quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Onirogrito


(Compress, de Alyssa Monks)


tatuíra

Éramos muitos. Muraram aquela praia com calçadões e quiosques, mas naquele tempo as castanheiras reinavam. Ficamos naquele mar até cansar. Buracos de tatuíras na beira. Chamam hoje de corruptos. Culpa do Jô. Meu pai dizia que se estes crustáceos estivessem na areia molhada, a água seria limpa. Hoje os banhistas os retiram para guardar em baldes. Comemos por lá qualquer coisa. Talvez até farofa. Não queríamos voltar, desejávamos algo diferente. Um de nós sugeriu o poço. Um lugar onde as crianças caiçaras represaram um pedaço de um ribeirão não muito profundo até formar uma piscina ideal para mergulhos. Fomos para lá. Murmúrio de rio não é chiado de mar. Uma tromba d´água derrubara o dique dos meninos. Mas ainda era bom para nadar. Os homens foram brincar. As crianças estavam livres. Quem quisesse nadar que fosse. Outros tempos. Eu tive medo. No mar só ia onde dava pé, embora soubesse nadar. Era ruim de pisar naqueles seixos. A água fria. Fiquei sobre uma pedra maior. Era cinza muito clara, quase branca, uma pedra calma. Fiquei de córcoras, o sol batia ali. Contorno das árvores e nuvens. Sol. Quando olhei para o lado, dentro do rio estava meu primo de três quatro cinco anos rindo para mim. A cabeça fora d´água, o corpo naquele meio transparente, os pés batendo a esmo sobre um verde profundo. Ele estava a meu alcance. Poderia ter esticado o braço. Não fiz nada, não era muito mais velho. Acho que tive medo de ajudar e me afogar. Hoje ainda é assim. Com você também é. Mas ele afundou uma vez. Eu gritei. Atualmente, recorro à montanha russa ou ao trem fantasma. Entendo a vergonha de quem fica preso no elevador durante dias sem berrar por ajuda. Mas inventaram os interfones. Não sei se gritei algo compreensível, talvez o nome do meu primo. Os homens vieram nadando, ele foi levado na correnteza. Como folha correndo na calha. Lembro de continuar gritando, lembro de meu tio salvar meu primo. Choro, choros. Na outra margem, viraram-no de cabeça para baixo. É assim que se desafoga uma criança. Éramos muitos: deixamos a bola para o outro defender e acabou passando por todos. Assim, ninguém acusou ninguém. Nunca contaram nada para a mãe do menino. Ninguém sabe se ele sabe disso. Ou se ele se lembra. Sem traumas ou sofrimento. Ninguém morreu. Dizem que o rio secou ou envenenou. Derrubaram aquelas árvores. A pedra calma virou pedregulho.

por que não fiz nada?












***

Telegrama

Relembrando antigas lições


Epic

Faith No More



Can you feel it, see it, hear it today?

If you can't, then it doesn't matter anyway

You will never understand it cuz it happens too fast

And it feels so good, it's like walking on glass

It's so cool, it's so hip, it's so right

It's so groovy, it's outta sight

You can touch it, smell it, taste it so sweet

But it makes no difference cuz it knocks you off your feet

You want it all but you can't have it

It's cryin', bleedin', lying on the floor

So you lay down on it and you do it some more

You've got to share it, so you dare it

Then you bare it and you tear it

You want it all but you can't have it

It's in your face but you can't grab it

It's alive, afraid, a lie, a sin

It's magic, it's tragic, it's a loss, it's a win

It's dark, it's moist, it's a bitter pain

It's sad it happened and it's a shame

You want it all but you can't have it

It's in your face but you can't grab it


What is it?

Achados




(Crayoneater, por James Jean - via A night´s owl playground)






a)DIA19 de SETEMBRO, 18 horas

Lançamento Livro Enchente, de Olivia Rabacov.
Ilustrações e projeto gráfico de Weberson Santiago.

Onde? Livraria da Vila, na Alameda Lorena

Detalhes no convite abaixo:




b)DIA 26 de SETEMBRO, das 15 às 18.

Lançamento de antologia de contos com com enredos envolvendo seres (extra) ordinários e suas múltiplas personalidades.

Será na Livraria Martins Fontes da Paulista, das 15h às 18h30, tem o lançamento do livro AlterEgo, organizado pelo quadrinista internacional Octavio Cariello.

Prefácio de Santiago Nazarian, e contos dos autores Roger Cruz (DC), Weberson Santiago (Folha de São Paulo), Gian Danton (MAD), Marcela Godoy (Devir), entre outros escritores e quadrinistas (incluindo o humilde dono deste blogue).

Detalhes no convite abaixo:





c)DIA 30 de SETEMBRO, 20 horas

Encontro com a Agente Literária Maria Moura

Pós graduada em Marketing Cultural pela USP, mais de dez anos de experiência no mercado editorial, fundou a Página da Cultura, empresa de agenciamento literário.
Será na UNICSUL, Campus Liberdade, Av Galvão Bueno, 898, em São Paulo, SP. Com entrada franca

Mais detalhes no folder abaixo:


sexta-feira, 11 de setembro de 2009

alegria, alegria




Há quem receba médicos, pintores, pensadores famosos, generais, atores, ginastas, soldados, escritores, magistrados, diplomatas, comendadores e outros ilustríssimos. Outros psicografam somente os que precisam avisar, ensinar, lembrar e sentir saudades. Existem criancinhas afeitas ao diabo. Telêmaco não se classifica nestes casos. Não. O transe de Telêmaco tornava-o receptáculo do mais enfadonho dos espíritos, um certo dr.Ulysses Padilha.

