quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Telegrama




o homem deu nome a todos animais
desde o início, desde início
o homem deu nome a todos animais
desde o início, há muito tempo atrás

viu um animal com tal poder
garras afiadas e um porte
quando rugia, tremia o chão
disse com razão: chamar-se-á leão

o homem deu nome a todos animais
desde o início, desde o início
o homem deu nome a todos animais
desde o início, há muito tempo atrás

viu um animal que era tão manso
puro, lindo, nenhum mal fará
mas seu predador, que não é bobo
vou chamar de lobo e sempre o caçará
era a ovelha

o homem deu nome a todos animais
desde o início, desde o início
o homem deu nome a todos os animais
desde o início, há muito tempo atrás

viu outro animal se alimentar
no peito da mãe, seu leite a sugar
viu que aquela fêmea não é fraca
d'outras se destaca e a chamou de vaca

o homem deu nome a todos animais
desde o início, desde o início
o homem deu nome a todos os animais
desde o início, há muito tempo atrás

viu uma criatura se arrastando
no chão, sibilando lentamente
só não percebeu foi o veneno
dentro de seu dente



* * *


(Versão de Zé Ramalho para a música de Bob Dylan "Man Gave Names to All Animals" e regravada pela Adriana Partimpim 2. ZR JM TO
Imagem "?" encontrada no Haw-Lin. Talvez tenha algo a ver com o livro Animal Logic do fotógrafo Richard Barnes que tirou várias fotos de dioramas e exposições com animais em museus norte-americanos: detalhes aqui. Via Neatorama)

Telegrama




Sistema Solar de Licoti (http://licoti.deviantart.com)
(Via Warren Ellis)

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

ultravioleta








A fada acorda e recusa-se a despertar. Devia se espreguiçar, abrir os braços, respirar fundo, esticar as pernas, sentir o mundo com os pés... Não dá. Sono pesado demais. Então se aninha mais sob a coberta e enterra a cabeça em si mesma, para impedir a luz de se infiltrar sob as pálpebras. Tenta continuar a dormir, sonhar talvez, mas o som do bosque não deixa. Cigarras. Zumbido de zangões transitando entre anteras e nectários. Sinal de manhã quase madura, o sol pinicando a pele de quem se submete a sair nu sobre o dia. Mas ela está ali, protegida, um nenê em meio ao enxoval. Murmúrio de riacho perto. Tapete de limo nas pedras. Um avião mudo passando lá em cima. A fada sente um pouco de sede, mas ainda não quer se levantar. Deveria ter ido dormir perto do rio, ou sobre as folhas, aproveitaria para beber o orvalho. Ela tenta recordar como viera parar ali, naquele aconchego. Conclusão: acabara de se fechar na crisálida e agora só faltava nascer. Seria sair, rebentar aquela seda e se pendurar no abismo. Então esperar secar as asas, abrí-las, deixá-las na brisa. Ela sairia pelo bosque, pousando entre as flores, procurando as irmãs. Cantoria de passaredo. Brilho metálico dos colibris. Entretanto o não-nascimento implicaria no não-conhecimento do mundo. Tudo seria instinto, inocência ou ignorância. Desconheceria o dia ou a noite, ou os chamados dos insetos, ou os rastros dos jatos no azul ou o odor doce da primavera. Entre as fadas, não se fala em ressuretos ou em reencarnações. Só se conjuga o tempo presente. A fada espera o momento de arrebentar a crisálida. Mas é só delírio: ela não conseguirá. Pois ali, entre os elos e nós das teias, a fada está presa no casulo no veneno no sono de viver.









(via bibliodissey: E.A. Séguy - 1. Delias neagra. Nouvelle Guinée; 2. Catagramma kolyma. Amazone; 3. Dichorragia nesimachus. Sikkim; 4. Elymnias malelas. Inde; 5. Eulepis eudamippus. Indo Malaisie)

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Telegrama





(ilustração do livro La Princesse Angine, do francês Roland Topor)

Achados

a)Animalário Universal do Professor Revillod



(Via LerBD)



b)Catálogo de livros curiosos e bizarros, por Umberto Eco

"Em 1931, Mario Paz, conhecedor de livros antigos, observou que os bibliófilos costumavam ler os catálogos de livros raros da mesma forma que as pessoas assistem a filmes de suspense.

