sexta-feira, 23 de outubro de 2009

fábula dos Lobos







O fogo na lareira se acendeu em um fulgor alaranjado quando a pequena pilha vermelha de roupas infantis alimentou seu corpo impalpável. A menina nua subiu na cama rangente da parenta e deitou-se sob a coberta puída da velha para escutar a voz esganiçada narrar:

-Quando a primeira Chapeuzinho caiu naquele túnel estreito e carmim dentro da boca do Lobo ela tentou se agarrar nas reentrâncias dos tecidos que recobrem o poço vertical até o estômago, mas foi tudo em vão, ela caiu, caiu, e teria se dissolvido no ácido daquele lago se não fosse um outro menino devorado anteriormente. Ele fizera uma jangada com ossos não digeridos, pedaços roídos do couro de botas velhas, os pregos destas solas, dentes de ouro, a madeira das próteses, o conteúdo de bolsas amarradas junto ao corpo ou enfiadas no rabo dos viajantes covardes que temiam mais os ladrões que os Lobos. De tudo isto fez uma embarcação com a qual salvou Chapeuzinho. Ele a levou para um promontório onde outros sobreviventes se reuniam em uma favela miserável, iluminada pelos gases intestinais recolhidos por lanternas espetadas em varas pelo chão. Eram muitos e eram homens e mulheres e sobreviviam como parasitas daquilo engolido pelo Lobo que nunca alcançava satisfação, as costelas aparentes sob a pele e o pelo. O tempo passou e eles ali construíram uma cidade sobre palafitas de material indigesto, com enormes redes tecidas de fios de cabelo com os quais colhiam a chuva de gente e carne mastigada cadentes do olho negro daquele céu escuro. Assim recebemos as sementes e plantávamos árvores e pomares que aprenderam a crescer na treva, as raízes acostumaram-se a beber dos sucos gástricos e do sangue, os frutos fosforesciam para atrair os pirilampos polinizadores. Ali os primeiros habitantes envelheceram para antes de morrer, terem filhos, e seus filhos tiveram outros filhos, até chegarmos a nós duas, eu e você neste quarto no meio deste bosque. Saiba, minha neta querida e apetitosa, dizem que um dia virá um caçador, ele romperá com seu machado a derme e a carne deste monstro que nos rodeia e veremos um cometa rasgar o céu desta noite, trazendo uma luz tão forte que nos cegará e neste dia sairemos da barriga de nosso hospedeiro velho e quase morto e saberemos então o que é o frescor e o que é o frio. Neste dia finalmente seremos livres para procurar um novo Lobo para viver.










(editado em 31.10, para "limpeza"...)

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Onirogrito




Vivendo em vísceras



Não sei quem criou a primeira cidade dentro de um organismo. O Mestre Jonas de Zé Rodrix se recusa a sair da Baleia, mas sei de um episódio de “Viagem no Fundo do Mar”, onde um batiscafo tripulado pelo Almirante Nelson e uma cientista russa é engolido por uma baleia. Li um pequeno conto dos innuite (vulgo esquimós) que narra as descenturas das duas esposas de um marido violento que se fogem dele e se escondem nos restos putrefatos e fétidos de uma enorme baleia. Moral da história: melhor uma baleia podre e fedida do que um mau marido. No quase-subversivo desenho das Aventuras de FlapJack, o protagonista mora dentro de uma baleia bem maternal, chamada Bolha. Lembro-me que em uma das viagens de Sindbad ele chega a uma ilha que na verdade é uma monstruosa tartaruga, ideia que foi reaproveitada depois na primeira história em quadrinhos dos novos X-Men, no qual toda uma ilha bombardeada por testes atômicos adquire uma única consciência mutante. Mas nem Sindbad nem os X-Men foram engolidos como aconteceu com Jonas e com Pinóquio; talvez se aproximem mais do conceito por trás do game Shadow of Colossus no qual um guerreiro precisa enfrentar Gigantes pendurando-se e escalando seu corpo (nunca joguei, só li a respeito). Algo semelhante a um quadrinho do Quarteto Fantástico onde a equipe chega a um Planeta Vivo onde enfrenta milhares de criaturas que Reed Richards identificou como anticorpos. Talvez estas histórias sejam reflexos das incomensuráveis criaturas da cosmologia primitiva na qual o mundo era chato, boiando em um pires, carregado por criaturas monstruosas cada vez mais desmesuradas, como era o caso por exemplo de um Bahamut. Em outras histórias, as pessoas é que se apequenam: em Viagem Fantástica um submarino é injetado no organismo de um diplomata que sofreu um atentado, a ideia é tentar remover o coágulo formado em seu cérebro. Lembro da cena dos escafandristas na lágrima. Deste filme derivou o mais recente e abobalhado Viagem Insólita, com Meg Ryan e Dennis Quaid. Mais insano foi o episódio de South Park no qual um camundongo introduzido no ânus de um pervertido realiza uma jornada épica pelas tripas do homem.

