segunda-feira, 15 de junho de 2009

Telegrama1

Vem aí Portal Stalker



Romance em Angra
(Língua de Trapo)


Recordo com saudades
De quando tinhas cabelo, meu amor
Teus olhos ‘inda eram abertos
E até tinham cor
Nos teus braços não havia crateras
Como as que hoje vejo
Tuas pernas ‘inda eram inteiras
E me davam desejo
Recordo que podias ouvir
Meus mais ternos sussurros de amor
E tinhas a capacidade
De sentir meu perfume, minha flor
E hoje, tu andas corcunda
E já não tens mais nem aquela…saúde
Tua pele, coberta de escamas,
Realmente não é um convite pra cama
O nosso amor foi arrasado
Depois que o reator foi instalado
E nesse pesadelo nuclear
Na mais torpe aflição
Passo o tempo a suplicar:
Não explode coração!

Telegrama2




Stalker, dirigido por Andrei Tarkovsky foi lançado em 1979. O filme conta a história de dois homens guiados por um terceiro (o tal “Stalker”[1]) para o interior de uma Zona proibida, fechada pelo governo e de acesso controlado por militares. A região foi isolada e suspeita-se da presença de alienígenas. Existe a necessidade de um “Stalker” para levar os dois homens ao interior da Zona: eles conheceriam as manhas para conseguir vencer os obstáculos e armadilhas dispostas pelo caminho. Não quero falar muito sobre o filme, entretanto. Apenas um fato me interessa e este não está na película ou na história. O técnico de som (não estou certo se esta é a tradução mais adequada) Vladimir Sharun acredita que as mortes por câncer de Tarkovsky, sua esposa Larissa e do ator Anatoly Solonitsyn se deveram à contaminação por toxinas no local da filmagem [2]. Próximo a usina hidrelétrica onde se realizaram muitas das tomadas havia uma indústria química que despejava resíduos e expelia poluição. Segundo Sharun, as cenas de precipitação de neve durante o verão e de espuma flutuando na superfície do rio são amostras do veneno a que ficaram expostos.


Sete anos mais tarde, em uma noite da primavera de 1986, uma explosão seguida de incêndio destruiu parte de uma usina nuclear em Chernobyl. Removeram milhares de pessoas das regiões mais próximas ao acidente. Mas o número exato de pessoas mortas ou afetadas pela radiação permanece uma incógnita. Os cálculos do governo russo estimam por “baixo”, desconsiderando muitos dos atingidos indiretos, como bombeiros, “voluntários” para limpeza dos destroços e outras pessoas que passaram pela região. Sabe-se que a quantidade de radiação espalhada foi de 100 a 300 vezes a disseminada pela explosão de Hiroshima. É muito, mas talvez não tanto quanto às centenas de testes nucleares realizados rotineiramente pelas superpotências durante a Guerra Fria.


(Assisti a um documentário com imagens de trabalhadores na perigosíssima e mortal operação de reparos e contenção dos danos realizada nos meses seguintes a explosão. Fizeram uma estimativa de quanto tempo uma pessoa poderia ficar próxima aos escombros altamente radiativos. Impressiona ver os homens correndo para trabalhar por quinze segundos antes de repassar a tarefa para o próximo suicida, que também corre, como num revezamento mortal.)


Tal como no filme, isolaram a área do incidente. Um círculo de trinta quilômetros ao redor da usina é conhecido como “Zona de Exclusão” (Já encontrei o termo Zona de Alienação, que deve ser uma má tradução, mas me pareceu apropriada). A região se tornou o maior depósito de lixo nuclear a céu aberto do mundo. Uma floresta de pinheiros morreu em alguns dias depois da explosão e não pôde ser queimada: a fumaça teria sido radiativa. O círculo de dez quilômetros ao redor da usina é tão radioativo que veículos que adentrem a esta área não podem mais retornar. Parece que os funcionários que precisam vistoriar as cercanias das ruínas chamam a si mesmos de “Stalkers”.


Eu não sou o primeiro a notar estas semelhanças. Já criaram um videogame chamado S.T.A.L.K.E.R, the Shadow of Chernobyl, que desenvolve seu enredo sobre estas linhas. Nunca o joguei, entretanto. Apenas o descobri durante as pesquisas para escrever este post sobre relações entre cinema, radiação e gente que se envenena por motivos profissionais.