"Não tenha dúvidas de que não há literatura que gere uma mobilização tão imediata quando a leitura de um catálogo interessante", disse ele, complementando logo em seguida que até mesmo um catálogo desinteressante pode oferecer alguma satisfação.

Enquanto essa última categoria inclui apenas edições menos raras de Dante, pandectas latinas ou as obras de teólogos da contrarreforma, o que causa verdadeira emoção são os catálogos conhecidos entre os entendidos por "Curiosos e Bizarros".

(...)

Não vou resistir à tentação de convidar o leitor a embarcar comigo em uma jornada pelo catálogo recentemente lançado pela editora Libraries Associes, o "Livres Curieux et Bizarres".

Para ler tudo, clique AQUI. Em tempo: "A Vida Sexual de Robinson Crusoé" citado no artigo chegou a ser publicado aqui pela Brasiliense (salvo engano).

c) A imagem abaixo achei no "a journey around my skull", em uma postagem sobre livros infantis franceses de 1900 até 1940.



d)Simbologia e Alquimia (em português)

e)Literatura x Cinema

Um livro adaptado ao cinema nunca é fiel. Esta é uma reclamação já bem antiga, conforme vemos por esta história da revista MAD de 1954, por Jack Davis, disponível (em inglês) na Comicrazys.

Outros links legais de quadrinhos antigos:

Black´n white and red all over (Só preto e branco)

Comically Vintage (Quadros extraídos de velhos quadrinhos)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Telegrama

(hipocampo)







Revolver
(Walter Franco)

Lembrar de esquecer
Esquecer de lembrar
Cansar de dormir
Dormir descansar
Sorrir de doer
Doer de sangrar
Sangrar de morrer
Morrer de lembrar
Lembrar de esquecer
Esquecer de lembrar
Cansar de dormir
Dormir descansar










( links para documentário sobre Walter Franco... Um tanto elogioso demais para meu gosto, ficou com cara de peça de marketing. Mas tem depoimentos de pessoas importantes. Imagem do hipocampo é do francês Leonardo Vieira)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Onirogrito






Antroponímico


Brontops. Se um dia eu tivesse uma banda de punk rock, ela se chamaria Brontops. A capa de seu primeiro disco seria formada por um triângulo e dois trapézios de tal forma que juntos sugerissem a letra Y. O baixista raparia o cabelo e teria o corpo coberto de tatuagens de escorpiões. Apenas escorpiões. Não lembro mais como seriam os outros dois integrantes. O nome do filho de Alejandro Jodorowsky é Brontis. Atuou nu em El Topo. No início do filme, o pai o instrui a enterrar seus brinquedos e um retrato da mãe. Brontofobia é pavor fóbico de trovão. Brontossauro é um animal que só existiu por engano, uma confusão na hora de montar os ossos de um fóssil. Marmaduke Bonthrop Shelmerdine é o nome do marido de Orlando, de Virginia Woolf. Da mesma forma que Orlando era um homem que um dia desperta mulher, Shelmerdine fora uma mulher que quisera se transformar em homem. Bonthrops especifica o gênero no nome científico das jararacas e urutus. A partir do veneno da jararaca fizeram o remédio captopril. Minha mãe precisa tomar todo dia.