Tudo isto ainda não é o mundo dentro do monstro. Como diria Neil Gaiman em seu conto "Golias", criado para o site do filme Matrix: "Um sonho dentro de um pesadelo". Recentemente, houve um filme que misturava atores de carne e osso com animação chamado Osmosis Jones : este explora a ideia de uma cidade numa célula, ameaçada por vírus e bactérias. Virou desenho animado no cartoon network. A verdade é que me recordo mais da série de desenho animado do que do filme. Sei de um gibi chamado Gutsville (“Cidade-tripa”? ), ainda não publicado no Brasil, mas que parte da ideia de uma cidade nas entranhas de alguma criatura enorme. Mas o primeiro lugar em li a respeito de uma cidade surgir dentro de uma criatura foi através do conto de Moacir Scliar, “As Ursas”, que usa uma passagem da Bíblia como base, mas que, segundo me disseram, teria sido inspirado em um outro, mais antigo, que não li e não sei o nome, de Maupassant.

Quando adolescente escrevi um quadrinho com a história de um duende que era apaixonado por uma princesa, e que só podia encontrá-la em seus sonhos. Para isto, ele invadia sua boca todas as noites. Nunca terminei e nem sei onde foi parar este caderno. E também não havia cidade alguma dentro dos sonhos daquela menina. E nunca houve nos meus.



(a foto acima foi a vencedora do Prêmio Veolia de Fotografia da Vida Selvagem: trata-se de um salto de um raro lobo ibérico flagrado por uma máquina de disparo automático na Espanha. Descobri pelo Neatorama. Clique na imagem para ir ao site e vê-la com melhor definição)

domingo, 18 de outubro de 2009

Achados



(Hooligans 4, 2002, pintura de Nicola Verlato, italiano de Verona
que vive em Nova Iorque. Outros quadros aqui. Localizado graças ao Ideiafixa)


a)Polícia para quem precisa de polícia

O site "English Russia" traz notícias estranhas, curiosidades, bizarrices destes que foram os "inimigos do Mundo Livre". (Pra ser sincero, sinto falta de algo semelhante sobre o Brasil). Quem gosta muito dele é o Warren Ellis, que volta e meia posta algum comentário sobre algo publicado lá.

Este post é um teste com certa dose de humor negro sobre manchetes sobre violência policial no noticiário da Rússia. São 20 manchetes e você precisa descobrir qual é verdadeira e qual é falsa. Se você achou a polícia em Tropa de Elite um tanto quanto truculenta vai adorar saber até onde podem chegar os heróicos defensores da justiça e da sociedade de lá.

Basta saber que a maioria das manchetes é verdadeira. Não vou traduzir tudo (sou preguiçoso demais pra fazer isto direito), mas segue uma "palhinha":

4.Um delegado amputou a mão de seu assistente; 11.Um policial mordeu e arrancou o nariz de um barman; 12.Um policial bêbado arrancou a cabeça de um jovem por 60 rublos; 14.Um policial jogou um homem de negócios pela janela do quarto andar durante interrogatório.


b)Papo de homem

Bom site para estes nossos tempos frouxos. Seguem algumas postagens interessantes: 15 flagras na hora "H"; a nova geração de homens mimados; lendas urbanas (ou não) sobre casos de empalamento.

c)Papo de homem 2

A revista Trip deste mês (nº182) traz em sua entrevista das Páginas Negras dois homens de trajetórias violentas: Rodrigo Pimentel, ex-capitão do BOPE, um dos homens por trás do livro Elite da Tropa que originou o filme Tropa de Elite; Luís Mendes, ex-presidiário, 31 anos de prisão, escritor dos livros Memórias de um Sobrevivente, Às cegas, Tesão e prazer. Vale muito ler.


d)Terry Rodgers

Graças a mesma Trip descobri o site deste pintor. Pelas datas das obras disponíveis em seu site, dá para notar que Terry Rodgers se dedica a algum tempo a estas pinturas, enormes quadros de "orgias"... Veja o que ele diz a respeito de seu próprio trabalho, AQUI. Abaixo The Dimensions of Ambiguity (2005).




