quarta-feira, 4 de março de 2009

Achado





Muitos anos depois, conheci - através de um documentário na TV - o Kea, uma espécie bastante incomum de papagaio, uma das muitas espécies de psitacídeos exclusivas da Nova Zelândia. Não é o maior dos papagaios, mas é o único de habitat montanhês. Acusa-se o Nestor Notabilis de matar ovelhas. Em filmagens noturnas, observou-se o pássaro sobre o lombo destes animais. Ele usaria seu longo bico curvo, como uma foice de obsidiana, para perfurar e sorver a gordura dos rins das ovelhas. Presume-se que este hábito tenha se desenvolvido desde a época em que havia moas, uma gigantesca ave não voadora de quase três metros. Os keas teriam se adaptado e alterado seu cardápio para as doces ovelhas trazidas pelos europeus. São uma das aves mais inteligentes. Talvez seja um dos poucos animais (como, por exemplo, chipanzés e golfinhos) dotados de auto-consciência: o teste mais conhecido capaz de identificar esta faculdade seria o de se reconhecer em frente a um espelho, e não achar que é um outro bicho. Realmente, o comportamento destruidor desta espécie de papagaio, arrebentando antenas e borrachas de automóveis e jogando estalactites de gelo sobre turistas, recordava o tipo de travessura de um macaco, arremessando sua merda contra os visitantes do zoológico.

O aspecto pesado, robusto, me lembrava o “football” mutilado de meu pesadelo descrito no Onirogrito. Fora isto, não sei se há outra relação.




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http://www.papagaiosecia.com.br/
(um blog de fãs e criadores de papagaios. Não sei se é o melhor, mas foi um dos primeiros que apareceu... Pouco atualizado)

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Preciso também comentar que as informações do Wikipedia não são confiáveis no que se refere às aves. Os administradores "lusófonos" da Wikipedia usam uma classificação incomum e pouco aceita no restante do mundo, inclusive Brasil. Além disso, há informações estranhas: até que ponto é relevante saber que papagaios vivem até 100 anos? Será que o albatroz é uma ave voadora maior que o condor andino?

(Evidentemente, posso estar enganado e me retratarei se for o caso. Afinal, não sou especialista...)

Aliás, é conveniente sublinhar que ainda não encontrei um site decente sobre zoologia.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Telegramas


EL CONOCIMENTO




Estaba en un desierto. Miró a la derecha y un árbol surgió a su izquierda. Giró la cabeza hacia la izquierda; el arbol desapareció para crecer a su derecha. Ojeó hacia atrás, el árbol apareció delante. Atisbó hacia delante, el árbol brotó atrás. Cerro los ojos para ver si lo llevaba dentro. Se convirtió en ese árbol.”

Alejandro Jorodowsky

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009

Zerografia



19 de janeiro

Em 19 de janeiro de 1981, Estados Unidos e Irã assinaram acordo para a libertação de 52 norte-americanos mantidos como reféns por mais de 14 meses. Em 19 de janeiro de 1910, um incêndio destruiu o palácio de Cheregan, em Constantinopla, sede do Parlamento turco. Em 19 de janeiro de 1982, morreu Elis Regina, em São Paulo, por intoxicação exógena aguda. Em 19 de janeiro de 379, Teodósio I tornou-se o imperador do Império Bizantino. Em 19 de janeiro de 1961, inaugurou-se a Rodovia Presidente Dutra. Em 19 de janeiro de 2004, foi lançado o Orkut. Em 19 de janeiro de 1794, os ingleses desembaracaram na Córsega, cuja bandeira é a de um negro com uma bandana na cabeça. Em 19 de janeiro de 1809, nascia em Boston, Estados Unidos, pesando 2.670 gramas e medindo 40 cm, Edgar Allan Poe. Coincidência ou não, 40 anos depois, em 03 de outubro de 1849, foi encontrado nas ruas de Baltimore, com roupas que não eram as suas, cego de um olho e em estado de delirium tremens. Faleceu quatro dias depois, sem jamais explicar de forma coerente o que lhe acontecera. Suas últimas palavras, segundo o Wikipedia, foram: "Está tudo acabado: escrevam Eddy já não existe». Após seu falecimento, de acordo com o relatório médico do Washington College Hospital, transformou-se em Corvo e saiu voando pela janela pra combater a injustiça e provocar a morte de Brandon Lee mais de um século depois, em um acidente misterioso e estúpido.










(Desenho surrupiado do Corvo é do Rafael Grampá: visite seu blogue http://furrywater.wordpress.com/ e compre Mesmo Delivery, da editora Desiderata. Aquilo que é "verídico" extraído da Wikipedia: foi meio por acaso, pois assim surgiram estas linhas)

Achado


http://www.poebrasil.com/subpaginas/artigo1.htm



É notícia antiga e de única fonte, mas parece fidedigna, já que o autor se preocupou em colocar todas as referências encontradas na Internet sobre o assunto.

Vou colocar sinopse apenas para apimentar a curiosidade:
Edgar Allan Poe era fã de criptogramas e publicou diversos problemas e artigos sobre o assunto em jornais da época.

Ele chegou a receber centenas de criptogramas misteriosos de seus fiéis leitores, a maioria solucionada por Poe. Mas dois deles eram muito complexos e o escritor divulgou a seus leitores de um jornal, afirmando não ter tempo para decifrá-los e jogando a bola para quem quisesse resolver o problema.

