quarta-feira, 11 de março de 2009
monstros gigantes
Poucas paisagens são mais solitárias que os tetos vazios dos edifícios: as portas fechadas, os encanamentos expostos, os para-raios, as antenas como girassóis ou cogumelos, a laje jazendo sob o sol. Parece uma cidade interrompida. Mais interessantes são as pessoas, correndo de uma calçada para outra em direção a estação de metrô (Hoje aliás, elas parecem estar mais apressadas que o normal).
Observá-las assim, do alto me lembra a infância. Há uma grande diferença de idade entre meus irmãos mais velhos e eu. Sem ter com quem brincar, me tornava um deus-alienígena-nazista-monstro-gigante das formigas, raptando-as e realizando experimentos científicos, retirando patas, submetendo-as a banho de detergente, álcool, fogo. Imaginava ser uma brincadeira comum de crianças, mas com o passar dos anos percebi que poucas desperdiçavam seu tempo nisto. Talvez apenas as mais solitárias ou sem irmãos se aplicassem neste passatempo.
-Não dá para ver o sol.
Meus dedos forçavam uma abertura maior entre as persianas do escritório. Por ali vejo o cenário das torres construídas com engenharia anti-terremoto, os edifícios picotando o céu, recortando o horizonte. Em cada uma das caixinhas, pessoas apinhavam-se umas nas outras, sobrevivendo.
Ela trouxe meu café em minha caneca comprada em uma viagem. Figurinhas simpáticas passeiam por uma Kyoto composta apenas de pontos turísticos. Quando criança, me intrigava a impossibilidade de ver ao mesmo tempo todo o desenho que percorria o corpo de uma xícara. Agora sou adulto, poucas coisas me encantam. Ou, se encantam, não é por muito tempo. Uma delas acabou de me trazer o café.
-Pois é.
Ela também não é daqui. Os gaijin se reúnem em guetos, difícil de se integrar. O pessoal aqui não é muito aberto. Ou se são, o inglês é horrível, prefiro que falem japonês.
-Precisamos conversar.
Através das persianas, vislumbro uns sujeitos de capacete correrem pelo interior do prédio vizinho. Deve ser um daqueles exercícios contra incêndio. Ou contra terremotos. Eles têm um dia só para isto aqui. Em nossa empresa, fazemos estes exercícios somente naquele dia. Explicaram que é para não perder produtividade. Outros acreditam que eles não ligam para gente. Eu suspeito que este treinamento não nos ajudará em nada, trabalhando no 27º andar do edifício.
-Hoje não vai dar, Yuri. Combinei com a Keiko de buscar a nossa filha na escolinha hoje.
Tem gente que tem sorte na vida, nasceu com a bunda virada para a lua. Eu sempre me fodi, tinha que correr atrás das coisas. Achei que aqui iria me dar bem, ou pelo menos, melhor do que lá. Conheci Keiko, irmã do cara com quem dividia o cubículo. Acho que nos casamos porque teríamos mais tempo de nos concentrar no trabalho na fábrica. Consegui outro emprego aqui na capital. Ela ficou lá, mais perto de nossa filha, na escola dos brasileiros. Pensei que seria melhor aqui, entre outros gringos. Foi aí que apareceu Yuri.
-Mas é importante.
Ela deixa sua caneca sobre a mesa. Também era uma lembrança de viagem (Canadá). Tinha a forma de um tronco de árvore, atravessada por um Alce com cara de idiota. Provavelmente ela pagou muito mais do que gastei pela minha. Antes, eu a chamaria de Yuri Gagarin, era nossa piada: ela não tinha os pés no chão, merecia um nome de cosmonauta. Agora não há cabimento em usar nosso antigo apelido. Olho ao redor. Ninguém se aproxima ou presta atenção de mais em nós. Falo baixo e em português, mas em um tom decidido.
-Olha, se é sobre a gente, você sabe que não vou deixar minha filha. Já te falei isto.
Ouço sons de jatos cruzando os céus. É incomum, mas não vou interromper a conversa para ver a paisagem lá fora. Além disso, preciso ficar esperto com o que acontece aqui dentro. Há outros brasileiros aqui, e não quero que arrumem mais um motivo para comentarem a nosso respeito. Japoneses são viciados em fofocas... Deve ser assim que se mantêm a sociedade sob controle. Melhor que encher as ruas de câmeras. Ninguém pode dar um passo fora da linha: todo mundo ficará sabendo e você se torna um pária.