Brontops Robustus é um rinoceronte pré-histórico com chifre em forma de Y. Eles estiveram presentes na Era do Gelo 1. Da mesma linhagem do Brontops Robustus teriam surgido antas, cavalos e rinocerontes. Os rinocerontes são animais muito míopes. Existiu certa confusão entre o rinoceronte e o unicórnio. Marco Polo se desapontou ao constatar tão pouco gracioso era o unicórnio, robusto, de patas grossas, mais próximo de um boi ou de um porco do que de um eqüino ou de uma gazela. Em 1515, o rei de Portugal recebeu um rinoceronte de presente de um rajá indiano. O animal era acostumado ao cativeiro. A espécie não era vista na Europa desde os tempos do Império Romano, onde enfrentaram outras criaturas ou humanos em duelos sob a ovação do público. Surgiam na arena de combate através de um alçapão, onde arremetiam seus corpos e chifres contra seus adversários, uma palavra demasiado humana para fazer sentido a um animal. Mas aparentemente não foi para seguir a tradição de rinha que o rinoceronte fora colocado para duelar com um elefante também pertencente à coleção real de animais exóticos. Segundo consta, o rei queria colocar à prova a afirmação de Plínio, o Velho, segundo a qual rinocerontes e elefantes seriam inimigos mortais, quase tanto quanto grifos e cavalos. Os grifos eram criaturas aladas, metade leão, metade águia, que segundo a lenda alimentavam-se de cavalos. O conceito de hipogrifo encerrava a dialética dos opostos hoje mais reconhecida no Ying Yang, símbolo que também foi roubado pelo PCC (Por sua vez, o hipogrifo foi domado por Harry Potter). Segundo as crônicas da época, o rinoceronte avançou contra o jovem elefante indiano, Aparentemente assustado com a presença barulhenta do público na arena de touros, o elefante fugiu antes que houvesse uma única cena de combate para desapontamento dos pagantes. Diz o texto sob a gravura de Dürer: “No dia 1º de maio de 1513 foi trazido da India para Lisboa, como oferta para o grande e poderoso rei Manuel de Portugal, um animal vivo chamado rinoceronte. Sua forma é aqui representada. Ele tem a cor de uma tartaruga salpicada e é coberto por grossas escamas. É semelhante a um elefante em tamanho, mas de pernas mais curtas e é quase invunerável. Tem um forte e afiado chifre sobre o seu nariz, que ele afia nas pedras. O estúpido animal é, do elefante, o inimigo mortal. O elefante tem muito medo dele pois, quando se encontram, o rinoceronte corre com a cabeça abaixada entre as pernas dianteiras do animal e rasga-lhe o estômago com seu chifre, estrangulando-o, de modo que o elefante não pode se defender. Por ser este animal tão bem armado, não há o que o elefante possa fazer contra ele. É também dito que o rinoceronte é rápido, impetuoso e astuto."
Um crítico afirmou que “uma criatura assim não poderia ser estúpida e astuta ao mesmo tempo”. Dürer teria respondido, “bem se vê que não conheces a própria espécie”. O rei decidiu enviar o rinoceronte ao Papa, precisava de seus favores para resolver questões quanto às rotas comerciais de especiarias, e o embarcou em um navio para Roma. Um naufrágio na costa da Ligúria acabou por encerrar a jornada do rinoceronte. Mas não a de seu corpo. A carcaça do animal foi retirada da água (como?), empalhada e enviada a Roma. Dürer nunca viu o animal vivo nem morto: teria feito sua xilogravura a partir de um esboço feito em uma carta enviada pelo gravurista e tipógrafo Valentim Fernandes. O rinoceronte não possui placas córneas como couraças, nem de longe se assemelha a um animal com uma armadura. O pouco conhecido pangolim africano se aproxima mais desta ideia, embora seu aspecto sinuoso não transmita a força que se supõe irmã da invencibilidade da armadura. Há quem sugira que o esboço de Fernandes tivesse sido do animal vestido com uma armadura de batalha, com o bicho pronto para enfrentar o elefante. Existe quem afirme que as marcas sobre o couro do animal seriam de uma dermatite provocada durante a viagem de quatro meses dentro de um navio até Portugal. Outros ainda supõem que a base de Dürer foi o animal empalhado, nas técnicas precárias do século XVI, com o couro ressecado, rachado, fragmentado e coberto de cracas e animais marinhos. Uma outra gravura feita por Hans Burgkmaier era mais fidedigna à criatura, mas jamais foi tão popular quanto a de Dürer. Enquanto resta uma única cópia da gravura de Burgkmaier, a base de madeira de Dürer foi usada tantas e tantas vezes que sinais de cupins começaram a marcar as gravuras. A ideia do rinoceronte como um animal de armadura persistiu até dar origem a Tundro, o rinoceronte alienígena de estimação dos Herculóides. Encontra-se no livro O Último Round de Cortazar um desenho de Jean-Michel Folon de um alegre e interrompido rinoceronte-centopéia. Se completarmos a figura com outras patas, torcermos o sorrisinho em uma expressão ranzinza e quebrarmos a ponta de seu chifre chegaremos ao Tundro da TV. Os rinocerontes são extremamente territorialistas. Em um filme sobre a África, o chifre do rinoceronte atravessa a porta zebrada de um jipe. No YouTube, você pode encontrar algumas filmagens com embates entre rinocerontes e elefantes. O Y é a letra mais feminina do alfabeto: lembra uma vulva. O Y é o cromossomo que determina o macho. Ninguém gosta deste nome. Mas ele continua.