A caneta dançava sob o apoio dos dedos de Telêmaco e o que saía em sua ponta era em fonte datilográfica e linguagem cartorial. No começo, o pessoal da Mesa frequentada por ele até se assustou: depois, durante a leitura do relatório contábil e de palavreado insosso do dr.Ulysses Padilha, deixaram escapar bocejos.

Os espíritos mais iluminados oravam para que aquela alma pobre encontrasse seu caminho. Mas tudo que dr.Ulysses Padilha compreendia era a legislação tributária de 1954 ou a manutenção de computadores a válvula. Telêmaco esforçou-se para abrir espaço a outras almas, mas concluiu que mesmo os outros mortos queriam distância daquele caroço.

Telêmaco lembrava-se da mãe: praticante e incentivadora da generosidade para evolução da alma. Orações, entretanto, não eram suficientes para trazer malemolência aquele sistemático. Pois as preces iluminam o caminho do bem. Ser legal ou ser chato está muito além do bem e do mal. A alma de dr. Ulysses Padilha não atormentava os viventes com maldade. Apenas carimbava uma couraça de rotina à vida. Tinha a serventia de um relógio de pulso, seu tique taque um parafuso cada vez mais fundo ancorado no cérebro.

Tamanho dissabor provocou leve desespero. Telêmaco queria ajudar aquele espírito. Mas ignorava como proceder, já empregara os métodos usuais de auxílio às Almas. Além disso, era perceptível que o dr.Ulysses Padilha se afeiçoara a Telêmaco. Talvez por solidão do além-túmulo, o espírito se fazia sempre presente. Não dava brecha. Abandonou a psicografia, começou a possuir o corpo do médium, que jorrava um fluxo monótono e incontrolável de palavras. Seu dom desperdiçado em discursos entediantes em momentos estapafúrdios, como shows de rock, viagens de metrô, sessões de cinema. Os viventes perdiam a paciência para lidar com o médium.

Telêmaco, normalmente abstêmio, deu para beber. Esperava - quem sabe? - espantar aquele encosto. Mas o álcool tornava o médium mais suscetível a influência do espírito e durante os porres discursava em voz empolada sobre as qualidades políticas da conduta internacional de Café Filho ou a fórmula química da baquelite. Os bêbados escutavam extasiados àquele que subia na mesa para declamar longos discursos sobre a grandiosidade das coisas mesquinhas e a relevância dos detalhes desimportantes. Gritavam vivas e outros incentivos, apesar de não terem compreendido a maior parte do real assunto do discurso, mas dito assim, de forma tão aborrecida, certamente mereceria ser levada a sério.

Uma noite, já trançando as pernas, Telêmaco se perdeu. Caminhou pela madrugada sem encontrar o caminho de casa. Mas dr.Ulysses Padilha, que afinal, não era um mau espírito, procurou orientá-lo. A cidade mudara muito, com suas antenas luminosas cheias de parafusos e celulares cheios de botãozinhos. Andou pelas antigas ruas, saudoso da vida simples e dos vaga-lumes. Lá pelas tantas, a alma reconheceu a cadência e a batida de sambas antigos. Seguiu o batuque e encontrou uma porta aberta, cujo final da escadaria terminava em um Clube de Danças de Salão.

Hesitou antes de entrar, não era lugar que costumasse frequentar, mas eis que passava um grupo de senhoras sorridentes e gargalhantes, talvez um tanto esvoaçantes demais para a idade. Teve a impressão de reconhecer uma delas. Subiu a escadaria em sua perseguição. Lá em meio aos casais suados e rodopiantes redescobriu dona Leocádia, antiga paixão da adolescência. Ficou de longe a observá-la. Viu a transformação de Leocádia em uma senhora pingando de tanto dançar no salão, a sombra e o rímel escorrendo-lhe nas rugas. Mas ela era indiferente a estas máscaras: lambia os beiços até estalar após os copões de cerveja. A velha paixão reacendeu o peito incorpóreo de dr.Ulysses Padilha: fez Telêmaco abordar aquela viúva. Dona Leocádia admirou-se por um bebê como aquele parecer interessado nela. “És arqueólogo ou tão somente golpe do baú?”. Mas a vida para ela era curta demais para estas inconveniências. Conversaram muito e ela, sempre direta: “Como um menino como você pode ser tão chato?” e o puxou para o meio do Salão. Ele desculpou-se por não saber dançar, por estar tão bêbado e ela respondeu que era taxi-girl na juventude, tinha paciência com pés de chumbo e já vira bebuns em estado muito pior que o dele. E ela o conduziu para lá e para cá e o fez girar. Tanto que Telêmaco sentiu-se mal e vomitou. Mesmo assim, Leocádia não abandonou o garoto. Quando se cansava, pedia a uma de suas amigas que se encarregasse do rapaz: Cota, Leninha, Edwirges, Genoveva, Esmeraldina, Penélope. Cada uma delas explodindo de tesão do viver, apesar dos enterros, das artroses, das temporadas celibatárias, das varizes, da catarata, dos filhos que tomam dinheiro, das dentaduras, das noras vagabundas, dos remédios para evitar o que virá, dos netos invisíveis ou viciados, da solidão do rádio ou televisão no último volume pela madrugada.