Ela baixa os olhos, em silêncio. Uma atitude submissa me excitaria em outras ocasiões, mas ali me impacienta. Não quero demonstrações públicas, deveria ter sido mais cuidadoso, ouvido o que me aconselhavam: padaria não é açougue; onde se come o pão, não se come a carne. Seus cabelos negros e lisos cobrem seu rosto, uma daquelas meninas fantasmas de filmes de terror daqui. Sua boca se abre, prestes a dizer algo.
Mas não a escuto. A caneca dela cai no chão. Poderia ser um tremor.
Então, em seguida, as janelas se estilhaçam em um enxame de cacos e os biombos caem todos de uma vez. Sou arremessado para dentro do edifício, vejo as placas do teto se desmancharem, se eu estivesse de olhos abertos, poderia me ver flutuando sobre micros, mouses, impressoras e grampeadores. As lâmpadas explodem deixando uma nuvem branca de vidro, documentos e papéis revoam na ventania.
Quando consigo erguer minha cabeça, vejo a criatura cruzando a janela. Os olhos do tamanho de automóveis nos ignoram, como ignoramos as formigas ou as folhas ao caminhar por uma floresta. As pálpebras da criatura piscam, talvez pela sua escala, eles parecem estranhamente lentos. Pode ser assim que as moscas nos vêem: lerdos, pesados, em câmera lenta ou em um reino submerso. Uma ventania ergue uma nuvem de poeira e sulfite. Tenho a curiosidade insana de correr até o que restou da parede para ver a criatura por inteiro, cruzando a avenida, esmigalhando os carros, deixando suas pegadas sobre a faixa de pedestres. Mas ouço um choro abaixo de mim. Eu caí sobre Yuri. Um clipe de papel penetrou superficialmente em seu rosto, feito um piercing mal colocado. Saía um filete de sangue.
-Você está bem?
E ela responde simplesmente, com seus olhos grandes, negros e brilhantes, como se fosse uma Sailor Moon.
-Estou grávida.
*******
(Este conto foi publicado originalmente no Farrazine nº04. Fiz umas alterações nele e o repostei aqui. Clique aqui pra ver o resto do fanzine e demais números.)
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segunda-feira, 9 de março de 2009
achado

a)Filmes
http://www.giantmonstermovies.com/monster-index.html
Um index dos filmes de Monstros Gigantes. Foco em filmes antigos... Resenhas engraçadinhas. Não me parece o mais completo.
http://giantmonstersattack.blogspot.com/
Um blog de um fanático por estes filmes. Me parece muito mais interessante e o autor se preocupa em fuçar e trazer monstrões de outras mídias... Games, gibis, artes plásticas...
Falando em filmes, gostaria apenas de alertar que este texto foi escrito antes do Cloverfield (e antes dos dekasséguis baterem em retirada do Japão). Não que faça grande diferença, mas...
http://www.amandavisell.com/
Site de uma artista norte-americana que faz desenhos de monstros gigantes simpáticos e destruidores em estilo anos 60. Fofo! Me lembrou As Meninas Superpoderosas.
b)Já que falamos de pessoas que - ao longe - parecem formigas, que tal formigas que - de perto - parecem pessoas?

Dêem uma olhada no trabalho acadêmico da USP e vejam o bizarro:
Insetos em presépios e as "formigas vestidas" de Jules Martin (1832-1906)
RESUMO
"Encontrados no Brasil desde os primórdios da colonização portuguesa, os presépios logo tiveram de adaptar-se à realidade local, circunstância muito propícia ao aparecimento de concepções heterodoxas e ao emprego de elementos exóticos da fauna e flora de cada região. Como registros envolvendo insetos são muito pouco comuns, chama a atenção que fêmeas de saúva, (...) tenham sido aproveitadas na composição de presépios no estado de São Paulo. Tendo subsistido pelo menos até a década 1960, os "presépios de formigas" existentes em cidades como Embu das Artes poderiam estar relacionados às "formigas vestidas" criadas por Jules Martin, curiosa manufatura paulistana do último quartel do século XIX."