(Entre o Verlato e o Rodgers, sou mais o Verlato. Mas não me perguntem o motivo.)

e) EVENTOS

e.1) 23 e 24 de outubro

A convivência do escritor Nelson de Oliveira (Ódio Sustenido, A Maldição do Macho, Subsolo Infinito, Os Saltitantes Seres da Lua, etc) com alguns poetas portugueses contemporâneos deu origem a um livro, “Axis Mundi - O Jogo de Forças na Lírica Portuguesa Contemporânea”, que será lançado em duas datas neste final de semana:

Dia 23 de outubro, sexta-feira
Às 19h
Na Livraria da Vila da alameda Lorena
Al. Lorena, 1731

&

Dia 24 de outubro, sábado
Livraria Pantemporâneo
Às 15h
Av. Nove de Julho, 3653

Mais detalhes, aqui


e.2)
Dia 31 de Outubro, às 15 horas:
Livraria Martins Fontes
Av. Paulista, 509
Próximo ao Metrô Brigadeiro

Lançamento do livro Galeria do Sobrenatural - Jornadas além da imaginação.


Organizado por Silvio Alexandre, é uma homenagem aos 50 anos do seriado de TV Twilight Zone (Além da Imaginação no Brasil) e reúne 18 narrativas inspiradas no clima do seriado.


No dia do lançamento, haverá uma conversa com Fernanda Furquim e a projeção do primeiro episódio, o piloto de 1959.

Os autores são: Andréa Del Fuego, Braulio Tavares, Cavani Rosas, Claudio Brites, Cláudio Villa, Danny Marks, Fábio Fernandes, Giulia Moon, Jana Lauxen, Lucio Manfredi, Luis Filipe Silva, Márcia Olivieri, Mario Carneiro Jr, Max Mallmann, Miguel Carqueija, Octávio Aragão, Regina Drummond, Shirley Souza e Tatiana Alves.





quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Telegrama


E quando acordou, a baleia ainda estava lá



Mestre Jonas
(Zé Rodrix)


Dentro da baleia mora mestre Jonas,
Desde que completou a maior idade,
A baleia é sua casa, sua cidade,
Dentro dela guarda suas gravatas, seus ternos de linho.
E ele diz que se chama Jonas,
E ele diz que é um santo homem,
E ele diz que mora dentro da baleia por vontade própria,
E ele diz que está comprometido,
E ele diz que assinou papel,
Que vai mantê-lo dentro da baleia,
Até o fim da vida,
Até o fim da vida.
Dentro da baleia a vida é tão mais fácil,
Nada incomoda o silêncio e a paz de Jonas.
Quando o tempo é mal, a tempestade fica de fora,
A baleia é mais segura que um grande navio.
E ele diz que se chama Jonas,
E ele diz que é um santo homem,
E ele diz que mora dentro da baleia por vontade própria,
E ele diz que está comprometido,
E ele diz que assinou papel,
Que vai mantê-lo dentro da baleia,
Até o fim da vida,
Até o fim da vida,
Até subir pro céu.

sábado, 10 de outubro de 2009

Zerografia





Mister Mário Miranda Wong Quintana


Não era difícil ver aquele senhor nesta mesma praça alimentando aos pombos. Ele acompanhou a colocação de grades, portões e interfones sob as marquises onde anteriormente se amontoavam os sem-teto. Percebeu a troca dos bancos da praça por novos, ergonomicamente voltados a colocação de bundas e totalmente desaconselháveis a quem tentasse tirar uma soneca ali. O senhor Mário escreveu um poema criticando e denunciando o desprezo da sociedade por aquelas pessoas e o enviou aos jornais. Amarrou a mensagem na perna de seu pássaro favorito e o soltou pela janela. Apesar da assinatura graciosa de Miranda Passarinho, o responsável pelo envio da mensagem era Wong, uma de suas cinco personalidades identificadas e diagnosticadas posteriormente pelo renomado psiquiatra e militar da reserva Capitão Rodrigo Terra. Internaram aquele senhor no Instituto Psiquiátrico Forense para observação, e pararam de aparecer pombos mortos. Como nada é perfeito, também ressurgiram os mendigos na praça. Dormiam sentados, confortáveis em seu desconforto. Talvez nunca mais ouvíssemos falar dele, não fosse outra de suas personalidades, o paranóico fumante piromaníaco Quintana Boleadeira. Ao fugir de sua cela, deixou fogo ateado nos colchões provocando o incêndio do edifício. Após uma noite de mortes, feridos e da maior fuga em massa de psicopatas e maníacos homicidas da história de Porto Alegre, a brigada militar e os bombeiros conseguiram controlar as chamas. Em meio aos populares que testemunhavam as operações de rescaldo, um ou dois internos hesitavam em voar para mais longe. Uma enorme coluna preta subia ao céu claro de inverno. Talvez pelo frio, um lamentou a demolição de sua antiga moradia. O outro acompanhava a fumaça que lembrava uma lava leve no ar e murmurou encantado por aquela manhã “As únicas coisas eternas são as nuvens.”

