* * *

[1]palavra que significa “perseguidor” pelo tradutor do google, mas que um bom e velho dicionário prefere “ato de espreitar durante a caça”, no sentido de aproximação furtiva.
[2]esta história remete à outra, sobre a morte do velho caubói John Wayne. Para um filme sobre Genghis Khan, The Conqueror (1956) foi usado como cenário um deserto próximo a uma região de testes atômicos. Anos mais tarde, assim como alguns atores e outros integrantes da equipe de filmagem, Wayne faleceu de câncer.

Achados


(Juan Gimenez)

a)As imagens dos "Telegramas":

Foram desenhadas por Tsutomu Nihei em ABARA, mangá que acabou de ser lançado pela Panini. A história não me agradou muito, pelo menos em sua primeira edição. Mas dos desenhos gostei. Tem bastante de H.R.Giger (o artista do Alien), um tempero acentuado de Phillip Druillet (quadrinista francês dos bons tempos da Heavy Metal), numa apresentação à la Katsushiro Otomo (Akira) com uma essência de Mignola (Mignola? Onde vi Mignola? Em uma conversa entre um crânio ciborgue e um esqueleto de pássaro. Me lembrou os diálogos com cara de "conversa-de-comadres" entre entes sobrenaturais de alguns trechos de Hellboy). Sua megalópole-favela impressiona.

Abara significa Costela em japonês e Abará é feito com a mesma massa que o acarajé, só que o primeiro é cozido, enquanto o tradicional acarajé é frito. Tsutomu é arquiteto e este foi meu primeiro contato com seu trabalho de traços nervosos e expressivos.

b)Juan Gimenez no Farrazine 11

-A infância molda o homem. No início dos anos 50, Juan Gimenez era um garoto que morava em Mar del Plata, ao sul de Buenos Aires. Entre seus amigos estava Cacho Fangio, filho daquele Fangio, campeão mundial de automobilismo. Não era incomum o pai visitar o filho em carrões suntuosos. Entre os garotos que frequentavam aquela turma, havia um que construía seus próprios carros de brinquedo ao invés de comprá-los numa loja. Este mesmo menino lhe mostrou pela primeira vez uma revista em quadrinhos: um número de Misterix. Máquinas e quadrinhos. Quem conheceu Juan Gimenez pela sua arte na Casta dos Metabarões, o grande épico-familiar-guerreiro-espacial escrito por Alejandro Jodorowsky sabe: um dos destaques de sua bela arte são as espaçonaves, as máquinas, os motores, os robôs, pesados, metálicos, consistentes. Para uma entrevista com Juan Gimenez, leia Farrazine 11 (no Issuu: aqui )

-Fora isto, dê uma olhada também neste post de Mainardi no Farrazine sobre o herói italiano do sobrenatural, Dylan Dog e os dois filmes a seu respeito.

-Tem também um texto meu sobre o Godzilla.

c)Encaixe-se

- O conto “pequeno infinito” foi criado graças ou por culpa do blog do Labirintos no Sotão que deu a deixa: a artista plástica Gina Dinucci criou um blog-jogo-projeto-coletivo (“encaixe” como lhe aprouver).
Funciona assim: Temas serão jogados no ar e quem pegar contribuirá com sua peça. Todas as linguagens serão bem vindas e irão formar um grande JOGO de ENCAIXE, sem perdedores, sem ganhadores. O próximo tema deverá encaixar-se ao tema anterior, formando assim um JOGO INFINITO.
O tema do primeiro encaixe-se é: INFINITO. Tem mais gente participando.
Conheça melhor a proposta acessando:
http://encaixe-se.blogspot.com/ ou envie a sua proposta para: ginad0711@yahoo.com.br

terça-feira, 9 de junho de 2009

el amor es importante, carajo.


(Pucca e Garu são protegidos comercialmente e qualquer engraçadinho que se meter conosco irá pagar caro por isto)



Para el anônimo



Começou pelos muros, em uma fonte atípica para os pichadores convencionais, aquela agressiva, pontiaguda e quase grega ou quase caco, mas tampouco era caligrafia arredondada e infantil, fofa que nem letra de menina. Eram letras quadradas, sem serifa, quase tijolos, quase janelas ou peças de dominó. A construção da mensagem era, entretanto, irrelevante. No fundo, precisávamos deste chamado às armas: o amor é importante, porra!