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sexta-feira, 6 de março de 2009
Telegramas

solve et coagula
solve
Trecho da crítica de Vinicius Jatobá no Estado de São Paulo (01/02/2009): "Aos outros tudo, menos a tolerância"
"(...)A literatura cada vez mais se afasta de um enfrentamento do torto nos termos do torto: narradores são puros, compreensivos, iluminados, generosos e sem preconceitos. Uma neutralidade do olhar narrativo, curiosamente em tempos de distopia e demolição dos projetos políticos, tem levado a literatura para um terreno que sequer ela parece ter consciência que está ocupando: a do porta-voz do bom-mocismo. O núcleo deste conflito literário á a intransigência, e em última instância o próprio preconceito, porque é do choque e tensão entre a incapacidade de se comunicar dos personagens que surgem os grandes abismos e contradições da alma humana.
Narradores que compreendem tudo, capazes de construir seus mundos dando oportunidades iguais a todos, sem jamais emitirem qualquer fala agressiva se aproximam mais de uma suposta missão evangelizadora de elevar a consciência pública do que da própria carnalidade do cotidiano das pessoas, que é a própria matéria da literatura. As vozes dos livros parecem de plástico, mas as pessoas são feitas de carne. É por isto que autores como Roth, Bernhard, Bolaño, Naipaul, Kertész, Lobo Antunes são capazes de cativar tanto o emocional do leitor para além da experiência da própria leitura - seus narradores veem os problemas do mundo, mas nunca se eximem da própria carne da matéria do problema. São, evidentemente, parte do problema. Denunciam o antissemitismo, mas são antissemitas; substituem uma violência pela outra; sentem saudade do poder que detinham; desprezam abertamente outras classe sociais; são mesquinhos e pouco generosos; não possuem paciência com o que veem como fraqueza. Isto não quer dizer que os autores padecem da mesma carne dos narradores que inventam (e não importa); esta construção narrativa apenas indica que o narrador que vê tem um corpo que sabe, mesmo em silêncio, aquilo que a cultura ao seu redor não sabe e não escapa nunca desta cultura porque ninguém escapa da história.(...)"
coagula
Trecho do documentário Mindscape de Alan Moore. Palavras do próprio (segundo tradução pirata):
"Os alquimistas tinham os componentes para sua filosofia. Eram os princípios Solve et Coagula. Solve era basicamente a análise, separar as coisas para ver como funcionavam. Coagula significava síntese, ou seja, colocar todas as peças separadas juntas novamente para que funcionem com mais eficácia. Estes dois princípios podem ser aplicados a praticamente qualquer coisa na cultura. Ultimamente, na literatura, por exemplo, surgiu uma corrente de pós-modernismo, desconstrutivismo. Isto é Solve. Talvez seja tempo nas Artes de um pouco mais de Coagula. Tendo desconstruído tudo, talvez seja hora de começar a pensar em pôr as coisas em seu lugar."
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Vinicius Jatobá
Achado
a)site http://www.sacred-texts.com/index.htm
Propõe-se a ser o maior arquivo online de livros sobre religião, mitologia, folclore e o esotérico na Internet.
b)site http://unurthed.com/
Este site "forneceu" as imagens dos posts de hoje. Segue o perfil do blog definido pelo autor Greg Pass :
"The Unurthed blog is a survey of diagrams, cosmograms, emblems, etchings, sketches, illustrations, yantras, paintings, engravings, photographs, figures, cutouts, seals, depictions, pictures, images, with an eye for that which cannot be diagrammed, cosmogrammed, emblemed, etched, sketched, illustrated, plucked, painted, engraved, photographed, figured out, cut out, sealed, depicted, pictured, imagined."
O blog é uma coletânea de imagens, diagramas, mandalas, gravuras, esquemas, xilogravuras, fotografias... Vale muito uma olhada com mais carinho.

(um diagrama que apresenta as interrelações entre as "Leis da Magia". Maiores informações no site)
c)Para ler resenhas do crítico Vinicius Jatobá, procure nos colunistas do Terra Magazine (link aí na lateral)
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quarta-feira, 4 de março de 2009
corrente

O Carioca estava de cabeça para baixo, dependurado, esticando ao máximo a corrente que prendia seu pé. Me distraíra tratando dos assuntos referentes ao enterro de minha mulher, esquecera do papagaio e de sua gaiola no quintal. Passamos a noite no velório, apesar de parentes insistirem no perigo, não quis sair de perto dela. Chegando em casa, notei o Carioca no mesmo lugar, penando sob o sol de meio-dia.