(.)

domingo, 17 de janeiro de 2010

Achados






a) Portal Fundação


Um encontro com os autores do Portal Fundação

Será sábado que vem, às 16 horas, dia 23 de janeiro, no Café Flores na Varanda. Fica na Rua Camilo, 455, na Vila Romana (Lapa), São Paulo. O telefone é 3675-8645.

Quem vai? Ataíde Tartari, Giulia Moon, Laura Fuentes, Leandro Leite Leocadio, Luiz Bras, Luiz Roberto Guedes, Marco Antônio de Araújo, Ricardo Martins, Roberto Causo, Roberto Melfra e Rodrigo Novaes de Almeida. E eu também.

Apareça por lá... Devem ser sorteados alguns exemplares de Portal Fundação. Lembre-se que esta coleção não está à venda e é uma tiragem limitada. Portanto, será uma boa oportunidade.


b)Vá de bicicleta... Mas assim?

Para fugir do trânsito, vale tudo. Veja o que os urbanistas estão planejando: Uma fiociclovia..

Mas onde ficarão os pássaros?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Telegrama

Para fazer um filme:




"Tudo que você precisa para um filme é de uma arma e de uma garota"


(Via "This isn´t happiness")



(?, via Haw-Lin)


Achados






a) A teoria do centésimo macaco

Eu já conhecia esta parte da história (inclusive assisti a um documentário sobre isto):

Na década de 50, biólogos japoneses estudavam o comportamento de macacos selvagens (o macaco branco japonês, Macaca fuscata) em algumas ilhas do litoral nipônico. Eles descobriram um indivíduo particularmente inteligente e o ensinaram a lavar sua comida na água do mar, "temperando-a" vamos dizer assim. O primata aprendeu rapidamente a fazer isto e logo os demais membros de seu bando repetiam o mesmo gesto. Em pouco tempo, todos os membros do grupo realizavam o mesmo comportamento de "salgar" a comida antes de comê-la.

Esta parte eu não conhecia (e tem um "leve" sabor de pseudo-ciência, mas me parece divertido disseminá-la assim mesmo, só pra gente delirar um pouco):

Quando cem macacos praticavam o mesmo comportamento, algo estranho foi registrado. Repentinamente TODOS os macacos da espécie naquela ilha e em outras distantes milhares de quilômetros passaram a lavar sua comida no mar antes de comer. Segundo a teoria do centésimo macaco (apresentada pela primeira vez na década de 80, por Lyall Watson no livro Lifetide), a partir de um certo número de indivíduos (Cem macacos?) adquire ou descobre um conhecimento, este se torna conhecimento comum de todos os indivíduos.

Segundo se diz, isto também é observável em humanos, o que explica certas "modas", "memes", e comportamentos. Incluo aqui a informação (lida sabe Deus onde) que nas últimas décadas, registra-se geração após geração, no mundo inteiro, um acréscimo "inexplicável" no nível de QI do ser humano.


b)MichÆl Paukner

Tudo isto aqui em cima é uma tradução (recheada com alguns comentários meus) das observações que MichÆl Paukner fez para uma de suas imagens. Eu o descobri via Warren Ellis, e este via um ilustrador/quadrinista brasileiro, Felipe Sobreiro (vale - com certeza - uma olhada)

Seus posteres (eu compraria, se tivesse onde pendurar) são fantásticos e de beleza geométrica. A maioria deles baseados em informações científicas ou encontráveis pela Internet (wikipedia e congêneres) e ele parece ser um cara que se interessa por tudo, sem distinção: de astronomia ao misticismo, da Terra Oca à cartografia, de círculos em plantações ao calendário asteca.