A alma sentiu o desperdício de se atrelar.

Na noite seguinte, Telêmaco e dr.Ulysses Padilha estavam novamente no Clube. Dona Leocádia gostou de ver o rapazola. Eles chegaram, por conta própria, a mesma conclusão de Benjamin Franklin a respeito da mulher madura. Apesar disso, ela sempre ameaçava Telêmaco: “Se me passares para trás, te mato, filho da puta!” Depois de morta, a Alma submersa aprendeu a pirar e a respirar. Tirou o doutor e o Padilha do nome, conforme ela lhes ensinara: “Precisa de sobrenome quem não sabe conquistar respeito”. Telêmaco faleceria muitos anos depois de cirrose, mas até chegar lá, foi só alegria, alegria.













***(imagem do filme brasileiro "Chega de Saudade": clique na imagem para depoimento da Diretora Laís Bodansky. Conto criado para o tema do Encaixe-se de Setembro: Transe/Imersão)

Onirogrito





agulhada

Eu não quero que me reconheçam. Eu não quero que saibam quem sou. Eu não quero proteção. Eu quero justiça. Para a justiça ser cega, ela não pode olhar na sua cara, nem saber quem você é.

Ser legal ou ser chato está muito além do bem e do mal. Não fui quem disse isto. Foram as eleições a repetir os mesmos erros. Foram os amores incorrespondidos. Foram os filhos preferidos girando em falso na vida. Foram as crianças que correm atrás de quem não quer brincar. Foram as pessoas que me disseram sim, mas que deveria ter sido não. Foram as pessoas que nunca me disseram nada, mas fizeram o que deveria ter sido feito.

Conviver é uma arte. Uma arte tão bonita que a gente até acredita que a vida se resume nisso. Mas convivência não é conveniência.








***(ouija guitar)

Achados





a)Vampiros

Lista de filmes de Vampiro: tem até um “Nosferatu no Brasil”(??? Será pornochanchada?)



Fangoria é uma revista norte-americana especializada em filmes de terror. Quando criança, a gente achava fácil nas livrarias... Faz muito tempo que não vejo. Não é só sobre vampiros... Mas tem sangue à beça.

b)Andy Warhol, Batman e Drácula

Através destas listas de filmes vampirescos, descobri a existência de um filme estilo porra-muito-muito-muito-louca de Andy Warhol chamado “Batman vs Drácula”

Eu já ouvira falar que os filmes deste cara são completamente malucos. Houve um, creio que era chamado Sonho, que filmava um sujeito dormindo por três horas...

Um pouco mais sobre Warhol e seus filmes (em português):
http://ipsislitteris.opensadorselvagem.org/andy-warhol-polaroid-esportistas/

Fórum que contém fotos de Andy Warhol como Robin e Nico (1ª vocalista do Velvet Underground) como Batgirl:

http://forums.superherohype.com/showthread.php?p=15339326

You Tube com um pedaço do filme (O cara tinha "inventado" as animações GIF em 1964!!! Vejam o começo)


Existe um outro filme chamado “Batman vs Drácula”.É de 67. Pirataria das Filipinas. Achei um link com o cartaz do filme.

Acho que com estas tranqueiras do Batman circulando pela Internet, a Warner resolveu fazer um DVD de uma das séries de desenhos animados do Batman exatamente com este título: “Batman vs Drácula”.



c)Mahabarata (em inglês)
http://www.mahabharataonline.com/
http://www.mahabharataonline.com/translation/index1.php

d)Literatura

Entrevistas de Claudio Brites no Boxliberis:
Giulia Moon
Nelson de Oliveira

Conversas no Sótão : Marcelo Maluf e Flavia Muniz

Pós-Estranho: Fabio Fernandes e José J. Veiga (já é meio antiga)


e)Revistas Eletrônicas:

Revista Zunái
Terra Incognita , sobre Ficção Científica. Parou no quarto?

f)SANNA ANNUKKA:
Esta finlandesa foi a responsável pela arte do CD do Keane, Under the Iron Sea. Apesar da música e do clipe Crystal Ball serem muito bons, a verdade é que o que me impulsionou a compra do CD foi a arte desta moça, que usa elementos tradicionais finlandeses em seu trabalho. A moça é bonita (como, reza a lenda, dizem ser todas as finlandesas. Uma outra lenda afirma que elas são mudas, mas aí já seria perfeição demais para ser verdade). A imagem da Octo-City está no CD, mas esta veio do site dela.

g)Museu das tábuas de Ouija (em inglês)

Quem imaginaria tábuas de Ouija vendidas como brinquedo?

"Welcome to the heart and soul of the Museum of Talking Boards: our picture gallery of talking boards. Presented in no particular order are ninety-six talking boards and an assortment of planchettes produced during the years 1860 to 2005."

Uma tábua que eu recomendo uma olhada mais de perto é esta AQUI: perfeita para quem não quer perder tempo.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Telegrama


(Extraído do blog Peregrina Cultural. Clique na imagem
para encontrar o post com detalhes sobre a aquarela da Árvore de Jessé)




...