-Genalva,vem me buscar que eu estou odiando.
O bicho jamais aprendeu meu nome, apenas o de sua dona. Arrastei a gaiola para a sombra.
Do cemitério para casa, meu filho deu uma carona. Não nos falávamos. Já perto de casa, um sinal ficou vermelho e o CD player não cobriu o silêncio. Surgiu então o convite do filho para almoçar. Em seguida, justificou que não poderia acompanhá-lo naquela tarde, a empresa estava na loucura de fechamento. Minha neta também estava atarefada: era fim de ano, época de provas, tinha que estudar. Todos pareciam lamentar muito. Recusei. Para disfarçar e evitar insistências, observei que um pássaro penetrara dentro do poste de sustentação do semáforo fechado adiante de nós. Comentei que eles deveriam fazer ninhos lá no oco, as árvores da cidade acabavam, assim como lugares a salvo de gatos e ratos.
Comi o que encontrei dentro das panelas. Ouvia o Carioca a gritar, Genalva, água, estou sedento, água! Para abafar os pedidos e assobios da ave, liguei o AM nas notícias do dia: calor, viria chuva, etc.
Terminado o almoço, deixei água e bolacha para o bicho. O Carioca afastou-se de mim, desconfiado, suponho. Não sei interpretar os sentimentos das aves, quantas vezes tentei acariciar sua cabeça e recebi bicadas. Ele só aceitava agrados de Genalva. Prefiro os cães, mais transparentes, talvez mais francos.
Deitei-me no sofá. Evitava nossa cama, nosso quarto. Sonhei:
Entrando pelos semáforos, os pássaros descem aos subterrâneos da cidade. Eles se arrastam pelos canos e se reúnem secretamente em uma gruta sob a catedral. Lá, as aves arquitetam seu plano. Uma noite elas sairão pelas torneiras, arrebentarão as duchas dos chuveiros, emergirão das pias e dos vasos sanitários como gaivotas. Invadirão nossos quartos e, enquanto dormimos, penetrarão em nossas narinas, voarão por nossas traquéias, farão seus ninhos e ovos em nossos brônquios. Morreremos então, feito uma esposa que é sufocada pelo travesseiro fofinho do marido.
Acordei assustado, o Carioca bradava lá fora. Levantei-me e percebi, horrorizado, que ele finalmente aprendera meu nome.
-Otelo, não me mata, Otelo, não me mata.
Olhei para os lados antes de esmagá-lo entre meus dedos, imaginava se algum vizinho o escutara.
****
(Escrito para um daqueles concursos da Piauí. Mas, por algum motivo, não consegui enviar.)
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Onirogrito
Football.
Está anotado como 29 de fevereiro de 1992 e foi o segundo sonho daquela noite. No dia anterior, testemunhara o atropelamento de duas pessoas. O acidente mereceria uma descrição melhor, mais elaborada. Mas aqui não é lugar para isto. Basta saber que impressionou-me o bastante a ponto de me provocar este pesadelo. Pode até ser coincidência, mas não acredito.
Estava na casa da praia, madrugada e eu sem sono. Escutei um barulho no quintal. Pela janela da sala, espiei as plantas do nosso jardim mal cuidado, exuberante como mato de beira de estrada e precisando de uma capinada. Localizei o bicho entre as folhas da bananeira, apenas a cabeça era visível. Sabia ser uma espécie maravilhosa de ave carniceira, um cruzamento de urubu-rei e de condor. Era bonito. No relato, escrevi “laranja”: uma de suas cores. Talvez não seja exato, foi anotado às pressas para que não se perdesse. Amarelo-manga me parece hoje ser mais correto.
Saí para o quintal, para o ver de perto. Porém, não encontrei mais a árvore. Retornei para o interior da casa e redescobri a bananeira na sala. Ainda não o enxergava, mas se ouvia o chiado de sua respiração no alto, como criança com o pulmão entupido de catarro. Arrumei um pau e futuquei a folhagem até derrubá-lo feito fruto maduro. O pássaro caiu todo desengonçado.