(...)

Onirogrito




28/09/2009


Em determinado momento, depois de deixá-la na portaria de seu edifício, percebi a escuridão na qual me encontrava. Dirigia com os faróis apagados, um breu me rodeava feito venda, aqui e ali distinguia uma esquina, um poste, um cruzamento, uma porta fechada, um corpo na calçada. Não acendi o farol, talvez já estivesse funcionando, mas aquela noite não se rendia por qualquer coisa. Os outros poucos veículos prosseguiam devagar, mas sem parar em local nenhum pelo perigo de assaltos nas quebradas. Eram navios amaldiçoados, submarinos imersos em um meio viscoso, vagueando sem aportar.

Mas logo vi que não era madrugada, a escuridão era só ali, naquela baixada, a cidade rebentava sob um sol peçonha de holofote, os raios brancos na cabeça flechando a pele, uma luz nuclear sobre as paredes mudas dos edifícios sem janelas, o calor de doença, ar ressecado, inflamação na pedra, as avenidas desertas, o brilho túmido do horizonte, parece que sofro de catarata; tudo compensava o nicho úmido da baixada do Glicério. Despertei, os olhos cheios de grãos, ausência de lágrimas.









(No dicionário, definição para glicério: medicamento que usa glicerina como umectante. Clique na imagem para a fonte)

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

pequena história inverossímil de esperança




O homem sem dois dedos da mão direita ultrapassou a catraca. Desceu as escadas rolantes. Conferiu a diferença entre o relógio de pulso e o da plataforma. Afastou-se da linha amarela de segurança. Cedo ainda. Encostado na parede, entre um mapa de localização e um poster de publicidade, observou o movimento. Urro da composição ao sair do túnel e chegar na estação. Os trens cobertos por uma purpurina de gotas de chuva. Passageiros saíam e esbarravam naqueles que pretendiam entrar, empunhando guarda-chuvas. Um sinal sonoro e a porta se fechava, automaticamente. Uma pessoa correu, mas não conseguiu alcançar a tempo. Frustrado, rumou para um lado mais vazio da plataforma. Acidentalmente, encarou aquele que aguardava a hora exata.





Este se moveu, caminhando lentamente até o diagrama das linhas e estações do metrô e suas conexões com o sistema de trens metropolitanos e de ônibus intermunicipais. Colocou o indicador numa das várias linhas coloridas. Depois que o trem seguinte partiu, o homem prosseguiu seu passeio pela plataforma. Um pilar cruzava os vários níveis da estação. Atrás da coluna, ocultas na sombra de concreto, duas adolescentes se beijavam em namoro, mochilas nos pés. Não eram bonitas, nem particularmente interessantes. Ninguém as notava. Apenas o homem sem os dois dedos da mão direita. Antes que percebessem sua presença, ele caminhou novamente em direção a linha amarela e ao precipício dos trilhos.




Conferiu a hora no pulso. Decidiu pegar o próximo. Um papel voou com a vinda do trem. Havia um número pintado na lateral. Ele memorizou para mais tarde, para o telefonema. Entrou, sentou-se em uma das extremidades do interior do vagão, os bancos disponíveis rareando. Ao seu lado, um rapaz distraía-se com o próprio reflexo na janela, isolado em seu fone de ouvido. O som do aparelho escapava nervosamente dos ouvidos, os próprios pensamentos abafados. As meninas entraram no mesmo vagão, mas por uma outra porta. Mãos dadas como irmãs, caminharam pelo corredor até ficarem em pé, por acaso próximas a ele. O homem fixou o olhar em um ponto neutro, o piso preto emborrachado.





Mas depois as paradas do percurso lotavam cada vez mais o trem de passageiros sonolentos e mal-humorados. O clima chuvoso favorecia uma moda de capas e jaquetas em tom cinzento, as pessoas precisavam se camuflar na paisagem. O interior do vagão foi coberto pela penumbra, uma mata fechada de corpos humanos em pé. As meninas acuadas em um ponto privilegiado para a discreta vigilância do homem em cuja mão direita faltavam o dedo mínimo e o anular. Agora, escondidas e ao mesmo tempo expostas, evitavam o abraço.
Mas continuava evidente. Ao menos para ele, os demais passageiros as ignoravam, como ignorariam a todos. Cegos uns para os outros. Elas procuravam-se uma no olhar da outra, mas sem coragem de se encarar e terminarem cegas também, mas para o mundo. Elas se tocavam e conversavam, palavras perdidas na floresta de adultos escutando músicas em mp3 ou trocando torpedos ou jogando tetris, e elas, as mãos como cílios e borboletas, as pontas dos dedos de unhas curtas teclando uma a outra, anéis e pulseiras, dedilhando camas de gato, canções invisíveis e sorrisos tímidos. O homem conferiu a hora, preocupado.