Meu nome veio através de sete gerações de homens com o mesmo nome, cada um dando ao primogênito o mesmo nome do pai e as mães apelidavam aos filhos para não confundí-los com os pais quando ouviam seus nomes serem chamados ao ar livre, enquanto trabalhavam lado a lado no trigo alto até a cintura.

Os filhos acreditavam que os apelidos eram seus nomes flutuando por estes campos e respondiam a eles, imaginando quem eram pelo som das palavras, sem supor que seu nome real-oficial-registrado-carimbado os aguardavam sobre algum documento em Chicago, e aquele seria o nome precedido por "Sr." e aquele nome seria o qual levariam quando morressem.

2/5/80 Homestead Valley, California


Sam Shepard, extraído de Crônicas de Motel (1984, Brasiliense)

Achados


a)1984 ou Brave New World?

Uma
pequena história em quadrinhos (em inglês) diferenciando Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley e 1984, de George Orwell.
Dica enviada pelo Brites, do
Hipocentro.
Grato ao
Esquema/Trabalho Sujo por ter encontrado o original.

b) Cantos dos pássaros

Site de canções de pássaros. Em inglês. Há cantos gravados de diversas espécies do mundo e fóruns de discussão pra descobrir a origem de cantos desconhecidos.)



c)Ernst Haeckel's Kunst-Formen der Natur

Um belo e antigo livro de formas orgânicas e naturais.


d)Bookride

Guia para livros mais raros e desejados. Em inglês. Existe algo similar em português? Tudo que achei foram sebos.

e)O ser bibliotecário

Em português, vale uma olhada neste blog. Publica informações úteis aos bibliotecários e profissionais afins, disponibilizando textos jornalísticos, literários, acadêmicos e opinões sobre nossa profissão e áreas correlatas.

f)Imagination


No blogue do Golden Age Comic Book Stories (que possui imagens escaneadas de paleo-quadrinhos e pulp fiction do tempo em que se amarrava cachorro com linguiça), encontrei algumas imagens de uma revista norte-americana de ficção científica chamada Imagination. Para ver algumas outras imagens, clique na imagem.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Telegrama




Frases pinçadas de Jodorowsky do livro "Quando Teresa brigou com Deus":


Se quer triunfar, aprenda a fracassar. Nunca se defina pelo que possui. Nunca fale de si sem conceder-se a possibilidade de mudar. Você não existe individualmente, o que você faz, os outros também fazem. Somente aceitando que não possui nada é que você será dono de tudo. Perdoe seus pais. Dê, mas não obrigue ninguém a receber. Não faça com que os outro se sintam culpados, você é cúmplice do que acontece. Descubra as leis universais e obedeça-as. Ensine os outros a aprenderem consigo mesmos. Com o pouco que tem, faça o máximo que puder. Não se pergunte aonde vai, mas avance com passos justos. Saltar é tão bom quanto rastejar: não se compare, desenvolva seus próprios valores. MUDE O SEU MUNDO OU MUDE DE MUNDO. O que é necessário também é possível. O que você vê é o que você é. Perdoe seus filhos. Não se orgulhe de suas fraquezas. As doenças são seu guia. Atue pelo prazer de atuar e não pelo resultado favorável que este ato possa lhe trazer. Não preste contas a ninguém, seja seu único juiz. Não toque o corpo do outro por prazer ou para humilhá-lo; toque-o para acompanhá-lo. Com o pouco que tem, faça o que puder.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

matruska








Bem-te-vi ao longe. Mormaço de tarde lerda. Bateram palmas no portão. A neta foi ao quarto da avó. Vó, levanta. A senhora saiu do cochilo e obedeceu, a longa e branca cabeleira um rio de nuvem. A neta circulando a fossa do castelo da cama. A velha grampeou os cabelos até cabrestarem num coque. Depois os dedos de unhas largas e cheios de veias tatearam o chão pelos chinelos. A neta viu a poeira crescendo que nem mato sob o estrado. Aranhas pelas teias dos pés. Depois a senhora rasteou a sola de borracha nos tacos e tapetes. A neta foi atrás, imitando passo. Avião ronronava distante. O homem pediu algo. A vó foi à cozinha, encheu de água o copo. Entre as roseiras e a conversa dos adultos, a neta escutou amarelo, azul e vermelho. As veias são violetas. O homem agradeceu e foi embora, balançando em passo pesado na calçada. Cantarolava um samba antigo. A avó acompanhou com os olhos aquele homem, copo vazio na mão. O sol detrás fez das nuvens um incêndio branco. A neta continuava futricando joaninhas e tatuzinhos nas plantas. A velha comentou para a menina, certa que não seria ouvida, “Aquele bêbado era para ser seu avô”. Depois mandou a neta sair dali para não ferir os olhos nos espinhos.













***

Telegrama


(Pintura de Egon Schiele)


A imagem da Vida

"Nós nunca precisaremos inventar uma imagem falsa da Vida para poder amá-la. Porque, na dureza e sob o Sol, nós aprendemos à força a amá-la, com o que ela tem de ardente e glorioso, mas também com o que possui de degradado, sangrento e sujo. O que é cruel e sujo também faz parte da vida e terá que ser enfrentado com as armas do sangue, do riso, e da luta, com a valentia tenacidade do homem diante do que a Vida tem de mais desordenado - o sofrimento, a humilhação e a Morte."

