deu nome a todos animais
desde o início, há muito tempo atrás

viu um animal que era tão manso
puro, lindo, nenhum mal fará
mas seu predador, que não é bobo
vou chamar de lobo e sempre o caçará
era a ovelha

o homem deu nome a todos animais
desde o início, desde o início
o homem deu nome a todos os animais
desde o início, há muito tempo atrás

viu outro animal se alimentar
no peito da mãe, seu leite a sugar
viu que aquela fêmea não é fraca
d'outras se destaca e a chamou de vaca

o homem deu nome a todos animais
desde o início, desde o início
o homem deu nome a todos os animais
desde o início, há muito tempo atrás

viu uma criatura se arrastando
no chão, sibilando lentamente
só não percebeu foi o veneno
dentro de seu dente



* * *


(Versão de Zé Ramalho para a música de Bob Dylan "Man Gave Names to All Animals" e regravada pela Adriana Partimpim 2. ZR JM TO
Imagem "?" encontrada no Haw-Lin. Talvez tenha algo a ver com o livro Animal Logic do fotógrafo Richard Barnes que tirou várias fotos de dioramas e exposições com animais em museus norte-americanos: detalhes aqui. Via Neatorama)

Telegrama




Sistema Solar de Licoti (http://licoti.deviantart.com)
(Via Warren Ellis)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

ultravioleta








A fada acorda e recusa-se a despertar. Devia se espreguiçar, abrir os braços, respirar fundo, esticar as pernas, sentir o mundo com os pés... Não dá. Sono pesado demais. Então se aninha mais sob a coberta e enterra a cabeça em si mesma, para impedir a luz de se infiltrar sob as pálpebras. Tenta continuar a dormir, sonhar talvez, mas o som do bosque não deixa. Cigarras. Zumbido de zangões transitando entre anteras e nectários. Sinal de manhã quase madura, o sol pinicando a pele de quem se submete a sair nu sobre o dia. Mas ela está ali, protegida, um nenê em meio ao enxoval. Murmúrio de riacho perto. Tapete de limo nas pedras. Um avião mudo passando lá em cima. A fada sente um pouco de sede, mas ainda não quer se levantar. Deveria ter ido dormir perto do rio, ou sobre as folhas, aproveitaria para beber o orvalho. Ela tenta recordar como viera parar ali, naquele aconchego. Conclusão: acabara de se fechar na crisálida e agora só faltava nascer. Seria sair, rebentar aquela seda e se pendurar no abismo. Então esperar secar as asas, abrí-las, deixá-las na brisa. Ela sairia pelo bosque, pousando entre as flores, procurando as irmãs. Cantoria de passaredo. Brilho metálico dos colibris. Entretanto o não-nascimento implicaria no não-conhecimento do mundo. Tudo seria instinto, inocência ou ignorância. Desconheceria o dia ou a noite, ou os chamados dos insetos, ou os rastros dos jatos no azul ou o odor doce da primavera. Entre as fadas, não se fala em ressuretos ou em reencarnações. Só se conjuga o tempo presente. A fada espera o momento de arrebentar a crisálida. Mas é só delírio: ela não conseguirá. Pois ali, entre os elos e nós das teias, a fada está presa no casulo no veneno no sono de viver.









(via bibliodissey: E.A. Séguy - 1. Delias neagra. Nouvelle Guinée; 2. Catagramma kolyma. Amazone; 3. Dichorragia nesimachus. Sikkim; 4. Elymnias malelas. Inde; 5. Eulepis eudamippus. Indo Malaisie)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Telegrama





(ilustração do livro La Princesse Angine, do francês Roland Topor)

Achados

a)Animalário Universal do Professor Revillod



(Via LerBD)



b)Catálogo de livros curiosos e bizarros, por Umberto Eco

"Em 1931, Mario Paz, conhecedor de livros antigos, observou que os bibliófilos costumavam ler os catálogos de livros raros da mesma forma que as pessoas assistem a filmes de suspense.

"Não tenha dúvidas de que não há literatura que gere uma mobilização tão imediata quando a leitura de um catálogo interessante", disse ele, complementando logo em seguida que até mesmo um catálogo desinteressante pode oferecer alguma satisfação.

Enquanto essa última categoria inclui apenas edições menos raras de Dante, pandectas latinas ou as obras de teólogos da contrarreforma, o que causa verdadeira emoção são os catálogos conhecidos entre os entendidos por "Curiosos e Bizarros".