As pessoas liam de dentro de seus veículos presos nos engarrafamentos, ou pelas janelas dos coletivos e despertavam do torpor. Lembravam-se. Tiraram fotos com celulares ou anotavam às margens dos livros psicografados. Comentaram pelas mesas dos bares e pontos descolados em meio a copos de chope e latas de redbull, acendendo cigarros de nicotina ou de maconha, escreviam o texto em bilhetinhos, email, torpedos trocados durante a aula ou o serviço: o amor é importante, porra!

Deu num blog, depois num site até chegar ao jornal de domingo. Nas rodas de amigos, gays, lésbicas, simpatizantes ou não, era o que se dizia, era o que se prometia. Todos desconheciam o responsável pela mensagem anônima. Supunha-se alguém nervoso, alguém que tomou um pé na bunda, alguém com raiva. Devia ser alguém com memória. Alguém que ainda se lembrava: o amor é importante, porra!

No dia dos namorados, foi noticia até no telejornal da meia-noite (não se fala “porra” cedo). A repórter corou um pouco, baixou os olhos, não se sabe se de raiva ou vergonha ou de saudade: acabara de se divorciar, deu nas revistas de fofoca. Mas quem a conhecia, sabia o porquê. Um argentino, um colombiano, ou um brasileiro metido a esperto, arriscou o portuñol e pichou em Buenos Aires ou Barcelona: El amor es importante, carajo!

Dali foi pro resto do mundo. Surgiram cartazes, camisetas e camisinhas, com os dizeres para quem quisesse ver. Comerciais de Coca Cola com belíssimos efeitos gráficos e computadorizados. Saiu na capa da Playboy sob a bunda da mulher do Big Brother. Comédia romântica produzida por Drew Barrymore. As meninas escreviam o mote sobre a foto dos meninos do High School Musical ou sob o desenho da Pucca nas capas de caderno: O amor é importante, porra!


Um ano depois, a polícia foi chamada. Encontraram uma cabeça dentro de um saco. Dentro da boca, envolta em um plástico delicado e sem digitais ou DNA, um envelope cor de rosa. Na carta, um pequeno recado em uma caligrafia estilizada de convite de casamento: O amor continua sendo importante.




(Feliz dia dos namorados)

























quinta-feira, 4 de junho de 2009

pequeno infinito




Sei que é uma forma bastante subjetiva de enxergar, mas qualquer coisa acima do que se possa contar já é um infinito. Portanto, para mim, que nunca consegui contar até 1000, 1000 é um infinito. Quando criança, me pediam para ir até cem, antes de começar a procurar os outros no esconde-esconde. Eu acelerava cada vez mais a contagem, enquanto escutava as risadinhas e os gemidos nas minhas costas, alguém reclamava e mandava que eu gritasse os números mais alto e eu gritava a sequência numérica, os olhos abertos fitando os braços, na esperança de pegar alguma sombra que revelasse os movimentos. Adrenalina no sangue, gritava Lá vou eu! Um dia, minha mãe me chamou antes de terminar a contagem. Já era noite, cheiro da janta no ar. Fui embora, não os avisei que a brincadeira terminara. Durante a madrugada, os pais bateram à porta de casa. Eram as mães preocupadas com os filhos que não voltaram para casa. Os dias passaram e eles nunca reapareceram. Acharam que era culpa minha e fico pensando se não foi. Tenho medo de um dia olhar debaixo da cama e encontrar um deles, preservado, ainda criança. Talvez isto ainda aconteça. Acho que eles estão lá escondidos, no infinito.

















Telegrama

as leis do ferro



“Meu amor, o mundo é enfadonho demais. Não há nada, nem telepatia, nem fantasmas, nem discos voadores, nada disso existe. O mundo é regido pelas leis do ferro-fundido, as leis do ferro-frio. É triste.

Infelizmente, estas leis são invioláveis, elas não sabem violar a si próprias.

Em resumo: não conte com discos voadores. Isto seria empolgante demais para ser verdadeiro.”


