quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Telegrama

(hipocampo)







Revolver
(Walter Franco)

Lembrar de esquecer
Esquecer de lembrar
Cansar de dormir
Dormir descansar
Sorrir de doer
Doer de sangrar
Sangrar de morrer
Morrer de lembrar
Lembrar de esquecer
Esquecer de lembrar
Cansar de dormir
Dormir descansar










( links para documentário sobre Walter Franco... Um tanto elogioso demais para meu gosto, ficou com cara de peça de marketing. Mas tem depoimentos de pessoas importantes. Imagem do hipocampo é do francês Leonardo Vieira)

domingo, 24 de janeiro de 2010

Onirogrito






Antroponímico


Brontops. Se um dia eu tivesse uma banda de punk rock, ela se chamaria Brontops. A capa de seu primeiro disco seria formada por um triângulo e dois trapézios de tal forma que juntos sugerissem a letra Y. O baixista raparia o cabelo e teria o corpo coberto de tatuagens de escorpiões. Apenas escorpiões. Não lembro mais como seriam os outros dois integrantes. O nome do filho de Alejandro Jodorowsky é Brontis. Atuou nu em El Topo. No início do filme, o pai o instrui a enterrar seus brinquedos e um retrato da mãe. Brontofobia é pavor fóbico de trovão. Brontossauro é um animal que só existiu por engano, uma confusão na hora de montar os ossos de um fóssil. Marmaduke Bonthrop Shelmerdine é o nome do marido de Orlando, de Virginia Woolf. Da mesma forma que Orlando era um homem que um dia desperta mulher, Shelmerdine fora uma mulher que quisera se transformar em homem. Bonthrops especifica o gênero no nome científico das jararacas e urutus. A partir do veneno da jararaca fizeram o remédio captopril. Minha mãe precisa tomar todo dia.