Ele deveria descer na estação imediatamente anterior a da Praça General Vargas, aquela de maior movimento. O homem precisaria romper a barreira de pessoas e se antecipar para sair no intervalo em que as portas ficariam abertas. Elas ignoraram os anúncios por parte do condutor da composição. Sabendo que isto contrariava a diretriz, o homem de oito dedos prosseguiu, sem descer onde deveria. O rapaz a seu lado ouvia Bach, o terceiro concerto de Brandenburgo. Na General Vargas, boa parte dos passageiros saiu do trem, as meninas desceram em meio ao estouro para desaparecer. Ele nunca mais as veria. O homem acompanhou a multidão, encarava o piso e os calçados das pessoas, esqueceu-se do rapaz de fones no ouvido, este continuou a viagem, ele e próprio reflexo, o guarda-chuva abandonado sutilmente sob o banco, timer ativado. Quando o homem ultrapassou a catraca, escutaram aquela trovoada incomum. Todas as demais ocorreram no horário e local previsto. Mas esta explosão ocorreu no túnel entre uma estação e outra, estragando a coreografia planejada para aquela manhã.















(...)

Achados




Modelinho básico: Escafandro francês de 1882, exposto no Museu da Marinha Francesa. Achei no Neatorama.

a)Farrazine 13

Legião, de Ricardo Andrade e Snuckbinks, uma história em quadrinhos noir. O penúltimo capítulo de Albaria, de Wilton Pacheco, mais uma entrevista com o autor. Um artigo sobre o Festival de Censura que assola o país. Seção Por Onde Anda?, HQ’s Bíblicas e Infilmáveis, Baú do Batman. Um festival de contos: Star Warghs, Trave na Treva, As Noites do Bar do Limbo, 37 Dias.
E mais coisas como Dito ou Mal-Dito (seção nova), Toca Raul (homenagem ao Raulzito), Blues, Nostalgia, Uma Sombra Viva.


Escrevi o conto "Trave na treva no campo de trevos"... Para ler, baixe pelo link:

http://www.4shared.com/file/134317356/92f1b2d/FARRAZINE__13.html



b)Sete de Outubro, às 19 horas.

Lançamento do livro "Rapsódias, primeiras histórias breves", de Rodrigo Novaes de Almeida, que participou comigo do Portal Stalker. Será na Editora Multifoco, Av. Mem de Sá, 126, na Lapa, Rio de Janeiro.

c)Um link para quem gosta de astronomia, astronautas e notícias fora de órbita:

Space: http://www.space.com/

d)Mais do Neatorama. É um blogue que recebe colaboração de dezenas de outros blogueiros... Todos os links abaixo em inglês.

Coelhos matando cobras

Sete espécies bizarras de animais de criação

(Na lista descolada pelo Neatorama faltou o Jacobino, um pombo de capuz muito esquisito... Achei umas fotos deste e de outras espécies bem estranhas de pombos AQUI, no Bukisa)




e)E mais um blogues/links interessante pra guardar:

Dinosaurs and robots : sobre objetos incomuns

"Rather than focus on the newest trend, we will seek authentic, handy, rarefied, disgusting, illuminating, delicious, mysterious, intoxicating, commonplace, historic, intensely personal, entertaining and enlightened objects, both priceless heirlooms and exquisite trash. "

Xplanes (via Warren Ellis) : sobre aeroplanos e máquinas voadoras incomuns.

"experimental aircraft. exotic aeromachines. oddities. sleek silver cigars. pedal-o-trons. soviet hive-mind bombers. aerial joy. the olden days. action shots. propaganda posters. etc "

Prensada (em português), da Patrícia.

http://prensada.blogspot.com/

domingo, 20 de setembro de 2009

Telegrama

...








Tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo







...

Achados



Gabrielle d'Estrées e uma de suas irmãs
1595
Musée du Louvre, Paris



a)Pipoquinha

Conhecia o quadro acima de uma história do Giuseppe Bergman, personagem criado pelo Milo Manara. Mas sempre o achei mais estranho do que propriamente erótico, por se tratarem de duas irmãs e pelo gesto parecer mais o de quem pega uma pipoca do que um mamilo. Agora a Beluga (cujo "O Belogue" acabou de fazer quatro anos) esclareceu minhas dúvidas. CLIQUE.



b)As dez árvores mais espetaculares do mundo.