Diálogo extraído do filme Stalker(1979), de Andrei Tarkovsky


Vem aí Portal Stalker


Onirogrito

Panfleotário




1

Pã ou Pan, deus grego e fanho, protetor dos bosques, campos, rebanhos, pastores. Morava em grutas, vagava por vales e montanhas. Divertia-se com a caça ou tocando músicas para as ninfas: inventor da sírinx e do pandeiro. Feito Caipora e Curupira, era temido por quem atravessasse a mata durante a noite, ou pelos caçadores. Esta semelhança é justificada por a) uma evolução convergente; b) um misterioso laço de parentesco que só poderia ser explicado por atlantes ou deuses alienígenas antediluvianos; c) por uma memória arquetípica cromossômica. Caipora era um menino montado em um porco do mato. Pã tem algo de
trickster: menino travesso e animal perigoso na mesma criatura. O Curupira tinha pés invertidos: calcanhares voltados para frente, acompanhando os joelhos. Pã possuía patas de bode no lugar de pernas e, como tal, os joelhos dobravam para trás. O medo que provocava à noite deu origem a palavra Pânico. Segue Bulfinch: “Como o nome do deus significa tudo, considerou-se Pã símbolo do universo e personificação da natureza, e mais tarde, enfim, foi olhado como representante da todos os deuses e do próprio paganismo.” Tudo também significava medo, medo que significava tudo. Tudo dava medo ou se tinha medo de tudo ou tudo era medo?

Às vezes, o lado humano e o lado animal de Pã se dividem, como em Peter Pan, na qual o menino sai voando e os meninos selvagens seguem o garoto como bichos de estimação. Às vezes se sobressai, restando apenas a fera, como no caso da Pantera.

Otário: nós todos, os malandros e os otários, somos todos otários. Nome comum de uma espécie de foca preta, muito esperta e fofa, utilizada em espetáculos circenses para bater palmas e tocar musiquinhas em cornetas.

2

Um otário me disse que voltei panfleotário: me disse que não melhor nem pior ninguém para dizer como as coisas tinham ou precisavam ser.

3

Um otário me disse que a arte precisa ser como música: atingir os ouvidos e a alma e não precisar dizer nada.

4
Um otário me disse para falar apenas sobre aquilo que é inerte: aquilo que só serve para entreter.

5

Um otário me disse para ser escapista, mesmo sabendo que escapismo produz escapistas.

6

Um otário me disse para ficar quieto: o melhor efeito é não fazer efeito: que entre falar besteira e falar nada, melhor o nada.

7

Me falaram: a favela tem razão, não porque tenha razão, mas porque o que ela diz, vende.

8

Um otário me disse que harmonizar e puxar o saco é a mesma coisa

9
melhor não revelar o que Deus é

10

Um otário me disse que todos são otários por não gostarem daquilo que os otários gostam: é preciso aprender a consumir arte. Se não precisar aprender, então não é arte.

11

Estilo prescinde mensagem.

12



13

Nós queremos que o mundo acabe, mas não sabemos o que colocar no lugar dele.












quarta-feira, 3 de junho de 2009

Achados

Assinaturas



a) Um diploma desenhado pelo cartunista Saul Steinberg (1914-1999) para seus amigos Victor Civita e Silvana, sua esposa. Fonte: revista de ensaios "O Serrote" nº1, pág 67
. Sem data.
Aproveito para colocar uns links para os desenhos de Steinberg que são maravilhosos.


b) Em 1633, o prior (Superior de convento) de Loudun, Urbain Grandier, foi acusado de enfeitiçar as freiras locais e praticar magia negra. Entre seus papéis foi encontrada esta cópia do pacto com o Demo, e que se localiza "agora" (*) na Biblioteque Nationale em Paris. Escrito em latim, da direita para a esquerda, e assinado com sangue. Os co-signatários seriam demônios. Da esquerda para a direita e de cima para baixo: Lúcifer, Belzebu, Satã, Leviatã, Elimi e Baalberith.

(*)A fonte é de um livro de 1971, que saiu no Brasil pela Coleção Prisma, da Editora Melhoramentos, dedicado à "Magia Negra e Feitiçaria"


sexta-feira, 22 de maio de 2009

fábula


(Fonte da imagem: ver aqui)



Um homem acorda e diz:

-Não me agrada a ideia de que todos devem morrer.