Não era mais o mesmo animal do início. Este parecia mais um papagaio, pela sua cor verde de coco, daqueles vendidos à beira do mar. Não tinha mais olhos, as asas e os pés foram cortados, estava bastante ferido e me sujou com sangue. Ao tentar se movimentar, parecia um cavalo tentando trotar sem as patas dianteiras. Saiu neste rastejo manco pela porta, deixando um rastro de sangue em seu caminho.
Em um livro, sua história. Era um “football”. Durante a guerra do Vietnã, os soldados norte-americanos tinham o hábito macabro de mutilar papagaios, amputar asas e vazar olhos. Tudo isto deixava o andar do papagaio “engraçado”. No Brasil, a tortura era realizada com urubus. Aquele pássaro fora deixado sobre a planta para viver de coco ou de mamão. Portanto, provavelmente, não era uma bananeira como imaginava. De todo modo, nunca houve bananeiras no quintal de nossa casa de praia.
Perguntei-me se meu pai teria feito isto durante a sua juventude. Senti pena do animal. Considerei matá-lo com o mesmo pau que o revelei. Não pude. Mas precisava expulsá-lo de minha vista, e então passei a empurrá-lo, com repulsa. Ele me sujou mais com aquele sangue, pude ver o corte aberto onde antes estava uma de suas asas, sua pele era um couro grosso. Fui tangendo a coisa, até esta ir para a calçada. Temi que algum vizinho me observasse e me culpasse pelo sofrimento do pássaro. Na realidade, uma mulher me flagrou. Mas não sei o que pensou: ela simplesmente não disse nada.
Continuei afastando-o, espantando-o para longe da frente de minha casa. Em seguida, esperei na frente do portão, temendo seu retorno. Mas um cachorro branco de um dos vizinhos da rua, um pequinês, encontrou o “football”. Cheirou, depois latiu, pastoreando o pássaro até que este fosse para dentro daquela casa.
Nas anotações, não há descrição de alívio. Retornei para o interior de minha casa, mas um policial se interpôs e recomendou “Vá fechar o portão, quer que todos entrem?”. Fiz o que me pedia. Na verdade, um excesso de segurança, pois já havia um outro portão fechado.
E quando me virei, dentro do quintal, em meio àquele mato, dois caiçaras seguravam um urubu azul. Uma lanterna estava focalizada sobre a cabeça da ave para que melhor pudessem furar um de seus olhos. Angustiei-me com a possibilidade de presenciar o restante do cegamento e mutilação, e corri na direção deles. Pensei ter acordado gritando. Mas se gritei, ninguém despertou além de mim.
Está anotado como 29 de fevereiro de 1992 e foi o segundo sonho daquela noite. No dia anterior, testemunhara o atropelamento de duas pessoas. O acidente mereceria uma descrição melhor, mais elaborada. Mas aqui não é lugar para isto. Basta saber que impressionou-me o bastante a ponto de me provocar este pesadelo. Pode até ser coincidência, mas não acredito.
Estava na casa da praia, madrugada e eu sem sono. Escutei um barulho no quintal. Pela janela da sala, espiei as plantas do nosso jardim mal cuidado, exuberante como mato de beira de estrada e precisando de uma capinada. Localizei o bicho entre as folhas da bananeira, apenas a cabeça era visível. Sabia ser uma espécie maravilhosa de ave carniceira, um cruzamento de urubu-rei e de condor. Era bonito. No relato, escrevi “laranja”: uma de suas cores. Talvez não seja exato, foi anotado às pressas para que não se perdesse. Amarelo-manga me parece hoje ser mais correto.
Saí para o quintal, para o ver de perto. Porém, não encontrei mais a árvore. Retornei para o interior da casa e redescobri a bananeira na sala. Ainda não o enxergava, mas se ouvia o chiado de sua respiração no alto, como criança com o pulmão entupido de catarro. Arrumei um pau e futuquei a folhagem até derrubá-lo feito fruto maduro. O pássaro caiu todo desengonçado.
Não era mais o mesmo animal do início. Este parecia mais um papagaio, pela sua cor verde de coco, daqueles vendidos à beira do mar. Não tinha mais olhos, as asas e os pés foram cortados, estava bastante ferido e me sujou com sangue. Ao tentar se movimentar, parecia um cavalo tentando trotar sem as patas dianteiras. Saiu neste rastejo manco pela porta, deixando um rastro de sangue em seu caminho.