Ariano Suassuna, em "Romance d´A Pedra do Reino e o príncipe do sangue do vai-e-volta"

terça-feira, 18 de agosto de 2009

"Love is these blues that I´m singing again"







Tasso pediu um tempo.

Homem não pede tempo, Renata sabia. Homem não precisa de tempo para refletir, ver o que quer de um relacionamento. Quem pede tempo são as mulheres. Mulheres: ansiedades e expectativas. Renata tinha certeza, ele arrumou outra. Mas ocultou suas suspeitas. Fixou-se nas ruas, nos faróis e lanternas dos automóveis, nas janelas apagadas dos edifícios, nas luzes coloridas no display do som. Ela perguntou se deveria esperar sua ligação, Tasso achava que sim, qualquer coisa ligaria no domingo ou segunda. Ele queria manter o vínculo. Renata concluiu que não era ainda uma coisa certa. Saiu do carro sem beijar e foi para seu apartamento. O veículo não esperou ela entrar para dar a partida.


Era madrugada, mas o pai ainda não chegara da Superintendência. Devia estar em alguma Operação Satiagraha da vida. Apesar da hora, Renata ligou o micro e foi para a Internet conferir o perfil de Tasso. Foto: ele sem camisa, rindo, óculos escuros sob o sol. Repassou a lista de amigos e os últimos recados. Selecionou duas ou três garotas. Mas o perfil delas era fechado para desconhecidos. Escapou um palavrão, não daria mais para resolver sozinha. O MSN confirmou que o melhor amigo de Tasso estava online. Era Fernandinho. Que está fazendo em casa? Não sabia que ele torcera o pé jogando Wii. Ficaria de molho no quarto um tempo.

Vou ficar aqui só pensando em você.

Fernandinho sempre quis comê-la. Mais de uma vez o flagrou espiando seu decote, os seios magros espremidos pelo sutiã. Durante uma viagem de Tasso a trabalho, eles se encontraram por acaso em um aniversário. Chegaram a dar uns amassos que não foram além de amassos. Fernandinho, bêbado de uísque e baleado pela maconha não deu conta do recado. Vivia pedindo outra chance, mas ela recusava.

Fernandinho confirmou qual das três meninas recebeu recado de Tasso. Dilma. Conhecia de nome. Tatuagem nas costas e piercing no clitóris. O irmão dela, Dirceu, era popular: o rei das rodinhas. Abastecia de ácido a faculdade, tinha uma namorada rica responsável por trazer os selos da Holanda. Renata perguntou se sabia onde morava Dilma. Fernandinho conseguiria descobrir, mas esta troca de favores poderia ficar cara. Renata teclou:

um pau pequeno como o seu não fará estrago kkkkk :p

Dia seguinte, Tasso estranhou que Dilma estivesse offline após o almoço. Ligava para ela e só caixa postal. Decidiu dirigir para a casa de Dilma. Ao chegar na rua, espantou-se ao ver a quantidade de carros da polícia. Reduziu a velocidade, mas evitou demonstrar interesse. Ao virar a esquina, ligou para Renata. Ela não atendeu o celular. Não queria ser interrompida.








***

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

. . .




Os melhores preços para bugus estão no Mercado Municipal. Dispostos em sacos de trinta quilos, para comprar por pugido, granel, baciada, arroba, dúzia, quilo. Para garantir que são frescos, expõem-se os bugus ainda vivos, as patas movimentando-se lerdamente no ar. Aqueles no fundo esmagados ou sufocados pelo peso dos de cima.


Magali diante dos sacos. Com a mão livre, escolhe os bugus. Verifica a cor da carapaça, estica as extremidades, cheira, sacode junto ao ouvido para sentir e escutar o balanço da seiva ou se chama pela mãe, observa a data de validade. O comerciante tem a língua presa, de sua fala espalham-se perdigotos. Oferece à freguesa um canivete para descascar o bugu e sugere que ela prove as patas traseiras. Os gritos são inaudíveis na confusão do Mercado, mas a ela tem o pudor de pinçar o cérebro para não correr o risco de escutar a agonia. Esmaga-o entre os dentes, sente o sabor de ressentimento e vaidade.

Com uma bacia pequena, seleciona os melhores: menos de uma dúzia de bugus gordos, redondos, falantes. O plástico é fechado com um nó estreito e empilhado juntamente com repolhos, bananas-prata e ouro, limão galego, cenouras, mandioquinha, cebola verde, meia dúzia de ovos de codorna, alho, maracujá, rúcula, abiu, tomates, postas de pirarucu, abacaxi, melancia. O saco estufa, um orvalho minúsculo forma-se nas paredes internas daquela bexiga. Magali retorna para seu prédio, ignorando as conversas dentro de suas compras. Os bugus concluem que a sobrevivência da maioria depende do sacrifício de outros para se poupar oxigênio. Há um sorteio ou uma briga. Um é estrangulado. No caminho dela, há um homem fétido sentado na calçada. Aguarda o final da feira, quando procurará por restos. Levanta a cabeça para coçar o pescoço e a vê, apressando o passo. Ele continua coçando enquanto exclama, lembra-se de mim, lembra-se de mim, eu sei quem é você. Intimidada pelos gritos, ela fixa os olhos na calçada enquanto arrasta seu carrinho de feira.