Sabe da existência de um lugar onde não se precisa passar por isto e decide ir para lá. Despede-se de todos. A mãe, pressentindo uma viagem demorada, entrega-lhe um presente envolto em sete panos. Ao desenrolar o embrulho, há uma esfera luminosa.

-É um pedaço do sol. Pertenceu a seu avô e, antes dele, ao avô de seu avô. Enquanto você se lembrar de nós, esta pedra brilhará e o aquecerá.

Percorre campos, cidades, montanhas, desertos, mares e florestas sem parar por dias, meses e anos, sempre em busca da terra onde não se morre ou, ao menos, de alguém que indicasse o caminho. Um dia encontra um camponês de barbas brancas na altura do peito. O camponês empurra com dificuldade um carrinho de mão repleto de terra. O homem pergunta ao velho o que faz, e este lhe responde:

-Transporto esta montanha de cá para lá. Pretendo fazer uma rampa na qual meus netos brinquem em carrinhos de rolimã. Por que não me ajuda? Enquanto não terminar o trabalho, você não morrerá.

O homem agradece e continua sua jornada. Revoadas de araras levam-no a encontrar um bosque que parece não ter fim. Ali há um caçador de barbas brancas na altura do umbigo. Com muito esforço, o caçador carrega uma escada e a posiciona sob uma das árvores da floresta.

-Estou podando toda esta mata. Preciso de madeira para construir uma torre tão alta que me leve à Lua, buscar o queijo com o qual a Lua é feita. Por que não me ajuda? Enquanto não terminar o trabalho, você não morrerá.

Novamente, o homem agradece, mas segue adiante em seu caminho. Encontra um mar sem ondas cercado por uma praia negra. Ali, há um pelicano que carrega água no bico. Um velho pescador de pele escura e barbas longas até os joelhos explica:

-Fique comigo. Enquanto este pássaro não retirar toda a água deste mar, você não morrerá.

O homem recusa a sugestão daquele também. Então pergunta ao pescador sobre a terra onde nunca se morre, e este lhe orienta como chegar lá.

Seguindo as sugestões do terceiro velho, o homem chega onde pretendia. O que mais o impressionou ali foi o silêncio: nem vento, nem chuva, nem grilo, nem roseira, até os passos parecem mudos. Descobre apenas um morador, dono de uma granja de codornas. Os pássaros ciscam a terra e este arranhar de unhas no solo é o único barulho que emitem. O homem pergunta ao dono da granja o que há para fazer naquele lugar.
-Não há o que se fazer: para passar o tempo, tento empilhar estes ovos de codorna em uma pirâmide, mas nunca consigo terminar antes da pilha desmoronar e cair.
Sem opção, o homem fica ali, ajudando aquele ancião. É realmente difícil. Mas uma noite, finalmente, concluem a pirâmide. O ancião resolve deitar para descansar. O homem lembra-se do presente da mãe: abre os sete panos, mas a pedra está negra, fria e dura. Sente saudades e decide rever sua antiga cidade.

Ao passar pelo mar da praia preta, o homem descobre um deserto onde peixes voadores cruzam o céu. O homem pergunta ao cardume se estes sabem do pescador e do pelicano. Do alto, os peixes respondem:

-Meu bisavô me contou algo assim, mas já não me recordo. Seu tempo já passou.

Ao passar pela antiga floresta de araras, o homem descobre um outro deserto. No meio deste deserto, há uma torre que leva até a Lua. Nesta torre, vivem milhares de papagaios. E, olhando acima, há um buraco enorme e escuro sobre a superfície da Lua: um olho enorme solto no céu. O homem pergunta às aves se alguma sabe do caçador que morava ali.

-Meu trisavô me contou uma história sobre ele, mas agora já esqueci. Seu tempo já passou.

No meio da estrada, surge uma montanha. Sobre a montanha, existem as ruínas de uma rampa enorme, pela qual os tatus bola escorregam contentes.

O homem chega ao lugar de sua cidade. Ninguém mais mora nela, apenas os macacos ocupam as construções abandonadas. Pergunta aos macacos se sabem se alguém de sua família ainda vive. Entre guinchos e saltos, os macacos sugerem que vá à biblioteca, basta seguir o som da máquina de escrever: tec-tec-te-tec-tec.