Brontops Robustus é um rinoceronte pré-histórico com chifre em forma de Y. Eles estiveram presentes na Era do Gelo 1. Da mesma linhagem do Brontops Robustus teriam surgido antas, cavalos e rinocerontes. Os rinocerontes são animais muito míopes. Existiu certa confusão entre o rinoceronte e o unicórnio. Marco Polo se desapontou ao constatar tão pouco gracioso era o unicórnio, robusto, de patas grossas, mais próximo de um boi ou de um porco do que de um eqüino ou de uma gazela. Em 1515, o rei de Portugal recebeu um rinoceronte de presente de um rajá indiano. O animal era acostumado ao cativeiro. A espécie não era vista na Europa desde os tempos do Império Romano, onde enfrentaram outras criaturas ou humanos em duelos sob a ovação do público. Surgiam na arena de combate através de um alçapão, onde arremetiam seus corpos e chifres contra seus adversários, uma palavra demasiado humana para fazer sentido a um animal. Mas aparentemente não foi para seguir a tradição de rinha que o rinoceronte fora colocado para duelar com um elefante também pertencente à coleção real de animais exóticos. Segundo consta, o rei queria colocar à prova a afirmação de Plínio, o Velho, segundo a qual rinocerontes e elefantes seriam inimigos mortais, quase tanto quanto grifos e cavalos. Os grifos eram criaturas aladas, metade leão, metade águia, que segundo a lenda alimentavam-se de cavalos. O conceito de hipogrifo encerrava a dialética dos opostos hoje mais reconhecida no Ying Yang, símbolo que também foi roubado pelo PCC (Por sua vez, o hipogrifo foi domado por Harry Potter). Segundo as crônicas da época, o rinoceronte avançou contra o jovem elefante indiano, Aparentemente assustado com a presença barulhenta do público na arena de touros, o elefante fugiu antes que houvesse uma única cena de combate para desapontamento dos pagantes. Diz o texto sob a gravura de Dürer: “No dia 1º de maio de 1513 foi trazido da India para Lisboa, como oferta para o grande e poderoso rei Manuel de Portugal, um animal vivo chamado rinoceronte. Sua forma é aqui representada. Ele tem a cor de uma tartaruga salpicada e é coberto por grossas escamas. É semelhante a um elefante em tamanho, mas de pernas mais curtas e é quase invunerável. Tem um forte e afiado chifre sobre o seu nariz, que ele afia nas pedras. O estúpido animal é, do elefante, o inimigo mortal. O elefante tem muito medo dele pois, quando se encontram, o rinoceronte corre com a cabeça abaixada entre as pernas dianteiras do animal e rasga-lhe o estômago com seu chifre, estrangulando-o, de modo que o elefante não pode se defender. Por ser este animal tão bem armado, não há o que o elefante possa fazer contra ele. É também dito que o rinoceronte é rápido, impetuoso e astuto."
Um crítico afirmou que “uma criatura assim não poderia ser estúpida e astuta ao mesmo tempo”. Dürer teria respondido, “bem se vê que não conheces a própria espécie”. O rei decidiu enviar o rinoceronte ao Papa, precisava de seus favores para resolver questões quanto às rotas comerciais de especiarias, e o embarcou em um navio para Roma. Um naufrágio na costa da Ligúria acabou por encerrar a jornada do rinoceronte. Mas não a de seu corpo. A carcaça do animal foi retirada da água (como?), empalhada e enviada a Roma. Dürer nunca viu o animal vivo nem morto: teria feito sua xilogravura a partir de um esboço feito em uma carta enviada pelo gravurista e tipógrafo Valentim Fernandes. O rinoceronte não possui placas córneas como couraças, nem de longe se assemelha a um animal com uma armadura. O pouco conhecido pangolim africano se aproxima mais desta ideia, embora seu aspecto sinuoso não transmita a força que se supõe irmã da invencibilidade da armadura. Há quem sugira que o esboço de Fernandes tivesse sido do animal vestido com uma armadura de batalha, com o bicho pronto para enfrentar o elefante. Existe quem afirme que as marcas sobre o couro do animal seriam de uma dermatite provocada durante a viagem de quatro meses dentro de um navio até Portugal. Outros ainda supõem que a base de Dürer foi o animal empalhado, nas técnicas precárias do século XVI, com o couro ressecado, rachado, fragmentado e coberto de cracas e animais marinhos. Uma outra gravura feita por Hans Burgkmaier era mais fidedigna à criatura, mas jamais foi tão popular quanto a de Dürer. Enquanto resta uma única cópia da gravura de Burgkmaier, a base de madeira de Dürer foi usada tantas e tantas vezes que sinais de cupins começaram a marcar as gravuras. A ideia do rinoceronte como um animal de armadura persistiu até dar origem a Tundro, o rinoceronte alienígena de estimação dos Herculóides. Encontra-se no livro O Último Round de Cortazar um desenho de Jean-Michel Folon de um alegre e interrompido rinoceronte-centopéia. Se completarmos a figura com outras patas, torcermos o sorrisinho em uma expressão ranzinza e quebrarmos a ponta de seu chifre chegaremos ao Tundro da TV. Os rinocerontes são extremamente territorialistas. Em um filme sobre a África, o chifre do rinoceronte atravessa a porta zebrada de um jipe. No YouTube, você pode encontrar algumas filmagens com embates entre rinocerontes e elefantes. O Y é a letra mais feminina do alfabeto: lembra uma vulva. O Y é o cromossomo que determina o macho. Ninguém gosta deste nome. Mas ele continua.










(.)

domingo, 17 de janeiro de 2010

Achados






a) Portal Fundação


Um encontro com os autores do Portal Fundação

Será sábado que vem, às 16 horas, dia 23 de janeiro, no Café Flores na Varanda. Fica na Rua Camilo, 455, na Vila Romana (Lapa), São Paulo. O telefone é 3675-8645.

Quem vai? Ataíde Tartari, Giulia Moon, Laura Fuentes, Leandro Leite Leocadio, Luiz Bras, Luiz Roberto Guedes, Marco Antônio de Araújo, Ricardo Martins, Roberto Causo, Roberto Melfra e Rodrigo Novaes de Almeida. E eu também.

Apareça por lá... Devem ser sorteados alguns exemplares de Portal Fundação. Lembre-se que esta coleção não está à venda e é uma tiragem limitada. Portanto, será uma boa oportunidade.


b)Vá de bicicleta... Mas assim?

Para fugir do trânsito, vale tudo. Veja o que os urbanistas estão planejando: Uma fiociclovia..

Mas onde ficarão os pássaros?

