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quinta-feira, 4 de junho de 2009

pequeno infinito




Sei que é uma forma bastante subjetiva de enxergar, mas qualquer coisa acima do que se possa contar já é um infinito. Portanto, para mim, que nunca consegui contar até 1000, 1000 é um infinito. Quando criança, me pediam para ir até cem, antes de começar a procurar os outros no esconde-esconde. Eu acelerava cada vez mais a contagem, enquanto escutava as risadinhas e os gemidos nas minhas costas, alguém reclamava e mandava que eu gritasse os números mais alto e eu gritava a sequência numérica, os olhos abertos fitando os braços, na esperança de pegar alguma sombra que revelasse os movimentos. Adrenalina no sangue, gritava Lá vou eu! Um dia, minha mãe me chamou antes de terminar a contagem. Já era noite, cheiro da janta no ar. Fui embora, não os avisei que a brincadeira terminara. Durante a madrugada, os pais bateram à porta de casa. Eram as mães preocupadas com os filhos que não voltaram para casa. Os dias passaram e eles nunca reapareceram. Acharam que era culpa minha e fico pensando se não foi. Tenho medo de um dia olhar debaixo da cama e encontrar um deles, preservado, ainda criança. Talvez isto ainda aconteça. Acho que eles estão lá escondidos, no infinito.

















domingo, 22 de fevereiro de 2009

zapping





zapping

Uma mulher cujo rosto e voz estão digitalmente encobertos confessa: já fez sete abortos. Melhor assim, eu acho: não gostaria desta mulher como mãe. Uma criança desapareceu e nunca mais foi vista. Sua foto mostra um rosto sorridente. Os pais, óbvio, desesperados. Entretanto, a narração descreve indícios e suspeitas. O que será pior? Perder a filha, matá-la, ser acusado injustamente de esconder seu corpo ou saber que qualquer uma das possibilidades pode ser real? Um asiático de camisa de botão xadrez mostra o coto da perna, as cicatrizes em um desenho menos coerente que o da camisa. Ele chora, não entendemos o que ele diz, não há legendas. Um crocodilo doente arranca o braço de um funcionário do zoológico. Para recuperar o membro, só tem um jeito: matam o bicho. Outra explosão, pela cor ocre de tudo, pelos homens barbados, pelas mulheres de véu, deve ser um daqueles lugares no oriente. Livros sobre o assunto estão entre os mais vendidos, eu mesmo tenho um marcador de livro, o nome do livro promovido em fontes inclinadas que lembram a escrita árabe. A foto do deserto ao fundo tem cor de pele. É bonito. Troco quando vejo um bombeiro carregando uma criança coberta de sangue e detritos. Uma menininha loira aparece então, ela tem o rosto sério, os olhos grandes, pupilas pequenas. Conversa no sofá com a Morte que parece simpática perto dela. Troco de novo. Um carro blindado avança em uma rua estreita. A face das pessoas é familiar, poderiam ser meus porteiros, meus vizinhos, gente que cruzo na igreja, no açougue, na calçada. Uma senhora faz o sinal da cruz. O homem que fez as imagens também sente medo, a câmera treme, os ângulos são vertiginosos. Parece quase um vídeo clipe. Saio de lá e vejo pessoas felizes e dançando, sorrisos perfeitos, homens lindos, mulheres maravilhosas. Há muita água e pessoas brancas: vendem alguma pasta de dente.

Chega, desligo o aparelho e me espreguiço com força. Levanto-me do sofá e saio da sala. O corredor está escuro, sinto uma presença. Acendo a luz, descubro um homem com presas. Mas não tenho medo de vampiros. Coisas tão boas assim não existem.




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(este foi - basicamente - meu conto publicado na antologia da Andross, O Livro Negro dos Vampiros, organizada por Cláudio Brites e prefaciada por Kizzy Ysatis. Posteriormente, "post"arei outros na mesma linha.)