(...)

Não vou resistir à tentação de convidar o leitor a embarcar comigo em uma jornada pelo catálogo recentemente lançado pela editora Libraries Associes, o "Livres Curieux et Bizarres".

Para ler tudo, clique AQUI. Em tempo: "A Vida Sexual de Robinson Crusoé" citado no artigo chegou a ser publicado aqui pela Brasiliense (salvo engano).

c) A imagem abaixo achei no "a journey around my skull", em uma postagem sobre livros infantis franceses de 1900 até 1940.



d)Simbologia e Alquimia (em português)

e)Literatura x Cinema

Um livro adaptado ao cinema nunca é fiel. Esta é uma reclamação já bem antiga, conforme vemos por esta história da revista MAD de 1954, por Jack Davis, disponível (em inglês) na Comicrazys.

Outros links legais de quadrinhos antigos:

Black´n white and red all over (Só preto e branco)

Comically Vintage (Quadros extraídos de velhos quadrinhos)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Telegrama

(hipocampo)







Revolver
(Walter Franco)

Lembrar de esquecer
Esquecer de lembrar
Cansar de dormir
Dormir descansar
Sorrir de doer
Doer de sangrar
Sangrar de morrer
Morrer de lembrar
Lembrar de esquecer
Esquecer de lembrar
Cansar de dormir
Dormir descansar










( links para documentário sobre Walter Franco... Um tanto elogioso demais para meu gosto, ficou com cara de peça de marketing. Mas tem depoimentos de pessoas importantes. Imagem do hipocampo é do francês Leonardo Vieira)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Onirogrito






Antroponímico


Brontops. Se um dia eu tivesse uma banda de punk rock, ela se chamaria Brontops. A capa de seu primeiro disco seria formada por um triângulo e dois trapézios de tal forma que juntos sugerissem a letra Y. O baixista raparia o cabelo e teria o corpo coberto de tatuagens de escorpiões. Apenas escorpiões. Não lembro mais como seriam os outros dois integrantes. O nome do filho de Alejandro Jodorowsky é Brontis. Atuou nu em El Topo. No início do filme, o pai o instrui a enterrar seus brinquedos e um retrato da mãe. Brontofobia é pavor fóbico de trovão. Brontossauro é um animal que só existiu por engano, uma confusão na hora de montar os ossos de um fóssil. Marmaduke Bonthrop Shelmerdine é o nome do marido de Orlando, de Virginia Woolf. Da mesma forma que Orlando era um homem que um dia desperta mulher, Shelmerdine fora uma mulher que quisera se transformar em homem. Bonthrops especifica o gênero no nome científico das jararacas e urutus. A partir do veneno da jararaca fizeram o remédio captopril. Minha mãe precisa tomar todo dia.