Vá primeiro ao (grande) Bráulio Tavares no Mundo Fantasmo para entender e depois ao link do Neatorama. Existe também uma lista de árvores famosas no wikipedia, onde não consta um único "pé de laranja-lima" sul-americano. Deveria - no mínimo, é a primeira que me ocorre - haver a árvore sob a qual Funes, o Memorioso, passou seus últimos dias... Ou então o Maior Cajueiro do Mundo do Rio Grande do Norte... Ou alguma mangueira, araucária, jaqueira, seringueira, andiroba, jequitibá, as árvores citadas em Bem Leve da Marisa Monte, sei lá...

Chamem a Regina Casé do Pé de quê!!!

c)Kafka faz bem à saúde


Leitura do absurdo estimula habilidades mentais

"
Travis Proulx [Univ. da Califórnia, Santa Bárbara] e Steven Heine [Univ. da British Columbia], psicólogos, descobriram que a nossa habilidade de encontrar semelhanças e sentido é estimulada quando nos absorvemos na literatura do absurdo. E mais interessante ainda: habilitando-se essa capacidade, ela reaparece aprimorada para resolver outras tarefas ou problemas fora do campo da leitura." (Continua...)

fonte: Peregrina Cultural, da Ladyce West


d)A literatura e as escalas de grandeza

"Tera é uma adaptação originária do grego tetra-, que, como sabemos desde 1994, é um prefixo que significa "quatro", como em "tetracampeão", "tetraciclina" ou "tetralegal". Tera é um multiplicador, por exemplo, um teragrama equivale a um trilhão de gramas. (Não confundir com "tetragrama", que significa uma palavra com quatro letras.) Donde podemos concluir que um teraconto são um trilhão de contos." (Continua...)


A fonte do texto é o blogue Prosa Caótica e já é um texto meio antigo (mas eu gostei)...

Mas eu encontrei neste outro blogue que só copia textos de outros blogues.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Onirogrito


(Compress, de Alyssa Monks)


tatuíra

Éramos muitos. Muraram aquela praia com calçadões e quiosques, mas naquele tempo as castanheiras reinavam. Ficamos naquele mar até cansar. Buracos de tatuíras na beira. Chamam hoje de corruptos. Culpa do Jô. Meu pai dizia que se estes crustáceos estivessem na areia molhada, a água seria limpa. Hoje os banhistas os retiram para guardar em baldes. Comemos por lá qualquer coisa. Talvez até farofa. Não queríamos voltar, desejávamos algo diferente. Um de nós sugeriu o poço. Um lugar onde as crianças caiçaras represaram um pedaço de um ribeirão não muito profundo até formar uma piscina ideal para mergulhos. Fomos para lá. Murmúrio de rio não é chiado de mar. Uma tromba d´água derrubara o dique dos meninos. Mas ainda era bom para nadar. Os homens foram brincar. As crianças estavam livres. Quem quisesse nadar que fosse. Outros tempos. Eu tive medo. No mar só ia onde dava pé, embora soubesse nadar. Era ruim de pisar naqueles seixos. A água fria. Fiquei sobre uma pedra maior. Era cinza muito clara, quase branca, uma pedra calma. Fiquei de córcoras, o sol batia ali. Contorno das árvores e nuvens. Sol. Quando olhei para o lado, dentro do rio estava meu primo de três quatro cinco anos rindo para mim. A cabeça fora d´água, o corpo naquele meio transparente, os pés batendo a esmo sobre um verde profundo. Ele estava a meu alcance. Poderia ter esticado o braço. Não fiz nada, não era muito mais velho. Acho que tive medo de ajudar e me afogar. Hoje ainda é assim. Com você também é. Mas ele afundou uma vez. Eu gritei. Atualmente, recorro à montanha russa ou ao trem fantasma. Entendo a vergonha de quem fica preso no elevador durante dias sem berrar por ajuda. Mas inventaram os interfones. Não sei se gritei algo compreensível, talvez o nome do meu primo. Os homens vieram nadando, ele foi levado na correnteza. Como folha correndo na calha. Lembro de continuar gritando, lembro de meu tio salvar meu primo. Choro, choros. Na outra margem, viraram-no de cabeça para baixo. É assim que se desafoga uma criança. Éramos muitos: deixamos a bola para o outro defender e acabou passando por todos. Assim, ninguém acusou ninguém. Nunca contaram nada para a mãe do menino. Ninguém sabe se ele sabe disso. Ou se ele se lembra. Sem traumas ou sofrimento. Ninguém morreu. Dizem que o rio secou ou envenenou. Derrubaram aquelas árvores. A pedra calma virou pedregulho.

por que não fiz nada?