Em um livro, sua história. Era um “football”. Durante a guerra do Vietnã, os soldados norte-americanos tinham o hábito macabro de mutilar papagaios, amputar asas e vazar olhos. Tudo isto deixava o andar do papagaio “engraçado”. No Brasil, a tortura era realizada com urubus. Aquele pássaro fora deixado sobre a planta para viver de coco ou de mamão. Portanto, provavelmente, não era uma bananeira como imaginava. De todo modo, nunca houve bananeiras no quintal de nossa casa de praia.
Perguntei-me se meu pai teria feito isto durante a sua juventude. Senti pena do animal. Considerei matá-lo com o mesmo pau que o revelei. Não pude. Mas precisava expulsá-lo de minha vista, e então passei a empurrá-lo, com repulsa. Ele me sujou mais com aquele sangue, pude ver o corte aberto onde antes estava uma de suas asas, sua pele era um couro grosso. Fui tangendo a coisa, até esta ir para a calçada. Temi que algum vizinho me observasse e me culpasse pelo sofrimento do pássaro. Na realidade, uma mulher me flagrou. Mas não sei o que pensou: ela simplesmente não disse nada.
Continuei afastando-o, espantando-o para longe da frente de minha casa. Em seguida, esperei na frente do portão, temendo seu retorno. Mas um cachorro branco de um dos vizinhos da rua, um pequinês, encontrou o “football”. Cheirou, depois latiu, pastoreando o pássaro até que este fosse para dentro daquela casa.
Nas anotações, não há descrição de alívio. Retornei para o interior de minha casa, mas um policial se interpôs e recomendou “Vá fechar o portão, quer que todos entrem?”. Fiz o que me pedia. Na verdade, um excesso de segurança, pois já havia um outro portão fechado.
E quando me virei, dentro do quintal, em meio àquele mato, dois caiçaras seguravam um urubu azul. Uma lanterna estava focalizada sobre a cabeça da ave para que melhor pudessem furar um de seus olhos. Angustiei-me com a possibilidade de presenciar o restante do cegamento e mutilação, e corri na direção deles. Pensei ter acordado gritando. Mas se gritei, ninguém despertou além de mim.
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Muitos anos depois, conheci - através de um documentário na TV - o Kea, uma espécie bastante incomum de papagaio, uma das muitas espécies de psitacídeos exclusivas da Nova Zelândia. Não é o maior dos papagaios, mas é o único de habitat montanhês. Acusa-se o Nestor Notabilis de matar ovelhas. Em filmagens noturnas, observou-se o pássaro sobre o lombo destes animais. Ele usaria seu longo bico curvo, como uma foice de obsidiana, para perfurar e sorver a gordura dos rins das ovelhas. Presume-se que este hábito tenha se desenvolvido desde a época em que havia moas, uma gigantesca ave não voadora de quase três metros. Os keas teriam se adaptado e alterado seu cardápio para as doces ovelhas trazidas pelos europeus. São uma das aves mais inteligentes. Talvez seja um dos poucos animais (como, por exemplo, chipanzés e golfinhos) dotados de auto-consciência: o teste mais conhecido capaz de identificar esta faculdade seria o de se reconhecer em frente a um espelho, e não achar que é um outro bicho. Realmente, o comportamento destruidor desta espécie de papagaio, arrebentando antenas e borrachas de automóveis e jogando estalactites de gelo sobre turistas, recordava o tipo de travessura de um macaco, arremessando sua merda contra os visitantes do zoológico.
O aspecto pesado, robusto, me lembrava o “football” mutilado de meu pesadelo descrito no Onirogrito. Fora isto, não sei se há outra relação.
***
http://www.papagaiosecia.com.br/
(um blog de fãs e criadores de papagaios. Não sei se é o melhor, mas foi um dos primeiros que apareceu... Pouco atualizado)
* * *
Preciso também comentar que as informações do Wikipedia não são confiáveis no que se refere às aves. Os administradores "lusófonos" da Wikipedia usam uma classificação incomum e pouco aceita no restante do mundo, inclusive Brasil. Além disso, há informações estranhas: até que ponto é relevante saber que papagaios vivem até 100 anos? Será que o albatroz é uma ave voadora maior que o condor andino?