O barulho vem de um prédio em meio ao enorme cemitério. O homem descobre um macaco cego datilografando os livros, livros lidos por papagaios, papagaios escolhidos por tatus bolas. Ao tentar pegar ao acaso um volume da estante, o homem descobre que toda a coleção virou pó.

O homem decide voltar para a granja de codornas. Mas, antes de sair daquele lugar, um velho macaco interrompe seu caminho e pede ajuda: seu neto caiu em um poço fundo e irá morrer se ninguém o ajudar. O homem inicialmente recusa, mas então o macaco lhe convence:

-Você sempre age de acordo com seus interesses. De que adianta viver para sempre, se sempre se vive do mesmo jeito?

O homem faz uma corda usando os panos que antes envolviam a pedra do sol. Desce por ela até o fundo, de onde retira o filhote da água. O bicho sobe a corda trançada rapidamente e escapa. Mas, na vez do homem subir, a corda arrebenta. Ele cai na água, tenta escalar, mas as paredes são úmidas e cheias de lesmas e caramujos. Olha para cima e é a Morte quem está na boca do poço. Ela lhe responde:

-Fui muito paciente. Agora tenha paciência você, que já venho lhe buscar.










(Esta história é uma adaptação)
* * * * * * editado em 22 de junho de 2009:
(...Esta história é uma adaptação de uma das histórias de Fábulas Italianas de Italo Calvino, publicada aqui no Brasil pela Cia das Letras)



editado em 2016: publicado no Spirit => https://socialspirit.com.br/perfil/brontops

achado




a)O conto acima é uma adaptação. Encontrei-o perdido em um caderno. Esqueci onde li a fábula original. Inicialmente, pensei que fosse dos “103 Contos de Fada de Angela Carter” (Companhia das Letras), mas depois percebi a ausência feminina (Neste livro, Angela recolheu apenas histórias com personagens femininas marcantes). Folheei “O Ofício do Contador de Histórias” (Gislayne Avelar e Inno Sorsy, da Martins Fontes), detendo-me no capítulo sobre “Os Contos da Morte” e meu resultado foi zero.

Posso até ter visto a história na televisão. Se alguém descobrir, me avise nos comentários, por favor.

b)A imagem: Vem do Codex Seraphinianus , de Luigi Serafini (Ed.Franco Maria Ricci). Trata-se de um livro bastante cultuado. A primeira edição é de 1981 e foi lançada em dois volumes, cada uma delas com 127 páginas. Ele foi criado como uma Enciclopédia de um mundo imaginário, em uma linguagem indecifrável. Cada capítulo dá conta de um aspecto deste mundo: fauna, história, flora, minerais, etnografia, etc.

Existe algo nele que me lembrou algo que já vira antes na Internet, uma obra conhecida como Manuscrito Voynich , mas isto até vale um outro post, se eu tiver paciência pra tanto.

Se a gente puder confiar no Wikipedia, o estranho código pode ter efetivamente um significado. Alguns criptologistas teriam conseguido traduzir o sistema numérico. Muitos linguistas tem se debruçado sobre o alfabeto “serafiniano” e o estudado a sério. É curioso, pois Luigi Serafini continua vivo, mas ele se nega a responder se aqueles “cabelinhos” tem ou não sentido (O que deu título ao texto How Mysterious Is A Mysterious Text If The Author Is Still Alive (And Emailing)? )

c)Só o descobri graças a um livro de ensaios e artigos de Italo Calvino, publicados no La Republica e no Corriere Della Sera no início da década de 80 (Calvino faleceu em 85), chamado Coleção de Areia. (Desconfio que nunca saiu no Brasil. Tenho uma versão em espanhol (Editora Siruela) e em preto e branco.) Calvino gostou do Codex Seraphinianus e comentou muitas de suas imagens, assim como sua linguagem elaborada.