Sob cada poster ele acrescenta comentários e explica com maiores detalhes "o que acontece" no poster. A imagem da Teoria do centésimo macaco é legal, mas preferi colocar duas imagens (linkadas para o Flickr) sobre as teorias do fim do mundo para 2012.

(Furadas evidentemente. Mais de cem pessoas, e portanto toda a humanidade, já sabem que o mundo acaba em julho de 2013.)


c)@mateurdart

...Se você procurava por imagens eróticas/pornográficas clássicas e/ou "chiques" e/ou diferentes, veja este blogue francês.

"il n'y a pas d'art érotique. Il n'y a que l'art. Il peut bien sûr être érotique. Question de point de vue... sur l'art."

As postagens são "temáticas". Escultura, pintura, fotografia, desenhos, bondage, banheiro, dedos, bundas, mãos, Dali, Warhol, Matisse, Klimt, Yoko Ono, Araki, Picasso, Ralph Gibson, Vettriano, Mapplethorpe, Man Ray, James Ensor, Doré, etc etc. Portanto, prepare-se.

Detalhes importante: as postagens do blog foram interrompidas há muito tempo. De algumas postagens só restam o nome dos autores das imagens... (O que pode ser um ponto de partida para pesquisas) Mas ainda assim vale uma olhada.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

arruda não arreda elefantes




Não é mole deixar os elefantes fora de nosso quintal. Tentamos cercas elétricas, pendurar saquinhos transparente com água, apanhadores de sonhos, rodear a propriedade com sal grosso, móbiles com CDs velhos, rádios tocando o hino nacional, folha de arruda atrás da orelha. Deixamos sinos de vento na varanda e quando escutamos o som oco do bambu acordamos apavorados. Pois quando os elefantes vêm, abanando suas orelhas enormes, provocam uma brisa própria de sua aproximação. Nós nos arredamos dali: só há tempo de pegar as crianças e recolher o cão (a esta altura, já late entre desesperado e valente) da coleira, jogamos nossos filhos na caçamba da picape e, se isto fosse filme, sairíamos cantando os pneus. Ficamos no alto de um morro, de meias, pijamas, lençóis e bichos de pelúcia. Acompanhamos os urros e o som de suas patas sem dedos esmagarem nosso fusca e nossa tv de plasma. A fiação irrompe em faíscas de onde nasce o incêndio e vemos o contorno das trombas como periscópios e serpentes sondando o ar. Procuram o cheiro de nosso medo. As crianças acomodam-se e dormem finalmente. Ficamos nós dois ouvindo a destruição de tudo e o brilho dourado e quente de nosso doce lar no meio da escuridão do bosque. E pensamos no elefante e ficamos a imaginar sua tromba mole, flácida e cheia de dobras e rugas como um prepúcio velho e mole, ombreado pelas rijas presas eretas de osso. Enquanto a mim aflige a violência, minha mulher ressente-se pela impotência. No amanhecer retornamos a nossa casa esperando encontrar escombros, mas lá foi erguido um palacete de mármore, com escritura falsa e garagem para seis veículos importados e uma lancha. Nossa chave não consegue abrir os portões e tocamos o interfone. Um empregado de turbante nos informa que deve haver algum engano, nos mostra os documentos e o nome do governador ou de seus amigos assinados neles e, finalmente, a imobiliária que vendeu-lhes o terreno: Marajá Incorporações. Ele sorri muito e notamos que seus dentes amarelos são de marfim. Sugere procurarmos um advogado. Hoje moramos em um depósito de lixo e repartimos o que encontramos com os abutres, os vira-latas, as gaivotas e outros elefantes. Ao pôr do sol, reunimo-nos todos na beira do mar, esperando o fim, no fim.