Em seu apartamento, é recebida pelo gato. Tira as sandálias, quer descalçar. O animal se esfrega em seus tornozelos e lambe, contente por existirem, os dedos dos pés. Enquanto esvazia o carrinho, o gato acompanha. Ela abre o saco, retira um bugu inconsciente e oferece para o felino. Este abocanha o presente e foge para a sala para deliciar-se na solidão. Magali lava as mãos, separa os temperos necessários. O fogão é acesso com um ruído elétrico, um fio de óleo é derramado sobre o fundo da panela, para refogar cebola, salsão, salsão, louro, tomilho. A panela chia. O amparo de ar fresco fornece uma sobrevida aos bugus. Eles tossem e se arrastam sobre a pia, próximo a tábua de corte. Ela se acorcora para buscar outras panelas que batem umas nas outras, num badalar cacofônico. O vestido sobe, expondo as coxas para ninguém, ela que está só na cozinha, a calcinha refletida no aço inoxidável ou sugerida sobre o teflon. Os bugus se animam uns aos outros e se levantam lentamente. Um deles rasteja na direção inversa à faca. Mas quando ela se coloca em pé, novamente, num gesto automática ela recaptura este fugitivo, quebrando suas costelas e carapaça, e o deita sobre a tábua de plástico cheia de marcas, antigos cortes como linhas de mão. A faca desce e decepa a cabeça deste antes de qualquer atitude. Então, com as mãos livres, ela irrompe o abdômen macio com as mãos, como quem abre uma tangerina. A faca é reutilizada para remoção das sementes. Parecem gotas de duas pontas. Ela recolhe uma e experimenta entre os dentes. Pressiona lentamente até irromper e esparramar seu conteúdo diminuto e amortecer a ponta da língua com sua paixão irrealizada. Os demais bugus choram e suplicam por suas vidas ou recolhem-se em suas carapaças fazendo suas preces.

Magali joga vinho tinto na panela com os refogados. Aproveita um tanto numa taça e mastiga outra semente. Quase distraidamente captura um a um os bugus. A maioria pede pela mãe, mas há um que cospe e xinga e caga. As cabeças são entregues para deleite do gato. Um consegue escapar com um talho na cabeça, mais falta de pontaria que por piedade. Porém, como todos os demais, seu corpo foi arreganhado, sementes extraídas e jogado na mesma panela que os cadáveres de seus companheiros, coberto de água, temperado com sal e pimenta-do-reino. A torneira limpa os resíduos, sucos e secreções da tábua.

Retiram-se os ingrediente após o cozimento, reza a receita. Durante este tempo, Magali prepara salsa verde: mistura ovos, salsa, vinagre, azeite, sal e pimenta a gosto. Em uma outra vasilha, mistura creme de leite e raiz forte que depois vão para o liquidificador que urra enquanto sua lâmina recorta a densidade daquele líquido. Experimenta com o garfo um a um os bugus cozidos na panela e descobre que alguns não estavam no tempo certo. Suspira. Lava as mãos com detergente de cozinha para desodorizar os dedos. Inspira procurando vestígios de alho ou de sangue, mas tudo é inodoro.

Entreabre a calcinha, enfia o fura-bolos e o pai de todos. Prova o sabor. Está bom. Só então molha a colher de pau em sua vagina e aproveita seu gosto para corrigir o tempero e a distração. Numa travessa grande, coloca os bugus e os legumes. Rega com um pouco do caldo, mas aproveita o restante no liquidificador, onde é batido e retorna ao fogo lento até adquirir consistência de molho. Ela coloca o timer e vai para a sala esperar o toque assistindo à TV de domingo. Neste momento, ela recebe um telefonema. Espera que seja o namorado que vai fazer uma prova de concurso público.

Mas é uma amiga que acabou de fazer a operação de redução do estômago. A amiga se sente deprimida e quer conversar. Sente falta de algo para culpar. Diz que descobriu que seria possível beber leite condensado, com o tempo ela recobraria seu tamanho e seu peso. Ela procura animar a amiga e fazê-la esquecer desta ideia, mas não convence nem a si mesma. A conversa remete ao tempo em que enfiavam os dedos nas gargantas uma da outra até expelir o conteúdo do que comeram. Mas elas já não eram crianças.

Na tela do eletrodoméstico, um astronauta enfrenta um tiranossauro. O timer dispara e ela usa isto como desculpa para desligar. Vai a cozinha, apaga o fogo. Retira a travessa dos bugus e posiciona um prato vazio para seu lugar na mesa. Os talheres são colocados. Um copo de água filtrada. Um bugu é colhido na concha e finalmente chega ao prato. O molho é derramado como um cobertor cremoso. Ela não tem como saber, estão todos desfigurados e irreconhecíveis pela fervura e imersão de temperos, mas aquele é o bugu que resmungou algo antes de perder a cabeça.

Admira a mesa posta. O gato está na janela, observa a paisagem de viadutos. Na sala, o filme foi interrompido por um comercial cheio de gente bonita e com dentes perfeitos. Magali bebe o copo d´água. Garfo e faca voltam para sua gaveta, limpos. Recolhe travessa e guarda no forno o almoço, prato na geladeira. Magali deixa a cozinha, deita-se no sofá sob o sol pelo resto da tarde. Sonha com pipas e coelhos azuis.












