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quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Telegrama



Logococa, a heráldica do pó



Roberto Saviano em ZeroZeroZero (Cia das Letras):


“Parece paradoxal, mas mesmo a mercadoria mais clandestina não pode deixar de ter sua marca própria. O branding tem origem nos animais marcados a fogo para diferenciá-los dos animais de outros rebanhos. Da mesma forma, os tijolos de cocaína são marcados para certificar sua origem, mas também para selecionar cada lote para o comprador certo quando os grandes brokers organizam megaexpedições endereçadas a diversos destinatários. A logomarca para a cocaína é, em primeiro lugar, símbolo de qualidade. Não se trata de um slogan publicitário vazio, mas de uma função fundamental: a marca garante a integridade de cada tijolo e com ela os narcotraficantes garantem exportar exclusivamente substâncias tratadas com pureza. O bom nome do cartel é prioritário. Parece muito mais importante do que o risco de ser facilmente rastreado quando a carga acaba em mãos erradas, risco de empreendimento como qualquer outro. Além do mais, não é casual que os traficantes escolham com frequência símbolos das marcas mais procuradas e conhecidas. Sua mercadoria anônima, no fundo, é o produto de consumo voluptuoso por excelência; e seu valor se equipara à soma de todos os brands que as pessoas do mundo inteiro compram ou sonham em comprar.
(...)
As logomarcas começaram a entrar em uso nos anos 1970, por iniciativa de um grande traficante peruano; difundiram-se na década seguinte por obra dos cartéis colombianos e mexicanos. E depois cresceram, continuando a se multiplicar desenfreadamente, junto com o consumo do pó branco. Uma contagem recente, encomendada pela União Europeia em 2005, apresentou uma variedade de 2200 marcas. Há quem se contente com sóbrias letras de empresa, quem preste homenagem a seu time de futebol, quem prefira animais ou flores, quem goste de símbolos esotéricos ou geométricos, quem use marcas de automóveis de luxo e até quem brinque com personagens de desenhos animados. Impossível enumerar todas.
(...)
Mas, no fundo, quase todos os símbolos escolhidos pelos traficantes, dos ideogramas orientais aos desenhos animados, hoje estão marcados na pele das pessoas. Os narcos escolhem se comunicar através da linguagem universal da cultura pop contemporânea, da qual a mercadoria deles faz parte integrante, tanto quanto as marcas das quais se apropriam. Mas evitam a recorrer a seus símbolos mais típicos, por exemplo, caveira, cruzes ou imagens da Santa Muerte, com que os membros dos cartéis mexicanos ou, ainda mais, das Maras centro-americanas costumam se tatuar. O culto é uma coisa interna, a marca é outra. Os próprios cartéis também fazem uso interno das logomarcas célebres, imprimindo-as nos carros dos afilhados, nas camisetas, bonés e chaveiros. Os Zetas hoje se identificam com o cavalinho da Ferrari, o cartel do Golfo com o cervo da John Deere, grande produtora de tratores em nível mundial. São adesivos ou gadgets que se encontram facilmente e não são vistosos. Marcas muito conhecidas se transformam, assim, em distintivos militares secretos.”





(imagem Cocaine Drawings, Hélio Oiticica)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Telegramas

A honra cria as artes





Eu tenho por bem que coisas tão assinaladas, e porventura nunca ouvidas nem vistas, cheguem ao conhecimento de muitos e não se enterrem na sepultura do esquecimento, pois pode ser que alguém que as leia nelas encontre algo que lhe agrade, e àqueles que não se aprofundarem muito, que os deleite. A esse propósito diz Plínio que não há livro, por pior que seja, que não tenha alguma coisa boa. Principalmente porque os gostos são variados e o que um não come, os outros se matam por comer. Assim vemos coisas que, menosprezadas por alguns, por outros não o são. Por isso, nenhuma coisa deveria ser destruída ou desprezada, a menos que fosse muito detestável; antes, que chegasse ao conhecimento de todos, principalmente sendo sem prejuízo e podendo-se dela tirar algum proveito. Porque, se assim não fosse, muito poucos escreveriam para um só, pois isso não se faz sem trabalho, e, já que o têm, querem ser recompensados, não com dinheiro, mas com que vejam e leiam suas obras e, se forem merecedoras, que sejam elogiadas. A esse propósito, diz Túlio: “A honra cria as artes”.



Pensará alguém que o soldado, que é o primeiro na escala, tem a vida mais maçante? É certo que não; mas o desejo de ser louvado o faz lançar-se ao perigo. Nas artes e nas letras acontece a mesma coisa. Predica muito bem o prelado e é homem que deseja ardentemente o proveito das almas, mas perguntem a sua mercê se lhe pesa quando lhe dizem: “Oh, quão maravilhosamente pregou Vossa Reverência!”. Lutou muito mal o senhor dom Fulano e deu o gibão da batalha ao truão porque este o louvava por ter dado muito boas lançadas. Que teria feito, se fosse verdade?



E tanto vai a coisa dessa forma, que, confessando que não sou mais santo que meus vizinhos, desta nonada, que neste grosseiro estilo escrevo, que não me pesa que tomem parte e com isto se divirtam aqueles que nela algum prazer encontrarem, e vejam como vive um homem com tantas desgraças, perigos e adversidades.


"Prólogo" de Lazarilho de Tormes, autor anônimo, 1554.

Imagem: La Fabula, de El Greco.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Telegramas






"Pode-se dizer que a vida adulta é definida por duas grandes histórias de amor. A primeira - a da busca por amor sexual - é bem conhecida e bem representada, suas peculiaridades formam a matéria-prima da música e da literatura, ela é socialmente aceita e celebrada. A segunda - a história da nossa busca do amor do mundo - é mais secreta e infame. Se mencionada, tende a ser em termos cáusticos, debochados, como algo que interessa principalmente a almas invejosas ou imperfeitas, ou então o impulso por status é interpretado somente no sentido econômico. No entanto, a segunda história do amor não é menos intensa que a primeira nem menos complicada, importante ou universal, e seus reveses não são menos dolorosos. Aqui também há desilusão, sugerida pelos olhares distantes e resignados de muitos daqueles que o mundo elegeu para desprezar por serem ninguém"


Alain de Botton, Desejo de Status.



(Foto via Rich Kids of Instagram)