(Photo8)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

para você sabe quem



A senha do motim


Tu és o raro
o novo
és o eterno
e voraz

Tens no olho
o brilho
o fogo
dos teus ancestrais

Mulher
tu és
meu estímulo
o tumulto
a mansidão

Mulher
tu és
do meu íntimo
a algoz
a escravidão

Mulher
tu és
alforria
és veloz
és multicor

Mulher
tu és
alquimia
euforia
luz calor

Tu és o raro
o novo
és o eterno
e voraz

Tens no olho
o brilho
o fogo
dos teus ancestrais

Mulher
tu és
alegria
sintonia
dor paixão

Mulher
tu és
harmonia
és quem
cria a escravidão

Mulher
tu és
a chama
és o tino
tudo enfim

És a trama
do destino
és a senha
do motim

Mulher
a qualquer hora
tu és muito
muito mais

Mulher
o que és agora
no futuro
tu serás

Tu és o raro
o novo
és o eterno
e voraz

Tens no
olho o brilho
o fogo
dos teus ancestrais

( Walter Franco, do disco Tutano)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Telegrama

Fio



"Depois disso, voltávamos à cidade para nos perdermos no labirinto das ruas, sequiosos de uma aventura qualquer. Um dia, um cego nos levou a sua casa e nos apresentou sua família de cegos. Nenhuma fonte de luz na casa, nenhuma luminária. Nas paredes, porém, quadros, todos representando cemitérios e feitos apenas de fios de cabelo. Túmulos de cabelos, ciprestes de cabelos."

Luís Buñuel, Meu Último Suspiro.

(Imagem de Vik Muniz: "Igreja no topo da colina em Varengeville, a partir de Claude Monet" (1999), feito com mais 8000 metros de linha de costura)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Achados

Eu também quero uma cadeira de balanço






-Este é realmente um "achado". Graças ao "Coisas do Arco da Velha", achei um "YouTube" russo, onde um grupo coletou as 100 melhores animações do século(De 1906 a 2006). Não sei quem fez esta lista... Mas é muito boa. Como está tudo em russo, não descobri COMO postar os vídeos... E nem como reuní-los de uma forma amigável... De toda forma, aqui vão alguns links:

058.Jumping, de Osamu Tesuka(1984).

023.Pai e filha, de Michael Dudok de Wit
(chorei)

010.The Street, do National Film Board of Canada (1976)
(Baseado numa história de Mordecai Richler. Assisti a este milhares de anos atrás, num programa da Cultura chamado Lanterna Mágica)

003. Hoznosti dialogu Krátký Film Praha-Jiri Trnka Studio-Jan Svankmajer, 1982
(Arcimboldo! E que nheca.)

006.(Tale of Tales)Shazka skazok Soyuzmultilm-Yuri Norstein, 1979
(Legendas em inglês. O lobinho de uma canção de ninar vivendo em uma casa abandonada)

002.Fantasmagorie, de Emile Cohl (1908)
(mudo e feito com giz)

015.(o famoso filme da luminária-pai e luminária-filho da Pixar)

062.Legend of the forest, de Osamu Tesuka (1987)
(trilha Tchaikovsky)

080. Feelings from Mountain and Water Shanghai Animation Film Studio-Te Wei, 1988

004. Crac! Société Radio-Canada-Frédéric Back, 1981
(A história de uma cadeira de balanço... e das imagens acima)

001. Gertie the Dinosaur Winsor McCay, 1914

073. The Sinking of the Lusitania Winsor McCay, 1918

078. The Sandman Paul Berry, 1991


(Um detalhe importante: muitas destas animações são "mudas" ou não necessitam de compreensão sobre o que está sendo dito. Eu mesmo gostaria de ficar o ano todo vendo estas animações. Se quiser fuçar mais, use o tag Top100, que aparecerão vários, fora de ordem)

Abs

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Telegrama

And when it lands, will my eyes be closed or open?




Hyperballad (live) Bjork

* * *





Moramos no alto de uma montanha, bem no topo, com um vista linda de tudo. Toda manhã, eu caminho até a beira do abismo e jogo coisas de lá: garrafas, talheres, pneus, motores, que encontro esparramados ao redor. Virou um hábito, mais um jeito de começar o dia. Eu faço tudo isto antes de você acordar, assim me sinto mais feliz, mais protegida de estar aqui com você, no alto da montanha. Ainda madrugada, ninguém acordado. Volto ao rochedo, continuo jogando coisas de lá, vejo-as caindo, escuto o som da queda. Imagino o som do meu corpo se esmagando contra aquelas pedras. Estaria de olhos fechados ou abertos?







(.)