
Vivendo em víscerasNão sei quem criou a primeira cidade dentro de um organismo. O
Mestre Jonas de Zé Rodrix se recusa a sair da Baleia, mas sei de um episódio de
“Viagem no Fundo do Mar”, onde um batiscafo tripulado pelo Almirante Nelson e uma cientista russa é engolido por uma baleia. Li um pequeno conto dos innuite (vulgo esquimós) que narra as descenturas das duas esposas de um marido violento que se fogem dele e se escondem nos restos putrefatos e fétidos de uma enorme baleia. Moral da história: melhor uma baleia podre e fedida do que um mau marido. No quase-subversivo desenho das Aventuras de
FlapJack, o protagonista mora dentro de uma baleia bem maternal, chamada Bolha. Lembro-me que em uma das viagens de Sindbad ele chega a uma ilha que na verdade é uma monstruosa tartaruga, ideia que foi reaproveitada depois na primeira história em quadrinhos dos novos
X-Men, no qual toda uma ilha bombardeada por testes atômicos adquire uma única consciência mutante. Mas nem Sindbad nem os X-Men foram engolidos como aconteceu com Jonas e com Pinóquio; talvez se aproximem mais do conceito por trás do game
Shadow of Colossus no qual um guerreiro precisa enfrentar Gigantes pendurando-se e escalando seu corpo (nunca joguei, só li a respeito). Algo semelhante a um quadrinho do Quarteto Fantástico onde a equipe chega a um
Planeta Vivo onde enfrenta milhares de criaturas que Reed Richards identificou como anticorpos. Talvez estas histórias sejam reflexos das incomensuráveis criaturas da cosmologia primitiva na qual o mundo era chato, boiando em um pires, carregado por criaturas monstruosas cada vez mais desmesuradas, como era o caso por exemplo de um
Bahamut. Em outras histórias, as pessoas é que se apequenam: em
Viagem Fantástica um submarino é injetado no organismo de um diplomata que sofreu um atentado, a ideia é tentar remover o coágulo formado em seu cérebro. Lembro da cena dos escafandristas na lágrima. Deste filme derivou o mais recente e abobalhado Viagem Insólita, com Meg Ryan e Dennis Quaid. Mais insano foi o episódio de South Park no qual um camundongo introduzido no ânus de um pervertido realiza uma jornada épica pelas tripas do homem.
Tudo isto ainda não é o mundo dentro do monstro. Como diria Neil Gaiman em seu conto "Golias", criado para o site do filme Matrix: "Um sonho dentro de um pesadelo". Recentemente, houve um filme que misturava atores de carne e osso com animação chamado
Osmosis Jones : este explora a ideia de uma cidade numa célula, ameaçada por vírus e bactérias. Virou
desenho animado no cartoon network. A verdade é que me recordo mais da série de desenho animado do que do filme. Sei de um gibi chamado Gutsville (
“Cidade-tripa”? ), ainda não publicado no Brasil, mas que parte da ideia de uma cidade nas entranhas de alguma criatura enorme. Mas o primeiro lugar em li a respeito de uma cidade surgir dentro de uma criatura foi através do conto de Moacir Scliar, “
As Ursas”, que usa uma passagem da Bíblia como base, mas que, segundo me disseram, teria sido inspirado em um outro, mais antigo, que não li e não sei o nome, de Maupassant.
Quando adolescente escrevi um quadrinho com a história de um duende que era apaixonado por uma princesa, e que só podia encontrá-la em seus sonhos. Para isto, ele invadia sua boca todas as noites. Nunca terminei e nem sei onde foi parar este caderno. E também não havia cidade alguma dentro dos sonhos daquela menina. E nunca houve nos meus.
(a foto acima foi a vencedora do Prêmio Veolia de Fotografia da Vida Selvagem: trata-se de um salto de um raro lobo ibérico flagrado por uma máquina de disparo automático na Espanha. Descobri pelo Neatorama. Clique na imagem para ir ao site e vê-la com melhor definição)