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quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Telegrama

Dezesseis mil histórias essenciais



Dentre as dezesseis mil histórias essenciais conhecidas por Yudishshtira, ele apreciava particularmente a seguinte:

Era uma vez um Rei, segundo o que diziam, o mais justo dos homens sobre a Terra. Em uma tarde quente, a Princesa - criança ainda e orgulhosa do pai - brincava ao redor do trono. As cortinas do palácio abertas para ventilar, quando um pombo entrou pelas janelas e ocultou-se sob suas pernas, implorando por proteção. O Rei piscou para a menina e concedeu seu apoio, até ouvir o balançar de correntes de um dos lustres. Um falcão esquálido pousado ali fez sua demanda:
-Este pombo pertence a mim. Eu o perseguia e ele fugiu para cá. Entregue-me.
-Não. Não se entrega um apavorado ao seu inimigo.
O falcão bateu suas asas e voejou até o capacete de um dos guardas, de onde reforçou sua exigência.
-Afirmam que você é o mais justo dos justos. Por que motivo evita a justiça? Entregue a mim e minha fome será aplacada.
O Rei abriu suas pernas e apiedou-se mais ainda da ave que arfava entre seus calcanhares. A menina atenta ao diálogo soltou seus brinquedos.
-Não devo abandoná-lo. Este animal confiou em mim.
-Mas todo o alimento precisa de algum alimento. Desde sempre este pombo está fadado a perecer nas minhas garras. A hora dele chegou. Entrega-o.
-Minha palavra é mais forte que o destino.
-Mais forte que o darma?
O Rei assentiu. O cortinado amainou em seu ondular: o vento da tarde mudou de direção. O falcão desceu ao chão a seus pés. A Princesa observou as longas unhas do falcão sobre o piso. O pombo encolheu-se mais ainda sob seu protetor.
-Falecerei sem a morte deste pombo. Minha mulher e meus filhos irão em seguida, aguardando-me inutilmente em nosso ninho. Bem que gera o mal, não é um bem, é uma armadilha. A verdadeira virtude é superior a todas as contradições.
-O que você diz é sensato. Mas um erro não justifica um outro erro e nem um acerto anula um erro. Não vivemos em uma contabilidade de atos. Preciso ser o mais justo e não é justo que abandone este animal à sua sorte. Você pode comer outra coisa: um boi, um cavalo, um elefante, um coelho. Dou o que você quiser, um rebanho inteiro, um prato cheio de baratas.
O falcão coçou suas próprias penas antes de responder:
-Sou um falcão, não um homem, um leopardo, um tigre ou uma raposa. Nada disso me apetece. Entretanto, existe algo que me fará deixar este pombo. Corte um pedaço de carne de sua coxa, do mesmo peso deste pombo e dê a mim.
Assim foi feito. Pediu que a filha trouxesse uma faca e assim ela fez, os pezinhos ecoando pelos corredores. Colocaram o pombo sobre um dos lados de uma balança. O Rei primeiro cortou um pedaço de sua coxa. Depois da outra. O prato da balança ignorou o lançamento destes pedaços de carne. Os artelhos. As panturrilhas. As pernas. As orelhas. O apêndice. Um dos braços. Peito. Todos os pedaços mutilados do Rei eram mais leves que aquele pombo.
Em determinado momento, serviçais ajudaram àquele homem mutilado a ficar sobre o prato da balança. A coroa solta sobre a almofada do trono. Ainda assim, a balança nem se mexeu. Pelas janelas abertas adentraram enxames de moscas em frenesi com o cheiro metálico do sangue, os guardas levantaram escudos e arremessaram lanças contra aquele enxame que desejava aquele vinho quente. O pombo voou até um dos lustre e o mesmo fez o falcão. Disseram, em uma única voz, antes de voarem juntos pela janela e nunca mais serem vistos:
-Viemos até aqui conhecer àquele que dizem ser o mais justo dos homens.






(Adaptação de trecho de “Mahabarata contado por Jean-Claude Carriere”, Editora Brasiliente, 1994)

conciliação (ou nada mais)

(antigo cartão de advogado encontrado durante uma arrumação em livros (muito) velhos: chuto que seja da década de 50. O nome foi apagado, pois descobri que seus parentes continuam no ramo. )





Aos 13 (treze) dias do mês de novembro do ano de dois mil e sete, às treze horas, compareceram sob ordem do MM. Juiz do Trabalho, Dr. SALOMÃO ABI HAMURA, os litigantes: sra.EUZINA EMILIANA SILVA, reclamante, e sr.VLADISLEU NOSFERATU, reclamado.


Presentes as partes da mesma forma da audiência anterior.

CONCILIAÇÃO REJEITADA.