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Telegrama

Para fazer um filme:




"Tudo que você precisa para um filme é de uma arma e de uma garota"


(Via "This isn´t happiness")



(?, via Haw-Lin)


Achados






a) A teoria do centésimo macaco

Eu já conhecia esta parte da história (inclusive assisti a um documentário sobre isto):

Na década de 50, biólogos japoneses estudavam o comportamento de macacos selvagens (o macaco branco japonês, Macaca fuscata) em algumas ilhas do litoral nipônico. Eles descobriram um indivíduo particularmente inteligente e o ensinaram a lavar sua comida na água do mar, "temperando-a" vamos dizer assim. O primata aprendeu rapidamente a fazer isto e logo os demais membros de seu bando repetiam o mesmo gesto. Em pouco tempo, todos os membros do grupo realizavam o mesmo comportamento de "salgar" a comida antes de comê-la.

Esta parte eu não conhecia (e tem um "leve" sabor de pseudo-ciência, mas me parece divertido disseminá-la assim mesmo, só pra gente delirar um pouco):

Quando cem macacos praticavam o mesmo comportamento, algo estranho foi registrado. Repentinamente TODOS os macacos da espécie naquela ilha e em outras distantes milhares de quilômetros passaram a lavar sua comida no mar antes de comer. Segundo a teoria do centésimo macaco (apresentada pela primeira vez na década de 80, por Lyall Watson no livro Lifetide), a partir de um certo número de indivíduos (Cem macacos?) adquire ou descobre um conhecimento, este se torna conhecimento comum de todos os indivíduos.

Segundo se diz, isto também é observável em humanos, o que explica certas "modas", "memes", e comportamentos. Incluo aqui a informação (lida sabe Deus onde) que nas últimas décadas, registra-se geração após geração, no mundo inteiro, um acréscimo "inexplicável" no nível de QI do ser humano.


b)MichÆl Paukner

Tudo isto aqui em cima é uma tradução (recheada com alguns comentários meus) das observações que MichÆl Paukner fez para uma de suas imagens. Eu o descobri via Warren Ellis, e este via um ilustrador/quadrinista brasileiro, Felipe Sobreiro (vale - com certeza - uma olhada)

Seus posteres (eu compraria, se tivesse onde pendurar) são fantásticos e de beleza geométrica. A maioria deles baseados em informações científicas ou encontráveis pela Internet (wikipedia e congêneres) e ele parece ser um cara que se interessa por tudo, sem distinção: de astronomia ao misticismo, da Terra Oca à cartografia, de círculos em plantações ao calendário asteca.

Sob cada poster ele acrescenta comentários e explica com maiores detalhes "o que acontece" no poster. A imagem da Teoria do centésimo macaco é legal, mas preferi colocar duas imagens (linkadas para o Flickr) sobre as teorias do fim do mundo para 2012.

(Furadas evidentemente. Mais de cem pessoas, e portanto toda a humanidade, já sabem que o mundo acaba em julho de 2013.)


c)@mateurdart

...Se você procurava por imagens eróticas/pornográficas clássicas e/ou "chiques" e/ou diferentes, veja este blogue francês.

"il n'y a pas d'art érotique. Il n'y a que l'art. Il peut bien sûr être érotique. Question de point de vue... sur l'art."

As postagens são "temáticas". Escultura, pintura, fotografia, desenhos, bondage, banheiro, dedos, bundas, mãos, Dali, Warhol, Matisse, Klimt, Yoko Ono, Araki, Picasso, Ralph Gibson, Vettriano, Mapplethorpe, Man Ray, James Ensor, Doré, etc etc. Portanto, prepare-se.

Detalhes importante: as postagens do blog foram interrompidas há muito tempo. De algumas postagens só restam o nome dos autores das imagens... (O que pode ser um ponto de partida para pesquisas) Mas ainda assim vale uma olhada.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