***

Telegrama

Relembrando antigas lições


Epic

Faith No More



Can you feel it, see it, hear it today?

If you can't, then it doesn't matter anyway

You will never understand it cuz it happens too fast

And it feels so good, it's like walking on glass

It's so cool, it's so hip, it's so right

It's so groovy, it's outta sight

You can touch it, smell it, taste it so sweet

But it makes no difference cuz it knocks you off your feet

You want it all but you can't have it

It's cryin', bleedin', lying on the floor

So you lay down on it and you do it some more

You've got to share it, so you dare it

Then you bare it and you tear it

You want it all but you can't have it

It's in your face but you can't grab it

It's alive, afraid, a lie, a sin

It's magic, it's tragic, it's a loss, it's a win

It's dark, it's moist, it's a bitter pain

It's sad it happened and it's a shame

You want it all but you can't have it

It's in your face but you can't grab it


What is it?

Achados




(Crayoneater, por James Jean - via A night´s owl playground)






a)DIA19 de SETEMBRO, 18 horas

Lançamento Livro Enchente, de Olivia Rabacov.
Ilustrações e projeto gráfico de Weberson Santiago.

Onde? Livraria da Vila, na Alameda Lorena

Detalhes no convite abaixo:




b)DIA 26 de SETEMBRO, das 15 às 18.

Lançamento de antologia de contos com com enredos envolvendo seres (extra) ordinários e suas múltiplas personalidades.

Será na Livraria Martins Fontes da Paulista, das 15h às 18h30, tem o lançamento do livro AlterEgo, organizado pelo quadrinista internacional Octavio Cariello.

Prefácio de Santiago Nazarian, e contos dos autores Roger Cruz (DC), Weberson Santiago (Folha de São Paulo), Gian Danton (MAD), Marcela Godoy (Devir), entre outros escritores e quadrinistas (incluindo o humilde dono deste blogue).

Detalhes no convite abaixo:





c)DIA 30 de SETEMBRO, 20 horas

Encontro com a Agente Literária Maria Moura

Pós graduada em Marketing Cultural pela USP, mais de dez anos de experiência no mercado editorial, fundou a Página da Cultura, empresa de agenciamento literário.
Será na UNICSUL, Campus Liberdade, Av Galvão Bueno, 898, em São Paulo, SP. Com entrada franca

Mais detalhes no folder abaixo:


sexta-feira, 11 de setembro de 2009

alegria, alegria




Há quem receba médicos, pintores, pensadores famosos, generais, atores, ginastas, soldados, escritores, magistrados, diplomatas, comendadores e outros ilustríssimos. Outros psicografam somente os que precisam avisar, ensinar, lembrar e sentir saudades. Existem criancinhas afeitas ao diabo. Telêmaco não se classifica nestes casos. Não. O transe de Telêmaco tornava-o receptáculo do mais enfadonho dos espíritos, um certo dr.Ulysses Padilha.

A caneta dançava sob o apoio dos dedos de Telêmaco e o que saía em sua ponta era em fonte datilográfica e linguagem cartorial. No começo, o pessoal da Mesa frequentada por ele até se assustou: depois, durante a leitura do relatório contábil e de palavreado insosso do dr.Ulysses Padilha, deixaram escapar bocejos.

Os espíritos mais iluminados oravam para que aquela alma pobre encontrasse seu caminho. Mas tudo que dr.Ulysses Padilha compreendia era a legislação tributária de 1954 ou a manutenção de computadores a válvula. Telêmaco esforçou-se para abrir espaço a outras almas, mas concluiu que mesmo os outros mortos queriam distância daquele caroço.

Telêmaco lembrava-se da mãe: praticante e incentivadora da generosidade para evolução da alma. Orações, entretanto, não eram suficientes para trazer malemolência aquele sistemático. Pois as preces iluminam o caminho do bem. Ser legal ou ser chato está muito além do bem e do mal. A alma de dr. Ulysses Padilha não atormentava os viventes com maldade. Apenas carimbava uma couraça de rotina à vida. Tinha a serventia de um relógio de pulso, seu tique taque um parafuso cada vez mais fundo ancorado no cérebro.