Luigi Serafini é um artista conceituado. Mas o tópico dele no Wikipedia é significativamente menor que o do próprio livro. Pela Internet, há várias referências ao livro e não é difícil encontrar imagens dele. Achei até um torrent, mas como não sei usar estas coisas, não baixei. São imagens inquietantes. Um casal que se transforma em um crocodilo; esqueletos esperam para receber a carne sobre seus ossos e depois encaram estarrecidos o trabalho realizado em espelhos; um pombo que também é um ovo; e assim por diante.
Pode ser questão de gosto, mas estes desenhos me pareceram um tanto “datados”. Ou até meio kitsch: tem uma certa falsidade ingênua como aquele quadro de ondas que se arrebentam em cavalos brancos. Deve ser por isto que me fizeram lembrar do Fantástico (o programa de TV) dos anos 70.

Parecem ideias que ficam melhor na nossa própria imaginação do que realizadas.

Outros links: http://www.io.com/~iareth/codindx.html

Achados




a) Movimentos da Arte Moderna: História e Processos de Criação

Curso com Marcelo Maluf e Daniela Pinotti.

Introdução à história da Arte Moderna e seus processos de criação, por meio das teorias dos movimentos de vanguarda e de suas propostas criativas, dando ênfase aos aspectos estéticos e psicológicos da produção desses artistas.

Detalhes: clique

b) Blablablogue: crônicas e confissões: Antologia com os melhores textos de blogues

Nelson de Oliveira organizou este livro com os melhores textos postados em blogues, os famosos "posts". Pelo que ouvi dizer, existe um outro livro que se utiliza deste recurso. Teria sido um tal de Memórias "POST"umas de Brás Cubas... (Péssima, eu sei).

O lançamento será agora, 30 de maio. Tem muita gente boa. Vai lá.

Detalhes: clique aqui e ali


c) The Bus era uma série conceituada na antiga Heavy Metal. Tinha algo nonsense e surrealista. Lembrava um pouco Liniers e Laerte.

Outras poucas amostras achei aqui.

d) The Grant Bridge´s Street & other misadventures: Blogue com muitos quadrinhos antigos. Em inglês.

e)FARRAZINE 11: Entrevista com Juan Giménez (Metabarões), Lilian Mitsunaga. Para ver no ISSUU ou baixar aqui ou ali.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

inconsciente coletivo







Distraíra-se com os grafites do muro branco do cemitério. Bocejou. Quando deu por si, ela continuava a seu lado, embora não soubesse precisar desde quando. Ele estava sem fone, o ipod caíra no chão e não havia mais música. Os demais bancos do ônibus vazios e ela sentada ao seu lado e concentrada no livro. O balanço das curvas lhe facilitou ver a capa. A biografia de Eric Clapton. Olhou sem disfarçar o rosto dela. Uma mulher simples.



Você não tem cara de quem gosta de rock.

Eu não gosto. Tenho este livro pela história do filho dele.


Do filho?


É, um filho dele caiu da janela de seu apartamento. Tinha quatro anos de idade. Foi aí que ele compôs tears in heaven
(Cantarola melodia).


Ah... Lembro. Tocou bastante.



Ela fecha o livro, se levanta e aperta a campainha para parar o ônibus.


Gostaria de ter aprendido a tocar um instrumento.


Diante do silêncio do outro, continuou.


Quando meu filho de quatro anos caiu, não tive escolha a não ser saltar atrás.


Antes de qualquer coisa, ela já não estava mais lá.

















(The Bus, by Paul Kirchner - fonte imagens)

quarta-feira, 29 de abril de 2009

Achado


(Jabba + Leia em Retorno de Jedi)



1) Germano Mathias

Que tal ganhar o livro "Sambexplícito - As vidas desvairadas de Germano Mathias" autografado pelo Germano e por Caio Silveira Ramos, o autor? Pois é isso que o Vermute com Amendoim quer te dar na nossa primeira promoção.http://www.vermutecomamendoim.com/2009/04/promocao-quer-ganhar-o-livro.html

Desculpem, Caio e pessoal do Vermute com Amendoim, mas só agora que eu vi a promoção só ia até Primeiro de Maio...


2) II Encontro Prática de Escrita: leituras, feitura e publicação

O primeiro foi bem legal.
Vagas limitadas e inscrições até 16 de maio.
Dia 19 de maio com Marcelo Maluf, Nelson de Oliveira, Marcelino Freire, Edson Cruz, etc.