arruda não arreda elefantes




Não é mole deixar os elefantes fora de nosso quintal. Tentamos cercas elétricas, pendurar saquinhos transparente com água, apanhadores de sonhos, rodear a propriedade com sal grosso, móbiles com CDs velhos, rádios tocando o hino nacional, folha de arruda atrás da orelha. Deixamos sinos de vento na varanda e quando escutamos o som oco do bambu acordamos apavorados. Pois quando os elefantes vêm, abanando suas orelhas enormes, provocam uma brisa própria de sua aproximação. Nós nos arredamos dali: só há tempo de pegar as crianças e recolher o cão (a esta altura, já late entre desesperado e valente) da coleira, jogamos nossos filhos na caçamba da picape e, se isto fosse filme, sairíamos cantando os pneus. Ficamos no alto de um morro, de meias, pijamas, lençóis e bichos de pelúcia. Acompanhamos os urros e o som de suas patas sem dedos esmagarem nosso fusca e nossa tv de plasma. A fiação irrompe em faíscas de onde nasce o incêndio e vemos o contorno das trombas como periscópios e serpentes sondando o ar. Procuram o cheiro de nosso medo. As crianças acomodam-se e dormem finalmente. Ficamos nós dois ouvindo a destruição de tudo e o brilho dourado e quente de nosso doce lar no meio da escuridão do bosque. E pensamos no elefante e ficamos a imaginar sua tromba mole, flácida e cheia de dobras e rugas como um prepúcio velho e mole, ombreado pelas rijas presas eretas de osso. Enquanto a mim aflige a violência, minha mulher ressente-se pela impotência. No amanhecer retornamos a nossa casa esperando encontrar escombros, mas lá foi erguido um palacete de mármore, com escritura falsa e garagem para seis veículos importados e uma lancha. Nossa chave não consegue abrir os portões e tocamos o interfone. Um empregado de turbante nos informa que deve haver algum engano, nos mostra os documentos e o nome do governador ou de seus amigos assinados neles e, finalmente, a imobiliária que vendeu-lhes o terreno: Marajá Incorporações. Ele sorri muito e notamos que seus dentes amarelos são de marfim. Sugere procurarmos um advogado. Hoje moramos em um depósito de lixo e repartimos o que encontramos com os abutres, os vira-latas, as gaivotas e outros elefantes. Ao pôr do sol, reunimo-nos todos na beira do mar, esperando o fim, no fim.










(Photo8)

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

para você sabe quem



A senha do motim


Tu és o raro
o novo
és o eterno
e voraz

Tens no olho
o brilho
o fogo
dos teus ancestrais

Mulher
tu és
meu estímulo
o tumulto
a mansidão

Mulher
tu és
do meu íntimo
a algoz
a escravidão

Mulher
tu és
alforria
és veloz
és multicor

Mulher
tu és
alquimia
euforia
luz calor

Tu és o raro
o novo
és o eterno
e voraz

Tens no olho
o brilho
o fogo
dos teus ancestrais

Mulher
tu és
alegria
sintonia
dor paixão

Mulher
tu és
harmonia
és quem
cria a escravidão

Mulher
tu és
a chama
és o tino
tudo enfim

És a trama
do destino
és a senha
do motim

Mulher
a qualquer hora
tu és muito
muito mais

Mulher
o que és agora
no futuro
tu serás

Tu és o raro
o novo
és o eterno
e voraz

Tens no
olho o brilho
o fogo
dos teus ancestrais

( Walter Franco, do disco Tutano)

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Telegrama

Fio



"Depois disso, voltávamos à cidade para nos perdermos no labirinto das ruas, sequiosos de uma aventura qualquer. Um dia, um cego nos levou a sua casa e nos apresentou sua família de cegos. Nenhuma fonte de luz na casa, nenhuma luminária. Nas paredes, porém, quadros, todos representando cemitérios e feitos apenas de fios de cabelo. Túmulos de cabelos, ciprestes de cabelos."

Luís Buñuel, Meu Último Suspiro.

(Imagem de Vik Muniz: "Igreja no topo da colina em Varengeville, a partir de Claude Monet" (1999), feito com mais 8000 metros de linha de costura)

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Achados

Eu também quero uma cadeira de balanço






-Este é realmente um "achado". Graças ao "Coisas do Arco da Velha", achei um "YouTube" russo, onde um grupo coletou as 100 melhores animações do século(De 1906 a 2006). Não sei quem fez esta lista... Mas é muito boa. Como está tudo em russo, não descobri COMO postar os vídeos... E nem como reuní-los de uma forma amigável... De toda forma, aqui vão alguns links:

058.Jumping, de Osamu Tesuka(1984).