Brontops Robustus é um rinoceronte pré-histórico com chifre em forma de Y. Eles estiveram presentes na Era do Gelo 1. Da mesma linhagem do Brontops Robustus teriam surgido antas, cavalos e rinocerontes. Os rinocerontes são animais muito míopes. Existiu certa confusão entre o rinoceronte e o unicórnio. Marco Polo se desapontou ao constatar tão pouco gracioso era o unicórnio, robusto, de patas grossas, mais próximo de um boi ou de um porco do que de um eqüino ou de uma gazela. Em 1515, o rei de Portugal recebeu um rinoceronte de presente de um rajá indiano. O animal era acostumado ao cativeiro. A espécie não era vista na Europa desde os tempos do Império Romano, onde enfrentaram outras criaturas ou humanos em duelos sob a ovação do público. Surgiam na arena de combate através de um alçapão, onde arremetiam seus corpos e chifres contra seus adversários, uma palavra demasiado humana para fazer sentido a um animal. Mas aparentemente não foi para seguir a tradição de rinha que o rinoceronte fora colocado para duelar com um elefante também pertencente à coleção real de animais exóticos. Segundo consta, o rei queria colocar à prova a afirmação de Plínio, o Velho, segundo a qual rinocerontes e elefantes seriam inimigos mortais, quase tanto quanto grifos e cavalos. Os grifos eram criaturas aladas, metade leão, metade águia, que segundo a lenda alimentavam-se de cavalos. O conceito de hipogrifo encerrava a dialética dos opostos hoje mais reconhecida no Ying Yang, símbolo que também foi roubado pelo PCC (Por sua vez, o hipogrifo foi domado por Harry Potter). Segundo as crônicas da época, o rinoceronte avançou contra o jovem elefante indiano, Aparentemente assustado com a presença barulhenta do público na arena de touros, o elefante fugiu antes que houvesse uma única cena de combate para desapontamento dos pagantes. Diz o texto sob a gravura de Dürer: “No dia 1º de maio de 1513 foi trazido da India para Lisboa, como oferta para o grande e poderoso rei Manuel de Portugal, um animal vivo chamado rinoceronte. Sua forma é aqui representada. Ele tem a cor de uma tartaruga salpicada e é coberto por grossas escamas. É semelhante a um elefante em tamanho, mas de pernas mais curtas e é quase invunerável. Tem um forte e afiado chifre sobre o seu nariz, que ele afia nas pedras. O estúpido animal é, do elefante, o inimigo mortal. O elefante tem muito medo dele pois, quando se encontram, o rinoceronte corre com a cabeça abaixada entre as pernas dianteiras do animal e rasga-lhe o estômago com seu chifre, estrangulando-o, de modo que o elefante não pode se defender. Por ser este animal tão bem armado, não há o que o elefante possa fazer contra ele. É também dito que o rinoceronte é rápido, impetuoso e astuto."
Um crítico afirmou que “uma criatura assim não poderia ser estúpida e astuta ao mesmo tempo”. Dürer teria respondido, “bem se vê que não conheces a própria espécie”. O rei decidiu enviar o rinoceronte ao Papa, precisava de seus favores para resolver questões quanto às rotas comerciais de especiarias, e o embarcou em um navio para Roma. Um naufrágio na costa da Ligúria acabou por encerrar a jornada do rinoceronte. Mas não a de seu corpo. A carcaça do animal foi retirada da água (como?), empalhada e enviada a Roma. Dürer nunca viu o animal vivo nem morto: teria feito sua xilogravura a partir de um esboço feito em uma carta enviada pelo gravurista e tipógrafo Valentim Fernandes. O rinoceronte não possui placas córneas como couraças, nem de longe se assemelha a um animal com uma armadura. O pouco conhecido pangolim africano se aproxima mais desta ideia, embora seu aspecto sinuoso não transmita a força que se supõe irmã da invencibilidade da armadura. Há quem sugira que o esboço de Fernandes tivesse sido do animal vestido com uma armadura de batalha, com o bicho pronto para enfrentar o elefante. Existe quem afirme que as marcas sobre o couro do animal seriam de uma dermatite provocada durante a viagem de quatro meses dentro de um navio até Portugal. Outros ainda supõem que a base de Dürer foi o animal empalhado, nas técnicas precárias do século XVI, com o couro ressecado, rachado, fragmentado e coberto de cracas e animais marinhos. Uma outra gravura feita por Hans Burgkmaier era mais fidedigna à criatura, mas jamais foi tão popular quanto a de Dürer. Enquanto resta uma única cópia da gravura de Burgkmaier, a base de madeira de Dürer foi usada tantas e tantas vezes que sinais de cupins começaram a marcar as gravuras. A ideia do rinoceronte como um animal de armadura persistiu até dar origem a Tundro, o rinoceronte alienígena de estimação dos Herculóides. Encontra-se no livro O Último Round de Cortazar um desenho de Jean-Michel Folon de um alegre e interrompido rinoceronte-centopéia. Se completarmos a figura com outras patas, torcermos o sorrisinho em uma expressão ranzinza e quebrarmos a ponta de seu chifre chegaremos ao Tundro da TV. Os rinocerontes são extremamente territorialistas. Em um filme sobre a África, o chifre do rinoceronte atravessa a porta zebrada de um jipe. No YouTube, você pode encontrar algumas filmagens com embates entre rinocerontes e elefantes. O Y é a letra mais feminina do alfabeto: lembra uma vulva. O Y é o cromossomo que determina o macho. Ninguém gosta deste nome. Mas ele continua.










(.)

domingo, 17 de janeiro de 2010

Achados






a) Portal Fundação


Um encontro com os autores do Portal Fundação

Será sábado que vem, às 16 horas, dia 23 de janeiro, no Café Flores na Varanda. Fica na Rua Camilo, 455, na Vila Romana (Lapa), São Paulo. O telefone é 3675-8645.