3)Curso Prática de Criação Literária

Início 02 de Junho
Organização Claudio Brites e Nelson de Oliveira.
Informações: labmind e editora terracota

4)Lançamento livro "Jorge do Pântano que fica logo ali", do Marcelo Maluf

5)O muro e a cerca

Pois é, retiro o que disse. Acabei encontrando mais algum material sobre as cercas de contenção de coelhos na Austrália... Dizem que ela é melhor para segurar os dingos do que os coelhos... Seguem fotos da cerca:


Este último editei para ilustrar o conto do Muro. Ainda que eu preferisse outra coisa.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

aviso

Pretendo depois colocar em um lugar mais permanente (Talvez na imagem título). Mas, por enquanto, vai aqui mesmo: Este blogue terá atualizações de quinzenais a mensais.

Eu não quero viver disso.

terça-feira, 21 de abril de 2009

Zerografia




Frank Kafka

"If you can dream it, you can do it. Always remember that this whole thing was started with a dream and a simple roach."





Embora alegasse que seu sobrenome era de origem indígena e mirabolasse histórias a respeito de seus antepassados, na realidade, Frank Kafka era judeu e nascido em Praga. O pai, sr. Hermann Kafka, faleceu em sua casa, quando Kafka tinha 03 anos. Pela descrição dos sintomas, suspeita-se de leptospirose. Sempre lamentou muito a ausência do pai. "Ele poderia ter me ensinado muito" Há quem afirme que seu jeito efeminado veio de ser o único homem criado em meio a uma família de mulheres. A mãe e as irmãs tentaram tocar o negócio da família, um armarinho localizado fora do gueto, mas o negócio acabou fechando.

Os Kafka decidiram tentar a sorte na Amérika. Foi um começo difícil nos bairros pobres de imigrantes em Nova York. Participou das guerras dos meninos jornaleiros, onde perdeu um olho durante uma briga com estiletes. Durante a recuperação, ficou aos cuidados da mãe. Nesta época, ocorreu um fato que jamais esqueceu e, segundo afirmou mais tarde, foi fundamental para que seguisse seu sonho. Acompanhou a mãe em uma visita a uma senhora doente, uma velha que se tornara um peso insustentável para sua família. Ao adentrarem ao quarto onde dormia a mulher, Kafka viu as baratas correndo para baixo da cama. Depois de saírem dali, havia aprendido sua lição: “Nunca seja um estorvo para sua família”.




Algum tempo depois, assistiu a seu primeiro desenho animado: "Klaus, the Brontossaur", de Winston McKay. Usou seu talento como desenhista para enveredar no indústria em expansão dos desenhos animados. Criou Rock Roach ou Rock, a Barata em 1921. Em 1923, estreou o primeiro desenho da dupla Rock Roach e o seu simplório parceiro, Duck Oklahoma, que foi um imenso sucesso. Começou uma carreira de fama e muita grana. O patrocínio dos produtores de maçãs levou a que Rock Roach se tornasse um fanático por maçãs. Apoiou o governo americano no esforço de guerra, fazendo Rock conhecer a América Latina em "¿Que pasa, compadre?". Construiu o hoje mundialmente famoso, Kafkaland, o maior parque de diversões do mundo, com atrações como o Castelo da Alegria, a Toca Labiríntica ou a Granja Penal de Duck Oklahoma. Alguns dizem que ele, juntamente com Willian Hearst, teria servido de inspiração a Orson Welles para a criação do protagonista do filme "Citizen K". Chaplin o odiava.

Após a Segunda Guerra foi processado por um antigo funcionário que o acusou de ter roubado suas criações. Kafka se defendeu: "Ele queria usar um rato como personagem. Eu disse, se é pra fazer uma criatura nojenta, nada melhor que uma barata. Além disso, ratos são orelhudos e eu já tenho problemas demais com minhas orelhas". O funcionário acabou desistindo do litígio, uns dizem por um acordo milionário, outros por pressão da CIA.

A história repercutiu mal mundo afora. Em 1966, já um senhor idoso, foi morto com tiro no peito por um membros de uma seita satânica gay beatnik. Max Brother Manson foi preso pelo FBI em um tiroteio diante do Chinese Theater. Entre os pertences do assassino, encontraram um envelope, com a estranha história de um sujeito que, ao despertar, havia se transformado em um ninho de ratos.




(Imagens "emprestadas" de Gregor Brown de R.Sikoryak, do grande "Masterpiece Comics")
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