Tamanho dissabor provocou leve desespero. Telêmaco queria ajudar aquele espírito. Mas ignorava como proceder, já empregara os métodos usuais de auxílio às Almas. Além disso, era perceptível que o dr.Ulysses Padilha se afeiçoara a Telêmaco. Talvez por solidão do além-túmulo, o espírito se fazia sempre presente. Não dava brecha. Abandonou a psicografia, começou a possuir o corpo do médium, que jorrava um fluxo monótono e incontrolável de palavras. Seu dom desperdiçado em discursos entediantes em momentos estapafúrdios, como shows de rock, viagens de metrô, sessões de cinema. Os viventes perdiam a paciência para lidar com o médium.

Telêmaco, normalmente abstêmio, deu para beber. Esperava - quem sabe? - espantar aquele encosto. Mas o álcool tornava o médium mais suscetível a influência do espírito e durante os porres discursava em voz empolada sobre as qualidades políticas da conduta internacional de Café Filho ou a fórmula química da baquelite. Os bêbados escutavam extasiados àquele que subia na mesa para declamar longos discursos sobre a grandiosidade das coisas mesquinhas e a relevância dos detalhes desimportantes. Gritavam vivas e outros incentivos, apesar de não terem compreendido a maior parte do real assunto do discurso, mas dito assim, de forma tão aborrecida, certamente mereceria ser levada a sério.

Uma noite, já trançando as pernas, Telêmaco se perdeu. Caminhou pela madrugada sem encontrar o caminho de casa. Mas dr.Ulysses Padilha, que afinal, não era um mau espírito, procurou orientá-lo. A cidade mudara muito, com suas antenas luminosas cheias de parafusos e celulares cheios de botãozinhos. Andou pelas antigas ruas, saudoso da vida simples e dos vaga-lumes. Lá pelas tantas, a alma reconheceu a cadência e a batida de sambas antigos. Seguiu o batuque e encontrou uma porta aberta, cujo final da escadaria terminava em um Clube de Danças de Salão.

Hesitou antes de entrar, não era lugar que costumasse frequentar, mas eis que passava um grupo de senhoras sorridentes e gargalhantes, talvez um tanto esvoaçantes demais para a idade. Teve a impressão de reconhecer uma delas. Subiu a escadaria em sua perseguição. Lá em meio aos casais suados e rodopiantes redescobriu dona Leocádia, antiga paixão da adolescência. Ficou de longe a observá-la. Viu a transformação de Leocádia em uma senhora pingando de tanto dançar no salão, a sombra e o rímel escorrendo-lhe nas rugas. Mas ela era indiferente a estas máscaras: lambia os beiços até estalar após os copões de cerveja. A velha paixão reacendeu o peito incorpóreo de dr.Ulysses Padilha: fez Telêmaco abordar aquela viúva. Dona Leocádia admirou-se por um bebê como aquele parecer interessado nela. “És arqueólogo ou tão somente golpe do baú?”. Mas a vida para ela era curta demais para estas inconveniências. Conversaram muito e ela, sempre direta: “Como um menino como você pode ser tão chato?” e o puxou para o meio do Salão. Ele desculpou-se por não saber dançar, por estar tão bêbado e ela respondeu que era taxi-girl na juventude, tinha paciência com pés de chumbo e já vira bebuns em estado muito pior que o dele. E ela o conduziu para lá e para cá e o fez girar. Tanto que Telêmaco sentiu-se mal e vomitou. Mesmo assim, Leocádia não abandonou o garoto. Quando se cansava, pedia a uma de suas amigas que se encarregasse do rapaz: Cota, Leninha, Edwirges, Genoveva, Esmeraldina, Penélope. Cada uma delas explodindo de tesão do viver, apesar dos enterros, das artroses, das temporadas celibatárias, das varizes, da catarata, dos filhos que tomam dinheiro, das dentaduras, das noras vagabundas, dos remédios para evitar o que virá, dos netos invisíveis ou viciados, da solidão do rádio ou televisão no último volume pela madrugada.

A alma sentiu o desperdício de se atrelar.

Na noite seguinte, Telêmaco e dr.Ulysses Padilha estavam novamente no Clube. Dona Leocádia gostou de ver o rapazola. Eles chegaram, por conta própria, a mesma conclusão de Benjamin Franklin a respeito da mulher madura. Apesar disso, ela sempre ameaçava Telêmaco: “Se me passares para trás, te mato, filho da puta!” Depois de morta, a Alma submersa aprendeu a pirar e a respirar. Tirou o doutor e o Padilha do nome, conforme ela lhes ensinara: “Precisa de sobrenome quem não sabe conquistar respeito”. Telêmaco faleceria muitos anos depois de cirrose, mas até chegar lá, foi só alegria, alegria.













***(imagem do filme brasileiro "Chega de Saudade": clique na imagem para depoimento da Diretora Laís Bodansky. Conto criado para o tema do Encaixe-se de Setembro: Transe/Imersão)