023.Pai e filha, de Michael Dudok de Wit
(chorei)

010.The Street, do National Film Board of Canada (1976)
(Baseado numa história de Mordecai Richler. Assisti a este milhares de anos atrás, num programa da Cultura chamado Lanterna Mágica)

003. Hoznosti dialogu Krátký Film Praha-Jiri Trnka Studio-Jan Svankmajer, 1982
(Arcimboldo! E que nheca.)

006.(Tale of Tales)Shazka skazok Soyuzmultilm-Yuri Norstein, 1979
(Legendas em inglês. O lobinho de uma canção de ninar vivendo em uma casa abandonada)

002.Fantasmagorie, de Emile Cohl (1908)
(mudo e feito com giz)

015.(o famoso filme da luminária-pai e luminária-filho da Pixar)

062.Legend of the forest, de Osamu Tesuka (1987)
(trilha Tchaikovsky)

080. Feelings from Mountain and Water Shanghai Animation Film Studio-Te Wei, 1988

004. Crac! Société Radio-Canada-Frédéric Back, 1981
(A história de uma cadeira de balanço... e das imagens acima)

001. Gertie the Dinosaur Winsor McCay, 1914

073. The Sinking of the Lusitania Winsor McCay, 1918

078. The Sandman Paul Berry, 1991


(Um detalhe importante: muitas destas animações são "mudas" ou não necessitam de compreensão sobre o que está sendo dito. Eu mesmo gostaria de ficar o ano todo vendo estas animações. Se quiser fuçar mais, use o tag Top100, que aparecerão vários, fora de ordem)

Abs

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Telegrama

And when it lands, will my eyes be closed or open?




Hyperballad (live) Bjork

* * *





Moramos no alto de uma montanha, bem no topo, com um vista linda de tudo. Toda manhã, eu caminho até a beira do abismo e jogo coisas de lá: garrafas, talheres, pneus, motores, que encontro esparramados ao redor. Virou um hábito, mais um jeito de começar o dia. Eu faço tudo isto antes de você acordar, assim me sinto mais feliz, mais protegida de estar aqui com você, no alto da montanha. Ainda madrugada, ninguém acordado. Volto ao rochedo, continuo jogando coisas de lá, vejo-as caindo, escuto o som da queda. Imagino o som do meu corpo se esmagando contra aquelas pedras. Estaria de olhos fechados ou abertos?







(.)

sábado, 26 de dezembro de 2009

carmen miranda




Nosso pai foi Papai Noel.


Ele usava mangas compridas e ternos e coletes para esconder as tatuagens feitas na prisão. Foi assim que conseguiu aquele emprego. Nosso pai oferecia balas e doces, mas tinha unhas escuras e dedos ásperos. As mães não reclamavam do cheiro de cigarro, naquele tempo elas fumavam tanto ou mais. Quando a loja abria, não havia muitas clientes e ele ficava só com o fotógrafo, um sujeitinho perfumado que só pararia de falar depois de tomar um tiro na boca. Para não precisar encará-lo, nosso pai fixava o olhar no burro empalhado que era montado pelas crianças. Ficamos sabendo anos mais tarde que usavam olhos de boneca para preencher os globos oculares dos animais mortos.

Nosso pai fazia questão de lembrar como éramos seu inferno. Depois que fui à Coréia, o entendi melhor. Tanto que repeti muitos de seus erros. Nós também o odiávamos. Não estranhamos (ou não nos preocupamos) quando não voltou para casa. Em janeiro, encontraram seu corpo em meio à neve. A polícia acredita que ele bebeu demais, caiu e morreu na beira da estrada, enquanto tentava voltar para casa. No bolso, encontraram um recorte de revista com a foto de Carmen Miranda.










{ Inspirado pelas f otos macabras de Papai Noel: Creepy Santa Claus (post do Mental Floss) & Sketchy Santas ...BOAS FESTAS}

aranha, três espécies de.




a)

Cada vez que se arranca uma pata de azaranha-do-araguaia (Argyroneta araguaiensis), crescem mais duas no lugar. De tanto os pequenos peixes se fartarem, nasce então um ouriço-de-água-doce (Echinometra araguaiensis).

b)