(Evidentemente, posso estar enganado e me retratarei se for o caso. Afinal, não sou especialista...)
Aliás, é conveniente sublinhar que ainda não encontrei um site decente sobre zoologia.
sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009
Telegramas

“EL CONOCIMENTO
Estaba en un desierto. Miró a la derecha y un árbol surgió a su izquierda. Giró la cabeza hacia la izquierda; el arbol desapareció para crecer a su derecha. Ojeó hacia atrás, el árbol apareció delante. Atisbó hacia delante, el árbol brotó atrás. Cerro los ojos para ver si lo llevaba dentro. Se convirtió en ese árbol.”
Alejandro Jorodowsky
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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
Zerografia

19 de janeiro
Em 19 de janeiro de 1981, Estados Unidos e Irã assinaram acordo para a libertação de 52 norte-americanos mantidos como reféns por mais de 14 meses. Em 19 de janeiro de 1910, um incêndio destruiu o palácio de Cheregan, em Constantinopla, sede do Parlamento turco. Em 19 de janeiro de 1982, morreu Elis Regina, em São Paulo, por intoxicação exógena aguda. Em 19 de janeiro de 379, Teodósio I tornou-se o imperador do Império Bizantino. Em 19 de janeiro de 1961, inaugurou-se a Rodovia Presidente Dutra. Em 19 de janeiro de 2004, foi lançado o Orkut. Em 19 de janeiro de 1794, os ingleses desembaracaram na Córsega, cuja bandeira é a de um negro com uma bandana na cabeça. Em 19 de janeiro de 1809, nascia em Boston, Estados Unidos, pesando 2.670 gramas e medindo 40 cm, Edgar Allan Poe. Coincidência ou não, 40 anos depois, em 03 de outubro de 1849, foi encontrado nas ruas de Baltimore, com roupas que não eram as suas, cego de um olho e em estado de delirium tremens. Faleceu quatro dias depois, sem jamais explicar de forma coerente o que lhe acontecera. Suas últimas palavras, segundo o Wikipedia, foram: "Está tudo acabado: escrevam Eddy já não existe». Após seu falecimento, de acordo com o relatório médico do Washington College Hospital, transformou-se em Corvo e saiu voando pela janela pra combater a injustiça e provocar a morte de Brandon Lee mais de um século depois, em um acidente misterioso e estúpido.
(Desenho surrupiado do Corvo é do Rafael Grampá: visite seu blogue http://furrywater.wordpress.com/ e compre Mesmo Delivery, da editora Desiderata. Aquilo que é "verídico" extraído da Wikipedia: foi meio por acaso, pois assim surgiram estas linhas)
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http://www.poebrasil.com/subpaginas/artigo1.htm
É notícia antiga e de única fonte, mas parece fidedigna, já que o autor se preocupou em colocar todas as referências encontradas na Internet sobre o assunto.
Vou colocar sinopse apenas para apimentar a curiosidade:
Edgar Allan Poe era fã de criptogramas e publicou diversos problemas e artigos sobre o assunto em jornais da época.
Ele chegou a receber centenas de criptogramas misteriosos de seus fiéis leitores, a maioria solucionada por Poe. Mas dois deles eram muito complexos e o escritor divulgou a seus leitores de um jornal, afirmando não ter tempo para decifrá-los e jogando a bola para quem quisesse resolver o problema.
Estas cartas estranhas, que estudiosos acreditam terem sido escritas pelo próprio Poe, só foram decifradas recentemente, mais de 150 anos de sua publicação.
* * * *
Agradeço publicamente ao Bruno Cobbi pelo seu tutorial chuchubeleza para que ineptos como eu consigam fazer seu blog... Segue link, antes que me esqueça: http://aprendizdeescritor.com.br/grsb1/
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segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009
Achado

Muitos anos atrás, li um conto de Borges chamado o Livro de Areia.
Se você não o leu, bem sinto muito, mas vou estragar um pouco sua surpresa: o tal Livro de Areia é um objeto mágico ao estilo do Aleph, um livro maravilhoso/fantástico cujo conteúdo se altera, à medida que viramos suas páginas. O narrador, que se não me engano era o próprio Borges, sente-se consternado pelo livro... Já que ele perde uma de suas principais qualidades, que seria a permanência.