DEPOIMENTO PESSOAL DO(A) RECLAMANTE: que foi admitida em agosto de dois mil e cinco; que exercia a função de enfermeira e acompanhante do ancião; que foi demitida no dia 31.12.2005; que o reclamado vivia em casarão antigo e em ruínas, conhecido no bairro como “Castelinho do Jason”, referência a um filme hollywoodiano de qualidade discutível; que precisava de dinheiro e que veio para São Paulo na intenção de estudar enfermagem; que o reclamado alegou ter doença de pele que impossibilitava o contato com a luz solar; que o reclamado vivia em meio à sevandija no porão; que, apesar de não ser sua função, passou a arrumar a casa; que na noite de 31 de outubro, enquanto a reclamante estava na cozinha, o reclamado solicitou por seus serviços; que o reclamado pediu que entrasse no porão sem acender a luz; que o reclamado avançou sobre ela em meio à treva, dizendo para a depoente “perdão, Euzina, você foi muito boa para mim, mas tenho fome.”; que percebeu que no reclamado uma força descomunal e em sua boca duas presas projetavam-se de suas gengivas até há pouco desdentadas; que lembrou-se de prece ensinada pela avó em Morro Cabeça no Tempo, Piauí; que diante das palavras proferidas, o reclamado recuou violentamente fazendo um som “de gato sendo escaldado”; que subiu correndo as escadas do porão; que ouvia os passos do reclamado às suas costas na cozinha; que pegou uma faca de pão no escorredor para defesa; que cravou a faca em suas mãos de unhas longas “como as de uma jaguatirica”; que o reclamado irrompeu uma série de impropérios do mais baixo calão; que durante o embate físico com o reclamado, esbarraram acidentalmente no fogão, derrubando a chaleira e apagando o fogo; que saiu porta fora da cozinha; que, mesmo ferido, o reclamado continuou perseguindo-a pelo quintal do casarão; que o reclamado conseguiu derrubá-la e com uma mão impediu-a que dissesse novamente a oração protetora; que o reclamado enfiaria seus caninos proeminentes em seu pescoço se não tivesse ocorrido a explosão no casarão; que o reclamado a soltou enquanto observava seu domicílio indo pelos ares em chamas; que a reclamante aproveitou a confusão para escapar e ainda pode ouvir durante sua fuga “você está demitida, sua incompetente, cretina” dentre outros palavrões; que fora socorrida por vizinhos e populares; que uma senhora, cujo nome não se recorda, lhe disse que o reclamado havia sido amaldiçoado já muito idoso e que tentava atrair vítimas desta forma, uma vez que seu físico não era capaz de atrair mocinhas; que os bombeiros e a polícia chegaram em seguida, mas não puderam salvar a residência que desabou em chamas algum tempo depois; NADA MAIS.

DEPOIMENTO PESSOAL DO RECLAMADO: que a reclamante foi admitida em 15.08.2005; que exercia a função de acompanhante; que ofereceu o trabalho por pena, uma vez que a mesma parecia esforçada e tinha pretensões de prosseguir nos estudos; que laborava das 22 às 07 da manhã, confirmando que possui a doença de natureza fotofóbica, inclusive através dos trajes “luvas, sobretudo e chapéu não são os artigos mais em moda diante deste calor”; que a reclamante era uma ingrata; que a reclamante não fez a demissão por escrito, apenas de forma verbal; que não sabe informar qual o valor pago na rescisão, uma vez que toda a documentação foi perdida no incêndio que se seguiu; que o incêndio fora provocado por um curto circuito; que não houve desentendimento entre a depoente e o reclamado; que o reclamado não tem idade nem forças para executar nenhuma das proezas enunciadas pela reclamante; que a reclamante fazia uso de drogas para emagrecer e de raízes naturais adquiridas no centro da Penha e que o efeito destas substâncias conjugadas provocaram as alucinações descritas no depoimento; que não foi proferida nenhuma ofensa contra a depoente; que não se recorda de nenhuma pessoa presente no momento em que a reclamante solicitou a demissão; que agora vive no que resta da residência queimada, sem recursos para pagar grande soma de dinheiro; que ainda assim, perdoa a reclamante, pois sabe que suas ilusões foram decorrentes de uso de medicação sem a devida receita; NADA MAIS.

PRIMEIRA TESTEMUNHA DA RECLAMANTE: VIRGULINO HEITOR QUEIMADA, brasileiro, maior, solteiro, profissão: Padre da Igreja Católica Romana



(...)



Diante da presença da testemunha, o reclamado executou um estranho salto e pendurou-se no lustre da Sala de Conciliação de onde só foi retirado com o auxílio de uma escada trazida pelo pessoal do Serviço de Manutenção do Tribunal. O Reclamado desculpou-se dizendo que fora um súbito ataque de um espasmo muscular da doença de São Vito da qual também é uma infeliz vítima, demonstrou uma receita assinada que foi juntada aos autos do processo.



(...)



Neste ato, as partes se conciliaram nos seguintes termos: O reclamado pagará à reclamante o valor de R$ 1.000,00 em 5 parcelas de R$200,00 para depósito na conta (...). Feito o depósito, dar-se-á por quitada a conciliação, devendo a reclamante comunicar o Juízo apenas no caso de falta de pagamento.

Multa de 50% em caso de inadimplemento, sem prejuízo de juros e correção monetária, na forma da lei.

Em recebendo, a reclamante dará total e geral quitação, inclusive pelo contrato de trabalho extinto, para nada mais reclamar, seja a que título for.

O reclamado declara que o valor do acordo é pago a título de ressarcimento por dano moral, responsabilizando-se por tal declaração. Além disso, diante da dificuldade de caminhar à luz do dia, o reclamado gostaria de pagar pessoalmente, devendo a reclamada comparecer nas ruínas de seu casarão. Preferencialmente sozinha.


Cumprido, dê-se baixa e arquive-se.

CIENTES AS PARTES, NADA MAIS.





Salomão Abi Hamura


Juiz do Trabalho











***(Publicado anteriormente no Farrazine nº 07, uma edição especial sobre Vampiros. Entrevista com André Vianco)