As teias da azaranha-da-serra (Latrodectus terribilis familiaris) podem cobrir a distância de vários metros entre árvores e resistem bem a estação das chuvas e aos furacões, mas não às brisas. Os biólogos já registraram todo tipo de objeto encontrado em suas teias: aviões de papel, bexigas, latas de cerveja e pequenos troquilídeos. Os colibris capturados serão parte do incomum processo de reprodução desta espécie de artrópode: incomum não pelo fato dos machos cantarem para atrair as fêmeas; tampouco pelas fêmeas devorarem os machos tão logo se conclua o acasalamento; nem pela inserção dos ovos nos cadáveres dos beija-flores; também não se deve pela mãe azaranha canibalizar a própria ninhada tão logo esta ecloda dentro da carcaça de ossos miúdos. O estranho é que, devorada a última cria, a azaranha mãe usa as quelíceras contra o próprio abdômen e devora seus próprios órgãos, fiandeiras, patas, os olhos e resseca-se acompanhada de suas vítimas em sua antiga teia.

c)

A azaranha doméstica (Loxosceles nostalgicus) é relativamente comum, armando seus ninhos atrás de porta-retratos, rolos de filmes preto e branco, álbuns de fotografia ou agendas telefônicas. Inúmeros casos fatais de picadas acabam registrados como suicídios, especialmente por ocorrerem na época de Natal, durante os aguaceiros de final de tarde, pois os relâmpagos e o som molhado da passagem de carros de família no asfalto estimulam os solitários a percorrerem o fundo das gavetas e guarda-roupas em busca de tempos menos silenciosos.










(...Imagem: Bibliodissey)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

renascido






Imagino o gosto morto do filho na língua na boca. Nasceu e não se levantou. Ainda assim, ela comeu daquela placenta, e ficou ali, a seu lado, naqueles dias de primavera. Mugia para acordá-lo, incentivá-lo a levantar, mas o sono era pesado. Lambeu o filhote naquela insistência de quem tem leite, mas ele continuou deitado no solo daquela floresta sem neve.

Daí surgiram os ursos seguindo o fedor do filhote. Lamberam-no como fizera a mãe e o sacudiram, ele adquiriu uma súbita leveza, brincou um pouco, virou de costas no chão, todo exposto para receber mais cócegas e os ursos se alimentaram de seu ventre naquela posição de abraço.



A fêmea de alce fugiu dos ursos, sabia o que eles queriam. Mas ela poderia imaginá-los como anjos gordos e peludos prontos para levar o filho para uma terra quente.










(documentário na TV)

sábado, 12 de dezembro de 2009

Telegrama




Hoje: em dia



a)
Depoimento de Chico Buarque no documentário Vinicius (2005) de Miguel Faria Jr.

"Não sei onde estaria Vinicius de Moraes hoje em dia. Porque ele é o contrário de muito coisa que hoje é vitoriosa: a ostentação... Ele tinha uma coisa muito generosa, às vezes ingênuo, às vezes porra-louca, coisas que não existem mais hoje. Nem a porra-louquice, nem a generosidade, muito menos a ingenuidade. Existe sempre um resultado que se busca, um objetivo, uma coisa pragmática - tudo que Vinicius não era. Então ele faz muita falta, ou talvez, ele não pudesse mesmo estar vivo sendo Vinicius hoje. Não imagino em que lugar ele estaria dentro deste país em que a gente vive - deste país e deste mundo".


b)
Trecho de entrevista com crítico musical Marco Avinhão Minerdi realizada por Lucas Blisset por ocasião do 14º Festival de Documentários e Gastronomia de Antofagasta, onde o filme foi exibido pela primeira vez no Atacama. (Via El Mercuryo de Antofagasta)

"Mas de quem o Chico falava? Sobre Vinicius? Ou sobre Caetano? Sobre Germano? Ou sobre ele mesmo?
De todo modo, acredito que de tudo que ele diz, talvez o mais concreto seja afirmação sobre que sempre se busca algo, sempre há um objetivo, nestes nossos tempos pragmáticos.
Mas de resto, existe a ingenuidade. Uma ingenuidade em contexto South Park. Onde crianças sabem muito, julgam-se muito espertas, mas fazem burrices inacreditáveis. As pessoas macaqueiam, atores se fazendo de adultos. Sendo assim, existe também a porra-louquice. O que dizer de Jackass? Mas era mais engraçada antes, quando não era praticada na Globo ou em Hollywood ou por equipes de marketing pagas e bem comportadas.

Já quanto a generosidade, prefiro não me pronunciar. Sou crítico profissional e lido mal com estes paradoxos. Como quase todos nós, por sinal."






((a) Via Serrote nº3. (b) Psicografado via Sambexplícito)