E pelo menos mais de uma pessoa já comparou a própria Internet com este Livro de Areia... Com seu conteúdo volátil, às vezes sofrendo a influência de modismos, escrito por pessoas que não sabem o que estão escrevendo e lido por pessoas que não tem a menor idéia do que estão lendo...
Às vezes, me sinto lendo uma enciclopédia ou dicionário. Ao procurar por aquela palavra específica, você acaba esbarrando em outras tão diferentes quanto estas... Você corre ao dicionário para aprender sobre algo que você sabe ignorar e encontra algo que nem sabia que ignorava...
Foi assim que descobri o blog português "O Belogue". Navegava pela Internet (leia-se google), pesquisando algo referente a Arte e depois que encontrei seu blog, acabei esquecendo porque ou para que fazia a tal pesquisa.
O blog é muitíssimo bem escrito e bastante competente nas suas pesquisas de história da arte e com suas muito perspicazes comparações entre telas... Altamente recomendável e vale uma fuçada por seus posts antigos... É elegante, uma qualidade meio esquecida nestes nossos tempos de funk carioca e motherfuckers... É elegante mesmo quando fala de escatologia...
Aproveito aqui para agradecer ao autor/autora (Ainda não descobri, mas quando descobrir, aviso) pela inspiração pelo formato de meu blog...
Esqueci algo? O link: http://obelogue.blogspot.com/
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Treva
Precisaram matar seus pais para que lutasse por justiça.
****
(Bolado durante micro-oficina de um dia do Marcelino Freire... E agora poderia ser... precisou morrer para receber o Oscar)
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domingo, 22 de fevereiro de 2009
zapping

zapping
Uma mulher cujo rosto e voz estão digitalmente encobertos confessa: já fez sete abortos. Melhor assim, eu acho: não gostaria desta mulher como mãe. Uma criança desapareceu e nunca mais foi vista. Sua foto mostra um rosto sorridente. Os pais, óbvio, desesperados. Entretanto, a narração descreve indícios e suspeitas. O que será pior? Perder a filha, matá-la, ser acusado injustamente de esconder seu corpo ou saber que qualquer uma das possibilidades pode ser real? Um asiático de camisa de botão xadrez mostra o coto da perna, as cicatrizes em um desenho menos coerente que o da camisa. Ele chora, não entendemos o que ele diz, não há legendas. Um crocodilo doente arranca o braço de um funcionário do zoológico. Para recuperar o membro, só tem um jeito: matam o bicho. Outra explosão, pela cor ocre de tudo, pelos homens barbados, pelas mulheres de véu, deve ser um daqueles lugares no oriente. Livros sobre o assunto estão entre os mais vendidos, eu mesmo tenho um marcador de livro, o nome do livro promovido em fontes inclinadas que lembram a escrita árabe. A foto do deserto ao fundo tem cor de pele. É bonito. Troco quando vejo um bombeiro carregando uma criança coberta de sangue e detritos. Uma menininha loira aparece então, ela tem o rosto sério, os olhos grandes, pupilas pequenas. Conversa no sofá com a Morte que parece simpática perto dela. Troco de novo. Um carro blindado avança em uma rua estreita. A face das pessoas é familiar, poderiam ser meus porteiros, meus vizinhos, gente que cruzo na igreja, no açougue, na calçada. Uma senhora faz o sinal da cruz. O homem que fez as imagens também sente medo, a câmera treme, os ângulos são vertiginosos. Parece quase um vídeo clipe. Saio de lá e vejo pessoas felizes e dançando, sorrisos perfeitos, homens lindos, mulheres maravilhosas. Há muita água e pessoas brancas: vendem alguma pasta de dente.
Chega, desligo o aparelho e me espreguiço com força. Levanto-me do sofá e saio da sala. O corredor está escuro, sinto uma presença. Acendo a luz, descubro um homem com presas. Mas não tenho medo de vampiros. Coisas tão boas assim não existem.
* * * * *
(este foi - basicamente - meu conto publicado na antologia da Andross, O Livro Negro dos Vampiros, organizada por Cláudio Brites e prefaciada por Kizzy Ysatis. Posteriormente, "post"arei outros na mesma linha.)
sábado, 21 de fevereiro de 2009
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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009
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