Estas cartas estranhas, que estudiosos acreditam terem sido escritas pelo próprio Poe, só foram decifradas recentemente, mais de 150 anos de sua publicação.



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Agradeço publicamente ao Bruno Cobbi pelo seu tutorial chuchubeleza para que ineptos como eu consigam fazer seu blog... Segue link, antes que me esqueça: http://aprendizdeescritor.com.br/grsb1/

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Achado





Muitos anos atrás, li um conto de Borges chamado o Livro de Areia.

Se você não o leu, bem sinto muito, mas vou estragar um pouco sua surpresa: o tal Livro de Areia é um objeto mágico ao estilo do Aleph, um livro maravilhoso/fantástico cujo conteúdo se altera, à medida que viramos suas páginas. O narrador, que se não me engano era o próprio Borges, sente-se consternado pelo livro... Já que ele perde uma de suas principais qualidades, que seria a permanência.

E pelo menos mais de uma pessoa já comparou a própria Internet com este Livro de Areia... Com seu conteúdo volátil, às vezes sofrendo a influência de modismos, escrito por pessoas que não sabem o que estão escrevendo e lido por pessoas que não tem a menor idéia do que estão lendo...

Às vezes, me sinto lendo uma enciclopédia ou dicionário. Ao procurar por aquela palavra específica, você acaba esbarrando em outras tão diferentes quanto estas... Você corre ao dicionário para aprender sobre algo que você sabe ignorar e encontra algo que nem sabia que ignorava...

Foi assim que descobri o blog português "O Belogue". Navegava pela Internet (leia-se google), pesquisando algo referente a Arte e depois que encontrei seu blog, acabei esquecendo porque ou para que fazia a tal pesquisa.

O blog é muitíssimo bem escrito e bastante competente nas suas pesquisas de história da arte e com suas muito perspicazes comparações entre telas... Altamente recomendável e vale uma fuçada por seus posts antigos... É elegante, uma qualidade meio esquecida nestes nossos tempos de funk carioca e motherfuckers... É elegante mesmo quando fala de escatologia...

Aproveito aqui para agradecer ao autor/autora (Ainda não descobri, mas quando descobrir, aviso) pela inspiração pelo formato de meu blog...

Esqueci algo? O link: http://obelogue.blogspot.com/

Telegramas


Treva

Precisaram matar seus pais para que lutasse por justiça.





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(Bolado durante micro-oficina de um dia do Marcelino Freire... E agora poderia ser... precisou morrer para receber o Oscar)

domingo, 22 de fevereiro de 2009

zapping





zapping

Uma mulher cujo rosto e voz estão digitalmente encobertos confessa: já fez sete abortos. Melhor assim, eu acho: não gostaria desta mulher como mãe. Uma criança desapareceu e nunca mais foi vista. Sua foto mostra um rosto sorridente. Os pais, óbvio, desesperados. Entretanto, a narração descreve indícios e suspeitas. O que será pior? Perder a filha, matá-la, ser acusado injustamente de esconder seu corpo ou saber que qualquer uma das possibilidades pode ser real? Um asiático de camisa de botão xadrez mostra o coto da perna, as cicatrizes em um desenho menos coerente que o da camisa. Ele chora, não entendemos o que ele diz, não há legendas. Um crocodilo doente arranca o braço de um funcionário do zoológico. Para recuperar o membro, só tem um jeito: matam o bicho. Outra explosão, pela cor ocre de tudo, pelos homens barbados, pelas mulheres de véu, deve ser um daqueles lugares no oriente. Livros sobre o assunto estão entre os mais vendidos, eu mesmo tenho um marcador de livro, o nome do livro promovido em fontes inclinadas que lembram a escrita árabe. A foto do deserto ao fundo tem cor de pele. É bonito. Troco quando vejo um bombeiro carregando uma criança coberta de sangue e detritos. Uma menininha loira aparece então, ela tem o rosto sério, os olhos grandes, pupilas pequenas. Conversa no sofá com a Morte que parece simpática perto dela. Troco de novo. Um carro blindado avança em uma rua estreita. A face das pessoas é familiar, poderiam ser meus porteiros, meus vizinhos, gente que cruzo na igreja, no açougue, na calçada. Uma senhora faz o sinal da cruz. O homem que fez as imagens também sente medo, a câmera treme, os ângulos são vertiginosos. Parece quase um vídeo clipe. Saio de lá e vejo pessoas felizes e dançando, sorrisos perfeitos, homens lindos, mulheres maravilhosas. Há muita água e pessoas brancas: vendem alguma pasta de dente.

Chega, desligo o aparelho e me espreguiço com força. Levanto-me do sofá e saio da sala. O corredor está escuro, sinto uma presença. Acendo a luz, descubro um homem com presas. Mas não tenho medo de vampiros. Coisas tão boas assim não existem.




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(este foi - basicamente - meu conto publicado na antologia da Andross, O Livro Negro dos Vampiros, organizada por Cláudio Brites e prefaciada por Kizzy Ysatis. Posteriormente, "post"arei outros na mesma linha.)

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Telegramas





"Ignorância é o que todo mundo tem na mesma proporção, só que em outra coisa"

Millôr Fernandes

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009