Quem vai? Ataíde Tartari, Giulia Moon, Laura Fuentes, Leandro Leite Leocadio, Luiz Bras, Luiz Roberto Guedes, Marco Antônio de Araújo, Ricardo Martins, Roberto Causo, Roberto Melfra e Rodrigo Novaes de Almeida. E eu também.

Apareça por lá... Devem ser sorteados alguns exemplares de Portal Fundação. Lembre-se que esta coleção não está à venda e é uma tiragem limitada. Portanto, será uma boa oportunidade.


b)Vá de bicicleta... Mas assim?

Para fugir do trânsito, vale tudo. Veja o que os urbanistas estão planejando: Uma fiociclovia..

Mas onde ficarão os pássaros?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Telegrama

Para fazer um filme:




"Tudo que você precisa para um filme é de uma arma e de uma garota"


(Via "This isn´t happiness")



(?, via Haw-Lin)


Achados






a) A teoria do centésimo macaco

Eu já conhecia esta parte da história (inclusive assisti a um documentário sobre isto):

Na década de 50, biólogos japoneses estudavam o comportamento de macacos selvagens (o macaco branco japonês, Macaca fuscata) em algumas ilhas do litoral nipônico. Eles descobriram um indivíduo particularmente inteligente e o ensinaram a lavar sua comida na água do mar, "temperando-a" vamos dizer assim. O primata aprendeu rapidamente a fazer isto e logo os demais membros de seu bando repetiam o mesmo gesto. Em pouco tempo, todos os membros do grupo realizavam o mesmo comportamento de "salgar" a comida antes de comê-la.

Esta parte eu não conhecia (e tem um "leve" sabor de pseudo-ciência, mas me parece divertido disseminá-la assim mesmo, só pra gente delirar um pouco):

Quando cem macacos praticavam o mesmo comportamento, algo estranho foi registrado. Repentinamente TODOS os macacos da espécie naquela ilha e em outras distantes milhares de quilômetros passaram a lavar sua comida no mar antes de comer. Segundo a teoria do centésimo macaco (apresentada pela primeira vez na década de 80, por Lyall Watson no livro Lifetide), a partir de um certo número de indivíduos (Cem macacos?) adquire ou descobre um conhecimento, este se torna conhecimento comum de todos os indivíduos.

Segundo se diz, isto também é observável em humanos, o que explica certas "modas", "memes", e comportamentos. Incluo aqui a informação (lida sabe Deus onde) que nas últimas décadas, registra-se geração após geração, no mundo inteiro, um acréscimo "inexplicável" no nível de QI do ser humano.


b)MichÆl Paukner

Tudo isto aqui em cima é uma tradução (recheada com alguns comentários meus) das observações que MichÆl Paukner fez para uma de suas imagens. Eu o descobri via Warren Ellis, e este via um ilustrador/quadrinista brasileiro, Felipe Sobreiro (vale - com certeza - uma olhada)

Seus posteres (eu compraria, se tivesse onde pendurar) são fantásticos e de beleza geométrica. A maioria deles baseados em informações científicas ou encontráveis pela Internet (wikipedia e congêneres) e ele parece ser um cara que se interessa por tudo, sem distinção: de astronomia ao misticismo, da Terra Oca à cartografia, de círculos em plantações ao calendário asteca.

Sob cada poster ele acrescenta comentários e explica com maiores detalhes "o que acontece" no poster. A imagem da Teoria do centésimo macaco é legal, mas preferi colocar duas imagens (linkadas para o Flickr) sobre as teorias do fim do mundo para 2012.

(Furadas evidentemente. Mais de cem pessoas, e portanto toda a humanidade, já sabem que o mundo acaba em julho de 2013.)


c)@mateurdart

...Se você procurava por imagens eróticas/pornográficas clássicas e/ou "chiques" e/ou diferentes, veja este blogue francês.

"il n'y a pas d'art érotique. Il n'y a que l'art. Il peut bien sûr être érotique. Question de point de vue... sur l'art."

As postagens são "temáticas". Escultura, pintura, fotografia, desenhos, bondage, banheiro, dedos, bundas, mãos, Dali, Warhol, Matisse, Klimt, Yoko Ono, Araki, Picasso, Ralph Gibson, Vettriano, Mapplethorpe, Man Ray, James Ensor, Doré, etc etc. Portanto, prepare-se.

Detalhes importante: as postagens do blog foram interrompidas há muito tempo. De algumas postagens só restam o nome dos autores das imagens... (O que pode ser um ponto de partida para pesquisas) Mas ainda assim vale uma olhada.